Saberes e Fazeres – por um catálogo da artesania popular no Engenho Velho

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Pastoril na Várzea

UMA EPÍGRAFE:
Quando tiverem conseguido um corpo sem órgãos, então o terão libertado dos seus automatismos e devolvido sua verdadeira liberdade. Então poderão ensiná-lo a dançar às avessas, como no delírio dos bailes populares e esse avesso será seu verdadeiro lugar. (Antonin Artaud)
Motivado por essa epígrafe, trago à baila um dos meus poemas sem nexo, para, com ele, tentar ilustrar uma preocupação que vai implícita em mais essa cronica de diletante:
***
DANÇA SEM CORPOS
Convoquem-se os doutorandos pra dançar,
enquanto é dia…
Cantem-se os cânticos aurorais.
Dancem-se as danças circulares…
Que falem as crianças, os doidos e os poetas,
num intraduzível canto sem métrica,
à claridade, aqui, ali, à claridade,
enquanto se pode achá-la!
Dias virão em que fugiremos pros montes
com pavor de nossos filhos e filhas.
Eles já não nos ouvem e falam um dialeto de autistas,
um poderoso discurso para iniciados.
Salvem-se os jovens dessa seita academicista,
em que se untam de poder e de verdades.
Quando criança eu falava com as gramíneas,
com as formigas, com os insetos do quintal.
Estávamos entrelaçados, minhas raízes e eu.
Meus pais riam disso.
Doidices de crianças, diziam.
Loucura e poíesis, digo eu.
As crianças dessa nova era
estão tomadas por estranha terminologia,
e já não brincam como dantes.
Antes, fabricam-se modos de ver, de pensar, de existir.
O imaginário foi engarrafado.
Envasadas as enunciações poéticas
e as artes, em um discurso de infalíveis.
Urge que se convoquem os jovens doutorandos pra dançar,
sem corpos e sem órgãos,
Dançar deliricamente…
Em transe, com gritos primais.
Urge que cantem as crianças, os doidos e os poetas,
num intraduzível canto sem métrica,
à claridade,
Aqui, à claridade,
enquanto se pode achá-la!
dança ao redor do polo de maio

Pieter Bruegel – Dança de Maio

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Feito isto, passemos ao assunto, que surgiu das discussões de uma aula de Design Social, da Profa. Ana Emília, no dia 18/05/2017, no aprazível terraço do chalé da família Souza:

Uma aluna defendia a produção de um catálogo sobre o artesanato dos moradores da comunidade do Arruado do Engenho Velho, quando a própria palavra catálogo foi posta em discussão pelo grupo, levando-nos a pensar nas maneiras de inventariar e/ou catalogar os saberes e fazeres mais cotidianos de uma comunidade qualquer e, em especial, de uma comunidade quase rural ou rurbana, como é o Engenho Velho da Várzea.

Essa catalogação dos fazeres e saberes ancestrais me levaram à questão levantada no início do século XX, pelo escritor Mário de Andrade, em sua já famosa expedição pelos brasis dentro do Brasil, que, segundo minha compreensão, propiciaria a formulação de uma lei que definisse o modo e a forma de se fazer o registro do patrimônio imaterial, a partir do olhar dos moradores de uma comunidade.

Nos idos de 1936, Mário antecipava uma visão diferenciada, que iria influenciar toda uma geração de estudiosos. Em seu relatório ao ministro Gustavo Capanema, chamou a atenção para o fato de que “o patrimônio cultural da nação compreende muitos outros bens além de monumentos e obras de arte.”

Esse olhar do poeta modernista Mário de Andrade, deve ter influenciado o professor pernambucano, Aloysio Magalhães, (um dos primeiros designers voltados para os processos da artesania¹ popular brasileira),  na concepção  de um Inventário Nacional de Referência Cultural, importante documento que nortearia todo aquele que se interessa pela preservação, registro e tombamento de bens materiais e imateriais no território brasileiro.

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A boa notícia é que os moradores de uma comunidade podem e devem apontar as suas referências culturais, identificá-las e inventariá-las, a partir de suas vivências, de suas memórias e narrativas pessoais ou coletivas.

