Prolegômenos à mundividência: um carrapato no Engenho Velho

dona luiza arruado

                            Dona Luiza olha o mundo, de sua janela…

1 – Prolegômenos à mundividência

Meus doze leitores devem lembrar do carrapato deleuzeano, do qual tratei aqui, no meu afã de compreender o mundo de cada um e de como iniciarmos um processo de renovação das nossas ideias e crenças, que nele, no mundo, se baseiam.

Relembremos o trecho de Gilles Deleuze:

“O carrapato responde ou reage a três coisas, três excitantes, um só ponto, em uma natureza imensa, três excitantes, um ponto, é só. Ele tende para a extremidade de um galho de árvore, atraído pela luz, ele pode passar anos, no alto desse galho, sem comer, sem nada, completamente amorfo, ele espera que um ruminante, um herbívoro, um bicho passe sob o galho, e então ele se deixa cair, aí é uma espécie de excitante olfativo. O carrapato sente o cheiro do bicho que passa sob o galho, este é o segundo excitante, luz, e depois odor, e então, quando ele cai nas costas do pobre bicho, ele procura a região com menos pelos, um excitante tátil, e se mete sob a pele. Ao resto, se se pode dizer, ele não dá a mínima. Em uma natureza formigante, ele extrai, seleciona três coisas.”

E assevera Deleuze:

“É curioso, pois muita gente, muitos humanos não têm mundo. Vivem a vida de todo mundo, ou seja, de qualquer um, de qualquer coisa, os animais têm mundos. Um mundo animal, às vezes, é extraordinariamente restrito e é isso que emociona. Os animais reagem a muito pouca coisa…”

Disso que afirma Deleuze, me vem a ideia de que existem homens e mulheres que vivem como esse carrapato. Suas janelas da alma são restritas a um único prisma. São uniprismatistas, quando precisariam ser esferistas, como aconselha o meu amigo, o artista-plástico, Eugênio Paxelly.

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Foi esse meu amigo quem criou, lá pelos anos 1990, o conceito de Esferismo, observando as pessoas e as coisas, em seu ateliê da Rua dos Prazeres, bairro da Boa-Vista, aqui no Recife. Percebam  como faz sentido a compreensão do seu ofício de artista e a sua necessidade de exercitar esse olhar esférico. Os olhos do mestre Paxelly brilhavam, quando ele tratava do Esferismo:

É preciso olhar o objeto por todas as suas faces e planos, dizia ele. Façam o objeto girar! Sejam esferistas!

O mundo do esferista não é restrito e reducionista, e, por isso mesmo, tem a amplitude necessária para, pelo menos,  respeitar a mundividência do Outro, mesmo que pequena e limitada a alguns excitantes, como a visão de mundo do carrapato deleuzeano.

Quem convive com esse olhar esferista, aplicando-o a outras situações da vida, aprende a tolerância, mesmo em meio à luta. Não se ensoberbece, nem menospreza o adversário. Reconheço, nessa cronica extemporânea, a minha necessidade desse um olhar mais amoroso sobre as coisas e as gentes. Talvez, seja esse o verdadeiro motivo de escrever sobre mim mesmo, nesse momento da vida. Passei dos sessent’anos. E ainda não me fiz um verdadeiro esferista…

 

Um carrapato no Engenho Velho (confessio spontanea)

Como vinha dizendo, já passei dos sessent’anos. Estou “sex”, como diz uma grande amiga. Sex é sexagenário. rsrs E essas idades redondas, 30, 40, 50, a mim sempre trouxeram algum tipo de boa crise. A crise que faz pensar e criar. Minha trajetória até aqui nunca foi retilínea. Sou um ser de ziguezague. E a essa altura do campeonato não pretendo mais mudar a mim mesmo. Talvez a melhor coisa seja “me adaptar ao que sou”. Não por conformismo. Muito pelo contrário. Ziguezaguear não lembra muito a resignação.

E como ser acomodado se os meus ídolos sempre foram os loucos.

Em literatura, prefiro Lima Barreto e Osman Lins, ao genial Machado. Na música clássica, o Debussy, ao Mozart. No Brasil, o Hermeto, o Tom Zé e o Chico Science me chamam mais a atenção do que outros também geniais, e que não dispenso, no cenário da MPB, como os tropicalistas, os bossanovistas, etc. Na poesia, os rompantes do Antonin Artaud, apesar de não conhecer a fundo a sua obra, aos belos sonetos do Bilac; e aí vem outros loucos e visionários das outras áreas (que apenas exploro a superfície das obras): Spinoza, Ortega y Gasset, Deleuze, Flusser, Paulo Freire, Vicente Ferreira da Silva… e agora, Heráclito!

Ando esmiuçando tudo o que encontro de interessante sobre os fragmentos do Obscuro. Tudo isso, depois de ouvir um interessante debate entre os mestres Sylvio Ferreira e Zé Nivaldo Júnior, em certa rádio pernambucana. O tema era a Tolerância, e o Sylvio tentava explorar o Discurso da Servidão Voluntária, de Étienne de La Boétie, enquanto Zé Nivaldo se esforçava por esconder sua dialética marxista, dizendo-se heraclitiano. Dois mestres geniais! Fiquei instigado e, desde então, apesar desses tempos temerosos, ando a rastrear, nessa rede, os raros  fragmentos deixados pelo filósofo de Éfeso. Não obstante, farei uma releitura do Étienne de La Boétie, pois, no debate, perfilhei-me à opinião profunda e esferista, do professor Sylvio, de quem sou fã.

Mas o que estou a dizer nessa manhã? E por que esse tom cinzento de crise me toma no exato momento em que escrevo essas linhas?

Eu, sinceramente, não sei.

Só sei que acordei com um medo danado dos peremptórios, dos que trazem debaixo dos sovacos os seus imperativos categóricos, as suas evidencias apodíticas, os seus ismos irrefutáveis.

Ah, e por falar em ismos eu tenho um apreço especial por um ismo, meio escanteado, discriminado, coitado… o meu ismo preferido é o Achismo. Sim, ele mesmo! O tão demonizado achismo. Prefiro chegar às coisas e aos fatos, sejam do presente ou do passado, munido de meu velho e bom achismo. Ele me liberta dos outros ismos, que me podem restringir o campo das percepções e me fazer, como diz aquele velho amigo, “uniprismatista”.

Uniprimatista? O que é isso?

É o cidadão que tem um único prisma apriorístico, preparado para abordar tudo. E tudo tem de se dobrar a esse prisma introjetado em sua mente, eu ia dizer alma… Ele está por aí, nos púlpitos e nas tribunas, defendendo teses, opiniões, crenças e certezas, a que todas as outras ideias se devem ajoelhar.

Mas, continuemos…

Tenho visto tanta coisa nesse mundo de meu Deus, dizia o velho Lula Gonzaga. Mas nunca tanta coisa me passa em frente aos meus velhos olhos que a terra há de comer ou o forno há de cremar, como nesses tempos pós-facebookianos.

A balbúrdia, a esplendorosa balbúrdia do mundo, essa caótica e maravilhosa balbúrdia de informações, me atravessa a alma, e mesmo eu, acostumado aos loucos e visionários, aos rebeldes, eu, esse ser de ziguezague, fico aturdido ante a velocidade das mudanças e a velocidade com que mudam as mudanças desse tempo.

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E às vezes fico pensando certas leseiras, esses meus achismos de estimação, tais como:

O que faria o Paulo Freire com seu método, aquele de usar as palavras do contexto e tal, para alfabetizar etc, etc. O que faria o Paulo Freire hoje em dia, no meio dessa turba alucinada de informações? Como achar as palavras nessa novilíngua? Que pedagogia surgirá dessa multidão de novas palavras e coisas e dizeres, que viajam na rede com uma estonteante velocidade?

Interessante, né? Mas algo ele faria, com certeza.

