Engenho Velho e senso de comunidade: o combate à praga do isolamento

(…) qualquer sociedade decente deve gerar um sentimento de comunidade. A comunidade contrabalança a solidão. Dá às pessoas um senso de pertença vitalmente necessário. E, entretanto, as instituições de que a comunidade depende estão se desmoronando em todas as sociedades meramente técnicas. O resultado é um praga de solidão se espraiando. (Alvin Toffler, in, A Terceira Onda, 1980, p. 361)

 

É preciso criar comunidade! alertava o futurista Alvin Toffler, nos anos 80, do Século XX, o século que ainda não terminou e que insiste em seus velhos pre-conceitos, em suas  estruturas políticas colapsadas e em sua industrialização autodestrutiva e obsoleta.

É preciso recriar o sentimento de comunidade, a comunhão, a amizade e o companheirismo. Não precisamos mais de siglas partidárias, de sindicatos corporativistas, de líderes mafiosos travestidos de salvadores da pátria, de pregadores plutocratas, que ficam cada dia mais ricos, enquanto seu rebanho resignado morre à míngua. Essas siglas, seus líderes e pregadores estão todas em seu ocaso. Agonizam juntamente com a nauseabunda sociedade industrial!

Uma nova sociedade surgirá, depois do caos a que nos levou o crescimento cego, o populismo prestidigitador e o industrialismo destruidor de florestas. Essa sociedade nasce agora, longe da grande mídia, nas pequenas comunidades, quase invisíveis,  muitas agrupadas em redes sociais, em telecomunidades, que se preocupam com qualidade de vida, ecologia, espiritualidade e outras coisas hoje risíveis para os donos do mundo.

Não preciso ir muito longe para ver a solidão a dois, a solidão a mil, a multidão solitária nas cidades e nos campos. Uma vida emocional satisfatória, a ser vivida no coletivo, carece de uma psicosfera amorosa. Sim. Isso mesmo. Amorosa! E isso não é dito por mim, um mero crônista diletante. Folheiem algumas páginas de Paulo Freire. esse grande educador mundial, que logo encontrarão a tão desgastada palavra amor.

Fica então a pergunta, no estilo que aprendi nas lições de Design Social, da profa. Ana Emília Castro, aqui mesmo, à sombra das árvores centenárias desse Engenho do Meio:

Como poderíamos começar a planejar um ambiente psíquico saudável para nós, para os nossos filhos e netos, num futuro que se aproxima velocíssimo?

A resposta pode vir elaborada por uma tese ou uma dissertação, até mesmo por um tratado da psicologia social, etc. Mas tratarei aqui de coisas simples e antiquíssimas, costumes gregários, que podem até passar despercebidos aos desatentos.

Vou começar por uma coisa muito singela, que só poderia surgir da  cabeça de um homem afeito às coisas das gentes do interior, dos sítios afastados, que ainda preservam um senso de comunidade herdados de tempos muito antigos. Eu falo da decisão de Seu Josemar Júlio de fazer a festa de aniversário da trineta de Dona Biu do Arruado, a menina Maria Gabriela, ao ar livre, no caminho centenário do Engenho. Essa escolha foi consciente. Ele me falou que iria fazer a festa no Clube Universitário da UFPE, mas, de repente, lembrou das festas dos moradores do sítio onde nasceu, num distrito da cidade de Nazaré da Mata. E resolveu fazer, no mês de dezembro, a melhor e mais bonita festa que eu já vi nesse Arruadinho:

O aniversário de Maria Gabriela.

 

E qual a lição que ficou dessa festa tão bonita e ao mesmo tempo tão simples e popular? Aprendemos, com Seu Josemar, que as iniciativas agregadoras e com senso de comunidade podem estar num gesto aparentemente comum, sem a grandiosidade teórica nem o tecnicismo dos especialistas.

Seu Josemar é herdeiro de uma rica cultura de paz e de boa vizinhança, preservada nos rincões deste Brasil. por gente da roça, da palha da cana, gente do engenho. Eis, tão naturalmente, vinda do matuto generoso, Josemar Júlio, a lição do senso de comunidade, essa palavra originária do latim communitas, “comunidade, companheirismo”, cuja raiz, communis,  quer dizer “comum, geral, compartilhado por muitos, público”.

Do mesmo jeito que as pragas devastam as árvores do campus da UFPE, ceifando velhas árvores frutíferas (inclusive, a centenária Barriguda do CTG, tombada desde o ano 2000, pela Prefeitura da Cidade do Recife), há uma praga poderosa e que vem do mundo lá fora, invadindo a comunidade do Arruado. A praga do isolamento entre as famílias, entre as pessoas, a solidão compartilhada, essa em que passamos de cabeça baixa para não dar um bom dia ou boa noite ao vizinho. Essa coisa estranha já chegou aqui. Há também a saudação seletiva, ou seja, se és da minha religião, te saúdo com a paz do Cristo e se não fores, receberás um mero oi, tudo bem? e a paz, que era do Cristo, se torna propriedade privada das seitas e religiões sectárias. Fechamo-nos, então, em torno dos grupos de igreja, de clube, de faixa etária (jovens separados de idosos e de crianças), segregando-nos uns aos outros, o que, como consequência, forma uma rede de relações interpessoais de fachada, ou, simplesmente, nenhuma relação.

