Anísio, o Magnífico e o casario do Engenho Velho

Lembro de um conto árabe que li em algum lugar, quando criança. Diz que um desses marajás, sultão muito abastado, resolveu construir o maior e mais suntuoso palácio daquelas plagas, bem ao lado de um humilde casebre. O motivo, dizia ele, era para que fosse lembrado não só pela sua riqueza material, mas pela sua justiça.

Eu, menino-pequeno, ficava impressionado com essa história de benevolência e riqueza. O sultão era tido como um homem muito sábio, justo e generoso.

Quando me veio a maturidade, foi que percebi a contradição imensa dessa pequena história. Como um sultão tão justo e sábio suportaria a miséria dos seus vizinhos, sem mover uma palha para melhorar a vida dos moradores do casebre? Ora, se ele tinha o poder, a sabedoria e a riqueza, por que razão não fez do casebre, uma casa, tirando os seus vizinhos da vida miserável que contrastava com o luxo de seu palácio?

Ontem, o Globo Repórter mostrou as tapeceiras do Irã. Mulheres sentadas por 8 horas seguidas, todo dia, durante mais de um ano, para fabricar um único tapete persa, cujo valor de mercado era de aproximadamente, 300 mil reais.  As imagens mostravam a simplicidade, quase pobreza, daquelas famílias de tecedeiras persas. Muito lindos os palácios adornados pelos tapetes, que as imagens da Globo nos mostraram durante o programa. Parques belíssimos, com fontes e lagos. Mas foi a imagem das fiandeiras, sentadas num banco duro, traçando os fios de seda dos tapetes, foi essa imagem que mais me tocou. A mais valia estava evidente no preço do trabalho daquelas mulheres, em relação ao lucro dos atravessadores do comércio de tapetes.

O Irã é um país milenar, com um povo que ama a sua cultura. Um país rico e cheio de contradições, com uma capital que tem 14 milhões de habitantes. Pasmem! Não são apenas desertos com nômades. Há grandes cidades em que abundam grandes pensadores, cientistas e grandes artistas. Seus cineastas são famosos. Quem conhece os filmes iranianos sabem que são pura arte. Mas, como em todo o planeta, ali convivem a riqueza que impressiona e a miséria extrema. Como no conto que li ainda criança. O palácio e a choupana não são sinais de sapiência e de generosidade, mas de injustiça, de indiferença com o outro, se não de egoísmo e maldade.

Cá no nosso cantinho, escondido no Campus da décima melhor universidade do país, dá pra perceber como funciona a res publica brasileira. O Estado abocanha a parte do leão, tomados dos contribuintes e em parte alguma há uma verdadeira distribuição das nossas riquezas. O que existem são sultanatos, castas ricas, que usufruem do produto de nosso trabalho, investindo o nosso dinheiro no que lhes é conveniente.

Querem um exemplo?

Há muito tempo que estamos convivendo com a mudança de base energética no mundo. Mas as nossas universidades ainda estão construindo prédios monumentais para estudar petróleo e gás. Aqui, do lado do Arruadinho há dois monstrengos desses. Enquanto, na Europa, a energia dos ventos e do Sol vai se firmando, nós estamos construindo edificações para estudarmos a energia que movia o mundo do passado.

arruadopredio

Enquanto os sábios gestores do CTG erguem seus prédios, outros centros mal recebem verbas para seu funcionamento. Nada a ver com a crise. É escolha e vontade política. Privilegia-se a extração do óleo bruto, que produz energia não renovável, em detrimento da energia solar, da eólica e outros modos de fazer andar de modo sustentável a máquina do mundo.

Com esse olhar de sultões do pré-sal, em que a propaganda é maior do que a realidade, se vai esquecendo a educação, a criatividade e a cultura do povo.

