Da boa inveja, ou, Quero um quilombo pra chamar de meu!

Eu também tive uma avó chamada Joana. E ela sempre me alertava para algumas coisas que pareciam simplórias, mas que guardavam uma sabedoria secular. Por exemplo, dizia ela que existe urtiga branca, rosa branca, enfim, branca é uma das cores que a natureza apresenta. Todavia, o dizer, “inveja branca” é preconceituoso, porque se trata de uma boa inveja, em oposição à “inveja preta”, sendo a cor preta alusiva ao que não presta. Entretanto, é de bom alvitre dizer que o café preto, por exemplo, demonstra a qualidade positiva dessa cor e é notório que só se vislumbram estrelas, nas noites escuras, feito breu.

Era bom ouvir a minha avó Joana… e eu guardei suas lições.

Haveria ainda uma inveja mimética ou um desejo mimético, (e isso descobri nos livros!), em que se deseja o que o outro deseja ou possui. Um fenômeno recorrente dessa chamada  inveja mimética é aquele que ocorre quando um vizinho adquire um bem, e, geralmente, um outro vizinho adquire exatamente o mesmo objeto. Isso acontece porque se deseja segundo um modelo, uma imitação do outro. Dessa inveja, trata o pensador René Girard, em sua Teoria Mimética.

Podemos concluir, a partir disso, que aquela fuga para Pasárgada, sugerida pelo poeta Manoel Bandeira, seria, então, o desejo mimetizado de um lugar paradisíaco, em que lá somos amigos do rei?

Guardem isso, meus queridos 13 leitores, pois, vou agora lhes falar de uma inveja saudável e normal, que tenho sentido por esses dias:

Fui convidado, por ser morador do Engenho Velho, dentro da UFPE, para ser ouvinte em três encontros diferentes:

uma aula do professor Rui Mesquita, no CE, Centro de Educação, sobre Aníbal Quijano, que tratava sobre a colonialidade de poder;

uma roda sobre o escritor maliano, Amadou Hampaté Bá, versando sobre oralidade e ciência, na Biblioteca do CE, onde falaram a professora Lúcia dos Prazeres e o professor  Biu Vicente;

e, nesse dia 12 de novembro, outra roda de conversa, com o intelectual quilombola, Antonio Bispo, ou Nego Bispo, como ele mesmo prefere que o chamem.

Nesses encontros, aprendi novas palavras, conheci novas pessoas e meus olhos se abriram para algumas peculiares visões de mundo.

De todos os mestres, o que mais me impressionou foi o pensador quilombola, Nego Bispo, que, antes de ter conhecido pessoalmente, já o conhecia do Youtube, onde esmiucei suas ideias.

Sinceramente, fiquei deveras encantado com o saber orgânico do mestre quilombola. Contudo, o que mais me encantou foi a descrição daquele quilombo piauiense, cheio de mestres e mestras, que ensinavam um viver pleno e conectado com a natureza.

No lugar chamado de Saco do Curtume, as famílias vivem, frugalmente, daquilo que plantam, mas, deixando que a terra produza por si mesma, sem agrotóxicos e a seu tempo, naquele lema de que “em se plantando tudo dá.”

Vivendo apartado de tudo, aquele quilombo, segundo o mestre Bispo, vive na oralidade, guardando uma sabedoria recebida de seus ancestrais. Por isso, não toma conhecimento da crise do capitalismo nacional e internacional. Entretanto, há algumas décadas, esse quilombo enviou uma geração de crianças para serem alfabetizadas, apenas para garantir a escrituração de suas terras. Dentre essas crianças, estava o Mestre Antonio Bispo.

Preparado pelos seus mestres e mestras, agora, o mestre vem fazendo o que ele chama de confluência entre o saber acadêmico e o saber tradicional. Seu discurso original e único, ou seja, a sua narrativa, ele mesmo prefere chamar de relatos, em vez de teorias. O mestre quilombola apresenta-se como uma espécie de interlocutor entre dois mundos, o da oralidade e o da palavra escrita.

