Nego Bispo, no Engenho Velho – conflitos e confluências

 

1- A zona de conforto

Quando os holandeses chegaram ao litoral nordestino, o Quilombo dos Palmares já existia. Mas, justamente esse período holandês em Pernambuco, proporcionaria momentos de paz para os refugiados na Serra da Barriga. Como se diz hoje em dia, uma zona de conforto para os quilombolas, que duraria entre 1630 e 1654.

 

2 – A zona de desconforto

No entanto, para os negros escravizados, mormente, nos engenhos da Várzea do Capibaribe, não foram bons, esses 24 anos da história. Recrutados à força, para a guerra, formaram o Terço dos Pretos, soldados de infantaria, treinados para guerrilha, que iria emboscar os batavos, nos pântanos da planície do Recife ou nos montes de Jaboatão.

Imaginem como era grande a azáfama dos preparativos de guerra, aqui, mesmo, nessas terras, onde hoje é a UFPE. O comando da guerra de expulsão de holandeses ficava exatamente aqui. Um forte foi erguido à meia légua desta povoação, cujas ruínas ainda estão no lugar chamado, Torrões. Comandavam o famoso exército das três raças, o mestre de campo, João Fernandes Vieira e seu compadre, o paraibano, André Vidal de Negreiros. Em nosso Arruadinho, há um monumento em homenagem ao Fernandes Vieira, símbolo da colonização eurocêntrica, escravocrata e opressora dos povos nativos e trazidos de África.

Na matriz da Várzea, estão sepultados muitos dos combatentes que tombaram nas batalhas de Guararapes. Mas, a Igreja só enterrava os brancos. Uma exceção foi o sepultamento do chefe do Terço dos Índios, o Felipe Camarão. Já os negros combatentes, ninguém sabe em que lugar desse chão estão enterrados, se enterrados foram. Pode ser aqui, debaixo de nossos pés!

Não havia portanto conforto, mas era uma zona de desconforto, a vida nesse Engenho Velho da Várzea, entre 1630 e 1654.

 

3 –  Contra-colonização, conflitos e confluências

Pois, bem, com a chegada, em breve de um mestre quilombola ao Arruado, trazido pelo curso de Antropologia desta UFPE, me veio à mente aqueles momentos, em que, nessa Várzea do Capibaribe, (que era a capital do Governo português na capitania invadida), havia um rebuliço, por conta da guerra, uma verdadeira zona de desconforto. Enquanto isso, em Palmares, os quilombolas, refugiados desde meados de 1600, havia um período de paz, uma trégua nas perseguições, uma verdadeira zona de conforto.

É disso que desejo falar com o mestre Antonio Bispo.

Quando ouço sua voz, nessa sua oralidade potente, seu discurso original e criativo, digno dos grandes pensadores, essa voz me parece ecoar de uma zona de conforto: a voz do mestre vem do seu quilombo paradisíaco, em que a colonialidade de poder parece que passa ao largo. Lembra aquela paz de Palmares, no período holandês.

Também somos remanescentes dos afro-pindorâmicos, Sr. Antonio Bispo. Mas, diferentemente de seus mestres no Piauí, não podemos mais cultivar a terra, nem criar nossas vacas leiteiras, como no passado. Tudo isso nos foi proibido pela administração da UFPE, há muitas décadas. Havia uma imensa plantação de macaxeiras, do outro lado do riacho Cavouco. Pertencia a Seu Pedro, um agricultor feliz e trabalhador, cuja macaxeira-rosa era conhecida até pelos Brennand, os donos da Várzea do Capibaribe. Um belo, mas, triste, dia, vieram os lacaios da ditadura e expulsaram Seu Pedro de sua terra. Nela iriam construir um imponente Centro de Convenções.

Quando vejo os estudantes dançando o coco, naquela Concha Acústica, imagino que eles nem sabem que ali rolava a melhor sambada de coco da região. A festa de São Pedro virava a madrugada. Era o santo padroeiro do dono da casa. Dizem que Seu Pedro morreu de desgosto,  lá para as bandas de São Lourenço da Mata. O medo da expulsão aparecia nos pesadelos de Dona Biu, moradora de 101 anos, que nos deixou em 2015. Ela sonhava com um carro preto que vinha buscar os seus móveis e expulsá-la de casa. É pelo medo que o colonizador nos domina. Não foi por acaso que esquartejaram o alferes em Minas e dependuraram as partes de seu corpo por toda a Vila Rica. Era para dominar as mentes pelo medo. No Recife, mataram o frei Caneca, a mando de Dom Pedro I,  e disseminaram o medo. Já em 1969, em terras desse engenho velho, torturaram e mataram o padre Henrique Pereira, secretário de Dom Hélder Câmara, para impor a força da ditadura militar, pelo medo.

pehenrique

 

Pois bem, a voz de Nego Bispo, o mestre quilombola, ao adentrar esse Engenho Velho, ecoará potente, como a voz de uma criança nietzscheana, protegida pela força que ele traz, lá dos rincões do Piauí.  Lá, no seu quilombo, o saber orgânico se sobrepõe naturalmente, ao saber sintético.

Todavia, aqui não é assim, irmão de cor!

Aqui, a colonização persiste. E agora, pelas mãos dos magníficos reitores, esses novos senhores do Engenho Velho da Várzea.

Cá, nesse lugarejo de filhos e netos de trabalhadores da Usina Meio da Várzea, que ficou enclavado nessa cidade universitária, não  desfrutamos dessa liberdade dos quilombolas do Piauí. Aqui, a opressão e o medo já duram mais de 70 anos. Isso sem contar o tempo anterior à construção do campus e sem avançar até a remota chegada do donatário da capitania. Nos tempos de hoje, nesse aqui e agora, não vejo como escapar dessa mão invisível e poderosa do estado colonialista, morando dentro de um órgão público federal, e totalmente dependentes dos humores de seus gestores de quarto escalão.

Finalmente, reconheço que nunca foi tão necessária essa potência da natureza, essa força de Gaia, da mãe-terra, que emana do saber orgânico do lavrador e quilombola, Antonio Bispo dos Santos, o Nego Bispo. Porém, algumas questões se impõem para mim, entre essas confluências e conflitos de saberes, a serem levadas à roda de conversa com o Nego Bispo, no dia 12 de novembro, próximo:

Como viver bem, nesse mundo sintético e tão distante do quilombo?

Como ser contra-colonial e insurgente, nas condições em que estão os moradores do Arruado do Engenho Velho?

Como, afinal, aplicar o seu saber orgânico, Mestre, para sair dessa zona de desconforto?

Sobre Eurico

Escritor e poeta
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