No entanto, os professores dessa geração não estão órfãos de Paulo. Há novos Paulos por aí, que talvez nem saibam que são freireanos, não por filiação às ideias dele, mas que, imersos no saber desses tempos da rede, ou das redes, eu diria mesmo, das redes sociais, conseguem aplicar o método, simples e fácil, de trazer ao ensino, a realidade imediata do aprendiz. Eita palavra antiga: aprendiz. Mas fica assim mesmo. O danado é que essa “realidade imediata do aprendiz” desses tempos é facebookiana! E alguém teria de lembrar de trazer essa realidade virtual para a educação. Não é simples? É nada… Mas alguém tem de tentar.

                                                                     ***

Enquanto isso, fico aqui, dependurado no meu confortável galho, feito o carrapato deleuzeano, a esperar que passe a manada da história. O Engenho Velho da Várzea é a minha zona de conforto, em essa natureza formigante. Abrigado na pelagem desse pequeno mundo, nada mais me interessa. Confesso que perdi a esperança, em meio ao torvelinho de notícias ruins que assolam o país. E meu mundo está restrito ao moer do passado do velho engenho.

Enquanto os materialistas históricos aguardam, na dialética, a miraculosa solução dos conflitos hodiernos, eu, estranhamente, redescubro, num mundo arcaico,  a physis, o modo helênico de ver o mundo, e busco o logus da psiché, como processo de humanização, da trans-formação do homem natural no homem da cultura. Não soa estranho, esse discurso?

Lá fora, as pessoas buscam um messias, seja político ou religioso. Entrementes, eu busco um Cristo interior, uma renovação por dentro, que não é nada mística. É physikoi…rsrs É o que ainda me move e me incendeia, esse fogo heraclitiano, do qual tudo ressurge, surge, ressurge, chama sagrada, mas oculta.

Entra nos teus aposentos e ora em oculto, dizia o Cristo, que teu Deus vê em oculto

A Physis ama ocultar-se, dizia Heráclito de Éfeso, 500 anos antes. Seria, então, a physis uma ideia do transcendente?

Creio que não. Ou, não apenas isso.

Mas para Katsuzo Koike, professor da UFPE, é comum, em nossos dias, contrapor a natureza ao psíquico, ao espiritual, quando, para os pre-socráticos, a Physis exprimia o todo existente, a totalidade do real, desde as coisas materiais ao mundo dos deuses..

Talvez meus doze leitores não me entendam essa fase. Dirão que estou alienado. Porém, nada menos alienante do que uma revisita ao mundo grego de 2500 anos atrás. O mundo que gerou esse nosso mundo, com todas as suas contradições! Noite e dia, riqueza e pobreza, paz e guerra… silêncio e balbúrdia. Polémos! A luta vivificante do logos da physis com o logos da psiché! Avanços e recuos. Devenir… processo. Banhando-me, dialeticamente, no mesmo rio, que mudou, que ainda é rio, que sou Eu, que sou o Outro, que somos Um e o mesmo rio. O rio heraclitiano que encontra o rio crístico, em que essas águas saltam para a eternidade!

Lá fora as pessoas gritam: fora! fora! fora!

Lá fora?… Existe um “lá fora”?

Perdoem-me tomar o vosso precioso tempo, com esse ziguezaguear de notas autobiográficas. Não posso contar a história sem mergulhar no Eu… Não há história sem Eu, sem intra-história… Motiva-me cumprir o desideratum paulino, que diz:

E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento
Romanos 12:2

E não se renova o mundo, sem renovar o entendimento do mundo em mim, em ti, em nós. E cá dentro de mim, cá dentro um engenho se move, lentamente, como uma ampulheta feita de um viscoso melaço, escuro mel de engenho.

Parece que ainda oiço o ambulante, carapinha branca, a gritar:

— Mé novo!

Por isso, não gritarei lá fora. Não existe fora. Estamos todos num dentro, numa physis por dentro e por fora… que se movimenta como a almanjarra do velho engenho movido a bois…

Assinado: O Carrapato.

Engenho de Farinha 4

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Saberes e Fazeres – por um catálogo da artesania popular no Engenho Velho

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Pastoril na Várzea

UMA EPÍGRAFE:
Quando tiverem conseguido um corpo sem órgãos, então o terão libertado dos seus automatismos e devolvido sua verdadeira liberdade. Então poderão ensiná-lo a dançar às avessas, como no delírio dos bailes populares e esse avesso será seu verdadeiro lugar. (Antonin Artaud)
Motivado por essa epígrafe, trago à baila um dos meus poemas sem nexo, para, com ele, tentar ilustrar uma preocupação que vai implícita em mais essa cronica de diletante:
***
DANÇA SEM CORPOS
Convoquem-se os doutorandos pra dançar,
enquanto é dia…
Cantem-se os cânticos aurorais.
Dancem-se as danças circulares…
Que falem as crianças, os doidos e os poetas,
num intraduzível canto sem métrica,
à claridade, aqui, ali, à claridade,
enquanto se pode achá-la!
Dias virão em que fugiremos pros montes
com pavor de nossos filhos e filhas.
Eles já não nos ouvem e falam um dialeto de autistas,
um poderoso discurso para iniciados.
Salvem-se os jovens dessa seita academicista,
em que se untam de poder e de verdades.
Quando criança eu falava com as gramíneas,
com as formigas, com os insetos do quintal.
Estávamos entrelaçados, minhas raízes e eu.
Meus pais riam disso.
Doidices de crianças, diziam.
Loucura e poíesis, digo eu.
As crianças dessa nova era
estão tomadas por estranha terminologia,
e já não brincam como dantes.
Antes, fabricam-se modos de ver, de pensar, de existir.
O imaginário foi engarrafado.
Envasadas as enunciações poéticas
e as artes, em um discurso de infalíveis.
Urge que se convoquem os jovens doutorandos pra dançar,
sem corpos e sem órgãos,
Dançar deliricamente…
Em transe, com gritos primais.
Urge que cantem as crianças, os doidos e os poetas,
num intraduzível canto sem métrica,
à claridade,
Aqui, à claridade,
enquanto se pode achá-la!
dança ao redor do polo de maio

Pieter Bruegel – Dança de Maio

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Feito isto, passemos ao assunto, que surgiu das discussões de uma aula de Design Social, da Profa. Ana Emília, no dia 18/05/2017, no aprazível terraço do chalé da família Souza:

Uma aluna defendia a produção de um catálogo sobre o artesanato dos moradores da comunidade do Arruado do Engenho Velho, quando a própria palavra catálogo foi posta em discussão pelo grupo, levando-nos a pensar nas maneiras de inventariar e/ou catalogar os saberes e fazeres mais cotidianos de uma comunidade qualquer e, em especial, de uma comunidade quase rural ou rurbana, como é o Engenho Velho da Várzea.

Essa catalogação dos fazeres e saberes ancestrais me levaram à questão levantada no início do século XX, pelo escritor Mário de Andrade, em sua já famosa expedição pelos brasis dentro do Brasil, que, segundo minha compreensão, propiciaria a formulação de uma lei que definisse o modo e a forma de se fazer o registro do patrimônio imaterial, a partir do olhar dos moradores de uma comunidade.

Nos idos de 1936, Mário antecipava uma visão diferenciada, que iria influenciar toda uma geração de estudiosos. Em seu relatório ao ministro Gustavo Capanema, chamou a atenção para o fato de que “o patrimônio cultural da nação compreende muitos outros bens além de monumentos e obras de arte.”

Esse olhar do poeta modernista Mário de Andrade, deve ter influenciado o professor pernambucano, Aloysio Magalhães, (um dos primeiros designers voltados para os processos da artesania¹ popular brasileira),  na concepção  de um Inventário Nacional de Referência Cultural, importante documento que nortearia todo aquele que se interessa pela preservação, registro e tombamento de bens materiais e imateriais no território brasileiro.

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A boa notícia é que os moradores de uma comunidade podem e devem apontar as suas referências culturais, identificá-las e inventariá-las, a partir de suas vivências, de suas memórias e narrativas pessoais ou coletivas.