Há remédio para isso?

Há, sim. E venho observando atores bastante sociáveis, como Dona Nininha, Seu Mica, Josemar e muitos outros, que fazem questão de participar de todas as reuniões, eventos e festividades. Gente que representa uma época diferente, de mais comunhão, de mais ombro a ombro, de mais solidariedade.

Sabemos que esse fenômeno da desagregação veio no bojo da industrialização, do modelo-fábrica, que levou a família a se afastar da vida agrícola, do cuidado com a casa e com o quintal e  afastou as crianças para as creches. Com a promessa de trabalho em melhores condições, de realização pessoal, veio, na esteira do modelo-fábrica, a cisão da família e da vizinhança e, com ela, a dor do isolamento e a solidão.

É necessário reconhecermos que a solidão é um problema de saúde pública, que leva as pessoas à depressão, ao pânico, ao alcoolismo e às drogas ilícitas. Por isso, o remédio é restaurar o senso de comunidade perdido. Mesmo que tateemos primeiramente pelas comunidades virtuais. E delas passemos aos encontros de grupos com os mesmos interesses: música, artes, ciclismo, ginástica, cabelos crespos ou, simplesmente, amizades. Mas o futuro das pessoas solitárias deve ser buscar a restauração da comunidade, das parcerias, da gestão solidária do trabalho e do lazer, das cooperativas, da vida solidária, enfim.

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Seu Josemar, Seu Mica e o pequeno Léo, fazendo a gelahorta solidária do Arruadinho

Outra lição de senso comunitário nos deu ainda o Josemar Júlio, quando insistiu no jantar natalino do Arruado, mesmo com alguns moradores reticentes, achando que não ia dar certo. Eu mesmo, sou sincero, estava no coro dos ressabiados. Lembro de que ele, pra me convencer, contou-me que, nas festas de seu interior, um morador se vestia de Mateus do Cavalo Marinho, escondido de todos, saía pela porta de trás da casa e surgia de repente no meio do sítio, animando os moradores para a ceia de Natal ou de Ano Bom. Há algo mais telúrico, mais terrunho, mais próximo daquela criança pobre nascida numa estrebaria?

Ainda bem que a ideia da Ceia Solidária de Seu Josemar venceu os menos animados. Foi linda! Eu confesso que fiquei emocionado com a simplicidade daquela festa da natividade do Menino-Deus. Foi uma das mais bonitas experiências comunais que eu já vivi.

Esse é o caminho! O senso de comunidade de Seu Josemar, trazido do Engenho Abreus, na Mata Norte,  para o nosso Engenho do Meio da Várzea.

 

Para não me alongar mais, com tantos exemplos de senso de comunidade, de comunhão e de fraternidade e para não deixar os meus doze leitores com água na boca ou nos olhos, como estou agora, em meio à emoção desses instantes que vivi, vou apenas lhes contar do almoço do primeiro dia deste ano de 2017.

Os talentos de Seu Josemar são múltiplos. Menino do corte da cana, aprendeu a guiar caminhão, trator e ônibus, é pedreiro profissional, entende um pouco de contabilidade, mas, é na arte culinária que ele se supera. O chambaril com pirão desmanchava-se na boca. O churrasco tinha uma carne macia, que só ele sabe escolher, no açougue. Menino de engenho conhece as partes do boi como ninguém. Faz sucos deliciosos. Não há como não ter o mínimo de senso de comunidade, sentado à mesa farta de Seu Josemar. Essa é mais uma lição de como agregar os moradores de um lugarejo: conquiste-os pela barriga! (risos)

Não há nada mais ancestral do que um banquete popular, a céu aberto.

Concluo, dizendo, que nem tudo é flores. Que  a solidão e o isolamento estão nas mentes das pessoas de nosso tempo. O individualismo, a competição e certo narcisismo, são componentes da nossa civilização em crise. No entanto, há saídas, há remédios para esses males. E quem ainda tem esperança, quem guarda a fé e não desiste do ser humano, tem o caminho amoroso e solidário ensinado por tantos mestres da vida, tantos anônimos semeadores do bem, como contam os evangelhos Daquele que, montado em um jumento, aclamado pelo povão, adentrou em sua cidade e ensinou o amor, incondicional, ao próximo; lição que nós ainda não aprendemos…

Paz e fraternidade a todos e todas!

Sobre Eurico

Escritor e poeta
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