Prolegômenos à mundividência: um carrapato no Engenho Velho

dona luiza arruado

                            Dona Luiza olha o mundo, de sua janela…

1 – Prolegômenos à mundividência

Meus doze leitores devem lembrar do carrapato deleuzeano, do qual tratei aqui, no meu afã de compreender o mundo de cada um e de como iniciarmos um processo de renovação das nossas ideias e crenças, que nele, no mundo, se baseiam.

Relembremos o trecho de Gilles Deleuze:

“O carrapato responde ou reage a três coisas, três excitantes, um só ponto, em uma natureza imensa, três excitantes, um ponto, é só. Ele tende para a extremidade de um galho de árvore, atraído pela luz, ele pode passar anos, no alto desse galho, sem comer, sem nada, completamente amorfo, ele espera que um ruminante, um herbívoro, um bicho passe sob o galho, e então ele se deixa cair, aí é uma espécie de excitante olfativo. O carrapato sente o cheiro do bicho que passa sob o galho, este é o segundo excitante, luz, e depois odor, e então, quando ele cai nas costas do pobre bicho, ele procura a região com menos pelos, um excitante tátil, e se mete sob a pele. Ao resto, se se pode dizer, ele não dá a mínima. Em uma natureza formigante, ele extrai, seleciona três coisas.”

E assevera Deleuze:

“É curioso, pois muita gente, muitos humanos não têm mundo. Vivem a vida de todo mundo, ou seja, de qualquer um, de qualquer coisa, os animais têm mundos. Um mundo animal, às vezes, é extraordinariamente restrito e é isso que emociona. Os animais reagem a muito pouca coisa…”

Disso que afirma Deleuze, me vem a ideia de que existem homens e mulheres que vivem como esse carrapato. Suas janelas da alma são restritas a um único prisma. São uniprismatistas, quando precisariam ser esferistas, como aconselha o meu amigo, o artista-plástico, Eugênio Paxelly.

paxelly

Foi esse meu amigo quem criou, lá pelos anos 1990, o conceito de Esferismo, observando as pessoas e as coisas, em seu ateliê da Rua dos Prazeres, bairro da Boa-Vista, aqui no Recife. Percebam  como faz sentido a compreensão do seu ofício de artista e a sua necessidade de exercitar esse olhar esférico. Os olhos do mestre Paxelly brilhavam, quando ele tratava do Esferismo:

É preciso olhar o objeto por todas as suas faces e planos, dizia ele. Façam o objeto girar! Sejam esferistas!

O mundo do esferista não é restrito e reducionista, e, por isso mesmo, tem a amplitude necessária para, pelo menos,  respeitar a mundividência do Outro, mesmo que pequena e limitada a alguns excitantes, como a visão de mundo do carrapato deleuzeano.

Quem convive com esse olhar esferista, aplicando-o a outras situações da vida, aprende a tolerância, mesmo em meio à luta. Não se ensoberbece, nem menospreza o adversário. Reconheço, nessa cronica extemporânea, a minha necessidade desse um olhar mais amoroso sobre as coisas e as gentes. Talvez, seja esse o verdadeiro motivo de escrever sobre mim mesmo, nesse momento da vida. Passei dos sessent’anos. E ainda não me fiz um verdadeiro esferista…

 

Um carrapato no Engenho Velho (confessio spontanea)

Como vinha dizendo, já passei dos sessent’anos. Estou “sex”, como diz uma grande amiga. Sex é sexagenário. rsrs E essas idades redondas, 30, 40, 50, a mim sempre trouxeram algum tipo de boa crise. A crise que faz pensar e criar. Minha trajetória até aqui nunca foi retilínea. Sou um ser de ziguezague. E a essa altura do campeonato não pretendo mais mudar a mim mesmo. Talvez a melhor coisa seja “me adaptar ao que sou”. Não por conformismo. Muito pelo contrário. Ziguezaguear não lembra muito a resignação.

E como ser acomodado se os meus ídolos sempre foram os loucos.

