A meia-verdade dos jornais e a memória do povo do Engenho Velho da Várzea

Fiquei deveras lisonjeado, quando encontrei referência a esses escritos da boa idade, em trabalhos de conclusão de curso, outros blogs e sites. Mas fiquei mesmo felicíssimo quando os encontrei na página que mais gosto no facebook: Recife de Antigamente, um delicioso álbum de imagens da nossa cidade.

Na descrição, o editor da página diz que é só um álbum e não faz história. Mas, ele é, verdadeiramente, um pesquisador das coisas de antigamente. E isso o faz muito bem!

Encontrei, nesses dias de quarentena, duas excelentes notícias de jornal, da década de 1940, que me informaram sobre a venda dessas terras do Engenho Velho da Várzea, para que fosse construída, pelo governo estadual, a nossa querida Universidade do Recife, hoje, UFPE, federalizada durante os tempos do regime militar. (Gostaria até que fosse de novo estadualizada, para que saísse do jugo desse sádico e amoral ministro sem educação bolsolavista…)

Nessas crônicas de diletante, tenho sempre esclarecido que tudo o que escrevo é fundado nas minhas observações cotidianas e na oitiva da memória dos moradores e moradoras que estão há mais de 70 anos no lugar. Alguns, há mais de 90 anos. São crônicas baseadas em narrativas de uma memória afetiva. Aos sábados, há sempre uma reunião etílica  de um grupo que eu chamo de Meninos do Engenho. Ali, juntamente com o artista-plástico Fernando Serpa, colhemos as lembranças da infância feliz, dos sessentões que se reúnem, para dois dedos de prosa, entre goladas de cerveja ou lapadas da boa cachaça pernambucana. Escrevo sobre essas reminiscências…

Mas, tento, ao máximo, fazer uma narrativa que não fuja dos fatos documentados pela história oficial. Busco um meio termo, uma confluência, entre o mundo da oralidade e o mundo da escrita, como diz o quilombola, Antonio Bispo dos Santos, que nos visitou em novembro do ano passado.

No entanto, sou cronista de um imaginário, cuja proposta é o registro dessa oralidade, que permita a pesquisadores de verdade, a busca da documentação, arquivada em velhas mapotecas e gavetas desta UFPE e de outros arquivos, que nos tragam mais informações sobre as memórias que ouço dos nativos desse Arruadinho que restou do Engenho do Meio.

Por conta disso, venho lhes trazer duas imagens, interessantes que encontrei nos comentários do Recife de Antigamente, sobre minha crônica Um Barbeiro Memorioso e a chaminé da Usina Meio da Várzea.  

Eis as fotos:

Ao que parece a matéria dos jornais contradiz a memória dos moradores, que dizem que houve uma doação das terras, pela família Amazonas. O que houve foi a compra pura e simples das terras, por cerca de 10 milhões de cruzeiros.

Mas, pera um pouco…

Leiam o parágrafo abaixo. Ele afirma que o reitor apresentou a planta dos 140 hectares de um total de 150, das terras que pertenciam à sociedade Engenho do Meio Ltda. Restaram então 10 hectares, né?

jornal1948 corte

Mas, logo abaixo diz que os (dez) hectares restantes, eram lotes esparsos, segundo a notícia, adquiridos facilmente

lotes esparsos

Como nas crônicas de antanho, e, também nas crônicas de hoje em dia, há pequenas escorregadelas, que escapam aos que não possuem os curvos ganchos da dúvida.

Se não, vejamos:

Se foram tão facilmente adquiridos esses lotes, por que até 2007, a UFPE ainda brigava judicialmente com os habitantes do Arruadinho?

Há uma meia verdade, no texto do jornal. Não foram totalmente adquiridos os lotes do velho Engenho do Meio, como insinua, sutilmente, o texto. Aqueles chamados lotes esparsos ficaram com alguns posseiros, todos agricultores, que ainda pagavam uma espécie de percentual sobre a venda da lavoura, aos prepostos da família Amazonas, até meados de 1970.

A memória dos meninos do Engenho não os traiu. Até porque, segundo eles, só foram indenizados, os ex-moradores que possuíam os recibos desses pagamentos. Que o diga o Loirinho, que hoje vende raspa-raspa, pelo campus Recife e mora numa casinha lá na UR-7. Sua família foi despejada do lugar em que hoje é a Concha Acústica, com uma mão na frente e outra atrás… e seus amigos todos dizem: foi porque vocês não tinham os recibos.  Vejam isso:

No imaginário dos nativos, a família Amazonas vendia a permissão, por décadas, para que eles lavrassem a terra do Engenho, vendendo suas hortaliças, raízes e tubérculos, ao povo da Várzea e depois à CEASA. Seu Amaro Sebastião era um dos agricultores mais prósperos, e os caminhões saíam cheios de legumes, produzidos nas terras onde hoje funciona a bela Biblioteca Central da UFPE. Mas todos pagavam pela posse e uso das terras dos Amazonas, mesmo depois da construção do campus Recife.

Então, faço uma errata à crônica supracitada, agradecendo ao pesquisador da página, Recife de Antigamente, se não me engano, o Gustavo Arruda, de quem sou fã e seguidor. Porém, reafirmo em parte, as memórias dos moradores e ex-moradores, que ficaram naqueles lotes esparsos da notícia do jornal, que jamais foram vendidos, posto que a UFPE não possui a posse anterior à dos moradores, como consta em acórdão do TRF-5, facilmente encontrado na internet. Se a UFPE não tem a posse desses lotes esparsos, como conseguiu construir sobre eles, sem indenizar um lavrador?

Foi esbulho?

Sim. Houve esbulho sobre as terras das famílias que não foram indenizadas, posto que as terras pertenciam, por usucapião, aos moradores expulsos, como Seu Loirinho, do raspa-raspa e sua família.

Essa é a verdade inteira, pois a memória dolorida dos moradores expulsos, soma-se à meia verdade da notícia do jornal, em 1948.

É isso!

 

Sobre Eurico

Escritor e poeta
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