Uma das atividades do grupo de ativistas que se denominou Movimento de Resistência Popular Arruado do Engenho do Velho da Várzea, MRP-Arruado, consiste em tirar da invisibilidade e do confinamento, as dezenas de pessoas que habitam o casario da extinta Usina Meio da Várzea, depois denominada Loteamento Engenho do Meio, que já estão na posse da terra há mais de 100 anos. Além disso, cuidamos de criar uma narrativa, a partir das memórias dos moradores mais antigos, buscando identificar, no momento presente, as referências materiais e imateriais que se foram consolidando, desde o século XIX, nos fazeres e saberes da vida cotidiana dessa comunidade.

E o que seriam essas referências?

Leiamos um trecho do Manual do Inventário Nacional de Referência Cultural, em sua versão on-line:

“Referências são edificações e são paisagens naturais. São também as artes, os ofícios, as formas de expressão e os modos de fazer. São as festas e os lugares a que a memória e a vida social atribuem sentido diferenciado: são as consideradas mais belas, são as mais lembradas, as mais queridas. São fatos, atividades e objetos que mobilizam a gente mais próxima e que reaproximam os que estão longe, para que se reviva o sentimento de participar e de pertencer a um grupo, de possuir um lugar. Em suma, referências são objetos, práticas e lugares apropriados pela cultura na construção de sentidos de identidade, são o que popularmente se chama de raiz de uma cultura” (Cecília Londres, Manual do INRC, p. 29).

E diz mais, o Manual do INRC:

“Embora essas informações só possam ser apreendidas a partir de manifestações materiais, ou “suportes” – sítios, monumentos, conjuntos urbanos, artefatos, relatos, ritos, práticas, etc. – só se constituem como “referências culturais” quando são consideradas e valorizadas enquanto marcas distintivas por sujeitos definidos. (…) Referências culturais não se constituem, portanto, em objetos considerados em si mesmos, intrinsecamente valiosos, nem apreender referências significa apenas armazenar bens ou informações. Ao identificarem determinados elementos como particularmente significativos, os grupos sociais operam uma ressemantização desses elementos, relacionando-os a uma representação coletiva, a que cada membro do grupo de algum modo se identifica.” (idem, 14)

(Todos os grifos são meus)

Essa postura do IPHAN, já adotada pelo seu corpo técnico, a partir do Manual do Inventário Nacional de Referência Cultural, abre imensas possibilidades de registro, justamente por ser baseada no testemunho e vivência de quem detém os saberes e fazeres populares.

Um bom inventário deve catalogar os saberes e fazeres dos moradores, sem desprezar nenhum pequeno elemento significativo das práticas comunais de uma coletividade. Sejam as ligadas às crenças, ao pastoreio, à agricultura, à manufatura de vestimentas, de utensílios domésticos, da culinária, das festas religiosas e profanas, do artesanato e das artes em geral, que eu chamo de tecnologias populares. Sem esquecer dos jogos e das brincadeiras de rua, um saber próprio das crianças, e, em nosso caso, das crianças que ainda brincam ao ar livre, nos quintais arborizados do Engenho Velho.

Um exemplo de tecnologia popular, que se pode olhar como referência de um saber e fazer da nossa comunidade é a maneira pela qual se combatem as casas de cupim dos galhos mais altos e inacessíveis, nas copas das árvores frondosas do Arruadinho. Contou-me o Marquinhos de Dona Inez, que um tio dele, chamado Bonifácio, era exímio atirador de badoque ou estilingue. A técnica era a seguinte:

1- Enfiava-se em um limão, um fio de nylon ou cordão fino que tivesse de comprimento duas vezes a altura da galha a ser alcançada.

2- Com o badoque, atirava-se o limão em direção do cupinzal. Amarrado à linha, o limão caia no chão, após ultrapassar a galha.

3- Nesse momento, fazia-se, com azeite ou álcool, uma tocha de fogo ao redor do limão.

4- Puxava-se então, o limão incendiário de volta à galha em que estavam os cupins. Pronto: em instantes a casa de cupim estava totalmente destruída pelo fogo. Poderíamos chamar esse fazer de tecnologia popular ou social?

Creio que sim.