Em literatura, prefiro Lima Barreto e Osman Lins, ao genial Machado. Na música clássica, o Debussy, ao Mozart. No Brasil, o Hermeto, o Tom Zé e o Chico Science me chamam mais a atenção do que outros também geniais, e que não dispenso, no cenário da MPB, como os tropicalistas, os bossanovistas, etc. Na poesia, os rompantes do Antonin Artaud, apesar de não conhecer a fundo a sua obra, aos belos sonetos do Bilac; e aí vem outros loucos e visionários das outras áreas (que apenas exploro a superfície das obras): Spinoza, Ortega y Gasset, Deleuze, Flusser, Paulo Freire, Vicente Ferreira da Silva… e agora, Heráclito!

Ando esmiuçando tudo o que encontro de interessante sobre os fragmentos do Obscuro. Tudo isso, depois de ouvir um interessante debate entre os mestres Sylvio Ferreira e Zé Nivaldo Júnior, em certa rádio pernambucana. O tema era a Tolerância, e o Sylvio tentava explorar o Discurso da Servidão Voluntária, de Étienne de La Boétie, enquanto Zé Nivaldo se esforçava por esconder sua dialética marxista, dizendo-se heraclitiano. Dois mestres geniais! Fiquei instigado e, desde então, apesar desses tempos temerosos, ando a rastrear, nessa rede, os raros  fragmentos deixados pelo filósofo de Éfeso. Não obstante, farei uma releitura do Étienne de La Boétie, pois, no debate, perfilhei-me à opinião profunda e esferista, do professor Sylvio, de quem sou fã.

Mas o que estou a dizer nessa manhã? E por que esse tom cinzento de crise me toma no exato momento em que escrevo essas linhas?

Eu, sinceramente, não sei.

Só sei que acordei com um medo danado dos peremptórios, dos que trazem debaixo dos sovacos os seus imperativos categóricos, as suas evidencias apodíticas, os seus ismos irrefutáveis.

Ah, e por falar em ismos eu tenho um apreço especial por um ismo, meio escanteado, discriminado, coitado… o meu ismo preferido é o Achismo. Sim, ele mesmo! O tão demonizado achismo. Prefiro chegar às coisas e aos fatos, sejam do presente ou do passado, munido de meu velho e bom achismo. Ele me liberta dos outros ismos, que me podem restringir o campo das percepções e me fazer, como diz aquele velho amigo, “uniprismatista”.

Uniprimatista? O que é isso?

É o cidadão que tem um único prisma apriorístico, preparado para abordar tudo. E tudo tem de se dobrar a esse prisma introjetado em sua mente, eu ia dizer alma… Ele está por aí, nos púlpitos e nas tribunas, defendendo teses, opiniões, crenças e certezas, a que todas as outras ideias se devem ajoelhar.

Mas, continuemos…

Tenho visto tanta coisa nesse mundo de meu Deus, dizia o velho Lula Gonzaga. Mas nunca tanta coisa me passa em frente aos meus velhos olhos que a terra há de comer ou o forno há de cremar, como nesses tempos pós-facebookianos.

A balbúrdia, a esplendorosa balbúrdia do mundo, essa caótica e maravilhosa balbúrdia de informações, me atravessa a alma, e mesmo eu, acostumado aos loucos e visionários, aos rebeldes, eu, esse ser de ziguezague, fico aturdido ante a velocidade das mudanças e a velocidade com que mudam as mudanças desse tempo.

arruado casas1

E às vezes fico pensando certas leseiras, esses meus achismos de estimação, tais como:

O que faria o Paulo Freire com seu método, aquele de usar as palavras do contexto e tal, para alfabetizar etc, etc. O que faria o Paulo Freire hoje em dia, no meio dessa turba alucinada de informações? Como achar as palavras nessa novilíngua? Que pedagogia surgirá dessa multidão de novas palavras e coisas e dizeres, que viajam na rede com uma estonteante velocidade?

Interessante, né? Mas algo ele faria, com certeza.