Uma das atividades do grupo de ativistas que se denominou Movimento de Resistência Popular Arruado do Engenho do Velho da Várzea, MRP-Arruado, consiste em tirar da invisibilidade e do confinamento, as dezenas de pessoas que habitam o casario da extinta Usina Meio da Várzea, depois denominada Loteamento Engenho do Meio, que já estão na posse da terra há mais de 100 anos. Além disso, cuidamos de criar uma narrativa, a partir das memórias dos moradores mais antigos, buscando identificar, no momento presente, as referências materiais e imateriais que se foram consolidando, desde o século XIX, nos fazeres e saberes da vida cotidiana dessa comunidade.

E o que seriam essas referências?

Leiamos um trecho do Manual do Inventário Nacional de Referência Cultural, em sua versão on-line:

“Referências são edificações e são paisagens naturais. São também as artes, os ofícios, as formas de expressão e os modos de fazer. São as festas e os lugares a que a memória e a vida social atribuem sentido diferenciado: são as consideradas mais belas, são as mais lembradas, as mais queridas. São fatos, atividades e objetos que mobilizam a gente mais próxima e que reaproximam os que estão longe, para que se reviva o sentimento de participar e de pertencer a um grupo, de possuir um lugar. Em suma, referências são objetos, práticas e lugares apropriados pela cultura na construção de sentidos de identidade, são o que popularmente se chama de raiz de uma cultura” (Cecília Londres, Manual do INRC, p. 29).

E diz mais, o Manual do INRC:

“Embora essas informações só possam ser apreendidas a partir de manifestações materiais, ou “suportes” – sítios, monumentos, conjuntos urbanos, artefatos, relatos, ritos, práticas, etc. – só se constituem como “referências culturais” quando são consideradas e valorizadas enquanto marcas distintivas por sujeitos definidos. (…) Referências culturais não se constituem, portanto, em objetos considerados em si mesmos, intrinsecamente valiosos, nem apreender referências significa apenas armazenar bens ou informações. Ao identificarem determinados elementos como particularmente significativos, os grupos sociais operam uma ressemantização desses elementos, relacionando-os a uma representação coletiva, a que cada membro do grupo de algum modo se identifica.” (idem, 14)

(Todos os grifos são meus)

Essa postura do IPHAN, já adotada pelo seu corpo técnico, a partir do Manual do Inventário Nacional de Referência Cultural, abre imensas possibilidades de registro, justamente por ser baseada no testemunho e vivência de quem detém os saberes e fazeres populares.

Um bom inventário deve catalogar os saberes e fazeres dos moradores, sem desprezar nenhum pequeno elemento significativo das práticas comunais de uma coletividade. Sejam as ligadas às crenças, ao pastoreio, à agricultura, à manufatura de vestimentas, de utensílios domésticos, da culinária, das festas religiosas e profanas, do artesanato e das artes em geral, que eu chamo de tecnologias populares. Sem esquecer dos jogos e das brincadeiras de rua, um saber próprio das crianças, e, em nosso caso, das crianças que ainda brincam ao ar livre, nos quintais arborizados do Engenho Velho.

Um exemplo de tecnologia popular, que se pode olhar como referência de um saber e fazer da nossa comunidade é a maneira pela qual se combatem as casas de cupim dos galhos mais altos e inacessíveis, nas copas das árvores frondosas do Arruadinho. Contou-me o Marquinhos de Dona Inez, que um tio dele, chamado Bonifácio, era exímio atirador de badoque ou estilingue. A técnica era a seguinte:

1- Enfiava-se em um limão, um fio de nylon ou cordão fino que tivesse de comprimento duas vezes a altura da galha a ser alcançada.

2- Com o badoque, atirava-se o limão em direção do cupinzal. Amarrado à linha, o limão caia no chão, após ultrapassar a galha.

3- Nesse momento, fazia-se, com azeite ou álcool, uma tocha de fogo ao redor do limão.

4- Puxava-se então, o limão incendiário de volta à galha em que estavam os cupins. Pronto: em instantes a casa de cupim estava totalmente destruída pelo fogo. Poderíamos chamar esse fazer de tecnologia popular ou social?

Creio que sim.

E, pelos olhos dos que a inventaram, essa era uma referência cultural dos moradores dos sítios do Engenho Velho, que mereceria um registro imaterial, pela importância da eliminação dos cupins, no trato das árvores frutíferas da comunidade.

Continuemos, com outro exemplo:

As conversas de fim de tarde no Arruado, em que o calor leva os moradores a sentarem à sombra das árvores centenárias, sempre abrem possibilidades, a quem estiver atento, de observar alguns costumes antigos de uma comunidade de agricultores. De certa forma, isolado da vida urbana, o Arruadinho ainda guarda certo bucolismo, como o evocado pelo poeta cearense, que assim cantava:

“Eu era alegre como um rio
Um bicho, um bando de pardais
Como um galo, quando havia
Quando havia galos, noites e quintais”.

E para arrematar esse assunto de como catalogar ou inventariar saberes e fazeres, a partir do olhar dos moradores de uma comunidade, deixem-me contar um causo recente, que pode parecer menor, aos nossos olhos, prenhes de tecnologia dessa nova era da informação, esse mundo virtual que, de certo modo nos oculta práticas ancestrais, que resolviam aquele mundo antigo, cujas técnicas podem hoje nos parecer primitivas, mas que ensejavam soluções práticas para problemas do cotidiano, tais como, comer, plantar e vestir.

Por exemplo:

Semana passada, Dona Angelina, ou dona Nininha, como a chamamos, carinhosamente, estava aperreada com um galo que estava atormentando uma galinha choca. Aliás, esse galo chamava a atenção pelo seu instinto reprodutor. Atacava todas as franguinhas, ainda jovens e não deixava as galinhas completarem o período do choco. Era um transtorno! Dona Angelina, numa dessas tarde de conversas sob a tamarineira, pegou o galo por baixo de suas asas e o levou pra dentro de casa. Cinco minutos depois, talvez mais um pouco, volta ela e me anuncia:

“Seu Lula, já matei!”

“Matou?” perguntei eu.

“Matei o tarado!”

Entendi então que o galo tarado foi pra panela de Dona Nininha. E era um belo galináceo. Que pena!

Lembrei que, hoje em dia, nem toda dona de casa tem coragem de sangrar um galo, para uma cabidela, como ainda faz dona Angelina. Meu pai, que foi morador da Ilha do Leite, (no tempo em que a ilha era apenas um banco de areia, com alguns mocambos e a igrejinha da Saúde), me contava que na Boa Vista havia um judeu sefardita, que era especialista em matar galinhas. Ia esse homem, de casa em casa, a oferecer os seus serviços. Com isso sustentava a família, egressa de uma Europa arruinada pela guerra. Era, portanto, aquele judeu, detentor de um saber e fazer que lhe garantia o sustento.
Dona Angelina é um exemplo de como um antigo fazer, está preservado no Arruadinho, simplesmente, pelo fato de ainda existirem galos, quintais e moradores que preservam esses saberes.

Imaginem, meus doze leitores, que, se aqui nesse Engenho Velho, já houve criação de vacas leiteiras, cabras e cavalos, quantas habilidades, quantos saberes antigos existiram e vivem na memória dessa gente ligada à terra e à criação de animais?

Encerro com outra pergunta:

Devemos catalogar esses fazeres antigos e próprios de uma agro-vila quase rural, confinada num campus universitário?

Se, sim, como poderíamos fazê-lo?

Deixo isso aos Designers Sociais da profa. Ana Emília Castro.

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Palavra de uso recorrente no Brasil, embora ainda considerada, em termos linguísticos, um “estrangeirismo”. Aqui, a palavra é tomada do espanhol e pensada como sendo os processos que implicam na experimentação, investigação, espaços produtivos e produto final, pelos quais o artesão transita para ter um resultado adequado, o que inclui, ainda, a inventividade e a necessidade de métodos apropriados, mesmo em se tratando de um trabalho informal, sem compromisso com a seriação. Artesania sugere, deste modo, o ato de fazer o artesanato e não meramente o produto final.

“A Universidade como espaço de reflexão e fomento aos processos de artesania“.

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Diferenças e diferentes no velho engenho do mundo.

