Por uma revolução silenciosa, entre plantas e galinhas

A história não é apenas essa dos feitos heroicos, apesar de que, geralmente, é narrada a partir deles. São os vencedores que contam a história oficial, enquanto que a vida do comum dos mortais fica no anonimato e no esquecimento.

Porém, como falava o poeta Ferreira Gullar.

“A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalha e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais, entre plantas e galinhas; nas ruas de subúrbio, nas casas de jogo, nos prostíbulos, nos colégios, nas ruínas, nos namoros de esquina. Disso quis eu fazer a minha poesia, dessa vida obscura e injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta consigo as pessoas e as coisas que não têm voz”.

Cantar e contar o cotidiano das pessoas e das coisas que não têm voz, diz o poeta. E, eu, cá nesse cantinho de escrevinhador, abarrancado nesse Arruadinho do Engenho Velho, vendo as pequeninas aves que circulam com liberdade por esse caminho colonial, vou registrando, nessas crônicas de diletante, “essa vida obscura e injustiçada” dos moradores dessa insólita comunidade, encravada no campus de uma universidade pública. E eis que chega o mês de abril, o da festa da pitomba, da celebração das batalhas contra os holandeses. Guararapes, para quem não sabe, foi tramada nessas terras do Engenho do Meio.

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Sempre que penso nas batalhas dos Guararapes, urdidas aqui nesses engenhos da Várzea, percebo a razão de o Arraial Novo do Bom Jesus, fortificação erguida para proteger os conspiradores, ficar a meia légua da sede deste Engenho do Meio, onde morava a família do mestre de campo João Fernandes Vieira. Não é difícil imaginar o vai e vem dos combatentes, na logística das guerras antigas, por esse velho caminho colonial, que interligava os engenhos ao quartel general dos nossos terços de infantaria.

Contudo, o que mais me interessa é o cotidiano do engenho durante as batalhas. Não apenas as batalhas. Pois de que serviam as batalhas se não para proteger as famílias dos combatentes e suas propriedades, inclusos os homens escravizados, sua lavoura, seus canaviais, de onde se tirava o melhor açúcar do mundo?

Caminho entre a sede do Engenho e o Forte Novo do Bom Jesus

A colheita, a moenda, a produção do açúcar, eram entremeadas com a vida atribulada dos que seguiam para a batalha. Mas, o engenho moía, a almanjarra era arrastada pela parelha de bois, girando feito um relógio rudimentar, num mundo antigo e lento. As mulheres e as crianças viviam a vida monótona e trivial dos vilarejos agrícolas de então, mesmo sob a ameaça da guerra próxima, mesmo com a notícia dos combates dos terços que avançavam sobre o inimigo, saindo do Forte Novo e atravessando os pântanos, para emboscar os batavos, nos outeiros dos Guararapes.

Penso nisso, e imagino as batalhas que hoje travamos com inimigos internos, esse terríveis dilapidadores da nação. Escuto o vozear barulhento das ocupações, dos bloqueios nas estradas, o brado dos que intentam lutar com o flanco aberto, em temerária oposição às forças que hoje nos invadem.

Compreendo as investidas espetaculares dos que fazem o barulho da história. Eles, com certeza, estão na frente de batalha e serão os heróis de um improvável amanhã.

Porém, quem ficará nos campos, nas vilas, nos lugarejos, a engendrar a revolução silenciosa, aquela que não faz barulho na história, mas, que internaliza valores verdadeiramente humanos? Quem ficará na retaguarda, enquanto os combatentes estão no front? Quem cuidará das curumins na aldeia, dos petizes nos povoados, enquanto os guerreiros enfrentam os novos e poderosos invasores?

E surge a pergunta: como alcançar o poder, sem mudar, verdadeiramente, a mentalidade da nação?

Já não tenho a juventude de outros tempos. De virar a noite chuvosa, em piquetes para fechar bancos e fábricas. E nem acredito mais, depois das coalizões feitas às escondidas, nas lideranças que ora mobilizam os militantes. Sei que é necessário lutar, combater, resistir… mas, repito a pergunta feita acima: sem mudar, verdadeiramente, a mentalidade da nação, de que adianta chegarmos ao poder?