No entanto, os professores dessa geração não estão órfãos de Paulo. Há novos Paulos por aí, que talvez nem saibam que são freireanos, não por filiação às ideias dele, mas que, imersos no saber desses tempos da rede, ou das redes, eu diria mesmo, das redes sociais, conseguem aplicar o método, simples e fácil, de trazer ao ensino, a realidade imediata do aprendiz. Eita palavra antiga: aprendiz. Mas fica assim mesmo. O danado é que essa “realidade imediata do aprendiz” desses tempos é facebookiana! E alguém teria de lembrar de trazer essa realidade virtual para a educação. Não é simples? É nada… Mas alguém tem de tentar.

                                                                     ***

Enquanto isso, fico aqui, dependurado no meu confortável galho, feito o carrapato deleuzeano, a esperar que passe a manada da história. O Engenho Velho da Várzea é a minha zona de conforto, em essa natureza formigante. Abrigado na pelagem desse pequeno mundo, nada mais me interessa. Confesso que perdi a esperança, em meio ao torvelinho de notícias ruins que assolam o país. E meu mundo está restrito ao moer do passado do velho engenho.

Enquanto os materialistas históricos aguardam, na dialética, a miraculosa solução dos conflitos hodiernos, eu, estranhamente, redescubro, num mundo arcaico,  a physis, o modo helênico de ver o mundo, e busco o logus da psiché, como processo de humanização, da trans-formação do homem natural no homem da cultura. Não soa estranho, esse discurso?

Lá fora, as pessoas buscam um messias, seja político ou religioso. Entrementes, eu busco um Cristo interior, uma renovação por dentro, que não é nada mística. É physikoi…rsrs É o que ainda me move e me incendeia, esse fogo heraclitiano, do qual tudo ressurge, surge, ressurge, chama sagrada, mas oculta.

Entra nos teus aposentos e ora em oculto, dizia o Cristo, que teu Deus vê em oculto

A Physis ama ocultar-se, dizia Heráclito de Éfeso, 500 anos antes. Seria, então, a physis uma ideia do transcendente?

Creio que não. Ou, não apenas isso.

Mas para Katsuzo Koike, professor da UFPE, é comum, em nossos dias, contrapor a natureza ao psíquico, ao espiritual, quando, para os pre-socráticos, a Physis exprimia o todo existente, a totalidade do real, desde as coisas materiais ao mundo dos deuses..

Talvez meus doze leitores não me entendam essa fase. Dirão que estou alienado. Porém, nada menos alienante do que uma revisita ao mundo grego de 2500 anos atrás. O mundo que gerou esse nosso mundo, com todas as suas contradições! Noite e dia, riqueza e pobreza, paz e guerra… silêncio e balbúrdia. Polémos! A luta vivificante do logos da physis com o logos da psiché! Avanços e recuos. Devenir… processo. Banhando-me, dialeticamente, no mesmo rio, que mudou, que ainda é rio, que sou Eu, que sou o Outro, que somos Um e o mesmo rio. O rio heraclitiano que encontra o rio crístico, em que essas águas saltam para a eternidade!

Lá fora as pessoas gritam: fora! fora! fora!

Lá fora?… Existe um “lá fora”?

Perdoem-me tomar o vosso precioso tempo, com esse ziguezaguear de notas autobiográficas. Não posso contar a história sem mergulhar no Eu… Não há história sem Eu, sem intra-história… Motiva-me cumprir o desideratum paulino, que diz:

E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento
Romanos 12:2

E não se renova o mundo, sem renovar o entendimento do mundo em mim, em ti, em nós. E cá dentro de mim, cá dentro um engenho se move, lentamente, como uma ampulheta feita de um viscoso melaço, escuro mel de engenho.

Parece que ainda oiço o ambulante, carapinha branca, a gritar:

— Mé novo!

Por isso, não gritarei lá fora. Não existe fora. Estamos todos num dentro, numa physis por dentro e por fora… que se movimenta como a almanjarra do velho engenho movido a bois…

Assinado: O Carrapato.

Engenho de Farinha 4

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Sobre Eurico

Escritor e poeta
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