Apontamentos para uma Simbólica nº 13 – (Do avião aos tijolos míticos)

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu. (Fernando Pessoa)

aviao

Meus 13 leitores, por gentileza, digam-me aí: vocês já viram como as crianças pequenas olham a passagem de um avião?

Já.

Então tá.

E o que tem o avião com essa Simbólica amalucada?

Tem tudo.

E já lhes conto.

Quando estou a caminhar por este Arruadinho centenário e, sobre a minha cabeça, passa um avião, sempre (eu disse, sempre) surpreendo-me com aquele portentoso pássaro metálico, suspenso no ar. E esse espanto em nada difere do espanto que tenho com as outras coisas que vejo voar. Sejam libélulas (que a gente chama ziguezigue) ou colibris, (que chamamos de beija-flor), sempre surpreende-me o ato de voar. O avião, pelo voo majestoso, o beija-flor, pela rapidez de suas asas. Nos dois, o ato ou ação de voar é o que me espanta.

No avião, surpreende-me ainda, que, enorme como ele é, se deixe dominar mansamente, como na Índia, os elefantes se submetem a uma criança, nas ruas da Nova Delhi.

Meus olhos estão eivados (que bela palavra) de admiração pela realidade tal como a encontramos. A emoção com a patência das coisas, com o que está-aí, é algo esquisito em mim. Esquisitices…

A propósito, li em Hilda Hilst, que um seu personagem se comovia com tudo o que de mais trivial lhe chegasse às retinas. Seja com ossos secos, com cinzas de cigarro no chão, com um recanto de paredes. Tudo, tudo o comovia.

Confesso, estou no mundo, assim, sensível a tudo, como esse personagem da Hilda. E se me virem rir, olhando o saltitar esverdeado de uma rãzinha, não me tomem por louco. Pelo menos por isso.

Por que fico rindo só, ao olhar o saltitar da rã?

Rio de duas coisas: uma é a autonomia dos seres vivos. A rã não depende de mim para viver. A outra coisa é a liberdade. A rã tem toda a liberdade para saltitar na direção que bem quiser e lhe der na telha. Enche-me de surpresa e encanto essa autonomia dos seres vivos!

Quisera que só fossem essas as minhas estranhas surpresas cotidianas. Há mais coisas esquisitas que percebo em mim, morando nesse Arruadinho.

Há os tijolos antigos.

Imaginem só, alguém se surpreender com tijolos antigos! Fico a olhar pra eles tentando ver naqueles blocos de argila, as mãos que os moldaram, os pés que amassaram o massapê, o forno da olaria…

Mas, há algo pior, nessa minha doidice e que escondi até agora. Persigo, e já lhes disse no poema epígrafe, o que há de ancestral, de arquetípico, de mítico, nessa construção do engenho humano, nesse singelo tijolo batido.

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Ruínas de tijolo batido da chaminé da Usina Meio da Várzea

Mítico?

Sim. Creio que em tudo há o Mito. O Arcaico está amalgamado no tempo presente. Vejo nos olhos de todos, nos corpos, nos gestos, a herança dos povos aurorais. As casas, o casario centenário, e até mesmo as novas casas, construídas à revelia das interdições institucionais. Uma força ergue essas casas. E não é apenas a força dos pedreiros, dos carpinteiros… não. A força é a da necessidade de habitar, de se proteger. A casa é a caverna, é a maloca, a oca, oikos, o lugar para abrigar a prole.

Porém, antes dessa força havia a possibilidade de residir, de morar, de coabitar. Essa é a abertura mítica que há em tudo. Na fala, o comunicar; no pote, o beber; todo o possível, todo o factível é precedido de uma anterioridade. (Isso já é Crippa, falando em meu ouvido). Essa anterioridade, esse prius, é o mito. O mito inaugura a realidade… bem, deixa isso pra lá! Não queiram saber mais do que isso. Já há prova cabal de minha loucura! Mas, eu ia dizendo:

As casas dos trabalhadores do velho Engenho da Várzea!

O que as ergueu e o que as sustenta. Essa terrunha necessidade de se instalar no mundo, num território, que é própria do animal humano. Telúrica, é a palavra que eu queria dizer dessa força.

Surpreendo-me com as casinhas dos trabalhadores da Usina Meio da Várzea, ainda de pé, enfrentando todas as pressões da nossa querida UFPE. É comovente a apropriação histórica desse território, pelos descendentes, netos, bisnetos e tetranetos dos primeiros moradores desse vilarejo agrícola. As casinhas ainda estão de pé! Elas ainda estão lá!

Enquanto isso, desabou, em 1946, por desabitada, por não ter moradores, por já não possuir descendência, desabou a casa grande do Engenho. Desabou o casarão do João Fernandes Vieira, o latifundiário, o escravocrata… louvado como fundador das nossas forças de guerra.

