Apontamentos para uma Simbólica do Engenho Velho da Várzea nº 9 – (O Mar)

O mar é belo. Mesmo quando quebra na praia, é bonito. As ressacas de agosto, as ondas arrebentando contra os arrecifes; o mar, na superfície, encapelado pela rajada dos ventos… é bonito, é bonito, dizia o poeta baiano.

Mas há um mar profundo. Longe da superfície, longe da força do vento… um mar profundo e sereno, onde medram corais e madréporas, que inspiraram uma das mais belas imagens da moderna ensaística.

Las olas de la Historia, con su rumor y su espuma que reverbera al sol, ruedan sobre un mar continuo, hondo, inmensamente más hondo que la capa que ondula sobre un mar silencioso y a cuyo último fondo nunca llega el sol. Todo lo que cuentan a diario los periódicos, la historia toda del “presente momento histórico”, no es sino la superficie del mar, una superficie que se hiela y cristaliza en los libros y registros, y una vez cristalizadas así, una capa dura, no mayor con respecto a la vida intrahistórica que esta pobre corteza en que vivimos con relación al inmenso foco ardiente que lleva dentro.
Los periódicos nada dicen de la vida silenciosa de millones de hombres sin historia que a todas horas del día y en todos los países del globo se levantan a una orden del sol y van a sus campos a proseguir la oscura y silenciosa labor cotidiana y eterna, esa labor que, como las madréporas suboceánicas, echa las bases sobre las que se alzan los islotes de la Historia. […]
Esa vida intrahistórica, silenciosa y continua como el fondo mismo del mar, es la sustancia del progreso, la verdadera tradición, la tradición eterna, no la tradición mentida que se suele ir a buscar en el pasado enterrado en libros y papeles y monumentos y piedras.” Dom Miguel de Unamuno, Fonte: https://prezi.com/f3dksk-tj4ut/historia-e-intrahistoria/

E este mar profundo é apenas um pretexto para unir,  aqui nesse apontamento nº 9, a intra-história unamuniana, com essa passagem extraordinária, que encontrei num excerto do Livro Vermelho de Jung, aqui na rede:

Eu aprendi que, além do espírito dessa época, ainda está em ação outro espírito, isto é, aquele que governa a profundeza de todo o presente.” (…)  O espírito da profundeza possui, desde sempre e pelo futuro afora, maior poder do que o espírito dessa época, que muda com as gerações. (…) (O espírito da profundeza) forçou-me a descer às coisas mais simples e que estão em último lugar.” C. G. Jung, in, O Livro Vermelho.

***

Muito interessante, que dois gênios tão díspares, cheguem à mesma conclusão quanto ao que há de atemporal, submerso no momento presente. Chega em boa hora, essa compreensão do quanto é superficial, esse mar revolto em que se tornou o nosso país. A meu ver, devemos buscar a profundidade dos eventos presentes. Há uma saúde, a Grande Saúde dos místicos, no fundo abissal do oceano da história, ou da intra-história, como alertava Unamuno.

Por isso, entendo que uma Simbólica nesse momento, evitará a superficialidade das águas. Decerto, toda essa marola fascista passará, com o espírito dessa época. Essa é a minha esperança! E é uma quase certeza, posto que já vi muitos desses minúsculos tiranos sumirem na noite da história. E, no Brasil, então, em que o povo costuma virar de lado com a maior facilidade, essa onda conservadora se desfará na areia, em breve!

Invistamos, então, numa Simbólica abissal. Busquemos o que é nela, atemporal e profundo. Mergulhemos nessa Simbólica, à busca das coisas mais simples e derradeiras, como fez Carl Gustav Jung.

E sigamos, com os que creem na beleza do mar e no transitório das ondas, que ora se elevam. Quanto mais alta a onda, mais se desfaz em espumas, arrebentando contra os arrecifes inexoráveis da História.

Oxalá!

 

 

 

Sobre Eurico

Escritor e poeta
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