Diferenças e diferentes no velho engenho do mundo.

Meus prezados 12 leitores, imaginem comigo um certo feriadão, que acontecia há muitos e muitos  séculos atrás:

O comércio fechava as portas. O povo abstinha-se das atividades seculares. Nas casas ricas se preparavam banquetes. Tocavam-se instrumentos de sopro. Matavam-se cabras e carneiros, em rituais de sacrifício e se faziam oferendas de manjares ao Deus Pai. Isso mesmo: tigelas de comedorias oferecidas a Deus!

Imaginem, então, que essa festança se repetia todos os meses do ano. Eu disse: todos os meses do ano. Eita povo festeiro! Parecia até com as festas do povo brasileiro!

Mas não era!

Não eram brasileiros e não se tratava de um ritual de tribos africanas ou asiáticas, tampouco da nossa umbanda ou candomblé, muito menos da jurema, herdada de nossos caboclos. Seria, porventura, uma festividade do colorido e multifacetado Vale do Amanhecer, da saudosa Tia Neiva? Com certeza, não! Se assim fosse, sei que muitos de nós torceríamos os nossos narizes hipócritas para essas festanças rituais.

Pois eu lhes digo que esse cerimonial religioso era hebreu, o “Festival da Lua Nova”, que era celebrado no início de cada mês. (Vide, Nm 28:11 e 14; Ez 46:1-8, Nm 10:10; 28:11-15; Sl 81:3; Am 8:5;1Sm 20:5, 18, 24, 27 e 34).

cordeiro

Cordeiro abatido para o Festival da Lua Nova

Pode parecer estranha, essa festança, essa quase-folia judaica, aos costumes de hoje.

Não há, todavia, o que estranharmos nessas solenidades, pois se a própria festa de Pentecostes era também uma comemoração antiquissima, pré-cristã e milenar, do povo judeu, que nela  agradecia a Yahweh pela colheita, como de resto se fazia em todos os outros povos pagãos, cada um com seu deus.

No entanto, esse feriadão litúrgico dos judeus nos leva a uma interessante questão:

O que diriam os cristãos de hoje, com seus pudores farisaicos, se soubessem que os mais antigos crentes costumavam frequentar aqueles festivais da lua nova?

Eu vou logo adiantando que São Paulo, em missiva aos cristãos colossenses, os repreendeu, justamente pela discriminação aos costumes da tradição popular daquela região da Ásia Menor:

“Portanto, ninguém vos julgue
por causa de comida e bebida,
ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados,
porque tudo isso tem sido sombra
das cousas que haviam de vir;
porém o corpo é de Cristo.”
Colossenses 2:16-17

Mas, por que estou falando disso, aqui e agora?

É que muitas festividades ancestrais estão preservadas na Várzea. Exemplo disso, são as Bandeiras de São João do Carneirinho, num sincretismo carnavalizado e feérico, que envolve distintas manifestações religiosas, em um cortejo que costumamos chamar de Acorda Povo.
Esse cortejo percorre as ruas centenárias da Várzea, cantando loas ao santo e muito forró pé-de-serra, acompanhado por uma pequena orquestra de pau e corda, com o clarinete e o sax alto, fazendo contraponto ao trio, zabumba, sanfona e triângulo.

Eis um momento numinoso!
Eis uma festa com origens pagãs e pré-cristãs!

acorda povo 2015

Mas, ninguém vos julgue…, dizia São Paulo. Porquanto são também cristãos, os que ali dançam e cantam, naquela intensa festa sazonal, que celebra as chuvas da estação, a colheita do milho, o santo, primo de Jesus Cristo e seu alter ego no sincretismo, o orixá Xangô.

Ninguém vos julgue por vossas festas, por vossa ancestral identidade, nem pela vossa alegria dionisíaca. Creio que era essa a intenção da reprimenda de São Paulo aos colossenses, há quase dois mil anos, que ainda está vigorando, nos dias atuais.

Em nossos tempos, invadidos por um, assim chamado, “cristianismo da prosperidade”, julgar é a norma. Proíbem-se as crianças e os jovens de participar das festividades culturais, como se isso fosse o próprio fundamento da fé, contrariando as advertências paulinas. Um cristianismo contrário ao próprio amor do Cristo, cujos líderes hipócritas demonizam a festa, a brincadeira, o jogo, o prazer.

