Os silêncios e os aplausos na I Semana da Antropologia da UFPE

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“A solidariedade dos homens anda a par com a solidariedade dos saberes”, dizia o professor Georges Gusdorf, nos idos de 1978.

(Eu acrescentaria a essa frase, sem medo de cometer um anacronismo, também, a solidariedade das mulheres, cujo saber empoderado e fecundo, felizmente, já nos alcança e se impõe, neste insólito ano de 2019)

Fechado o parênteses, volto ao tema que já trabalhei em outras duas crônicas de diletante, anos atrás, a saber:

O Arruado da UFPE: uma ilhota num arquipélago acadêmico

e

Istmos, ponttes e overdrives – para unir a ilhota do Arruado com a UFPE

Retomado agora por outro viés, esse tema da solidariedade dos saberes, surge de um momento incomum, que aconteceu durante a I Semana da Antropologia da UFPE, no dia 12, do corrente. O momento do silêncio ensurdecedor, diante do contundente pensador quilombola, Antonio Bispo dos Santos, que enquadrou, por assim dizer, a todos os alunos e professores presentes, com a pecha de produtores de um saber colonizador, sintético e apartado da vida. Um saber do Ter, em vez de um saber do Ser. Nesse momento, até eu fiquei silente. A proposta da roda me permitira um aparte. Mas, o convidado vinha de tão, tão distante…

Meu silêncio foi de hospitalidade e de cortesia. Creio que a maioria teve o mesmo comportamento que eu. Talvez muito polido e eurocristão. Mas, esse sou eu! Somos nós, talvez!

Em seguida, numa estratégia de ataques-surpresa, o nosso nobre intelectual e escritor quilombola, acusa toda a comunidade acadêmica de ir às comunidades para roubar o saber tradicional. A platéia, pasmem, aplaudiu.

Eu também aplaudi. Mas me ficou um sentimento estranho nas mãos. Foi um aplauso mimetizado e mais uma vez, polidamente eurocristão.

Fiquei remoendo esse silêncio e esse aplauso mimético.

Por acaso, teria uma reunião em seguida, com o pessoal do D.A. de Arqueologia. E, como toda ausência é atrevida, disse, na reunião, tudo o que calei, na roda de conversa, tendo como testemunhas, a professora Ana Emília Castro e o ativista cultural, Fernando Serpa, ambos representantes da A.M.A, Articulação dos Moradores e Amigos do Arruado.  Enfim, minha questão era de como reformular todo o saber acadêmico, egresso, quase que em sua totalidade, dos países do Velho Mundo, questionado, duramente, pelo Nego Bispo.

Como abrir mão, por exemplo, dos conhecimentos eurocêntricos de geologia e geofísica, no caso dos estudantes de Arqueologia, representados na reunião pelo D.A., eles que queimam as pestanas, com todas as ciências auxiliares, imprescindíveis ao seu fazer arqueológico, todas advindas da Europa?

Como desdenhar de um Boaventura de Souza Santos, de Foucault e até de Marx, como me pareceu desdenhar o Sr. Bispo dos Santos?

Eu, sinceramente, não sei como!

Talvez, os ataques do mestre Bispo, sejam apenas da ordem retórica. Retórica que ele possui de forma intuitiva, mas genial, eu diria.

No entanto, eu, um rato de biblioteca, um fuçador da palavra escrita, desde a mais tenra infância, nem sei como me calei. Eu que assisti a juventude desta UFPE, discorrer com maestria, aqui mesmo neste Arruadinho, sobre diversas áreas do conhecimento científico, admirado, eu diria até, encantado, com os seus saberes, e impressionado com a qualidade do ensino desta UFPE; eu que não posso depreciar os saberes desses docentes, que não podem regredir, a essa altitude da história, a uma espécie de zero dos saberes, a um certo adamismo epistemológico,  impossível e inviável, como se entrássemos no túnel do tempo e resetássemos tudo o que as ciências humanas e exatas já produziram, em benefício de toda a humanidade.

Verdadeiramente, o Nego Bispo tem toda razão quando fala da necessidade de um encontro das águas, de uma confluência dos saberes. Mas, cada rio precisa  preservar a cor das suas águas, nessa afluência conflituosa, do saber da oralidade e da escrita. E se preserva a cor do rio, respeitando a diferença, a consistência do líquido, que vem de duas nascentes antiquíssimas. A solidariedade dos saberes pressupõe a solidariedade dos povos, das nações, das civilizações, nesse encontro proposto pelo Bispo e, de há muito, realizado pela academia. Respeito para os dois lados.

Talvez, quanto ao método, os pesquisadores tenham cometido alguns equívocos, que se podem resolver, nessa caminhada pelas fronteiras dos dois mundos, como também propõe o Bispo dos Santos.

A universidade pública, que vem sendo atacada frontalmente, por um governo obscurantista e energúmeno, precisa de aliados e não de detratores. O momento é de se solidarizar. E é da solidariedade de saberes que cuida a Articulação dos Moradores e Amigos do Arruado do Engenho Velho – A. M. A.,  que tem entre seus colaboradores, artistas populares, ativistas culturais, docentes e alunos desta UFPE, na qual estamos inseridos geograficamente e de cujos saberes temos colhido a fruta serôdia, a seu tempo,  por exemplo, essa saborosa fruta madura, que foi a abertura da I Semana da Antropologia, promovida pela PPGA/UFPE, nesse final de 2019, um ano que veio para nos reensinar a palavra: luta. E luta com solidariedade dos homens e das mulheres, com seus saberes, quereres e fazeres, na diversidade, mas,  juntos, unidos e preparados para o combate que se avizinha.

Paz e Bem!

 

Sobre Eurico

Escritor e poeta
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