Apontamentos para uma Simbólica – nº 12 (O Prius)

“Age de tal maneira que o motivo que te levou a agir possa ser convertido em lei universal”. (EMMANUEL KANT, Crítica da Razão Prática)
Tecelão Vincent_Willem_van_Gogh

Tecelão – by Van Gogh

O antropólogo interpretativista, Clifford Geertz, afirmava que a cultura é uma teia de significados (e de símbolos) tecida pelo próprio ser humano; por isso, a meu ver, nesses apontamentos para uma Simbólica, uma questão se impõe:

Se a sociedade dos humanos tece a cultura, quem fez o “tear” primordial?

Imaginemos o primeiro grupo de hominídeos, de posse da primeira “máquina de fazer cultura”, criando, por exemplo, a língua primeva.

Seria assim:

marcariam uma roda em torno da fogueira, para criar o primeiro idioma. Um escolheria os fonemas mais fáceis de pronunciar. Outro se encarregaria de escolher as coisas mais importantes a serem nomeadas… rsrsrs Um urro, significaria um piterodátilo sobrevoando a caverna. Dois urros: corram que aí vem um tiranossauro rex!

Em seguida, os mesmo hominídeos, criariam os costumes primitivos? Depois as artes aurorais? A religião?

Talvez, não necessariamente nessa ordem.

Resolvida a questão da fala,  diversas outras questões vão surgindo, derivadas daquela pergunta inicial:

Como seria tecer aquela teia de significados, usando o primeiro produto do tear cultural, que é a linguagem?

É essa tessitura produzida ou ela produz o homem?  Quem produz a quem?

Não esperem, meus 13 leitores fiéis, que eu me atreva a responder a tão profundas e complexa questóes.

***

Mas… recorramos ao velho e bom Adolpho Crippa, em Mito e Cultura, de 1975:

Será que Crippa nos apresentaria o inventor do “tear das significações”?

Permitam-me, então, trazer pra cá a epígrafe kantiana que digitei acima da imagem do tecelão de Van Gogh:

“Age de tal maneira que o motivo que te levou a agir possa ser convertido em lei universal”. (EMMANUEL KANT, Crítica da Razão Prática)]

Quero partir da anterioridade, do motivo, em relação ao agir humano. Principalmente, daquele motivo que possa ser visto como lei universal. Em verdade, vou defender, baseando-me, grosso modo, nas ideias de Crippa, que toda ação humana parte de uma anterioridade, que pode ser entendida como sendo a própria lei universal “que rege pedras e gentes”, como naquele poema famoso do Fernando Pessoa.

***

(Faço apenas um pequeno parênteses para esclarecer que nessas minhas perorações, ainda não adentrei a uma práxis, que é o que deveria advir dessas reflexões. Afinal, essa Simbólica deverá ser aplicada no Engenho Velho, território de gente simples e de poucas letras, porém com a singular inteligência do lidar com a vida, com a terra, com as técnicas rudimentares do cultivo, com a cultura telúrica dos agricultores. Portanto, na medida do possível, adentrarei no terreno de chão batido, que Geertz chamou de “o senso comum como um sistema cultural“. )

***

Mas voltemos a Crippa, em busca do tear inaugural, com que os homens e mulheres de antanho teceram a cultura. Sem olvidar do motivo kantiano, da epígrafe acima, que nos ajudará a ter um norte na selva das ideias em que agora iremos adentrar, meus pacientes leitores.

Diferentemente de Clifford Geertz, Crippa asseverava que é impossível definir a cultura a partir do homem. Propõe, em contrapartida, que há uma possibilidade cultural, que antecede o agir humano dentro da cultura.

Todos os projetos humanos, todas as ações feitas pelo homem, suas aspirações, valores, desejos, interesses, necessidades e ideais, supõem já, em aberto, um campo no qual tudo isso possa manifestar-se e pôr-se como definições da realidade humana.” (Crippa, 1975)

Retomo aqui o exemplo do cântaro enquanto gesto cultual. Crippa, citando Vicente Ferreira da Silva, filosóso paulista e heideggeriano, nos pergunta:

O que é o cântaro?

Se, no mundo profano, o cântaro representa apenas o oferecimento de uma bebida, nos primórdios, a bebida era um objeto de oferenda cultual aos deuses. O cântaro, então, surge dessa função original e exemplar, do mundo das significações profundas. A essência do cântaro está no oferendar, como objeto sacral, que veio a se tornar utensílio humano. Como o cântaro, todas as ações humanas, dentro da cultura, a casa, o altar, a lareira, a espada e até a linguagem, obedecem a essa possibilidade cultural, a essa anterioridade.

Em suma, aquele tear original das significações, proposto indiretamente por Geertz, só existe a partir da possibilidade humana de tecer significações. Em verdade, para Crippa, a cultura é um prius, que antecede todo o agir humano. Vejam o que nos pergunta Crippa, à p. 183, de seu Mito e Cultura:

Como poderia o homem criar palavras e símbolos antes de possuir o sentido da comunicação? Como edificar uma casa antes de sentir a necessidade de habitar? Como edificar um templo antes de uma experiência religiosa do sagrado?”

E responde:

Há uma linguagem primordial, da mesma maneira que há um residir antes do habitar, um sentir e um imaginar que antecipam as expressões artísticas, uma manifestação primordial do sagrado, antes de uma verdadeira experiência religiosa.

E então vem o mote que nos vai ajudar a penetrar na nossa simbólica do Arruadinho:

O falar, o pensar, o cultivar, o cultuar, o organizar são documentos incontestáveis do espírito humano. (…) e o espírito humano, em qualquer situação, expressa-se por meio de formas simbólicas.

Pelo pouco que entendi de Adolpho Crippa, a cultura é uma anterioridade, um prius, ou seja, o Ser que antecede o vir-a-ser. (!!!) e o tear geertzeano das formas simbólicas, das significações, com que o homem tece a cultura tem uma antecessora, que, segundo meu parco entendimento do que assevera Crippa, chama-se: a possibilidade de tecer.

A cultura então é, antes de tudo, essa possibilidade que antecede a ação humana. Eis o motivo do agir kantiano, da epígrafe acima.

Mas, papo reto: o que tem tudo isso a ver com as intervenções simbólicas no Engenho Velho?

Prometo responder na próxima crônica… quando tico e teco saírem desse choque que é reler Crippa, e pior, fazendo um cotejamento com as ideias de Geertz, que acabo de conhecer, apenas superficialmente, e, intempestivamente, já critico. Só no espaço do diletantismo isso é permitido!

Mas, tudo vale a pena se a alma não é pequena! Né, Pessoa?

E, nesse mesmo poema, Pessoa nos dá o mote para a próxima crônica:

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Até breve!

 

 

 

Sobre Eurico

Escritor e poeta
Esse post foi publicado em processo criativo e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s