E fico aqui, entre plantas e galináceos, a lavrar a terra fértil, numa lavoura perene, fazendo a revolução que me cabe, a das sementes de uma nova juventude. É essa a minha humilde p/arte. Sem holofotes, sem megafones, sem discursos midiáticos de inflados egos. Aqui, faz escuro, mas eu canto, nesse pequeno recanto, afastado de toda a vaidosa gritaria, dos que se acham detentores da verdade única, da certeza infalível, dos que se pretendem intelectuais de vanguarda, os gramscianos, ditos orgânicos, que se digladiam por cargos partidários, e acham que a revolução ainda é a mesma do início do século passado.

Aqui, ao redor da fogueirinha dos saberes, a aprender mais do que ensinar, ouvindo mais do que falando, e me surpreendendo com as crianças criativas desse Arruadinho de Engenho. Cá é o meu front, dessa revolução silenciosa, que se vai urdindo, nesse lugar em que tantos conspiraram. Eu que também conspiro, por uma restauração da pátria, em seu sentido mais profundo e radical. Aqui, amanhando a terra, fecundando vínculos, despertando sonhos e vocações infanto-juvenis. Aqui, refazendo a minha juventude perdida e minha perdida esperança. Aqui, em que “um Sol nascente vai avermelhando o céu escuro”, como vaticinou o poeta Taiguara:

“E que as crianças cantem livres sobre os muros; que o passado abra os presentes pro futuro, que não dormiu e preparou o amanhecer.”

E o macaquinho foi subindo, subindo e chegou na Lua... — com Beth Cruz.

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Cercas redivivas: as memórias loteadas do Engenho Velho

Narrar, de oitiva, os testemunhos alheios, exige um apurado silêncio interior, para não deixar vazarem meus ruídos d’alma, na tessitura dessas lembranças. Aproveito então, essa sexta-feira santa, trigésimo dia do Ano da Graça de N. S. Jesus Cristo de 2018, em que faltam 15 anos para completarmos dois milênios da sua morte e ressurreição; essa sexta-feira silenciosa e litúrgica, cá nesse meu cantinho de escrevinhador, escondido nesse tricentenário caminho colonial da Várzea; nessa sexta-feira, ainda no claro-escuro, no dilúculo da antemanhã, aproveito o sossego e a serenidade para deitar no papel essas memórias loteadas dos habitantes do Engenho do Meio da Várzea do Capibaribe.

Apesar do tom desse primeiro parágrafo, ó meus doze fraternos e pacientes leitores!, sabeis que não professo religião alguma. Isso não me impede de crer, de guardar uma esperança cordial, de tentar, (com muito esforço, não nego), amar o próximo.

Nessa sexta-feira, estou, religiosamente, folheando pela enésima vez, os Diálogos do Paraíso Perdido, desse artista telúrico, chamado, Francisco Brennand, cujo saboroso teor me vai infundido ao espírito uma mitologia profunda e subitamente arcaica, que ele vai resgatando nessa sua Grande Várzea do Rio Capibaribe; uma mitologia fincada na Terra, na Mãe-Terra, cujo viés ecológico vem de tempos antigos, em que ainda não havia nem essa palavra, ecologia; tempos de seu velho pai, o irascível protetor da Mata do Segredo, cujo segredo continua preservado, junto com sua fauna, flora e seus mananciais, que hoje ajudam a dar água de beber e ar puro, a essa planície salgada e sedenta, dos mangues e aluviões, a oeste do Recife.

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É da Terra que molda Brennand, os seus mitologemas de oleiro. E nos questiona em seus Diálogos, esse Francisco, universal e varzeano:

“(…) Será que não existe o vulcão? Os terremotos? As forças vivas da natureza? A gente pensa então que só porque anda em cima do asfalto, ou em nossas casas atapetadas, de madeira ou cerâmica, embaixo disso não é a Terra? A Terra, essa divindade antiga, com seus mistérios interiores, até chegar mesmo ao seu núcleo incandescente? (…)”

***

A Terra amada e disputada, pelo que há sob o solo, pelo que vale a superfície. A Terra demarcada, a Terra marcada pelo sangue dos aborígenes, a Terra conquistada e dividida, em sesmarias, em latifúndios, em  lavras e em lotes.

Acabo de ouvir no rádio, que a Organização das Nações Unidas deu ganho de causa aos Xucurus de Pesqueira, cuja demanda judicial remonta aos idos de 1989. Agora a Terra pertence de novo aos indígenas. Mas, a que preço? Quantas mortes, nesses tristes trópicos! Cacique Chicão? Presente!

