Apontamentos para uma Simbólica nº 11 (uma ode agrária)

ENGENHO VELHO, MEL NOVO

(uma ode agrária)

 

“Afagar a terra
Conhecer os desejos da terra
Cio da terra propícia estação
E fecundar o chão…”

(Chico Buarque)

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I – Eflorescências

Quem vai sair para amanhar a terra,
bem de manhãzinha,
enquanto eu cometo essas abstrações líricas?

Como chegam à minha mesa o roxo nutritivo das rúculas,
os verdes e vermelhos das alfaces, do coentro, das tomates?

Quem são esses homens e mulheres do mato,
cujas mãos adubam os úberes da terra,
gerando flores e frutas,
a beleza e a saúde dessa minha alma urbana e sedentária?

A eles minhas melhores metáforas,
como ramalhetes de gerânios, de crisântemos,
essas estranhas eflorescências proparoxítonas,
que são tudo o que lhes posso oferecer.

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II – Antemanhã

…a luz mortiça de um candeeiro bruxuleante,
a iluminar a jarra junto à porta
e a mão calosa que tateia, à busca da tramela…
o mundo escuro, lá fora,
a porta que se abre e atrai as aves do quintal…

Arruado galinhas

Tii-tii-tiii!…
grãos de milho espargidos, à mancheia,
e a correria dos garnizés, das pedrezes, dos gansos, patos, marrecas…

Enquanto o galo, lá do alto, a tudo contempla e, fleugmático,
cumpre a sua missão de acender o Sol.

Nos fundos da casa, a foice e a enxada,
recostadas numa parede de taipa,
aguardam a repetição de sua faina diária…

A neblina, unção da antemanhã,
tinge de cinza o verde do milharal,
em que revoam os primeiros passarinhos,
salpicando o mundo de pequeninos pontos azuis,
amarelos, marrons e encarnados…

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III – Massapê

Um homem toma o caminho do roçado,
na boca o hálito quente do café,
o pensamento contrito no seu quefazer.

A enxada, em gesto antiquíssimo, faz uma elipse,
alça-se em direção ao céu
e depois afunda no solo macio e argiloso.

É o massapê.

A mesma terra mole com que se erguem as casas,
com que se moldam os potes e de onde se tira o sustento.

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Os leirões vão surgindo nesse terreno anônimo,
nas mesmas terras em que um dia reinava um verde-mar-canavial.
Plebeias hortaliças, raízes e tubérculos,
a nova vida de um novo mundo, sem feitores, sem senhores,
nesse Engenho do Meio, em que a velha bolandeira,
humilde e docilmente, logo aprendeu a fabricar farinha.

dona luiza arruado

IV – Marcos antigos, famílias antigas

O eito é imenso e tem por marco aquela macaibeira
que divide as terras dos Baracho da dos Pereira,
e vem até aqui, no fim dessa levada que desemboca no poço de Siá Rosa.

Na lida há muitas vidas,
de homens e de mulheres de fibra.
O velho Engenho, cuja história beira aqueles primeiros brasis,
do extermínio dos silvícolas,
da gana pelo poder;
agora está de fogo morto.

Mas. seu povo trocou a monocromia monótona da palha da cana,
pela vivacidade da agricultura famíliar:

Angelina, Chico, Manoel, Conrado, Pedro, Tóta,
Inez, Bete, Luisa, Mica, Paulinho, Nado, Dema, Galêgo, Silvino, Miguel, Bonifácio, Zezinho, Zacarias, Marcelino, Paixão, Edinho, Amaro Sebastião, Loirinho, Amaro Belarmino,
Maurício, Marcos, Leda, Marinês, Dalva, Margareth, Severina, Maria…

E tantos outros, homens e mulheres desconhecidos,
sem genealogia,
sem voz e sem história.
Seres intra-históricos,
como um dia disse Dom Miguel de Unamuno,
de seu povo basco, agrário e quase feudal.
Seríamos, assim, também,
uma ibéria invertebrada de aquém-mar,
um país a ser reconstruído
após as invasões de tantos povos?
Lusitanos,
gauleses,
batavos,
moçárabes,
sefarditas,
mesclando o sangue de heróis anônimos,
cujos corpos descansam no adro da matriz da Várzea…
e cujos netos mourejaram
e tetranetos ainda mourejam, na lavra dos senhores da terra.

Engenho São Carlos… Engenho do Meio,
movido a bois, com capela dedicada a Nossa Senhora da Ajuda:
tua bagaceira hoje é bananal,
é batateiras,
é macaxeiras,
é milharal.

enxada

V- A lida

Entretanto, a manhã avança e o mormaço.
O dorso da mão negra enxuga o suor na testa,
o olhar cansado pousa no horizonte…

Dias iguais, uns de chuva outros de sol…
Parcas palavras, (algumas jamais serão ditas),
a lida, apenas, a lida,
a safra,
a feira,
a montaria,
a cangalha…
O lar feito de sapé e taipa…
a filharada,
a lida…
o lidador e a lidadora.
um dia após o outro,
no engenho que parou de moer e em que nada será como antes…

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VI – O Futuro

O latifúndio ainda é extenso
e essa cidade universitária,
essa septuagenária senhora, em seus saberes,
vai engolindo o engenho extinto.

Removidas as ruínas da usina falida,
soterrados os alicerces da casa-grande,
misteriosamente demolida;
a moenda com almanjarra, em lugar incerto e não sabido;

Só nos resta essa memória renitente,
nesse canto agrário e forte,
em essa ode…
por essa gente do engenho, remanescente;
povo da lida, povo da vida,
e uma nova geração que ainda resiste,
moendo o tempo presente, mel novo, preto e viscoso, em engenho velho:

Léo, David, Bia, Alice,
Nicolas e Felipe,
Fernandinha e Stephany,
Rebeca, João e Amiel, Vinícius
Maria Gabriela, Maria Luisa, e Artur…

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E o macaquinho foi subindo, subindo e chegou na Lua... — com Beth Cruz.

 

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Sobre Eurico

Escritor e poeta
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