***

Para entender esses fatos todos, aviões, colibris, rãs, tijolos e casas, apelo sempre aos meus dois gurus. Nesse exato momento estou emergindo da re-leitura em um deles: Mito e Cultura, do Dr. Adolpho Crippa, filósofo culturalista, natural de São Paulo.

Mas não foi só isso que me fez correr pra ele. Uma frase-estopim do Prof. Dr. Evson Santos, aqui da UFPE, me faz correr pro Dr. Crippa, como os protestantes correm aos textos sagrados. Nessa frase coruscante, o Dr. Evson une duas palavrinhas que já fizeram que se escrevessem tratados volumosos. Por elas, estudiosos e estudiosas deixaram de viver a vida, para vegetar nessa outra, que chamam de vida acadêmica e, assim, foram criados movimentos e ramos do conhecimento: psiquismo e cultura.

“Não existe psiquismo sem cultura“, disse, em sua tese, o Dr. Evson.

A cultura e o psiquismo não convivem uma sem o outro. Mas a frase de Evson, em que as duas palavrinhas foram atritadas, fez saltarem faíscas e incendiaram o meu pobre cérebro de autodidata.

Há dias que estou mergulhado no meu Mito e Cultura. Nenhuma resposta ainda achei. Mas trago muitas interrogações. Sou aquela criança olhando pro alto.

Aquilo lá é um avião, diz Dona Luiza à sua bisneta, Maria Gabriela, a mais nova moradora do Arruadinho, com pouco mais de um ano de idade.

Com 60 anos a mais do que Maria Gabriela, eu ainda me impressiono com ele, com esse pássaro mítico, essa espécie de pterodáctilo, que sobrevoa os quintais arborizados do Engenho Velho da Várzea.

Mas, nenhuma resposta ainda. E continuo a releitura do Crippa…

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Maria Gabriela com a bisavó Luiza

E a principal questão é aquela das aulas de Design, pelo caminho do Arruadinho peripatético:

Como? Qual o processo pelo qual?… questiona a professora Ana Emília Castro, em seu design centrado no humano, à sombra das árvores centenárias do Engenho Velho.

Ou seja, como e qual o processo pelo qual a Cultura envolve o Psiquismo? Aliás, quem envolve quem? E ainda, de que cultura e de que psiquismo trata o Dr. Evson?

Não conseguindo responder, o meu inconsciente, aquele do Dr. Freud, ou, talvez, aquele, do Dr. Jung, me trouxe uma imagem arquetípica:

M’boi Guaçu, a Cobra Grande, engoliu o ouriço e vive se contorcendo desde priscas eras.

Tudo leva a crer que, (a depender da interpretação de cada leitor), a cultura engoliu o psiquismo, mas, o bicho espinhento vive a fazer um estrago danado no seu bucho. E eu garanto que não fumo nada, muito menos canabis… (risos)

***

(Essa M’boi Guaçu é um esboço de uma possível narrativa mítica que hei de escrever, no dia em que as respostas às minhas dúvidas aflorarem à minha mente.)

***

A propósito, me veio agora a lembrança uma frase do saudoso amigo Maurício Peixoto, que pode estar ligada a essa imagem arquetípica.

O Arruado é o barroco dentro da universidade.

Tomando o barroco em seu sentido de “pérola imperfeita”, (como já escrevi aqui) estaria o Arruadinho esfolando o estômago da querida UFPE. O fato de ela esconder o lugar que lhe deu origem, não é a resposta freudiana ou jungueana, como queiram, para essa imagem da cobra grande e do ouriço, que me veio do inconsciente. Estaríamos eu e o Maurício falando da mesma coisa.

É verdade. Não há cultura sem psiquismo (e até sem psicóticos).

Vá entender!

Se tentar, endoida! (risos)

Sei que alguns leitores irão dizer que estou louco. Mas, que importa. De poeta , de criança e de louco, todo mundo tem um pouco.

+++

E, com essa releitura de uma crônica confessional, que fiz aqui, concluo a série de Apontamentos para uma Simbólica no Engenho Velho da Várzea, que são destinados, em particular, aos artistas e artesãos, que comigo estarão fazendo as intervenções simbólicas na paisagem deste Engenho Velho, ele mesmo, essa pequenina pegada, esse rastro de engenho extinto é um símbolo do que foi o Leão do Norte, que ficou a resistir à urbanização, ao desenvolvimentismo doentio, à caducidade de um modelo de civilização que, nesse exato momento histórico, se vê às voltas com uma pandemia, que a faz dobrar-se sobre si mesma, em estertores, para, talvez, regressar aos momentos aurorais e míticos, dos quais ela se perdeu, por esses caminhos do crescimento egotista e perverso.

Simbolizar é preciso!

Simbolizar cura, assim entendia C. G. Jung!

Plantemos na paisagem arruadense, uma simbólica!

Inté mais!

Abraço fraterno em todos e todas!

frasemp

Sobre Eurico

Escritor e poeta
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