Cultura educa? – as ações de artes integradas no Arruado do Engenho Velho

Cultura educa?

Ou melhor: cultura popular educa?

Se educa, como o faz?

Podemos mensurar os resultados da ação educativa da cultura, em um território?

Essas e outras perguntas me inquietam, em meio às ações espontâneas de alguns artistas populares, no território do pequenino Arruado do Engenho Velho da Várzea – o nosso Arruadinho, esse tesouro humanitário, esse patrimônio da vida e do povo brasileiro, escondido no Campus Recife da UFPE, há 71 anos, que, em verdade, já  existe nesta Várzea do Capibaribe, há mais de 140 anos. Falo da atual geração de arruadenses, principalmente dos Souza, posto que o Engenho Velho remonta aos albores da colonização portuguesa em Pernambuco, com registros desde 1625. O professor Levy Pereira, da UnB afirma que o caminho em que está erguido o Arruadinho é, de fato, pre-colombiano, baseado em seus estudos de georreferenciamento, em que coteja os caminhos dos mapas de George Marcgrave, cartógrafo da comitiva do Maurício de Nassau, com as imagens de satélite atuais.

Voltemos às perguntas.

Tentarei, de passagem, responder à terceira delas, a da mensuração dos resultados da ação cultural em um território educativo. Lembrando sempre que só se tratam de achismos de diletante.

Pois bem, já lhes falei da preocupação dos gestores públicos, mesmo os das Ciências Humanas,  em apresentar dados estatísticos, a verdadeira compulsão pela análise quantitativa, bem como em mensurar e fazer relatórios com curvas e gráficos, como se essas coisas pudessem, de fato, albergar o fenômeno vida humana.

Gente, há algo, para além da razão pura e matemática, que escapa aos instrumentos, quando o que se pesquisa é a vida humana, a vida biográfica, histórica ou intra-histórica, sua mentalidade, sua alma ancestral, sua cultura. Nessas coisas não há medida certa.

E, nesses casos, fico com a medida da fruta de Jesus Cristo. Não lembram?

Como se conhece se uma árvore é boa?

Pelas suas frutas, dizia o Mestre dos Mestres.

Portanto, querem resultados das ações da cultura popular num território? Procurem os qualitativos e, sem pressa, sem metas, sem data marcada, principalmente quando as sementes são lançadas em tenra infância, como fazemos aqui no Arruadinho, nessa trilha educativa, nessa escola a céu aberto, nesse caminho em que já vicejam árvores centenárias e no qual estão brotando as plantinhas do futuro.

Pelos seus frutos os conhecereis, era a mensuração do Cristo.

***

Deixem-me lhes contar algo bem pessoal, que vivi em meados de 2008, antes de adoecer, e ter essas sequelas, que limitam um pouco, só um pouco, as minhas ações no meio cultural.

Participei da criação do Ponto de Cultura Maracatu Nação Almirante do Forte, dentro do Cultura Viva, um dos programas governamentais mais interessantes desse país, geridos pelo ministro da Cultura, Gilberto Gil e equipe. A ideia do Gil era a salvaguarda dos griôs, dos mestres da cultura popular. E lá no Almirante tínhamos e ainda temos, o irrequieto e atuante Mestre Teté, com suas loas singelas, mas poderosas, que são verdadeiras relíquias no nicho cultural da cultura afro-brasileira.

Conheci Mestre Teté ao procurar uma tia do coração, que se havia perdido da minha família, há muitas décadas. Um dia, ouvi no rádio, o Mestre Teté dedicando uma loa para dona Ana Carmelita, na Estrada do Bongi. Em poucos dias, estava eu na sede do Almirante do Forte, beijando e abraçando a minha Sinhá Nana, hoje saudosa, a mais antiga dama do paço dos maracatus nação de Pernambuco. Cultura viva, dona Ana Carmelita Teodoro, nascida na Ilha do Leite, em frente ao campo do Bahia. Ali viveram também meus avós, pioneiros daquele bairro, hoje o maior polo médico do Recife.

Tornei-me o diretor técnico voluntário (servidor público, não podia, nem queria auferir lucros do Ponto de Cultura) até que afastei-me por motivos de saúde.

Tentamos várias ações educativas, no Ponto de Cultura e, como em quase toda a parte, encontramos uma indiferença e um desânimo com a história, com a memória, com as raízes da agremiação, principalmente por parte da juventude, que só curtia o maracatu, no período do carnaval.

O resgate da Cultura Viva, a partir do griô, do mestre, creio que foi atingido. Mas, dele e só dele. A tradição, as raízes religiosas do cortejo, a simbologia da calunga… poucos no grupo conhecem. As crianças e os jovens vão perdendo o sentido do brincante, que vai muito além do carnaval. E infelizmente, a cultura africana, única no mundo, apresentada no brincante do maracatu, vai se tornando apenas mais um grupo de carnaval.

É claro que a população do Recife fica encantada pelas evoluções do Rei e da Rainha, sob um pálio azul celeste, com as calungas, carregadas pelas damas do paço, ao som trovejante e belo das alfaias. Porém, quem saberá distinguir, nesse folguedo, o cortejo do Rei do Congo e das Irmandades dos Homens Pretos, que reinavam, de verdade, em um Recife colonial?

Cultura educa?