Meus prezados 12 leitores, imaginem comigo um certo feriadão, que acontecia há muitos e muitos  séculos atrás:

O comércio fechava as portas. O povo abstinha-se das atividades seculares. Nas casas ricas se preparavam banquetes. Tocavam-se instrumentos de sopro. Matavam-se cabras e carneiros, em rituais de sacrifício e se faziam oferendas de manjares ao Deus Pai. Isso mesmo: tigelas de comedorias oferecidas a Deus!

Imaginem, então, que essa festança se repetia todos os meses do ano. Eu disse: todos os meses do ano. Eita povo festeiro! Parecia até com as festas do povo brasileiro!

Mas não era!

Não eram brasileiros e não se tratava de um ritual de tribos africanas ou asiáticas, tampouco da nossa umbanda ou candomblé, muito menos da jurema, herdada de nossos caboclos. Seria, porventura, uma festividade do colorido e multifacetado Vale do Amanhecer, da saudosa Tia Neiva? Com certeza, não! Se assim fosse, sei que muitos de nós torceríamos os nossos narizes hipócritas para essas festanças rituais.

Pois eu lhes digo que esse cerimonial religioso era hebreu, o “Festival da Lua Nova”, que era celebrado no início de cada mês. (Vide, Nm 28:11 e 14; Ez 46:1-8, Nm 10:10; 28:11-15; Sl 81:3; Am 8:5;1Sm 20:5, 18, 24, 27 e 34).

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Cordeiro abatido para o Festival da Lua Nova

Pode parecer estranha, essa festança, essa quase-folia judaica, aos costumes de hoje.

Não há, todavia, o que estranharmos nessas solenidades, pois se a própria festa de Pentecostes era também uma comemoração antiquissima, pré-cristã e milenar, do povo judeu, que nela  agradecia a Yahweh pela colheita, como de resto se fazia em todos os outros povos pagãos, cada um com seu deus.

No entanto, esse feriadão litúrgico dos judeus nos leva a uma interessante questão:

O que diriam os cristãos de hoje, com seus pudores farisaicos, se soubessem que os mais antigos crentes costumavam frequentar aqueles festivais da lua nova?

Eu vou logo adiantando que São Paulo, em missiva aos cristãos colossenses, os repreendeu, justamente pela discriminação aos costumes da tradição popular daquela região da Ásia Menor:

“Portanto, ninguém vos julgue
por causa de comida e bebida,
ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados,
porque tudo isso tem sido sombra
das cousas que haviam de vir;
porém o corpo é de Cristo.”
Colossenses 2:16-17

Mas, por que estou falando disso, aqui e agora?

É que muitas festividades ancestrais estão preservadas na Várzea. Exemplo disso, são as Bandeiras de São João do Carneirinho, num sincretismo carnavalizado e feérico, que envolve distintas manifestações religiosas, em um cortejo que costumamos chamar de Acorda Povo.
Esse cortejo percorre as ruas centenárias da Várzea, cantando loas ao santo e muito forró pé-de-serra, acompanhado por uma pequena orquestra de pau e corda, com o clarinete e o sax alto, fazendo contraponto ao trio, zabumba, sanfona e triângulo.

Eis um momento numinoso!
Eis uma festa com origens pagãs e pré-cristãs!

acorda povo 2015

Mas, ninguém vos julgue…, dizia São Paulo. Porquanto são também cristãos, os que ali dançam e cantam, naquela intensa festa sazonal, que celebra as chuvas da estação, a colheita do milho, o santo, primo de Jesus Cristo e seu alter ego no sincretismo, o orixá Xangô.

Ninguém vos julgue por vossas festas, por vossa ancestral identidade, nem pela vossa alegria dionisíaca. Creio que era essa a intenção da reprimenda de São Paulo aos colossenses, há quase dois mil anos, que ainda está vigorando, nos dias atuais.

Em nossos tempos, invadidos por um, assim chamado, “cristianismo da prosperidade”, julgar é a norma. Proíbem-se as crianças e os jovens de participar das festividades culturais, como se isso fosse o próprio fundamento da fé, contrariando as advertências paulinas. Um cristianismo contrário ao próprio amor do Cristo, cujos líderes hipócritas demonizam a festa, a brincadeira, o jogo, o prazer.

Não agravando a todos, mas, no Engenho Velho da Várzea já se imiscuiu essa postura. E isso dificulta a luta pela preservação da memória, da identidade do seu povo. Inoculam-se essas ideias de que tudo é errado, discriminam-se as festas e a alegria de viver, criando-se, em lugar destas, outras formas de cultuar, com rosas ungidas, relíquias da Terra Santa, e tantas novas formas de iludir e explorar a boa fé dos seus adeptos.

Já não vemos as festas populares, dos Reis, da Queima da Lapinha, o côco-de-roda, a quadrilha junina, as comidas de milho, os bolos, doces e licores, próprios da doçaria colonial, que ainda enchem de água a boca dos que viveram os bons tempos do engenho.

A postura é de uma moral engessada e preconceituosa, que é apregoada por líderes despreparados… o que digo? Despreparados? Muito pelo contrário. Em verdade, são preparados para defender um “evangelho de resultados”, que sustenta uma casta de falsos pastores, que enriquecem, enquanto os fiéis continuam pobres. Que se vão tornando políticos, com propósitos explicitamente reacionários.

O que fazer um ativista cultural, em ambiente tão refratário às tradições? Sinceramente, não sei. Vejo, com tristeza, nos documentários televisivos, tribos inteiras da região norte, em plena floresta amazônica, com seus pajés travestidos de “bispos evangélicos”, usando gravata e colarinho, numa aculturação que vai exterminando seus costumes, sua língua, seu povo. Estudos demonstram que muitos indígenas se tem suicidado, em meio à invasão de suas terras, de sua liberdade, de sua fé.

Já não se pode ter identidade cultural, desde que esta seja diferente do padrão que se vai impondo. E isso, à revelia do próprio evangelho do Cristo: “não julgueis!” Em vez disso, os diferentes serão perseguidos. E as formas de persuasão se renovam, desde as repetitivas lições da mnemotécnica dos jesuítas, que “domesticaram” nossos curumins, lá nos albores da colonização, até os modernos “gerentes de igrejas”, treinados para cobrar dízimos e ofertas, como se o seu deus fosse Mamom!

Aqui, no velho engenho a dança e a capoeira são olhados de maneira enviesada, por alguns. E o pouco letramento é um facilitador para a pregação do preconceito, calcado na oralidade, agenciada pelos que se interessam em amedrontar os neófitos, com as penas do fogo e do ranger de dentes, caso dancem numa festividade comunal, numa sambada, numa roda de capoeira, num inocente  banho de mangueira de carnaval.

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As diferenças dos diferentes são exageradas aos olhos dos fiéis, com o fim de dominar as suas mentes. Tudo então é pecado e a lavagem cerebral vai se impondo como regra de fé. Como aplicar aquele conselho freireano a uma situação tão adversa, para um ativismo cultural, em tempos como esses?

“É neste sentido que volto a insistir na necessidade imperiosa que tem o educador ou a educadora progressista de se familiarizar com a sintaxe, com a semântica dos grupos populares, de entender como fazem eles sua leitura do mundo, de perceber suas “manhas” indispensáveis à cultura de resistência que se vai constituindo e sem a qual não podem defender-se da violência a que estão submetidos. Entender o sentido de suas festas no corpo da cultura de resistência, sentir sua religiosidade de forma respeitosa, numa perspectiva dialética e não apenas como se fosse expressão pura de sua alienação. Respeitá-la como direito seu, não importa que pessoalmente a recuse de modo geral, ou que não aceite a forma como é ela experimentada pelo grupo popular.”
(FREIRE, P.; Pedagogia da Esperança: um reencontro com a Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1999, p. 107. Grifo meu)

Essa cronica, que se inicia mostrando o que há de comum nos ritos, nos mitos, nas liturgias dos antigos povos, é também um apelo pela tolerância entre os vários modos de cultuarmos o transcendente, para aceitarmos as diferenças e os diferentes e para tentarmos entender onde foi que começamos essa dissensão geral, que abre mão da cordialidade, da convivência pacífica, para, em vez disso, erguermos muros, grades e barreiras, que nos vão levando para os limites do desamor ao próximo e a ver o Outro, o diferente, como um rival, um impertinente obstáculo ao nosso modo único e conservador de ver o mundo, raiz de toda fobia, de todo ódio, de toda violência.

