Pitombas do Arruado e memórias de uma guerra

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Quando eu era adolescente, lembro que da janela do meu quarto podia ver uma pitombeira. Era um pequeno quintal, mas com algumas árvores frutíferas. Abacateiro, cajueiro, coqueiros, caramboleira e aquela raquítica pitombeira. Lembrei dela ao ver as fotos que a minha comadre Beth Cruz fez da pitombeira frondosa da casa dos Souza do Arruado, por ocasião da aula de Design Social, em que fizemos a já tradicional trilha pelo caminho centenário do Engenho Velho da Várzea.

pitombas

Pitomba é fruta besta, diz o hino de uma agremiação carnavalesca olindense, cujo nome curiosamente é Pitombeiras dos Quatro Cantos. Talvez seja pela facilidade de encontrá-la nos sítios e chácaras dos arrabaldes antigos, nos quatro primeiros meses do ano.

No dia em que minha comadre fez essas fotos, logo fiz uma associação mental entre a pitomba, a festa dos Prazeres, também chamada festa da Pitomba, a batalha dos Guararapes e o Engenho do Meio da Várzea, onde hoje resiste o Arruado.

Não por acaso há uma frondosa pitombeira no chalé dos Souza. Afinal, estamos em solo histórico. Por esse caminho passaram os combatentes de Guararapes, batalha considerada como a primeira em que se reuniu um exército genuinamente brasileiro, com as três raças, negros, índios e brancos. É claro que a história oficial esconde a forma opressiva de como se arregimentaram índios e negros, com promessas de alforria e algum status entre os escravizados. No entanto,  o Exército Brasileiro comemora o dia 19 de abril de 1648, como a data do seu nascimento.

A propósito, na década de 1990, foram encontrados, no piso da Matriz de Nossa Senhora do Rosário, da Várzea, ossadas dos soldados mortos naquela batalha, homens de porte avantajado, vários com crânios perfurados por  balas de fuzil.

Na Várzea, como é consabido de todos, moravam os conjurados que lideraram a vitória luso-brasileira contra o domínio holandês, dentre eles, os compadres João Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros, senhores dos engenhos do Meio e São João, respectivamente.

Até 1946, ainda estava de pé o sobrado em que residiu um desses líderes, o Mestre de Campo João Fernandes Vieira. Esse casarão, que ficava no terreno doado para o campus, seria usado como morada para os reitores da Universidade do Recife, hoje UFPE, segundo projeto original do arquiteto italiano Mário Russo. Desabou (ou foi demolido)  misteriosamente, em uma noite de tempestade e, hoje, em seu lugar, está um monumento com estátua de Fernandes Vieira.

A ligação visceral entre o caminho centenário da Várzea está representado pela pitombeira frondosa do chalé dos Souza, que, esse mês está em plena safra. A associação pitomba, festa e batalha está então explicada, né, comadre Beth Cruz?

Guararapes-Recife_-_Pernambuco_-_Brasil

Parque Histórico Nacional dos Guararapes tombado pelo IPHAN

          Os beneditinos realizam, desde 1656, uma festa dedicada à Senhora dos Prazeres, em comemoração da vitória em Guararapes, que o povo chama de Festa da Pitomba, por ser na época da safra dessa frutinha adocicada. Essa festa tem início na segunda-feira seguinte ao Domingo de Páscoa. Os romeiros e brincantes da Festa dos Prazeres acreditam que a Virgem apareceu aos combatentes luso-brasileiros (católicos), para lhes dar ânimo no combate aos batavos (protestantes). Reza a lenda que Nossa Senhora transformava pedras em balas, para ajudar os combatentes pernambucanos.

Em samba-enredo magistral, o compositor Martinho da Vila, no ano de 1972, exaltou a Festa da Pitomba, cujos versos primorosos, falam daquela epopeia nordestina:

Aprendeu-se a liberdade
Combatendo em Guararapes
Entre flechas e tacapes
Facas, fuzis e canhões
Brasileiros irmanados
Sem senhores, sem senzala
E a Senhora dos Prazeres
Transformando pedra em bala
Bom Nassau já foi embora
Fez-se a revolução
E a Festa da Pitomba é a reconstituição

Jangadas ao mar
Pra buscar lagosta
Pra levar pra festa em Jaboatão
Vamos preparar lindos mamulengos
Pra comemorar a libertação

E lá vem maracatu
Bumba-meu-boi, vaquejada
Cantorias e fandangos
Maculelê, marujada
Cirandeiro, cirandeiro,
Sua hora é chegada
Vem cantar esta ciranda
Pois a roda está formada

Cirandeiro, cirandeiro, oh
A pedra do seu anel
Brilha mais do que o sol

 

 

 

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Sobre Eurico

Escritor e poeta
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