O crítico boçal e o estandarte de Madeira (um causo para ler na quarentena)

Em tempos de quarentena, meus 13 leitores, me permitam escrever sobre amenidades e, contar causos pessoais, como faz todo aquele que viveu mais de 60 anos. Ou seja coisa dos sex… De velho, uma ova! rsrsrs (Sex é como uma grande amiga chama-nos, os sexagenários).

Pois bem, não me lembro bem da data, mas foi há menos de 10 anos, estava eu, junto ao querido bloco lírico Flores do Capibaribe, da Várzea, para uma memorável apresentação no Pátio de São Pedro. Memorável por duas razões: uma boa e outra, ruim. Ruim, porém, risível.

A boa lembrança foi a aula de história dos blocos líricos que nosso bloco apresentou naquela noite. Entremeando frevos de bloco e até marchas-rancho, Maria Antonieta, a nossa presidente, fazia falas curtas, sobre as singularidades das músicas, das letras, de seus autores e do contexto histórico, em que elas surgiram. Já havíamos feito isso, no aniversário da UFPE, no palco do Laguinho do Cavouco, (aquele lago que secou) e estávamos bem ensaiados. Tudo foi maravilhoso e nossa marcha-regresso levou às lágrimas um maestro que estava presente na plateia. Eu havia feito uma marcha de pastoril, em que descrevia todas as alas de um bloco lírico, que intitulei de Marcha de Apresentação, que, suspeito, seja algo inédito na modalidade de blocos líricos. Foi essa marcha de pastoril, o motivo da lembrança ruim:

Eu estava tocando violão, em apoio à orquestra, apenas fazendo ritmo, nesse meu jeito simples de tocar, (como se verá no vídeo abaixo), escondido atrás de nosso violonista, que era um virtuose, como de resto todos os nossos músicos, jovens talentos, quase todos filhos da Várzea. Por estar na orquestra, não vi o rebuliço nos bastidores. Um velho, de barbas longas, queria invadir o palco, para fazer uma correção, ao vivo, da letra de nossa Marcha de Apresentação. Eu só soube da petulância do gajo, quando ao descer a rampa do palco, me deparei com o tal sujeito, a conversar com nossa presidente. Parecia nervoso, contrariado. E eu ia passando reto, pois estava com certa urgência de ir ao mictório. O velhote me pegou pelo braço, me impedindo de adentrar ao banheiro químico dos camarins e disse: tem um verso errado! Eu não entendi direito, mas o xixi estava prestes a molhar minhas calças, então me soltei de sua mão com um safanão, e, ahh, que alívio! adentrei ao WC.

Na saída, estava lá o velhote a me aguardar. Bem na porta do banheiro! Começamos um bate-boca, coisa rara em minha pessoa, quem me conhece sabe de minha lhaneza no trato e minha calma em todas as situações. Os jovens da orquestra, ao me verem gesticulando e até dizendo uns palavrões, correram em minha ajuda e rodearam os dois velhotes em litígio. Era uma cena engraçada. Os jovens músicos e as coralistas estavam rindo daquilo. Dizem até que eu dei um tapa nas costas do meu oponente, que devia ter a minha idade, sendo mais forte do que eu. Eu não me lembro desse tapa… mas, deixemos isso pra lá!

A questão que fez com que o “crítico musical”, (que, me permitam, não declinarei o nome), tentasse invadir o palco, era uma bobagem. E consistia no fato de que, na quadra da marchinha em que descrevi a flabelista, eu chamava o nosso flabelo de estandarte. Era uma licença poética. E, modéstia à parte, estava bem colocada. Era assim:

“A flabelista dança com esmero/ traz o flabelo com muita emoção;/ Feito com arte, esse estandarte/ é o abre-alas da agremiação!”

Grifei as palavras acima para explicar a quem não conhece o carnaval pernambucano, especificamente, o dos blocos líricos, que flabelo significa leque e é uma espécie de estandarte, que vai na frente, abrindo alas para o bloco.

O velhote, com pruridos de crítico de arte, defensor da tradição, não observou a estrutura dos versos nem a analogia feita, dizendo que blocos não usavam estandarte e que nós estávamos errados. Creio que tinha até boa intenção, o nosso ancião, posto que a aula de Maria Antonieta fez tanto sucesso, naquela memorável noite, que seria um erro grosseiro, dizer, na letra da marcha, que nosso flabelo era um estandarte.

Eu me arrependo, em parte, por ter enxotado o nosso crítico musical, mas há um detalhe que ainda não contei.

Eu estava no meio de uma crise de hiperplasia prostática benigna, coisa de velho, e fazia xixi de instante em instante. Quando subi ao palco, fui logo ao WC. E toquei as 10 músicas da apresentação, pensando em descer rápido e ir direto pro banheiro. Mas, no meio do caminho tinha um velhote, tinha um velhote no meio do caminho rsrsrs E eu não podia ser interceptado naquele exato instante. Essa foi a razão da minha fúria.

O velhote, que depois eu soube, através do maestro Hamilton Florentino, que era uma artista plástico olindense e que fazia, e ensinava a fazer, flabelos para os blocos líricos, eu apelidei de Caromba. E, nessa marchinha do vídeo, é assim que eu me refiro a ele.

Finalmente, quem afugentou o nosso zangado velhinho foi o nosso coral. De repente, as coralistas começaram a cantar, à capela, o frevo, chamado Madeira que cupim não rói. Nele, o genial compositor Capiba diz, nos versos iniciais, que o bloco Madeira do Rosarinho “traz com seu pessoal/ seu estandarte tão original!”

Então, Maria Clara, a nossa Clarinha, uma das coralistas, perguntou ao velhote:

E então, o mestre Capiba está errado também?

Só lembro que o velhote ficou vermelho feito um tomate, bufou e disse:

Capiba também está errado!

Ao que Clarinha retrucou:

Mas todos cantam essa música, até o Ariano Suassuna, e ninguém reclama. Madeira ficou famoso por conta dela. E o senhor é o famoso quem?

Ao ouvir esse gracejo, e se vendo em apuros, o velhote deu meia volta e sumiu na multidão, que apinhava aquela prévia de carnaval, no pátio de São Pedro.

Eu, depois de passada a raiva, me desculpei com o pessoal do nosso bloco. E, ao chegar em casa, fiz essa marchinha, só para registrar esse fato, que está na história do Bloco Lírico Flores do Capibaribe da Várzea.

Perdoem esse violão mal executado e ruim, mas é assim que eu componho. Depois, entrego a música aos jovens da orquestra e às coralistas, que fazem o milagre de transformar essas coisas que componho, em belas e harmoniosas marchas de bloco.

É isso! Um causo engraçado para ajudar a passar a quarentena… rsrsrs

Sobre Eurico

Escritor e poeta
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Uma resposta para O crítico boçal e o estandarte de Madeira (um causo para ler na quarentena)

  1. Beth Cruz disse:

    Grande escritor, poeta e amigo🤗😉
    Meu compadre Lula. Evoé 🎶🎸🐦👏🏾🙌🏾🙏🏾

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