Que ninguém vos julgue, dizia o conselho paulino. E que, diante das diferenças e diferentes, nesse velho engenho do mundo, nós também não julguemos ninguém.

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Caçarola no Campus – ou, o Outro enquanto estorvo e impertinência

EMENTA:

“CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO DE REINTEGRAÇÃO DE POSSE. UFPE. CASA RESIDENCIAL CONSTRUÍDA NO CAMPUS UNIVERSITÁRIO. POSSE DOS RÉUS ANTERIOR À VENDA DOS TERRENOS À UNIVERSIDADE. PROVA DO DOMÍNIO PELA UFPE. PRINCÍPIO DA FUNGIBILIDADE DOS INTERDITOS POSSESSÓRIOS. INTERPRETAÇÃO RESTRITIVA. – No presente feito, a UFPE não conseguiu se desincumbir do ônus de provar a sua posse anterior a dos réus/apelados, não preenchendo, assim, o requisito previsto no inciso I do art. 927 do CPC. Ao ajuizar a contenda, procurou apresentar documento que provasse o seu domínio sobre o terreno, – escritura de compra e venda de vários lotes de terrenos da propriedade Engenho do Meio da Várzea – mas tal não se prestou a provar a sua posse anterior à dos réus.. Apelação e remessa obrigatória improvidas.”

(TRF-5 – AC: 415757 PE 0035558-13.2007.4.05.0000, Relator: Desembargador Federal José Maria Lucena, Data de Julgamento: 11/12/2008, Primeira Turma, Data de Publicação: Fonte: Diário da Justiça – Data: 13/02/2009 – Página: 182 – Nº: 31 – Ano: 2009)

 

Há uma razão para que eu esteja repetindo, aqui e no facebook, a publicação dessa ementa da Ação de Reintegração de Posse, em que a UFPE “descobre”, em Juízo, que o Arruado já estava aqui, antes de ser construída a cidade universitária. E a razão, ou o motivo que me move é tentar entender os funcionários e gestores que fingem não saber disso, por algum motivo que me escapa, seja por mero desconhecimento, maldade, cinismo, ou ainda, pela indiferença com o outro, marca da nossa desditosa sociedade.
Eu mesmo faço o mea culpa, posto que há algumas décadas, quando funcionário da UFRPE (Rural) não percebia os moradores do Campus Dois Irmãos, que passavam, invisíveis, pela porta do meu setor. Sabe, gente, a universidade era apenas o meu local de trabalho. Eu ia lá cumprir algumas obrigações funcionais e ganhar meu salário no fim do mês. O que disso passasse já me aborrecia. Lembro que havia uma senhora, muito idosa, cujo curioso apelido era Caçarola, que morava lá no fundo do campus, numa clareira, dentro do mato. Nunca a maltratei com essa alcunha pejorativa, porém, nunca me dei ao cuidado de saber quem era ela, o que, no fundo, era também uma violência. No entanto, o Serviço Médico da Rural lhe dava atendimento gratuito e ela transitava por todos os departamentos daquela universidade, sempre ralhando com quem gritava o seu apelido. Poucos sabiam ou sabem da história daquela anciã, moradora do campus.
Por isso, entendo bem a indiferença e o desdém dos gestores e funcionários da UFPE com as moradoras do Arruado que foram reclamar da excessiva quantidade de cloro na água da comunidade. É que os servidores não são obrigados a cuidar de outra coisa que não seja o patrimônio da instituição em que trabalham. Essa é a lógica que vigora em nosso pobre mundo. O Outro é uma impertinência diante do Eu. Quando reclama, é sempre um estorvo. Irrita-nos. Perturba a nossa zona de conforto.

“Ah, esses invasores e favelados, semi-analfabetos… que bebam água com gosto de água sanitária!” Pensamos assim, num primeiro ímpeto de aborrecimento. Isso é muito comum.

Porém, o lençol freático é público e a Estação de “Tratamento” de Água da UFPE foi erguida sobre a antiga lagoa do Engenho Velho, que tinha água limpa e cristalina, como o Riacho Cavouco, que hoje carrega os dejetos da cidade universitária. Os moradores mais antigos, os posseiros do velho engenho, pescavam piabas e pitus nas águas da lagoa e do riacho. A Universidade tenta tratar a água insalubre e parece exagerar no cloro. O que nos causa espécie, pois são os químicos e engenheiros que aqui se formam, que cuidam da água de toda a cidade do Recife.

“Ah, mas a água é de graça!” ora direis. E eu vos digo que pagamos impostos como todos os que moram do lado de fora desta UFPE. Em verdade, temos o amparo da lei, pelo acórdão da ação de reintegração de posse, que vencemos, mas, grande é o desamparo dessa vitória judicial. Parece que nossos litigantes, na pessoa de alguns gestores, fazem de nossos serviços básicos, uma vindita, uma retaliação, uma desforra. Apelamos para os vossos corações, que devem ser de cristãos. Imaginamos que devem cultuar ao mesmo Deus que cultuamos. Imploramos, que, quando estiverem na missa ou no culto, lembrem-se de nós, moradores, esses seres quase invisíveis; lembrem-se que somos, também, aqueles pequeninos, a que Jesus se referiu no Sermão Profético: (Mateus, Cap. 25, 42 a 45)

“42 Porque tive fome, e não me destes de comer, tive sede, e não me destes de beber.
43 Sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes.
44 Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos?
45 Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim.”

 

Sonhar com um mundo em que prevaleçam os princípios cristãos da boa vontade entre os homens e mulheres é mesmo uma utopia. Mais utópico é querer que uma universidade que, apesar de defender, teoricamente, um modelo de sociedade voltado para as ideias ditas de esquerda e humanistas, entenda, enquanto práxis, uma comunidade confinada em seu campus, como merecedora de atenção e de cuidado.

Nunca o Reitor colocou os pés no Arruado. Nem quando, em 2014, comemoramos o aniversário desta UFPE, sob os auspícios da antiga PROEXT. Passam, por aqui, os seus prepostos, fotografando, inquirindo, indagando de tudo. Creio que até que sem o conhecimento dele, do Reitor. Já vieram pesquisadores, arqueólogos, que mediram, anotaram e sumiram. Eles só se importam com o passado. Um até me disse que o casario do Arruado é do século XX, como se ser do tempo presente, não fizesse nenhum sentido para suas vidas.

Pobres intelectuais, vaidosos e de barriga cheia, cujas teses ficam guardadas em repositórios, escondidas do povão, e só servem para lhes dar os tão importantes títulos. Ai, de vocês, que não tem solução para os problemas do tempo presente, cujas consequências estão aí, nas ruas, lhes tocaiando, com o brilho da morte em seus olhos. (Triste lembrança me vem à mente, com a morte de um intelectual desta UFPE, aquele, de fato, engajado amorosamente com a pedagogia de Paulo Freire, e que foi assassinado brutalmente, em viagem de trabalho a Salvador).

O presente, senhores,  está aí, nos espreitando. O século XX é tão importante quanto o século XVI, para a vida humana, nesses primeiros 17 anos do novo milênio. Cuidemos dele, cuidemos, pois nele, no século XX, inventamos a mãe de todas a bombas, que não só pode destruir os seus queridos sítios arqueológicos, como as belas torres em que habitam seus filhos e netos. O presente é um desafio para todos nós,sejam moradores, professores, gestores e funcionários dessa querida UFPE!

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Há, no entanto, quem nos dê atenção. Temos parceiros nessa querida UFPE. A ProexC, de Christina Nunes, o NEAfi, de Ana Emília Castro, que também faz, a céu aberto, as suas aulas de Design Social, juntamente com a Ação Curricular em Comunidade, da profesora Gabriela Santana, com sua disciplina de Dança e Capoeira, que, de forma genial, trata as nossas heranças e devires, a partir do movimento, do corpo, da integração da arte com as memórias da comunidade.

