Nego Bispo e o sopro na brasa das coisas

A palavra esfria a brasa das coisas, dizia-me o amigo Carlinhos do Amparo, blogueiro e filodóxo olindense. Lembrei disso quando ouvi o intelectual quilombola, Antonio Bispo dos Santos, dizer que o colonizador, antes de dominar, nomina as gentes, como faz um adestrador com seus bichos. Nominar é tirar a coisa do seu ser original, dizia ele, mutatis mutandis.

Criar palavras, dar nomes. definir e conceituar, em verdade, amansa, esfria a brasa que há no ser, dizia-me o amigo Carlinhos, entre goladas de vinho de jurubeba, num botequim escondido, numa viela das Olindas. Acho que o nosso intelectual quilombola gostaria de entabolar uma conversa com o Carlinhos do Amparo. Os dois muito se assemelham, na crítica ao que chamam de “dar nome aos bois”, para adestrá-los, e no costume de ter a palavra “molhada” pela cachaça boa de nossa região.

No entanto, embora crítico do ato colonizador de nominar, paradoxalmente, o melhor do Bispo dos Santos está no uso das palavras, enquanto analogias. Momento singular e sugestivo, durante a I Semana de Antropologia da UFPE, foi a passagem sobre a confluência das águas de dois rios:

Dois rios se encontram mas não deixam de ser rio, dizia ele. Um rio só se desaparece se desaparecer sua nascente.

Não são belas essas imagens?

Mas não podemos esquecer que essas imagens são feitas com palavras. Se escritas ou faladas, não deixam de ser palavras. E não podemos negar que o discurso do Bispo é rico em imagens.

Curiosamente, enquanto critica a academia por um discurso fechado e sintético, vai o nosso intelectual piauiense, criando seu próprio vocabulário, sua terminologia, ou, se quiserem, seu estilo filosófico, imagístico e metafórico, em que defende sua cosmologia.

Apesar de sua contundente crítica ao mundo da palavra escrita, o discurso de Bispo dos Santos é inovador e cheio de neologismos, que beiram o estilo literário. Bispo é, em verdade, um escritor, mesmo egresso de seu mundo da oralidade!

Bispo1

José Ortega y Gasset, filósofo de rara simplicidade e, talvez por isso, quase desconhecido no meio acadêmico, diria que o discurso do Nego Bispo, é, por assim dizer, apocalíptico.

Calma, gente!

Apocalipse aqui, no sentido de revelação, se remete à descoberta da verdade, por iluminações, que os gregos chamavam de aletheia, ou seja, a verdade que se revela na fulguração do acontecer:

Essa iluminação subitânea que caracteriza a verdade, só transparece no instante da descoberta, daí seu nome grego, alétheia, (…), revelação, desvelamento, tirar o véu ou  a cobertura.” (Meditações do Quixote, p. 75)

Oxente! E essa espécie de discurso sedutor, com palavras envolventes, não é mais próprio da literatura, da ficção? Pode a filosofia ser tão metafórica?

Por que não?

Metafórica e alegórica, também! Vide a famosa Alegoria da Caverna, de um grego chamado, Platão.

Mestres costumam usar a linguagem simples e falar por analogias, basta ler o Padre Vieira, em seus sermões. Basta lembrar as mensagens memoráveis de Jesus, o Nazareno, falando aos pescadores e populares, nas ruas, nas praias e nos montes da sua terra.

Mal comparando,  o Bispo, como o Cristo, faz analogias a partir de sua vida no quilombo, na caatinga, no meio de bois e de cabras. É nesse seu universo simples, de parco vocabulário, que ele busca criar uma narrativa. Com a inventividade de seu tirocínio de homem vivido nas lutas de sua gente, Bispo vai construindo um arsenal de conceitos e de ideias, que nos revelam aspectos da realidade que nomeia. Novas palavras, novos nomes, para coisas que foram nomeadas pelo colonizador. Refunda, o nosso pensador, o Pindorama dos primeiros nativos da Bahia. Usa cada imagem, cada alusão, cada exemplo ou causo contado de suas vivências, como instrumento de contra-colonização:

“O burro é inteligente, porque não se deixa domar. O cachorro é que é burro, pois se deixa adestrar e ainda mata o seu igual para defender o adestrador.” assevera, o combativo quilombola.

Em seu discurso, Nego Bispo renova a nossa compreensão do mundo circundante, da nossa circum-instantia. Nele há um sopro poderoso, que reacende palavras antigas e antigos conceitos, como quem abana as brasas adormecidas de um mundo originário.

Acena para um saber orgânico, que jaz sob o saber do colonizador. Um saber que está envolvido pela vida, um saber da primeira natureza chardiniana; um saber tão puro, que nos lembra os pré-socráticos, com sua physis, conceito fundante de toda a cosmologia grega.

A força de sua palavra está nessa abundante estesia, que se contrapõe à anestesia a que estamos submetidos, nesse mundo sintético do colonizador.

Embora, eu, pessoalmente, faça ressalvas ao seu discurso político, por ele entender como iguais,  dois momentos históricos, diametralmente opostos, como os governos do Lula e do atual mandatário da nação, mesmo assim, reconheço que há verdades no seu discurso e que uma confluência é possível entre os vários saberes. Ninguém é perfeito e acabado. Nem o nosso mestre, né mesmo?

De sua passagem pelo Recife, fica a lição de que precisamos soprar as brasas adormecidas de nossos saberes originários e tradicionais. Portanto, convido a todos e a todas, para uma boa conversa, à sombra das árvores centenárias do velho Engenho do Meio, onde hoje funciona a poderosa Universidade Federal de Pernambuco.

Salve, Deus, que pequeno sou eu!

 

 

Sobre Eurico

Escritor e poeta
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