Caminho, horizonte e utopia

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“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.” (Eduardo Galeano)

 

Sem horizonte, não há caminho. Sem caminho, não há caminhada.

Com esse mote volto a glosar a minha renitente narrativa sobre o Caminho Colonial da Várzea. Sonhar não custa nada. E foi mais ou menos essa a minha argumentação durante a reunião com a Chefe de Gabinete da Reitoria da UFPE, em meados de fevereiro de 2018. A pauta era de serviços básicos para a comunidade e todo o staff do professor Anísio se fez presente: Infra-estrutura, Segurança Institucional, Ouvidoria, ProExC e Neafi/ProExC, e, por conta de um dos pontos de pauta, a coordenação de Arqueologia.

A reunião foi proveitosa e não narrarei detalhes das questões relativas aos serviços básicos, todas encaminhadas pela Chefe de Gabinete, Lenita Almeida. Em dado momento, o Magnífico Reitor, adentrou a sala e apertou a mão de cada morador presente, num gesto simpático, porém não participou da reunião.

No momento final, houve um estremecimento entre a coordenadora do NeAfi e a Chefe de Gabinete, que foi rapidamente contornado. Havia ainda espaço para o diálogo e resolvemos evitar o confronto. Por termos esperança, apostávamos na possibilidade de avanços nas discussões.

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Arqueólogos analisam mapa do Engenho do Meio

Eis que, instigado pela nossa companheira Ana Emília Castro, perguntei às professoras Viviane Castro e Ana Catarina Lins, coordenadoras do curso de Arqueologia, sobre as escavações no Engenho do Meio. Pelo menos uma delas havia participado, quando aluna, na década de 1990, das duas campanhas de escavação, patrocinadas pela UFPE, com a presença, entre outros, do prof. dr. José Luiz da Mota Menezes. Fiz a pergunta e em seguida lancei a proposta, diretamente à professora Ana Catarina, que me disse já estar perto da aposentadoria:

Professora, antes de se aposentar, por que não sonhar com uma alameda ao longo do caminho colonial da Várzea?

Senti o clima da reunião mudar. Alguns ficaram curiosos e outros com os olhos brilhando. Aliás, os olhos brilhando mesmo eram os das duas arqueólogas. Desenhei num papel, no centro da mesa, o traçado em forma de S, do caminho colonial, que cruza o Arruadinho. Sonhar não é um verbo comum, em reuniões administrativas. E eu as convidei a sonhar, assim, abruptamente. rsrs

A partir dessa data, começou a acontecer uma movimentação no sítio arqueológico. Alunos e professores percorriam o entorno do casario do Engenho Velho. E em breve, drones, radares de subsolo, mapas, reuniões de trabalho no prédio de Metrologia, ali, mesmo, diante das ruínas da chaminé da Usina Meio da Várzea. Depois disso, foram retomadas as escavações no local do casarão do mestre de campo, João Fernandes Vieira, um dos donos das terras, durante a guerra restauração do domínio português sobre a capitania de Pernambuco.

Na esteira dessa movimentação vieram os Cafés Arqueológicos, em que os moradores conheceram os artefatos encontrados naquela década de 1990. Foram 3 rodas de conversa com o pessoal do LEDUP – Laboratório de Educação Patrimonial do Curso de Arqueologia da UFPE, coordenado pela professora Viviane Castro. Numa dessas rodas tivemos a presença do professor Luiz Severino da Silva Junior (UNIVASF), que tem um excelente trabalho de georreferenciamento desse caminho colonial da Várzea, em parceria com o professor Levy Pereira (UnB e UFRN). O professor Levy Pereira fez estudos acerca dos caminhos usados pelos holandeses para inspecionar os engenhos conquistados. Luiz Severino, ou Lula Biu, ativo defensor do patrimônio histórico, nos cedeu a documentação necessária para nossa intervenção naquela reunião na reitoria, em 2018.

Dia desses, encontrei vários alunos com uma bela camiseta preta, com a imagem da casa grande e o nome, em alto relevo, Projeto Engenho do Meio. Fiquei interessado no teor do projeto e na camiseta, que cairia bem no meu manequim, rsrs. Aliás, esse é um sonho que persigo, pessoalmente. Espero ver em breve a alameda florida, com ipês e pau-brasil e o caminho colonial sinalizado, como nos prometeu a professora Ana Catarina. Esperançar é melhor verbo do que esperar. E essa é a minha esperança. Talvez seja parte de minha utopia. O que me faz caminhar.

Dizem que a velhice é o estreitamento de nossos horizontes. Hermeto Pascoal diz, num interessante vídeo, que, sem sonhos, sobrevém o anquilosar da alma, a paralisia, o fim da linha. Ele mesmo é um exemplo de permanente ação e criatividade.

Estou aqui, nesse meu cantinho de escrevinhador, às margens desse caminho centenário, acreditando que o Projeto Engenho do Meio vai vencer essa fase difícil que atravessa o país, e, em especial, as universidades públicas, para realizar o nosso sonho da alameda no fragmento do caminho colonial da Várzea, que resiste há quatro séculos com o mesmo traçado.

Paz e bem!

 

 

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Sobre Eurico

Escritor e poeta
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Uma resposta para Caminho, horizonte e utopia

  1. Neide Maria Germano disse:

    Sonhar é preciso meu caro amigo! Sempre!

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