Epístola ao vovô Luiz de Melo

Vovô Luiz, quantas saudades…

perdoe-me o tom dessa crônica epistolar, que deve ser a derradeira.

O senhor nos criou, a mim e a todos os seus 12 netos, dentro de sua imensa biblioteca. Imensa e plural. Ler era algo vital, dizia isso a todos os netos. E não só dizia. Agia para que isso acontecesse. Só nos dava livros de presente. Logo o senhor, que filho de um negro liberto, teve de lutar muito para aprender a ler, num tempo em que os livros, os bons livros, eram editados em Portugal. O livreiro Melquisedec me dizia que o senhor tinha sido um de seus primeiros fregueses, na rua do Livramento, 120. Pois foi nos sebos da cidade do Recife que o senhor adquiriu as relíquias de sua biblioteca, que herdei, com muita honra, apesar da saudade que sua presença amiga nos deixou.

Porém, vovô, nesses primeiros 20 anos do novo milênio, a leitura se tornou uma raridade e quem muito leu, como eu, parece ser, nos dias de hoje, um ser esquisito, excêntrico, e, até, pitoresco.

Por muito ler, vovô Luiz, meus textos se tornaram herméticos, quase ininteligíveis, por conta do meu gosto pelos arcaísmos, essas palavras obsoletas, que, anquilosadas, já não conseguem deambular pelas mentes modernas. Agora, o áudio-visual é a regra.  E a intelecção de textos, um sofrimento inominável para boa parte da juventude.

Ainda tentei popularizar conceitos, teorias. Tentei, em vão, falar a língua do povo. Nada feito. Além dos meus 13 leitores fiéis, não consigo atingir os meus bons vizinhos, e é para eles que escrevo essas crônicas de diletante.

Preciso, portanto, esvaziar-me de mim mesmo. Esse acúmulo de leituras me impede de escrever com a simplicidade e a clareza necessárias à boa comunicação.

E o pior é que esse é o meu jeito de ser e de estar. Esse estilo é algo enraizado em mim, como é em cada escritor ou poeta, em cada artista. Mudar isso não é coisa simples. Porém, se eu quero verdadeiramente me fazer entender, devo me reinventar.

E, para não cansar os meus leitores fiéis com essa vitimização, coisa que não suporto nos outros, darei o exemplo, sendo proativo. Pois bem, a partir de agora serei um usuário do Youtube. Farei vídeos curtos, como manda o padrão, e, aos poucos, deixarei essa linguagem escalafobética, dessas crônicas de diletante. Usarei imagens e a fala mais coloquial que eu puder…rsrsrs

Pelo menos tentarei. Vamos lá! Espero alcançar meu objetivo!

Sobre Eurico

Escritor e poeta
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