Exceções, dentro do grande e plural organismo que é a Universidade Federal de Pernambuco.

Finalmente, essa cronica-desabafo é apenas para dar visibilidade a um processo judicial que já teve acórdão favorável aos moradores, em pleno STJ, que tive em minhas mãos no ano de 2014, e, lamentavelmente, não fiz as cópias que me foram oferecidas pelo advogado dos moradores. Em breve trarei esse acórdão para essa tela do wordpress, que me dá a oportunidade de fazer esses reclamos de cronista amador.

Talvez, com a leitura dessa ementa do processo judicial em que a UFPE foi derrotada, os gestores e funcionários abrandem os seus corações e comecem a olhar com outros olhos a causa dessas pessoas, confinadas no Campus Recife, da UFPE, que querem, como todo mundo, apenas viver nos seus lares, que já existem há mais de 100 anos, (eu diria, há 146 anos, aproximadamente), nessas terras do Engenho do Meio da Várzea.

 

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Pitombas do Arruado e memórias de uma guerra

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Quando eu era adolescente, lembro que da janela do meu quarto podia ver uma pitombeira. Era um pequeno quintal, mas com algumas árvores frutíferas. Abacateiro, cajueiro, coqueiros, caramboleira e aquela raquítica pitombeira. Lembrei dela ao ver as fotos que a minha comadre Beth Cruz fez da pitombeira frondosa da casa dos Souza do Arruado, por ocasião da aula de Design Social, em que fizemos a já tradicional trilha pelo caminho centenário do Engenho Velho da Várzea.

pitombas

Pitomba é fruta besta, diz o hino de uma agremiação carnavalesca olindense, cujo nome curiosamente é Pitombeiras dos Quatro Cantos. Talvez seja pela facilidade de encontrá-la nos sítios e chácaras dos arrabaldes antigos, nos quatro primeiros meses do ano.

No dia em que minha comadre fez essas fotos, logo fiz uma associação mental entre a pitomba, a festa dos Prazeres, também chamada festa da Pitomba, a batalha dos Guararapes e o Engenho do Meio da Várzea, onde hoje resiste o Arruado.

Não por acaso há uma frondosa pitombeira no chalé dos Souza. Afinal, estamos em solo histórico. Por esse caminho passaram os combatentes de Guararapes, batalha considerada como a primeira em que se reuniu um exército genuinamente brasileiro, com as três raças, negros, índios e brancos. É claro que a história oficial esconde a forma opressiva de como se arregimentaram índios e negros, com promessas de alforria e algum status entre os escravizados. No entanto,  o Exército Brasileiro comemora o dia 19 de abril de 1648, como a data do seu nascimento.

A propósito, na década de 1990, foram encontrados, no piso da Matriz de Nossa Senhora do Rosário, da Várzea, ossadas dos soldados mortos naquela batalha, homens de porte avantajado, vários com crânios perfurados por  balas de fuzil.

Na Várzea, como é consabido de todos, moravam os conjurados que lideraram a vitória luso-brasileira contra o domínio holandês, dentre eles, os compadres João Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros, senhores dos engenhos do Meio e São João, respectivamente.

Até 1946, ainda estava de pé o sobrado em que residiu um desses líderes, o Mestre de Campo João Fernandes Vieira. Esse casarão, que ficava no terreno doado para o campus, seria usado como morada para os reitores da Universidade do Recife, hoje UFPE, segundo projeto original do arquiteto italiano Mário Russo. Desabou (ou foi demolido)  misteriosamente, em uma noite de tempestade e, hoje, em seu lugar, está um monumento com estátua de Fernandes Vieira.

A ligação visceral entre o caminho centenário da Várzea está representado pela pitombeira frondosa do chalé dos Souza, que, esse mês está em plena safra. A associação pitomba, festa e batalha está então explicada, né, comadre Beth Cruz?

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Parque Histórico Nacional dos Guararapes tombado pelo IPHAN

          Os beneditinos realizam, desde 1656, uma festa dedicada à Senhora dos Prazeres, em comemoração da vitória em Guararapes, que o povo chama de Festa da Pitomba, por ser na época da safra dessa frutinha adocicada. Essa festa tem início na segunda-feira seguinte ao Domingo de Páscoa. Os romeiros e brincantes da Festa dos Prazeres acreditam que a Virgem apareceu aos combatentes luso-brasileiros (católicos), para lhes dar ânimo no combate aos batavos (protestantes). Reza a lenda que Nossa Senhora transformava pedras em balas, para ajudar os combatentes pernambucanos.

Em samba-enredo magistral, o compositor Martinho da Vila, no ano de 1972, exaltou a Festa da Pitomba, cujos versos primorosos, falam daquela epopeia nordestina:

Aprendeu-se a liberdade
Combatendo em Guararapes
Entre flechas e tacapes
Facas, fuzis e canhões
Brasileiros irmanados
Sem senhores, sem senzala
E a Senhora dos Prazeres
Transformando pedra em bala
Bom Nassau já foi embora
Fez-se a revolução
E a Festa da Pitomba é a reconstituição

Jangadas ao mar
Pra buscar lagosta
Pra levar pra festa em Jaboatão
Vamos preparar lindos mamulengos
Pra comemorar a libertação

E lá vem maracatu
Bumba-meu-boi, vaquejada
Cantorias e fandangos
Maculelê, marujada
Cirandeiro, cirandeiro,
Sua hora é chegada
Vem cantar esta ciranda
Pois a roda está formada

Cirandeiro, cirandeiro, oh
A pedra do seu anel
Brilha mais do que o sol

 

 

 

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NARRADORES DO ARRUADO: memórias, mitos e dramas.

          “O que há de melhor em nós é talvez legado de sentimentos de outros tempos, os quais já não alcançamos por via direta; o Sol já se pôs, mas o céu de nossa vida ainda arde e se ilumina com ele, embora não mais o vejamos” (grifo meu em, Nietzsche, Humano, Demasiado Humano – um livro para espíritos livres, Aforismo 223)
pavao doponto norte

Pavão sobre o telhado – Emanuel Brito

A gente cresce por fora,
Vivendo a vida recente.
Dentro, há muito mais d’outrora
Do que aqui se pressente.
A memória jorra agora
É irrupção no presente
E esparge coisas miúdas,
Antigas coisas e gentes
:
Ora é água de cacimba
salto solto em rio perene
e o baixio todo alagado.
Por vezes, estrada e sol
Léguas, pra ir no barreiro,
Pra dar de beber pro gado.
A memória traz visões,
nos sobressaltos da noite.
Cabriolas e pavões,
em cima de algum telhado,
A memória é dentro e fora
resíduo do impermanente
um imenso mundo que aflora
paisagem dentro da gente…
(poemeto de Lula Eurico)
Fonte da img:
AbARCA

***

 

“Mitou!”, dizem os nossos jovens, no facebook.

Mytho e Mito não mais expressam a mesma coisa, apesar do étimo. Nas redes sociais, surgiu o verbo “mitar” que significa se transformar em mito ou realizar alguma coisa de maneira exemplar. Em verdade, nas tais redes mede-se o mito pelo número de curtidas, em uma postagem ou comentário. Pode ser algo engraçado, bizarro ou inteligente, se, muito curtido, então, “mitou!”

A palavra mito já era tomada no sentido de lenda, parlenda ou fábula, por ter vindo da forma de expressar os mitos por meio das narrativas épicas ou mitológicas. Nesse sentido, são míticos os contos indígenas, da Mãe d’água, do Caipora, ou contos africanos, como o Negrinho do Pastoreio. Há elementos míticos na epopéia do Quilombo dos Palmares, que, narrado por gerações, nos chega com a força das lutas heroicas do povo negro escravizado. Há outros mitos que estão perto de nós e gerados pela cultura nordestina: o Padim Ciço, santo e milagreiro e o valente cangaceiro Lampião.

Há toda a mitologia greco-romana, iorubana, celta, árabe e de todos os povos do mundo, mesclada e miscigenada por todos os rincões do nosso país.

Até as cantigas de ninar, os acalantos, podem guardar elementos míticos, como a que inspirou o belo arabisco do amigo Emanuel Bezerra de Brito, Pavão sobre o Telhado, que abre essa crônica.