E, pelos olhos dos que a inventaram, essa era uma referência cultural dos moradores dos sítios do Engenho Velho, que mereceria um registro imaterial, pela importância da eliminação dos cupins, no trato das árvores frutíferas da comunidade.

Continuemos, com outro exemplo:

As conversas de fim de tarde no Arruado, em que o calor leva os moradores a sentarem à sombra das árvores centenárias, sempre abrem possibilidades, a quem estiver atento, de observar alguns costumes antigos de uma comunidade de agricultores. De certa forma, isolado da vida urbana, o Arruadinho ainda guarda certo bucolismo, como o evocado pelo poeta cearense, que assim cantava:

“Eu era alegre como um rio
Um bicho, um bando de pardais
Como um galo, quando havia
Quando havia galos, noites e quintais”.

E para arrematar esse assunto de como catalogar ou inventariar saberes e fazeres, a partir do olhar dos moradores de uma comunidade, deixem-me contar um causo recente, que pode parecer menor, aos nossos olhos, prenhes de tecnologia dessa nova era da informação, esse mundo virtual que, de certo modo nos oculta práticas ancestrais, que resolviam aquele mundo antigo, cujas técnicas podem hoje nos parecer primitivas, mas que ensejavam soluções práticas para problemas do cotidiano, tais como, comer, plantar e vestir.

Por exemplo:

Semana passada, Dona Angelina, ou dona Nininha, como a chamamos, carinhosamente, estava aperreada com um galo que estava atormentando uma galinha choca. Aliás, esse galo chamava a atenção pelo seu instinto reprodutor. Atacava todas as franguinhas, ainda jovens e não deixava as galinhas completarem o período do choco. Era um transtorno! Dona Angelina, numa dessas tarde de conversas sob a tamarineira, pegou o galo por baixo de suas asas e o levou pra dentro de casa. Cinco minutos depois, talvez mais um pouco, volta ela e me anuncia:

“Seu Lula, já matei!”

“Matou?” perguntei eu.

“Matei o tarado!”

Entendi então que o galo tarado foi pra panela de Dona Nininha. E era um belo galináceo. Que pena!

Lembrei que, hoje em dia, nem toda dona de casa tem coragem de sangrar um galo, para uma cabidela, como ainda faz dona Angelina. Meu pai, que foi morador da Ilha do Leite, (no tempo em que a ilha era apenas um banco de areia, com alguns mocambos e a igrejinha da Saúde), me contava que na Boa Vista havia um judeu sefardita, que era especialista em matar galinhas. Ia esse homem, de casa em casa, a oferecer os seus serviços. Com isso sustentava a família, egressa de uma Europa arruinada pela guerra. Era, portanto, aquele judeu, detentor de um saber e fazer que lhe garantia o sustento.
Dona Angelina é um exemplo de como um antigo fazer, está preservado no Arruadinho, simplesmente, pelo fato de ainda existirem galos, quintais e moradores que preservam esses saberes.

Imaginem, meus doze leitores, que, se aqui nesse Engenho Velho, já houve criação de vacas leiteiras, cabras e cavalos, quantas habilidades, quantos saberes antigos existiram e vivem na memória dessa gente ligada à terra e à criação de animais?

Encerro com outra pergunta:

Devemos catalogar esses fazeres antigos e próprios de uma agro-vila quase rural, confinada num campus universitário?

Se, sim, como poderíamos fazê-lo?

Deixo isso aos Designers Sociais da profa. Ana Emília Castro.

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Palavra de uso recorrente no Brasil, embora ainda considerada, em termos linguísticos, um “estrangeirismo”. Aqui, a palavra é tomada do espanhol e pensada como sendo os processos que implicam na experimentação, investigação, espaços produtivos e produto final, pelos quais o artesão transita para ter um resultado adequado, o que inclui, ainda, a inventividade e a necessidade de métodos apropriados, mesmo em se tratando de um trabalho informal, sem compromisso com a seriação. Artesania sugere, deste modo, o ato de fazer o artesanato e não meramente o produto final.

“A Universidade como espaço de reflexão e fomento aos processos de artesania“.

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Sobre Eurico

Escritor e poeta
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