Sim. E não há nada mais poderoso quanto a mensagem da cultura popular e ancestral. No entanto, não como produto para ser visto nos dias de Momo. Não, apenas. Uma escola informal e aberta de cultura popular, deveria ser a sede de todos os grupos e brincantes do carnaval. E eu diria, que não só do carnaval, mas de todos os ciclos de festas populares desta cidade.

Sonho com o estender-se das festas por todo o ano. Nos preparativos, nas atividades lúdicas, nas sambadas e pastoris, na fabricação das burrinhas, dos gigantes de Olinda, dos tiridás e mamulengos, nas vestes dos caboclinhos, das laursas, dos bois bumbás, nas fantasias das pastorinhas, que, do presépio, passariam aos blocos líricos, pois que tudo é festa, é vida, é cultura!

E que, nos bairros, se retomassem os círculos de cultura popular, como nos longínquos anos 1960, antes de a ditadura extinguir o MCP – Movimento de Cultura Popular, em que surgiram nomes como Germano Coelho, Abelardo da Hora, Ariano Suassuna e Francisco Brennand.

Cultura educa, se vivida o ano todo. Não como efemérides, como o Dia do Índio ou Semana do Folclore. Cultura amalgamada com educação, no espaço vivido, no território, no lugar. E não me venham apenas com mapeamento em sites da internet, com fotos digitais ou vídeos. Venham sentar-se no chão, na lona dos circos, dos teatros de rua, das contadeiras de histórias e de estórias. Venham pro meio da rua, como os brinquedos populares de minha comadre Beth Cruz. Venham ouvir o futebol dos bichinhos, dinâmica arretada da minha amigona, a poeta Neide Germano.

Nesse momento, em que vejo as melhores cabeças envolvidas com slogans a favor ou contra isso ou aquilo, ou, uma outra juventude que prefere as baladas aos brincantes, sinto que estamos perdendo os nossos melhores anos. E o pior: é um tempo em que os próprios brincantes vão se tornando produtos da indústria cultural. E mesmo aqueles que não se tornaram mercadorias para o capitalismo, não conseguem sair da mesmice de cada ano, por várias razões, inclusive as financeiras, e se perdem em seu papel de criar comunidade em torno de si, em criar um sentido de identidade e de pertencimento, e se perdem da memória, e se perdem do condão de encantar as crianças e assim, educar…

Sonho,  — e quase me ia esquecendo –, com a ideia de criarmos o bloco infantil, Botões do Capibaribe, que seriam as crianças do Bloco Lírico Flores do Capibaribe, da Várzea. Quem sabe também sonhar junto com Isaac e o Mestre Luiz de França, com uma Burrinha da Várzea e um Boi Teimosinho, para as crianças da comunidade da Santa Quitéria? Sonhar é preciso!

BURRA DA VARZEA MCV 2014 (58)

O cenário é difícil. Parece até que sou pessimista. Mas não sou! Acredito que há um trabalho de formiguinhas, eu até diria, de cigarrinhas, que atravessam o inverno e o verão, atuando em pequenas comunidades desses brasis invisíveis, nos novos quilombos, nas vilas agrícolas, nas favelas, nos sítios afastados, nos engenhos de fogo morto… lidando com a cultura viva, pelo prazer de vivê-la, pelo prazer de viver.

Por falar nisso, certo dia, em plena reunião do NEAfi/UFPE, coordenada pela profa. Ana Emília Castro, referência em Educação Integral e Ações Afirmativas, nesse Pernambuco Libertário, perguntei-lhe, em tom de brincadeira:

Ana, por que estamos nisso, nessa luta pela educação e cultura, nas comunidades, com tantos obstáculos, tantas dificuldades, em que se chega a correr riscos tremendos?

Responde-me, ela, com o seu bom humor que tanto nos anima:

É nossa cachaça!

E é verdade. Quem não se embriaga nesse trabalho, nessa luta diária pela cultura que educa, não vai jamais nos entender. Sem tesão não há solução, dizia o anti-psiquiatra Roberto Freire.

Portanto, não desanimamos. E, nesse momento, estamos criando um ambiente de autogestão, com artes integradas, no território (educativo) do Arruadinho do Engenho Velho da Várzea (UFPE). Não importam os parcos recursos. Nós inventamos jeitos. Jeitinhos brasileiros, jeitinhos universais e jeitinhos locais.

Assim, reinventamos a Geloteca. que não há de ser apenas um local de leitura de livros, mas, de leitura do mundo, do entorno, do contexto, da terra e de nós mesmos, rodeados por um punhado de crianças curiosas e cheias de vida e ladeados por parceiros cheios de ideais, de utopias, cheios de vida, também!

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Cultura educa! Cultura popular educa, mesmo! Sempre educou e há de educar! Basta não nos deixarmos atrelar ao mercado, ao capitalismo doentio e ao seu servo, o Estado, esse polvo de mil braços, vassalo dos plutocratas e de seus prepostos.

Uma ação autogestionária, quase invisível, como tudo nesse Arruadinho, vem sendo realizada desde 2014, pelo MRP-Arruado e seus parceiros. Assim, 2017, começou com a oficina de artes integradas do artista Fernando Serpa, que se pretende uma semente de árvore boa e frondosa, como costumam ser as árvores da verdadeira cultura popular, feita pelo povo e para o povo!

Os resultados?

Quem viver, verá!

Sobre Eurico

Escritor e poeta
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