Ano novo, Engenho velho: a dor e a delícia de ser o que é.

“O amor, o trabalho e o conhecimento são as fontes de nossa vida. Deveriam também governá-la.” Wilhelm Reich

enxada

A epígrafe reichiana acima poderia ser traduzida assim: “os quereres (amor), os fazeres (trabalho) e os saberes (conhecimento) populares são nossas fontes vitais, mas outras forças nos governam.”

Essa interessante frase de Reich abre a sua obra prima ” A Função do Orgasmo”,  e, por acaso, encontrei no meu bloquinho de notas de 2015,  essa anotação que fiz durante o curso Mapeamento Sócio-cultural, que fizemos, eu e Elidiane Curcio, minha vizinha, como representantes da comunidade do Arruado do Engenho Velho da Várzea, e que foi coordenado pelo Núcleo de Educação Integral e Ações Afirmativas – NEAfi/UFPE. Aliás, aprendi a admirar o NEAfi por dar vez e voz aos ativistas de diversas comunidades, acolhendo, com sabedoria e humildade, as ideias e sugestões dos que não fazem parte do mundo formal da academia.

Lembro de muitas observações e conversas paralelas que fizemos, eu e Elidiane, bem mais jovem e muito mais inteligente do que eu, sobre nosso modo de ver aquele mapeamento.

Foi de uma dessas conversas que surgiu a ideia desta crônica de diletante, a última desse ano de 2016, que talvez eu nem tenha tempo de publicar, devido à azáfama deste dia 31 de dezembro, que me tira a concentração. Mesmo aqui, nesse arruadinho escondido do mundo, a febre consumista e festiva nos apanha e interfere em nossas atividades de rotina. Essa noite de ano novo é apenas mais uma das rotações e translações, das milhões já feitas pela Terra em torno de si mesma e do Sol, que nós arbitramos em calendário, para contar o tempo vivido. É da cultura ocidental, essa forma do contar o tempo e, apesar de predominante, não é a única no planeta. Uns povos contam o tempo pelo Sol, outros povos, pela Lua. Mas, o calendário é mesmo algo muito particular de cada cultura.

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Calendário Gregoriano

Pois, então, era da Cultura que tratava o mapeamento social que nos foi proposto pelo NEAfi. Como representantes do Arruadinho, foi ao nosso território sócio-cultural que nos dedicamos. Logo na abertura do curso conhecemos o antropólogo Tião Rocha, através de seu artigo As Tramas da Identidade.

Nesse texto ele nos ajuda a compreender a cultura, essa palavrinha tão cheia de sentidos, dissecando-a em sete indicadores sociais. Vou resumir os indicadores do Tião, para em seguida lhes revelar as controvérsias paralelas, que fui anotando, durante o curso. São eles:

1) as formas organizativas, 2) as formar do fazer, 3) os sistemas de decisão, 4) as relações de produção, 5) o meio ambiente, 6) a memória , 7) a visão de mundo..

Lembro de que discordei publicamente do texto do Tião, em um ponto. Na tentativa de mensurar os seus indicadores, há uma armadilha em que as ciências humanas sempre resvalam, que é a de querer quantificar tudo, como se a vida fosse uma coisa mensurável, e traduzível em meras estatísticas, como fazem, ou tentam fazer, as ciências exatas.

“Em toda e qualquer comunidade humana existe e interagem diversos componentes substantivos (indicadores sociais) que podem ser identificados, MEDIDOS e observados, que quando interagem entre si, constroem a cultura do grupo humano que aí vive”. Tião Rocha

Arruadocortejo

 

No Arruado, por exemplo, essa mensuração tem uma outra dificuldade. É que realizamos nossas ações de maneira autogestionária, evitando ao máximo a presença do Estado e de seus representantes (políticos, principalmente). A nossa forma organizativa é não ter organização formal. (risos) Mas, nada impede de que se façam estudos e pesquisas qualitativas sobre as nossas ações dentro da comunidade.

E tem mais. Com a devida vênia e respeito pelo seu importantíssimo trabalho, o nosso Tião Rocha, em seu levantamento sócio-cultural, passa ao largo de duas instâncias humanas que considero fundamentais para a compreensão de um território, que talvez estejam embutidas de alguma forma e até perpassem, (sem que eu tenha percebido) o leque de seus indicadores. São elas, o prazer e a violência reativa.