Sob os nossos pés, a Terra e suas forças subterrâneas. Na superfície, as desavenças seculares. Por ela as famílias se digladiam, se odeiam… se matam. Mesmo sabendo, há dois mil anos, que só “os mansos herdarão a Terra!” Nada disso importa, quando se mexem em marcos antigos.  A Terra é mãe, mas o seu dono é o pai, o patriarca, e, se morre o dono, levanta-se a matriarca, encarnando toda a volúpia pelo poder que a posse da Terra parece ofertar.

Em todo o planeta, os limites e as fronteiras são disputados com guerras fratricidas. E não seria diferente, cá nesse Engenho Velho, em que as bucólicas cercas vivas, vão dando lugar às belicosas cercas redivivas, da discórdia, da segregação, do desamor.

A leste do Arruadinho, no lugar em que havia um antigo forno de purgar o açúcar e diversas baias abandonadas, ainda da época em que o dono da Usina (e da Terra) costumava usar cavalos de montaria, existe ainda um terreno arborizado, com resquícios da Mata Atlântica e fruteiras frondosas, plantadas por Chico de Melo, morador muito antigo do Engenho Velho. Foi Seu Chico quem retirou, um por um, os tijolos batidos do velho forno e das baias, e limpou o terreno para fazer uma horta e um pomar. Era o seu quintal. Bem na frente da casa-grande do extinto Engenho do Meio, morava Chico de Melo e sua esposa, Angelina, em trecho do Arruado que desapareceu, mas que está em fotografia tirada desde o alpendre do casarão:

Arruado visto do casarão

Do alpendre, via-se o antigo casario, onde viveu Chico de Melo

Dona Angelina Jovelina de Melo, viúva de Seu Chico e memória viva do Arruado do Engenho Velho da Várzea, contou-me e eu repasso essas memórias, essa história oral, que remete a um potente imaginário, que a faz reagir com valentia, a quem quiser invadir o terreno de sua família. Dentro de sua alma, a Terra é uma força vital, uma realidade irrefutável, cuja energia ancestral funciona como um vulcão engramático. A lembrança, primeiramente, do seu pai, e, depois, do saudoso marido, escavando os leirões, plantando as mudas das árvores e as sementes das hortaliças, lhe dá a fortaleza da convicção da propriedade da terra.

A certeza da posse da terra…  Um verdadeiro engrama social, como um dia conceituou Aby Warburg, ou seja, uma impressão deixada nos centros nervosos pelos acontecimentos vivenciados, ativa ou passivamente, pelo indivíduo: cenas assistidas, traumas, hábitos, condicionamentos, etc. e que corresponde à fixação das memórias, passíveis de evocação, de recordação espontânea no sono ou vigília ou, ainda, de associação com eventos atuais, podendo levar o indivíduo a um comportamento automático, reflexo ou involuntário.

Essa lembrança, esse engrama emocional, eu pude constatar visualmente, naquela manhã de domingo, em que o vizinho decidiu derrubar um belo coqueiro do terreno de dona Angelina. Eu, que vivo trancafiado nesse meu cantinho de escrevinhador, dei uma saída até a calçada de casa, pra dar ração aos gatinhos de rua, mania que me surgiu depois da morte de Spike, o labrador de minha companheira. Foi botar o pé fora de casa e ouvir o clamor desesperado de Dona Angelina:

Seu Lula, socorro! O vizinho está derrubando o meu coqueiro!

Seu coração parecia que ia pular de dentro do peito. Temi pela sua saúde. Ela é hipertensa e não se medica. Chamei:

Dona Nininha, venha pra casa! A senhora já tomou os seus remédios?

Idosa, mas valente, ela nem me deu ouvidos. Ali, naquele instante, lhe surgiu a ideia da cerca. Em poucos dias, o terreno ganharia uma cerca de cimento armado e arame. E o terreno de sua família ficou protegido do vizinho ceifador de árvores.

Eis o que eu vinha dizendo da Terra. Isto é, o que eu vinha lendo nos Diálogos do Paraíso Perdido, do nosso artista maior, Francisco Brennand. A Terra e sua posse remonta aos tempos aurorais. Está nos livros sagrados das diversas religiões do planeta. E, como disse, não poderia ser diferente, nessa parte esquecida do território da Várzea.