Ao ouvir seus relatos, lembrei dos falanstérios do Charles Fourier e Bento Mure, no segundo império. Aquelas foram experiências frustradas de anarquismo no Brasil. Diversamente, o quilombo do piauiense, Nego Bispo, me pareceu, mal comparando, uma comunidade ao modo anarquista que deu certo.

É dessa utopia que eu sinto a boa inveja! rsrs

Eu sempre sonhei com uma casa no campo, onde eu pudesse “compor os meus rocks rurais”, como dizia Zé Rodrix, na voz singular de Elis Regina. Ou, ainda, com o vilarejo bucólico e edênico, da canção de Marisa Monte. Mas, tinha pouca esperança de que esse lugar, esse topos, existisse. Agora me surge um quilombo, aparentemente, livre de todos os problemas e no qual a colonialidade de poder de que nos fala Quijano, passa distante. Esse é o quilombo ideal. Esse é o lugar que eu desejo pra chamar de meu.

No dia 12 de novembro, eu nem precisei sair de casa. Recebemos o mestre Antonio Bispo, aqui no Arruadinho do Engenho Velho da Várzea, à sombra da cajázeira preferida do nosso saudoso líder comunitário, o Maurício Peixoto, durante a abertura da I Semana de Antropologia da UFPE. Bem humorado e com uma camisa colorida, o intelectual piauiense tratou sobre aqueles conceitos básicos, que eu já ouvira no Youtube, principalmente os de contra-colonialidade ou contra-colonização, transfluência, confluência e do saber orgânico que se contrapõe ao saber sintético. Tudo isso albergado pela sua cosmologia pindorâmica, manifesta numa certa cosmovisão politeísta, circular e plural, que também se contrapõe à mundividência eurocristã e monoteísta dos povos colonizadores.

Questionei o mestre sobre a presença do novo (des)governo brasileiro, que já se disse contrário à posse das terras, tanto de quilombolas quanto dos povos da floresta. Em que medida o Saco do Cortume está imune à política destruidora de todos os direitos desses povos, que surge com a extrema-direita, perguntei, com outras palavras. Não queria tomar o tempo do mestre, que veio de tão longe, com minhas dúvidas de caráter pragmático, que meus 13 leitores já conhecem da crônica anterior, nesse link.

Em verdade, gostaria de testar a aplicabilidade de seu ideário, em minha realidade imediata, ou seja, nas lutas de resistência da comunidade do Arruado do Engenho Velho da Várzea. O tempo, porém, era escasso, e a hospitalidade exigia que se deixasse o mestre expor suas ideias sem muitos questionamentos. O mestre respondeu que não relata sofrimento, prefere contar o lado proativo da história de seu povo.

Acatei a resposta, com ressalvas e muitas dúvidas. Dúvidas proativas, digamos assim. rsrs

A roda acabou, o mestre se foi, mas a conversa entrou pela noite. Muito instigantes, os conceitos do intelectual quilombola. Prometo fazer uma leitura de cada um deles, uma espécie de estudo comparativo de suas ideias, com as que ressoam na minha alma de fuçador de bibliotecas, nesse mundo da escrita e eurocêntrico. Quando estiver tudo pronto, trarei para cá, uma resenha de seu livro, com a intenção de me tornar uma espécie de seguidor, mesmo com minhas poucas luzes, do interessante ideário do mestre Antonio Bispo. Aguardem, um pouco, meus 13, generosos e pacientes, leitores. Estarei desfrutando da minguada paz, que ainda resiste nesse pedacinho de mata pindorâmica, escondida no campus da UFPE, e que chamamos, carinhosamente, Arruadinho do Engenho Velho da Várzea.

Salve, salve! como diz o Nego Bispo.

Cá estou a invejar o Vilarejo da Marisa Monte. No fundo, eu sou mesmo um invejoso, né? 🙂

 

 

 

 

Sobre Eurico

Escritor e poeta
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