O mito ecoa naturalmente por todas essas expressões.

Só não aceito quando usam o verbete mito como sinônimo de mentira. Mitomania, eis um exemplo disso. Significa a pessoa que vive num mundo de fantasia, mas tão completamente, que, para ele, toda a mentira que conta é a sua realidade.

Mito não é mentira. É uma maneira de se acercar da realidade. E é assim que entendo o mito, baseado nos estudos dos culturalistas brasileiros, como o prof. Adolpho Crippa e de seu amigo, o filósofo Vicente Ferreira da Silva, que me trouxeram, mastigadinho, o pensamento de George Gusdorf, Mircea Eliade e Ernst Cassirer, Frobenius, dentre outros.

          Mythos é irmão do Logus, sendo outra maneira de pensar o mundo. Eu diria que o mytho é uma consciência profunda, um repositório das emoções humanas que não puderam ser verbalizadas. O mytho antecede a gesta e a épica, sendo o seu núcleo fundante. A narrativa mitológica, como a de Ulisses, remete a uma ancestralidade ou a uma anterioridade que a tudo precede.Por isso, o logus não é maior do que o mytho e um filosofema em nada é maior do que um mitologema ou mitema. São, no mínimo, complementares.

          Mas esse é assunto para uma outra cronica. 

Por tudo isso, não me comovi com o filme Narradores de Javé, que assisti para ser discutido na aula de Design Social, da profa. Ana Emília Castro. em que sou aluno-ouvinte.

Acredito que, na tentativa de se tornar mais comercial, sei lá!, o diretor daquele filme conseguiu tornar jocosas as memórias dos moradores do lugarejo fictício chamado de Javé, que iria submergir nas águas de uma hidrelétrica. Pareceu-me algo caricato e depreciativo, tratar como comédia, a dor daquela população, (que poderia muito bem lembrar Canudos, que já está submersa, ou Belo-monte, que está prestes a ser também).

Em suas Meditações do Quixote, o pensador espanhol José Ortega y Gasset afirmava que “parece somente adquirir a realidade um interesse estético, com motivo de intenção cômica.”  Macaqueando e, de certa forma, zombando, dos moradores de Javé, atingiu, o diretor, um efeito estético prazeroso, na trama, em detrimento, porém, do que havia de trágico, no tema por ele tratado. Perdeu a mão, infelizmente, o diretor, quem sabe tentando aquele humor dos autos de Ariano Suassuna, porém, com tema não apropriado.

Ali havia um drama, uma tragédia, inclusive com final bastante doloroso e infeliz para aquele povo. E, mesmo assim, os narradores foram apresentados como uma gente mentirosa e narcisista, contando ao carteiro-escritor, histórias mirabolantes, que visavam mais criar uma imagem fantástica do heroísmo de suas famílias, do que contar a verdadeira origem daquela povoação. Parece até que queriam mitar, como dizem os jovens, chamando a atenção para seus ancestrais, com narrativas fabulosas, que, ao final, nem foram registradas pelo pseudo-cronista.

Sinceramente, não gostei do tratamento dado ao tema. O filme é apenas divertido.

Arruadoplaca

Cá no Arruadinho não se inventam lembranças, pois as circunstâncias antigas e dolorosas estão no dia a dia das pessoas. Não há uma hidrelétrica, nem seremos submersos. O que há é o confinamento e, realmente, estamos mergulhados, sim, mas no ostracismo. Estamos no Engenho do Meio há 146 anos, tomando por base o casamento de Luiz de França de Souza, natural de Matriz da Luz, São Lourenço – PE,  e de dona Epiphânia dos Reis, nativa do velho engenho. Seus pais já eram posseiros, em terras dos Barros Barreto, no ocaso do século XIX.

          Portanto, há toda uma geração de moradores, cujas vidas estão imbrincadas com a vinda da Cidade Univerśitária para as terras do que foi a Usina Meio da Várzea e depois, já no início do século passado, Loteamento Residencial Engenho do Meio, cujo proprietário, o Dr. Joaquim Amazonas, teve parte de sua infância, como vizinho do pequenino arruado de moradores, que ainda permanece de pé.

Apesar de ser um povo alegre e festeiro, não vejo como narrar de forma cômica, mesmo que tragicômica, a história secular desses moradores. As agressivas expulsões de muitos deles, como a do Seu Pedro da Macaxeira, que tinha uma imensa plantação, onde hoje é o Centro de Convenções e a Concha Acústica, não nos permitiria uma narrativa animada. Dores, muitas dores, que se entranham na alma dessa comunidade, como os engramas sociais, dos quais já lhes falei aqui.

Os narradores do Arruado recordam as suas lutas, o seu sofrimento, as expulsões de seus vizinhos, a morte de alguns, por desgosto… não há muito a comemorar, mas são memoráveis os feitos da resistência, que encontrei, em pleno século XXI, com a organização do povo para lutar contra a destruição do calçamento da rua de entrada da comunidade.

Os narradores do Arruado não são meros fabuladores, nem têm motivo. Sua presença viva, dentro do Campus Recife da UFPE, se impõe como prova de sua luta.

Dona Inês, Dona Bete, Dona Biu, dona Angelina, Seu Mica, Dona Luiza e tantos outros, viveram os tempos difíceis da ditadura, entre a cruz e a espada, resistindo, para hoje dar testemunho da história vivida, por eles mesmos e por seus antepassados, muitos deles, que ajudaram a erguer esses prédios da UFPE e se tornaram funcionários públicos federais. São as suas viúvas, filhos, netos e bisnetos os moradores dessas casinhas, erguidas à margem do tricentenário caminho de acesso à Várzea, que cruza as terras do Engenho Velho.

São esses, os narradores e narradoras de uma história antiga e de um presente de luta e de resistência, pela posse da terra, pela sua ligação com a antiga freguesia da Várzea e, finalmente, pelo direito à continuidade de sua gente, confinada no campus Recife da Universidade Federal de Pernambuco.

 

 

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O DOM DOS FAISCADORES (ou, Carta a um jovem Designer)

Arruado do Engenho Velho da Várzea, 23 de março de 2017

Prezadíssimo Kleber Sales, bom dia, pois é cedinho da manhã que estou escrevendo essa crônica de diletante. 

Ao mesmo tempo em que me dirijo a você, em especial, também escrevo para todos os estudantes de Design, que, através da profa. Ana Emília Castro, tiveram e estão tendo suas aulas, sob as árvores centenárias desse Engenho Velho.

Escolhi a tua pergunta, na aula inaugural, como mote, como tema, para, juntos, reflexionarmos.

Não lembro exatamente as tuas palavras, mas, a força que há nelas me tocou, pois foi uma pergunta de ordem pragmática, e, como fui técnico, por muitas décadas, também trago preocupações de ordem prática. Quero sempre ir ao cerne do problema, para encontrar a solução. Tua pergunta sobre o que o grupo de estudos de Design Social iria fazer para ajudar a resolver, de fato, os problemas da comunidade do Arruado, me fez ficar pensando:

“Kleber é dos meus… Preciso dizer a ele sobre a complexidade dos problemas e de como tentar consertálos, digo, resolvê-los.” rsrs

Primeiro deixe-me dizer algo sobre as pessoas que tem o dom de ir ao “centro da questão”.

José Ortega y Gasset, meu guru espanhol, dizia que as interrogações possuem aqueles curvos ganchos, justamente para que não deixemos escapar as respostas essenciais. Só chegam às melhores respostas, os que trazem boas interrogações.

Dizem que há pessoas que já nascem com esse dom e que outras estudam técnicas que o fazem aflorar e se desenvolver. Algumas ciências, como a que você estuda, perseguem esse objetivo de ferir o âmago das coisas, descobrir o seu processo, seu fluxo, seu mecanismo, e, assim, penetrar aquilo que é essencial.

O Design, ao que me parece, tenta mesmo é aprimorar aqueles curvos ganchos da interrogação, fundamentais para resolver o que se nos apresenta como insolúvel e possibilitar o que nos parece impossível.