Resta sabermos quem colocou os limites e os marcos nos quintais do Engenho Velho. Não, os limites afetivos, que povoam o imaginário das pessoas, mas, os marcos dos lotes, deixados pelos senhores das terras.

Haveria um mapa do Loteamento Residencial Engenho do Meio, cujas terras, em quase sua totalidade, excetuadas as dos moradores, pertencem à UFPE?

Os marcos evitariam as desavenças, as ofensas, as situações tensas e trariam a paz aos vizinhos.

E, quem sabe, teríamos de volta a serenidade das cercas vivas, crotes e papoulas avermelhando o caminho colonial, ao invés desses pequenos postes de cimento armado, com arame, que agora enfeiam a paisagem do velho Engenho.

Nessa sexta-feira da dolorosa paixão do jovem nazareno, em que folheio mais uma vez o livro raro do Francisco Brennand, confesso a minha esperança na pacificação dos ânimos, na boa convivência entre os vizinhos, na concórdia e na união.

Um dia, gente, não estaremos mais sobre a Terra e o nosso legado deve ser o da fraternidade, que, vai rareando nas relações humanas, nesses primeiros anos do novo milênio.

Paz na Terra aos homens de boa vontade! É o que lhes desejo todos os dias em que eu ainda estiver sobre a Terra! Que esse seja o legado às novas gerações!

 

 

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No Arruado tereis aflições, mas, tende bom ânimo!

Rebeca Nascimento: “Cansada de tudo isso! A cada ano só piora! É como se não existíssemos! Sinceramente, depois de 17 anos morando na Federal e vivenciando cada um dos problemas que enfrentamos, que por sinal não são problemas recentes, não acredito em nenhuma solução que vá nos beneficiar! É péssimo pensar assim, mas depois de tantas reuniões e tentativas frustradas de mudar a situação dos portões de entrada e saída da UFPE, e agora essa! É compreensível que não espero que se resolva!”

DAS GRADES DO CTG

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O portão que dá acesso ao terminal do ônibus, com cadeados.

Lendo o comentário desolado de Rebeca Nascimento, 17 anos, feito numa postagem de meu facebook, sobre os portões do CTG, sempre fechados, depois das 23h e antes das 6h, nos dias úteis e durante 24h, nos feriados e fins de semana; ouvindo as queixas de Elidiane Curcio, 24 anos, em plena reunião, na reitoria da UFPE, queixando-se que desde criança é obrigada a pular as grades do CTG; e, finalmente, ouvindo o sonho de Fernandinha, 8 aninhos, ao redor da fogueira, na noite do apagão, “quando eu for grande, quero estudar fora da UFPE, pois me sinto prisioneira aqui dentro”; percebo a verdadeira dimensão do ostracismo, da invisibilidade e da indiferença, durante anos e anos, que sofrem essas jovens moradoras do Arruadinho.

Mesmo com toda a empatia, não dá pra viver a vida no lugar delas. Mesmo vindo morar aqui, perto dos meus contraparentes da família Melo, não tenho como sofrer as aflições que são delas, dessas meninas batalhadoras do Arruadinho do Engenho Velho da Várzea.

Não existem instrumentos para medir a dor psicológica, nem os efeitos de uma vida de clausura, que, de certa forma é imposta pela segurança da UFPE, aos moradores e seus filhos e filhas.

Compreendo e me solidarizo com o pessimismo doloroso da jovem Rebeca Nascimento. Vendo seu pai ser proibido de vender seus salgados e pipocas, nas imediações do Centro de Artes e sofrendo com a injustiça de ver sua mãe ser impedida de vender suas tapiocas pelo Campus Recife, é compreensível sua desolação.

Enquanto isso, quem passa pelo CCSA, pela Biblioteca ou mesmo pelo CFCH vê diversos comerciantes com barraquinhas, lutando pelo pão de cada dia, é verdade, mas não entende o motivo da proibição dos ambulantes do Engenho Velho. Preconceito com quem mora dentro do Campus? Privilégio e compadrio (ou outras causas indizíveis) para com os de fora?