Não agravando a todos, mas, no Engenho Velho da Várzea já se imiscuiu essa postura. E isso dificulta a luta pela preservação da memória, da identidade do seu povo. Inoculam-se essas ideias de que tudo é errado, discriminam-se as festas e a alegria de viver, criando-se, em lugar destas, outras formas de cultuar, com rosas ungidas, relíquias da Terra Santa, e tantas novas formas de iludir e explorar a boa fé dos seus adeptos.

Já não vemos as festas populares, dos Reis, da Queima da Lapinha, o côco-de-roda, a quadrilha junina, as comidas de milho, os bolos, doces e licores, próprios da doçaria colonial, que ainda enchem de água a boca dos que viveram os bons tempos do engenho.

A postura é de uma moral engessada e preconceituosa, que é apregoada por líderes despreparados… o que digo? Despreparados? Muito pelo contrário. Em verdade, são preparados para defender um “evangelho de resultados”, que sustenta uma casta de falsos pastores, que enriquecem, enquanto os fiéis continuam pobres. Que se vão tornando políticos, com propósitos explicitamente reacionários.

O que fazer um ativista cultural, em ambiente tão refratário às tradições? Sinceramente, não sei. Vejo, com tristeza, nos documentários televisivos, tribos inteiras da região norte, em plena floresta amazônica, com seus pajés travestidos de “bispos evangélicos”, usando gravata e colarinho, numa aculturação que vai exterminando seus costumes, sua língua, seu povo. Estudos demonstram que muitos indígenas se tem suicidado, em meio à invasão de suas terras, de sua liberdade, de sua fé.

Já não se pode ter identidade cultural, desde que esta seja diferente do padrão que se vai impondo. E isso, à revelia do próprio evangelho do Cristo: “não julgueis!” Em vez disso, os diferentes serão perseguidos. E as formas de persuasão se renovam, desde as repetitivas lições da mnemotécnica dos jesuítas, que “domesticaram” nossos curumins, lá nos albores da colonização, até os modernos “gerentes de igrejas”, treinados para cobrar dízimos e ofertas, como se o seu deus fosse Mamom!

Aqui, no velho engenho a dança e a capoeira são olhados de maneira enviesada, por alguns. E o pouco letramento é um facilitador para a pregação do preconceito, calcado na oralidade, agenciada pelos que se interessam em amedrontar os neófitos, com as penas do fogo e do ranger de dentes, caso dancem numa festividade comunal, numa sambada, numa roda de capoeira, num inocente  banho de mangueira de carnaval.

paulo_freire_educador03

As diferenças dos diferentes são exageradas aos olhos dos fiéis, com o fim de dominar as suas mentes. Tudo então é pecado e a lavagem cerebral vai se impondo como regra de fé. Como aplicar aquele conselho freireano a uma situação tão adversa, para um ativismo cultural, em tempos como esses?

“É neste sentido que volto a insistir na necessidade imperiosa que tem o educador ou a educadora progressista de se familiarizar com a sintaxe, com a semântica dos grupos populares, de entender como fazem eles sua leitura do mundo, de perceber suas “manhas” indispensáveis à cultura de resistência que se vai constituindo e sem a qual não podem defender-se da violência a que estão submetidos. Entender o sentido de suas festas no corpo da cultura de resistência, sentir sua religiosidade de forma respeitosa, numa perspectiva dialética e não apenas como se fosse expressão pura de sua alienação. Respeitá-la como direito seu, não importa que pessoalmente a recuse de modo geral, ou que não aceite a forma como é ela experimentada pelo grupo popular.”
(FREIRE, P.; Pedagogia da Esperança: um reencontro com a Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1999, p. 107. Grifo meu)

Essa cronica, que se inicia mostrando o que há de comum nos ritos, nos mitos, nas liturgias dos antigos povos, é também um apelo pela tolerância entre os vários modos de cultuarmos o transcendente, para aceitarmos as diferenças e os diferentes e para tentarmos entender onde foi que começamos essa dissensão geral, que abre mão da cordialidade, da convivência pacífica, para, em vez disso, erguermos muros, grades e barreiras, que nos vão levando para os limites do desamor ao próximo e a ver o Outro, o diferente, como um rival, um impertinente obstáculo ao nosso modo único e conservador de ver o mundo, raiz de toda fobia, de todo ódio, de toda violência.

Que ninguém vos julgue, dizia o conselho paulino. E que, diante das diferenças e diferentes, nesse velho engenho do mundo, nós também não julguemos ninguém.

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Sobre Eurico

Escritor e poeta
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