Não tenho o domínio dos fundamentos freudianos, ou de qualquer outro estudioso, como Reich, sobre o princípio do prazer. Em vista disso, não tratarei de teorizar, nesse espaço de blogueiro, esse conceito. De maneira nenhuma! Cuidarei das vivências prazerosas (ou não) do nosso cotidiano. pessoal ou coletivo. Exemplos: o prazer das drogas lícitas e até mesmo das ilícitas, o prazer do sexo precoce  entre adolescentes, o prazer em nada fazer, nem estudar, o prazer dos games, o prazer de matar aulas para jogar bola, o prazer de consumir – enfim, o prazer que permeia a vida real das pessoas da comunidade, sejam crianças, adolescentes, jovens ou adultos. O prazer que tem uma força tal, que deveria estar explícito em algum indicador social do antropólogo Tião Rocha, especialmente, se tratamos de territórios educativos.

Não está também elencada naqueles indicadores sociais, a violência, em todas as suas formas, incluída a violência que chamarei de reativa, que vai do vandalismo até as brigas entre torcidas de futebol. Creio até que nessas brigas de galeras uniformizadas, há também prazer, um prazer sadomasoquista, de bater e de apanhar.

(Tive um colega de trabalho, nos tempos em pertenci aos quadros da UFRPE, Universidade Rural, que dizia, em tom de brincadeira: meu cérebro tem dois lados, um é sexo, o outro, é violência. Andava armado e se orgulhava de seu revólver, o desditoso colega, que teve um fim trágico, executado em frente à sua casa, com diversos tiros de pistola).

Por isso, creio que não há como mapear a realidade sócio-cultural de um território, sem adentramos pelo lado sombrio da violência. E falo da violência em todas as suas faces e níveis. Principalmente, a violência reativa, aquela que surge de dentro do oprimido, do excluído, do injustiçado em seus direitos fundamentais. A violência, que surge enquanto reação ou revolta, como uma maneira de se defender de um mundo hostil.  O bulliyng pode ser oriundo de uma violência reativa, como em certos casos de repressão no ambiente familiar, que finalmente chega à comunidade escolar como um extravasamento das humilhações impostas pelos próprios pais. Essa violência reativa é, pois, um sério indicador social, a ser avaliado em um território educativo.

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No caso do Arruadinho, a primeira violência é o confinamento institucional. A violência de não ter garantidos os seus direitos à terra, à moradia, ao ir e vir (depois de certa hora da noite), aos serviços básicos de qualidade, etc.

Mas há uma face oculta da violência, que ainda não consegui desvelar nessas minhas crônicas, por se tratar justamente de uma violenta dissimulada e amalgamada com o prazer, que se ocultam dos olhos do observador.  Certas paixões e excessos, quando em situações limítrofes da opressão, principalmente da mulher  ou da criança, escondem-se no silêncio, na dor e na vergonha, no recesso sacrossanto dos lares.

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Foi por essas coisas dolorosas e ocultas, no seio das comunidades, que, achei, aparentemente, muito limpinhos, saudáveis e rosados, os indicadores sociais de As Tramas da Identidade do Tião Rocha. Faltam-lhes a cara suja dos excluídos, dos que são perseguidos por causa da cor da pele, por sua orientação sexual, pela sua crença não-cristã, por questões de gênero e por todo o tipo de relação de poder e de preconceito.

Curvelo, a cidade mineira onde o nosso antropólogo dá aulas sob uma mangueira, me pareceu ser um pedaço do céu, diante das comunidades que parecem ser esquecidas por Deus e pelos homens, em todos os cantos do planeta.

Se quisermos, verdadeiramente, mapear o território e a escola precisamos incluir a violência e o prazer, dentro do campo de observação de quem quer conhecer as tramas (do submundo) da identidade. Pois viver é difícil, dizia Riobaldo, nas veredas filosóficas dos grandes sertões do Rosa. E Caetano assevera em canção antológica, que  “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.”

Por isso, o ano é novo, mas o engenho é velho, como velho é o mundo em que vivemos. Mundo, velho mundo! Patriarcal e envelhecido pelas tristezas fundas das mulheres maltratadas, pelo abandono de idosos e idosas, pela agressão às crianças, subjugadas pela força exorbitante nos castigos físicos, principalmente dos que deviam lhes dar colo e carinho. Mundo, velho mundo! Enquanto completam-se as translações da Terra em torno do Sol, persevera em ti, ó mundo impenitente, a sombra  da violência exercida por prazer, que escurece os tetos das casas nos campos e nas cidades.

Ai de ti, mundo que giras em torno de ti mesmo e do Sol. O clamor de tuas crianças abusadas, de tuas mulheres violentadas , de teus velhos abandonados, é o sinal dos tempos; desses tempos que comemoras com artifícios e fogos, como se pudesses esconder com luzes a tua melancólica decadência. Não me enganas, festivo mundo, pois, se o ano é novo, o engenho é velho, muito velho…

vietnamita

 

 

 

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Sobre Eurico

Escritor e poeta
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