O que fizemos foi levar o pai da Rebeca até a Reitoria e lá ele teve uma conversa reservada com o Ouvidor. Em verdade, nós sabemos o nome da pessoa que o persegue, mas não a revelaremos, por enquanto. Afinal, queremos a solução dos problemas e não criarmos outros tantos. A pessoa tem muito tempo de bons serviços prestados à UFPE. Mas, pasmem, sente prazer em escorraçar a família da Rebeca e expulsar, sem dó nem piedade, sua carrocinha de doces e salgados, do seu ponto de comércio. Absurdo!

Aos 17 aninhos, estudando no IFPE, a jovem Rebeca é um exemplo de luta e determinação. Ela quer ajudar os seus pais, melhorar as condições da família e, quem sabe, mudar a situação de opressão, que, nos dias de hoje, ainda acontece dentro de uma instituição pública de ensino, tão conhecida pelo seu notório saber científico, mas, que não conhece seus pequenos gestores e suas reinações, em que há um pouco de autoritarismo sádico, misturado a muita bajulação. Haja Deus!

Mas, vamos desistir agora?

Parece que, de alguma maneira alguém da gestão está a nos ouvir as demandas. É hora de termos bom ânimo. Hora de persistir na luta. É preciso ter força, é preciso ter coragem e jamais desistir dos nosso sonhos! No mundo tereis aflições, disse o Rabi, mas, tende bom ânimo!

E é por isso que vos convoco a não desanimarmos, a continuarmos tentando o diálogo com a gestão, que agora tem nos ouvido. As soluções estão sendo semeadas. O solo não é tão fértil. Mas, em se adubando, com persistência, com resistência, com fé, essas boas sementes brotarão no tempo certo. E que as crianças e os jovens do Arruadinho possam colher as frutas de uma vida de harmonia e paz com a UFPE!

 

P. S.: a chefe de gabinete Lenita Almeida me mandou um zap, dizendo que está marcando uma reunião entre os moradores e a diretoria do CTG. A luta continua! E a juventude deve participar dela!

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Sabença

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Um crepitar na Noite escura
e o alumiar dessa sabença
tão feminina e tão intensa
clareando os mitos e as lendas
tornando belas as verdades
dos olhos retirando as vendas

Um caldeirão mexe com as mentes
e um condão nos faz criança
na Noite, a chama da esperança
é como uma menina e dança,
é mesmo uma menina e dança,
a chama é uma menina e dança
na Noite, a chama, uma menina…
Chama-menina
Chama as meninas,
que essa sabença é a Esperança.

 

(Pra Alice, Bia, Fernandinha, Steffany, Lidi e Késia)
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CAFÉ (arqueológico)

Noitenoarruado

Há um pretérito que ecoa dentro em nós,
e não se deixa ver pelo radar
Mas que exsurge nessa arcaica voz
com que traduz-se a vida, esse pulsar
diário e renitente,
feito rio que da nascente à foz
vai recebendo vidas afluentes…
Eis isso, esse resquício
de um mundo antigo, aqui, presente:
essa gente…
à beira do caminho colonial,
a noite escura, o açúcar e o café quente.

 

Lula Eurico (23/03/2018)

 

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O saboroso Café Arqueológico, no Arruadinho

Virou clichê a frase, “sonho que se sonha juntos é realidade”. Sim, virou clichê, mas não deixou de ser verdade. Desde ontem, estou me sentindo mais leve. Foi como quem teve um sonho bom e acordou com aquela sensação de bem estar. Isso depois do encontro com o povo bom da arqueologia, no I Café Arqueológico do Arruado. E o melhor: o primeiro de uma anunciada série de muitos.

Todos os moradores e amigos do Arruado do Engenho Velho da Várzea, todos, sem exceção, aguardavam por esse encontro com os estudiosos do nosso sítio arqueológico. Fizemos muitos eventos, desde maio de 2014. As brincadeiras de outrora, com Beth Cruz, o lirismo reflexivo da poeta Neide Germano, a artesania popular do Índio Batera, a arte contestadora de Fernando Serpa, as aulas a céu aberto do Design Social de Ana Emília Castro e as lições do corpo em movimento, da Dança, Luta, Capoeira, de Gabriela Santana, já enchiam esse velho engenho de esperança.

Porém, todos nós esperávamos pelos arqueólogos.

Desde 2015, durante o I Simpósio de Arqueologia de Engenhos, no CFCH que surgiu no nosso horizonte, a possibilidade desse encontro.