Por criativo, o designer parece desafiar qualquer amarra formalista ou acadêmica, embora parta dos pressupostos da disciplina científica, que lhe abre um arsenal de métodos, técnicas e teorias, para ajudá-lo a encontrar ou viabilizar soluções para os problemas de seu métier.

Faiscadores de Ouro, 1938

Faiscadores de Ouro – Portinari

Desse modo, equipado da criatividade natural e dos conhecimentos acadêmicos, o designer me lembra aqueles antigos faiscadores do ciclo do ouro, possuidores de uma espécie de clarividência que os fazia distinguir pedras preciosas onde os outros garimpeiros só viam cascalhos.

Sei que minha compreensão do Design é a do senso comum. Mas fico bem à vontade nesse aspecto, posto que, como dizia, os alunos dessa ciência transcendem, por necessidade de uma visão de conjunto, qualquer tipo de academicismo que lhes cortem as  famosas asinhas da imaginação. Eles entendem a minha linguagem, pois hão de entender a linguagem de todos aqueles que, buscam o seu ofício, sem entender o que realmente é o Design, palavra que caiu no gosto popular e que se usa do salão de beleza à indústria de aviões. Tudo é Design. Há até um gracejo que se faz, quando se acha uma pessoa bonita, seja moça ou rapaz, que diz: tua beleza é a prova de que Deus é um designer! rsrs

Portanto, são faiscadores, os designers, não só pelo descobrir ouro em cascalho, mas também porque atritam as ideias, até que delas saltem centelhas e lhes tragam a súbita luz da solução dos problemas.

Qualquer coisa lhes instiga a curiosidade. Olham uma simples caixinha de fósforos e se lhes acende uma espécie de instintiva reflexão. Seriam também filósofos, a perguntar às coisas por que elas são assim e não assado?

Creio que sim.

Portanto, ao vê-lo, meu jovem amigo, inquirindo, na primeira aula, qual o propósito da disciplina Design Social no Arruado, pincei a palavra propósito:

Adequação ao propósito, lembra a Bauhaus, né isso?

Não sou bem inteirado das origens do Design… sei apenas que tinham chavões como a forma segue a funçâo, etc. Mas a Escola Bauhaus é tão pop, que, mesmo no Brasil, todo mundo a conhece um pouco, por conta da adesão do Niemeyer e de outros arquitetos brasileiros ao seu pensamento.

Ao perguntar pela finalidade, pelo propósito, estavas, de certo modo, fazendo filosofia. E filosofia do Design, meu jovem amigo. Ainda bem que tua pergunta não foi a clássica: o que é Design? Mas, para que o Design irá até uma comunidade? Essa é bem mais fácil. Mas não tanto.

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Arruado do Engenho Velho da Várzea

Deixe-me então apresentá-lo ao problema, Sr. Designer! Agora a porca torce o rabo ou aperta o parafuso! Depende da porca…

O Arruado do Engenho Velho não é só história, patrimônio, paisagem verde, não. O Arruado é sua gente. Uma gente que sofre de um raríssimo confinamento, que, creio eu, em poucos lugares há de existir. Isolada no meio de uma instituição pública federal, tem todos os seus problemas ligados a ela. Entenda. Se fosse uma instituição municipal que nos confinasse, os nosso serviços básicos seriam atendidos pelos mesmos órgãos que atendem a todos os cidadãos recifenses. Mas, aqui, não. Água nas torneiras, energia elétrica, coleta de lixo, poda de árvores, limpeza de rua, tudo, tudo é feito pela UFPE. Imagine você o que sofrem os departamentos para terem atendidos os seus ofícios dos consertos mais corriqueiros, falta d’água, digamos, só para exemplificar. Se a demora é grande para os órgãos ligados à instituição, pense como será para uma comunidade que é tida por muitos como invasores e favelados. O problema é grande, meu jovem, e envolve esferas da alta administração, sempre ocupados com grandes questões acadêmicas, científicas e, até, políticas. Recentemente, recebeu a presidente Dilma, imagine? Para lembrar do humilde Arruadinho, com tantas preocupações grandiosas, a gestão demora muito, viu?

Se faltar água durante as férias dos encanadores, serão semanas de espera. Se uma árvore cai sobre a nossa fiação e só faltar energia na comunidade, só Jesus na causa!

Parece indiferença, desprezo, mas não é. Somos um corpo estranho dentro de um grande organismo, que só nos percebe quando dói. rsrsrs Ficamos invisíveis dentro do Campus e poucos são os funcionários, alunos e professores que nos conhecem.

Deixa eu dizer uma coisa interessante. Se um ladrão rouba nossas fruteiras, sabe o que dizem os seguranças (e não lhes tiro a razão):

Somos contratados para proteger o patrimônio da universidade e não dos moradores.

E fica por isso mesmo.

Como sairmos dessa sinuca? pergunto-lhe. E mais: como uma turma de Design poderia nos ajudar, nessas coisas que narrei?

Tentarei uma resposta preliminar:

Primeiro, nos enxergando, como fazem os faiscadores. Vendo o valor, a preciosidade que outros não conseguem ver. Esse é o ponto de partida. Não por acaso, os primeiros a nos ajudar na criação do Movimento de Resistência Popular do Arruado foram exatamente uma docente e seus alunos de Design. Claro que já estavam conosco os artistas da Várzea, uma moradora, com formação em Serviço Social e outra, que é estudante de Pedagogia da UFPE.

Creio que o Design Social, por gostar de desafios, tem vários deles aqui, no Engenho Velho.

A partir da descoberta do Arruado como uma pérola imperfeita, escondida na grande ostra acadêmica ( imagem que usei em outra crônica chamada de Um enclave quase gueto); a partir desse achado de faiscadores, os designers poderão trabalhar sobre essa imperfeição. E olhe que há muitas… muitas imperfeições nesse Arruadinho, confinado no Campus Recife da UFPE:

As necessidades básicas estão à vista de todos, as questões da posse da terra, o ostracismo e o preconceito por parte da comunidade acadêmica, seguranças e até professores… imagine? Há um docente de Arqueologia que nos chama de invasores. Nem tem lógica. Como um grupo de doze famílias invadiria um campus e construiria casas de tijolo batido, sem ser molestada pela segurança? Deixemos isso pra lá!

Mas a questão do pertencimento, da memória e da identidade são fundamentais. O Arruado está se perdendo de si mesmo, de suas raízes, de sua cultura e de sua história.

Talvez por isso, é que a Disciplina Design Social tenha escolhido recontar a história de nossa gente, usando o teatro de bonecos. E quanta possibilidade se abre num brincante como esse. Cenário, roteiro, construção dos bonecos, enquanto personagem e em sua estrutura material. Buscar as origens arcaicas desse teatro, suas estruturas arquetípicas e por que não, míticas. E enfim, inovar. Sim. Inovar em torno do processo de narrar do brincante, da construção da tenda ou barraca, das indumentárias; partir do que já é tradicional para usar elementos da modernidade.

No caso de recontar a história do Engenho e das famílias do Arruado, usar as técnicas de flash back… ou de superposições da temporalidade dos vários sujeitos e ambientes. E por aí vai.

Mas e a finalidade? a pergunta que ficou no ar…

Qual o propósito? né, Kleber?

Eu tenho uma resposta, das muitas possíveis:

Tirar do ostracismo essa comunidade, pode ser um objetivo. Usar toda a criatividade dos artistas e designers para construir uma narrativa local, que esteja linkada com o universal. Que nossos problemas humanos e específicos, sejam tratados como o problema de toda e qualquer parte do mundo. Exclusão, discriminação, violência simbólica, indiferença da máquina estatal com os problemas do povo, da nação.

Nisso podemos ajudar a comunidade. Levando esse espetáculo de títeres, de mamulengos, para outros espaços, outras comunidades, outras plateias, e, assim, dar voz aos sem voz, através dos personagens da trama burlesca. Sim. Nós podemos, Kleber! Façamos a nossa humilde p/arte!

Deixo um abraço fraterno. E bom semestre, no Arruadinho!

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E o Arruado? (exposição fotográfica da Disciplina Design Social)

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