Estudando Nego Bispo

nego bispo livro

Vicente Ferreira da Silva – isso lá é nome de filósofo?

Pois, é sim! E brasileiro. Primeiramente, filiado à filosofia alemã, esse pensador dá um salto e surpreende a todos com ideias próprias e cujo alcance ainda não foi devidamente avaliado pelos seus pares. Continua quase desconhecido!

Temos filósofos, sim. E aqui no Pindorama, só pra contrariar aquele pedante que disse que só se pode filosofar em alemão e que foi, poeticamente gozado, por Caetano Veloso, na canção genial, Língua:

“Se você tem uma ideia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão”

No entanto, me veio à mente o nosso Vicente Ferreira da Silva, apenas para chamar de pensador, o intelectual quilombola Antonio Bispo dos Santos. Aliás, um pensador ao modo helênico, como diria Teilhard de Chardin, nem tanto um filósofo, mas um estudioso dos fenômenos da physis, ou seja, um físico, no velho sentido grego. Naquele tempo, o fenômeno humano era estudado como parte da natureza, e, estudar o homem não era algo apartado do resto das coisas, nem do cosmos.

Assim, apresenta o Nego Bispo as suas ideias, todas inseridas na vida, pois a vida, como dizia Ortega y Gasset, é o próprio órgão da compreensão. Só se entende algo, vendo como esse algo funciona na vida.  Desse modo, Bispo nos remete a dois modos do saber, um orgânico, vital, e, outro, sintético, artificial. E a partir desses dois fundamentos, erige todo o seu jeito de ver o mundo. Da agricultura ao Direito, da política à religiosidade, todo o saber se encaixa nesse antagonismo dual, entre o orgânico e o sintético.

Não por acaso, citei o padre Teilhard de Chardin, (mais paleontólogo do que padre), que pensava fora da caixa, como o Bispo, e que cunhou, semelhantemente, a ideia de que há duas naturezas. Uma seria a natureza em si, como surgida ou criada, e uma outra, a segunda natureza,  artificial e sintética.

O geógrafo e pensador Milton Santos nos ajuda a entender Teilhard de Chardin e por extensão o Nego Bispo, quando afirma que a primeira natureza representa o espaço natural que não foi alterado pelo homem, ou seja, aquele que não sofreu nenhum tipo de modificação em sua estrutura. Já a segunda natureza, corresponde ao espaço artificial em que vivemos.

Pelo visto, Nego Bispo não está só em seus conceitos.

Até Baruch Spinoza, o ébrio de Deus, refletia sobre a natureza como um processo ativo e vital, que chamava “natura naturans“, natureza criadora; e como o produto passivo desse processo, “natura naturata” natureza criada. Para Spinoza essas duas naturezas estão contidas em Deus, que seria uma natureza geral.

Não poderia esquecer do ideário de nosso Vicente Ferreira da Silva, acima citado, também ele, um pensador iconoclasta, como o nosso Bispo dos Santos, radicalizando contra tudo o que fosse advindo do pensamento judaico-cristão.

Para Ferreira,  o cristianismo humaniza Deus, mas deifica o homem e, por conta disso, o transforma em Senhor todo poderoso da Terra, o grande profanador da natureza e dos cultos telúricos pagãos.

Por sua vez, Bispo ataca o colonizador euro-cristão e monoteísta, cuja ambição devastou nossas florestas, nossos mares, nossos rios e profanou nossos deuses, negando o nosso politeísmo pindorâmico.

Muito semelhante ao pensamento orgânico-versus-sintético, do Nego Bispo,  Ferreira da Silva se fundamentava no aórgico, em contraposição ao órgico.

“O aórgico é tudo aquilo que não foi posto pelo homem”, dizia Ferreira, “é o que não se apresenta como resultado da produtividade artístico-criadora do sujeito”. (in, Revista Convivium, nº 3, 16, apud, G. M. Kujawski, Perspectivas Filosóficas, p. 169)

Evidentemente, não existe um adamismo filosófico, e, em sendo assim, mesmo o nosso criativo intelectual quilombola não seria um Adão dos trópicos. Todo o seu saber de experiência feito veio beber nessa confluência com o saber acadêmico. Não há negar o valor de sua palavra, potente, feito marteladas nietzscheanas. No entanto, no bojo de suas ideias, ecoam conceitos de há muito preconizados nesse nosso mundo ocidental e colonizado.

Vejamos:

O conceito de biointeração, em que ele defende uma lavoura orgânica e voltada para a vida, em que nenhuma planta é considerada daninha,  não seria algo semelhante à agrofloresta e ao cultivo sintrópico, que foi tema até da novela das nove?

Por sua vez, o conceito de contra-colonização, defendido por Bispo dos Santos, não seria uma extensão do conceito de decolonialidade ou descolonialidade, já discutido à exaustão, desde o surgimento da obra de Aníbal Quijano?

Enfim, não teria o mundo da palavra escrita se assenhorado do pensamento do nosso simpático intelectual quilombola, que, mesmo egresso do mundo da oralidade, passa a publicar seus livros e a transitar nessa tênue fronteira da confluência dos dois mundos: o colonizador e o contra-colonizador; o científico e o de experiência feito; o da escrita e o da oralidade; lembrando, e muito, o moleiro Menochio, do livro, O Queijo e os Vermes,(Ginzburg, 1976 ), cujas leituras também o fizeram questionar a teologia cristã e o criacionismo bíblico, em um mundo, muito parecido com esse de hoje, nesse país, tomado de assalto, por uma horda de políticos fundamentalistas cristãos?

Por outro lado, nessas suas andanças pelo Brasil, em que apresenta seu quilombo como uma outra civilização possível, não seria de bom alvitre apresentar uma proposta resolutiva, como ele costuma falar, para os que estão fora dos quilombos, expostos à sanha do capitalismo financeiro e expropriador de nossa vidas?

Deixo aos meus 13 leitores, essas interrogações, que não por acaso, trazem os curvos ganchos dos anzóis, como dizia, mais ou menos, o pensador espanhol, José Ortega y Gasset, para fisgarmos as respostas .

Abraço fraterno, a todas e a todos!

Sobre Eurico

Escritor e poeta
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