E ontem, aconteceu!

Aconteceu o grande encontro com a Arqueologia, com a presença da professora Viviane Castro, cuja sabedoria e humildade nos deixam muito à vontade para o diálogo, mesmo sabendo da profunda cultura acadêmica dessa mestra da UFPE. Além dela, as suas aplicadas alunas e seus alunos, tod@s apresentando uma fluência e uma clareza no discurso sobre a disciplina que estudam, muito acima da média. E, para completar, a presença do nosso padrinho, o mestre da Univasf e doutorando por esta UFPE, o carismático e profundo conhecedor do seu mister, o professor Lula Biu (Luiz Severino da Silva Junior) a quem devemos o artigo científico sobre o Caminho Colonial da Várzea, com o qual defendemos nossa comunidade, diante da Reitoria, evitando a passagem do emissário de esgotos do Laboratório de Petróleo e Gás, que ousou enfrentar a força e a resistência dos moradores empoderados deste Engenho Velho da Várzea.

A todos eles, nosso sincero agradecimento.

Os estudos do professor Lula Biu e o apoio incondicional do Departamento de Arqueologia e de seu Colegiado, em que despontam as professoras Ana Catarina Ramos e a já citada, Viviane Castro, foram fundamentais para a nossa vitória contra o emissário enfezado da Petrobrás.

A partir de agora, teremos os Encontros de Educação Patrimonial, para fazer avançar essa parceria, que, pelo brilho nos olhos de todos e todas presentes, vão consolidar a luta pela preservação do casario e do sítio arqueológico do Engenho do Meio da Várzea, com toda a força da metodologia científica, do saber acadêmico e dos recursos tecnológicos próprios da moderna Arqueologia.

Nunca um café foi tão saboroso, como o da noite de ontem! Sabor de quero mais… E oxalá aconteçam outros muitos encontros com a Arqueologia e que o sítio do Engenho soterrado seja revisitado, revitalizado e soerguido, para que todos possam conhecer e desfrutar dos quase quatrocentos anos da história desse lugar mágico, que é o Arruadinho do Engenho do Meio da Várzea!

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DA VOZ (notas para uma fisiologia do sentido)

fumaça cabeça

 

Tudo o que sai do corpo é corpo
e se faz verbo,
O gesto, a febre, o sopro, o suor, o pranto
o canto, a fala,
tudo isso é corpo e busca o ausente, o outro, um nexo
mesmo na escória, flor inglória e sem abrigo,
o corpo exala algo que é signo.

A voz…, volátil e aérea…, a voz
ainda é corpo em influxo ondulante, oco e vibrátil,
e mesmo assim, matéria
a ressoar dos vãos, dos antros
escuros e pleurais,
das grotas guturais até a boca.
A voz assim, fluída,
flatus vocis, vaporosa,
ainda é corpo.
:
É corpo esse sussurro,
e o último suspiro, o derradeiro e mesmo o urro,
o espirro, o berro pelo ar
que vaza nas vogais, das úvulas,
dos mantras que dimanam das fossas nasais,
dos lábios, entreabertos véus, dos céus da boca,
de hiatos entre dentes, estridentes atos, palatos
hálitos pulsantes, em consonantes
tubos, curvos, peristálticos,
em valvas que destravam valvas, dia-
fragmas elásticos,
redomas dissonantes, em labirintos, dobras
de bronquíolos, anelados bulbos,
tudo isso, esse ruído amorfo,
ainda é corpo.

A voz é carne, en/carnação,
é corpo em invisível esforço
de arfar
de fôlego
e de soar sentido,
em direção do outro
(mesmo que um proto
-sentido)
um cio
um balbucio,
um uivo, em fluxos acústicos
em ululo,
em guinchos de orifícios,
em sons da glote, engulhos
toda sorte de pruridos viscerais
em sons roufenhos
arrotos,
gritos
ronronares flácidos
rascantes regougos.

Vazou da carne é corpo.
A voz de tudo é corpo.
Corpo sem órgãos, ausente, ambíguo,
dúbio, mas, corpo.
Tudo que sai do corpo é corpo,
Mesmo o signo.

 

 

 

Eu-lírico 05/01/2012
Estudos para o tema em:
O Ser e o Tempo da Poesia – Alfredo Bosi
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