Quando vejo esses dois prédios erguidos contra o verde do arruadinho do Engenho Velho, não posso deixar de lamentar a visão medíocre e limitada dos gestores “progressistas” da UFPE. Quando irão reconhecer que o patrimônio humano, cultural, ecológico e histórico desse casario de trabalhadores é fundamental para reinventarmos o caminho, a trilha para o soerguimento do Brasil enquanto nação. Não só dessa comunidade, mas de todas as comunidades populares, pelo Brasil afora. Sem reeducarmos o olhar meramente tecnicista de nossos gestores não há caminho possível. Sabemos da predominância do CTG sobre os outros centros. Parece que chegam mais verbas para as Ciências Exatas do que para as Humanas. Porém, todos dizem que a Educação é quem vai salvar o país… Citam à exaustão os exemplos da Coréia do Sul e do Japão. E ficam nisso!

O casario de trabalhadores da extinta Usina Meio da Várzea está erguido ao lado do imenso prédio das Engenharias. Por termos chegado antes da Cidade Universitária, a justiça nos deu o direito de continuar morando aqui. Mas, a que preço? A água que nos disponibilizam é de péssima qualidade. E quando tentam tratá-la, é uma lástima: jogam cloro no poço, creio eu, sem ter a noção exata da proporção que deve ser usada. A água do casario cheira a cloro puro. Imprópria para o banho, tem feito surgir doenças de pele nos moradores, sejam crianças de colo ou idosos.

A água com excesso de cloro e a energia elétrica, juntas, têm dado grandes prejuízos, com a perda de máquinas de lavar e geladeiras, dos pobres moradores do Engenho Velho.

E tem mais injustiça, Magnífico Reitor: os seguranças desta UFPE, para piorar as coisas, expulsam os pequenos ambulantes do campus, parece-nos que apenas pelo fato de serem moradores daqui. Só as carrocinhas do Arruado são perseguidas. Se vocês, meus doze leitores, prestarem atenção, há barracas de lanches em frente ao CCSA, ao CFCH e à Biblioteca. Ali ninguém é molestado pelos seguranças. Seguranças esses que fecham os portões do campus, desde a noite da sexta-feira, até o amanhecer da segunda. Fechados também ficam nos feriados e dias santos. Quando lhes perguntamos a causa do fechamento dos portões, dizem que é ordem do Magnífico Reitor. Quem trabalha até tarde nesses dias, não pode acessar a sua casa, a não ser que se exponha aos riscos de dar toda a volta no campus e entrar pelo portão principal. Se a questão é de segurança, imaginem que as grades são facilmente galgadas pelos possíveis meliantes. E que, até mesmo pelo portão principal todos entram sem serem identificados. Há algo de estranho nessa proibição.

 

Não creio que seja ordem do Magnífico. Dá a impressão que seus áulicos já levam pra seu gabinete a decisão formada e ele os atende, sem questionamentos.

Por isso estamos em campanha de petição na internet, pedindo que o nosso magnânimo reitor reveja essas decisões, que depõem contra uma universidade que luta pelo social, inclusive defendendo as ideias do Partido dos Trabalhadores, que, como já diz no seu nome, deveria estar ao lado dos que estão na base da pirâmide social.

Como então, Magnífico Reitor, tanta indiferença com os moradores do Arruado do Engenho Velho? Há anos esperamos uma visita dessa Reitoria à nossa humilde comunidade. Não basta acatar a decisão judicial que nos permite aqui habitar. Para ser justo e sábio, e não agir como o sultão da estória que acima contei, é preciso ter cuidados com esses moradores, que também são contribuintes e cidadãos que ajudam a prover os recursos com que a União ergue e mantém as nossas universidades.

A petição na internet não é contra ninguém, mas a favor da comunidade do Arruado, que faz parte da história da construção desses prédios que hoje nos oprimem.

Seja justo e generoso, Dr. Anísio. Que a história lhe faça a mesma justiça que faz ao primeiro reitor, o Dr. Joaquim Amazonas, morador do Arruado e compadre de muitos dos seus vizinhos. Graças a ele, desde a chegada da Universidade do Recife, fomos respeitados e protegidos. Que a memória do Dr. Joaquim Amazonas sirva de inspiração para as suas decisões em nosso dias.

Respeitosamente,

Moradores do Arruado do Engenho Velho.

 

Link para a Petição:

https://secure.avaaz.org/po/petition/Reitor_Anisio_Brasileiro_de_Freitas_Dourado_Reitor_Anisio_da_UFPE_E_o_Arruado/?cZZGheb

 

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Sobre Eurico

Escritor e poeta
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