As bananas do Arruado, a reforma suicida e o serviço da dívida

Era de manhã cedinho, quando passou o verdureiro, em sua bicicleta. Antes ele vinha de carro, “mas o preço do combustível, Seu Lula…” disse, cabisbaixo.

A nova política de preços da Petrobrás já atinge o pequeno comerciante.

Eu, de recesso no trabalho, saí da minha toca de escrevinhador, para, primeiramente procurar um de meus gatinhos, o Gasolina, que sumiu de casa. Depois para prosear com os vizinhos, sobre o mutirão dessa sexta-feira, 28 de junho de 2019.

Proseávamos sobre como alimentar os voluntários, quando passou, de bicicleta também, a irmã Betânia, a quem encomendei uns sandubas naturais. O verdureiro começou a falar da conjuntura nacional. E aí me deu o estalo dessa crônica.

Há muito venho pensando em tratar da reforma da previdência com os meus 12 leitores deste blog de diletante. Mas quero me dirigir principalmente aos meus vizinhos queridos do Arruadinho. Por isso preciso de uma linguagem simples e clara, o que não é o meu forte.

Mais uma vez recorro, eu que não sou religioso, à propedêutica bíblica do Rabi da Galiléia, que entre os simples, usava uma linguagem vazada no vocabulário do povão.

Olhai as aves do céu… A candeia deve estar sobre a mesa…

E por aí vai…

Ou seja, esse era o caminho, o método de conduzir à verdade, do Nazareno…

Vendo a gente envelhecida do Arruadinho, penso no benefício de prestação continuada, nos cortes drásticos do novo governo nas políticas sociais. E lembro do que aprendi com a auditora fiscal Maria Lúcia Fatorelli sobre o serviço da dívida pública, que vai estorquindo o povo brasileiro e servindo de pretexto para a reforma da previdência.

Funciona assim, viu Seu Otávio, o senhor que vende as bananas do Arruado há 50 anos, na feira do Engenho do Meio. O que o senhor diria se todo fim do dia o governo ficasse com a sobra de suas bananas, a “bóia”, como é chamada, e ainda lhe desse em troca, notas promissórias, no valor da sobra diária de bananas não vendidas?

Decerto, o senhor ficaria muito contente, pois seria credor do governo e ainda cobraria juros sobre juros, a cada nota promissória vencida. Nem perderia suas bananas que boiaram, e ainda as veria dando lucros diários. Parece um negócio da China, né mesmo?

Pois, o Banco Central do Brasil faz isso com todas as sobras de dinheiro que os banqueiros não conseguem emprestar diariamente. Eles “descarregam” no Banco Central,, feito bancas de bicho,  essa sobra diária que não conseguem emprestar aos seus clientes e recebem títulos da dívida pública, ou seja, promissórias que o governo lhes dá para garantir o sistema financeiro.  Isso compromete 40% de tudo o que a gente produz, vendendo bananas, pão, bicicletas, combustível, geladeiras, tudo enfim. Pagar esses juros aos banqueiros é o que eles chamam “serviço da dívida”. Ah, se os bananeiros recebessem títulos pela sua bóia. Em vez de bananas podres, teriam capital para investir.

Não resta dúvida que toda nossa desgraça está em sustentar esse “serviço da dívida”. E é isso que justifica retirar mais dinheiro das costas dos pobres com a reforma da previdência. É para sustentar o custo dessa dívida. A remuneração da sobra de caixa dos bancos gera um rombo imenso, que o Banco Central retira de nossa atividade produtiva, transfere para o sistema financeiro, cujo lucro não para de subir.

Creiam-me! Isso é um abuso. Só no Brasil os banqueiros conseguem um negócio desses. E a reforma da previdência é o jeito que o novo governo inventou para arrancar mais dinheiro para o serviço da dívida. São sacerdotes de Mamom, os governantes da direita brasileira! Querem nos sacrificar em oferenda ao sistema financeiro internacional! E vamos, como cordeirinhos, ser imolados por essa política monetária do Banco Central. Essa reforma, como diz Fatorelli, é uma reforma suicida!

Bem, para concluir, nessa nossa república das Bananas, tudo o que “bóia” dos bancos é pago com o dinheiro dos contribuintes. Espero que Seu Otávio e o verdureiro tenham me entendido. Resta-nos, meus 12 fiéis leitores, ouvir essa mulher empoderada, essa auditora cidadã e patriota, em audiência no Senado:

 

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Sobre Eurico

Escritor e poeta
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