Pieter Bruegel, o cotidiano medieval e os bruguelos do Arruado

Qual seria a intenção de Pieter Bruegel, o velho, ao pintar cenas de humildes campesinos, em sua Flandres, no período em que reinavam aqueles déspotas de Habsburgo, os donos do Império Romano-Germânico?

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Bruegel – Dança no Polo de Maio

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Ciranda no Arruado

Confesso que não tenho essa resposta, nem a quero. Intenção é coisa tão subjetiva, que só aos que se aprofundam, aos que dedicam suas vidas inteiras à pesquisa, ela se revelaria, e, creio eu, que, por tabela, porque quem conhece o coração do homem e da mulher (rsrs) para afirmar com toda a certeza o que levou Bruegel a pintar camponeses, enquanto seus contemporâneos pintavam os reis e a nobreza?

Em verdade, esse cronista diletante está a buscar, não o “porquê, mas o “quê”, da opção de Bruegel em pintar “preferencialmente os pobres.” Dizem que ele se vestia como um camponês e se misturava a eles, em suas festas e celebrações, para gravar as cenas na memória, e, em seguida, fazer os seus escorços, que nos legaram essas preciosidades pintadas no último quartel da chamada Idade Média. Bruegel viveu entre 1525 e 1569, em Flandres, atual Bélgica.

A sua inclinação pelos temas populares e seu costume de vestir-se como tal tornou-o conhecido como “Bruegel, o Camponês”. Quem observa seus quadros minuciosos, percebe que, em suas composições, a vida rural e das pessoas anônimas era a inspiração para suas obras. Seria Bruegel um pintor da intra-história, ou seja, dos povos sem voz e sem vez na história oficial?

(Eu jamais cometeria esse anacronismo, pois o termo intra-história só seria cunhado mais de 500 anos após, pelo pensador basco Dom Miguel de Unamuno y Jugo.)

Bruegel foi um dos maiores mestres flamengos, do século XVI e, além de pintor, era também escultor, arquiteto e decorador de tapeçarias e vitrais. Foi conhecido como Pieter Bruegel, “O Velho”, para distingui-lo de seu primogênito, também pintor. Assinou como Brueghel até 1559 e, depois de sua morte, seus filhos retirariam o “h” do sobrenome.

Vejamos mais um pouco da biografia de Pieter Bruegel, copiado de um site da internet, para depois seguirmos com essa com essa crônica sobre os “brugelos” do Arruado:

“Embora as informações biográficas sejam escassas, a obra de Bruegel permanece como testemunho de sua originalidade. Isto porque ele conseguiu seguir um caminho próprio, liberto dos cânones tradicionais copiados dos mestres italianos. Estudou pintura com Pieter Coeck, tornando-se mestre da Guilda dos Pintores de Antuérpia, em 1551. Nesta mesma época Bruegel viaja pela Itália, aprendendo a técnica dos renascentistas. Permanece como interno durante uma temporada no atelier de um professor siciliano. Retornando, vive um tempo em Antuérpia até se fixar definitivamente em Bruxelas, 10 anos depois. Em 1563, casa-se com Mayken, filha de seu mestre. Deste período destacam-se suas paisagens, especialmente alpinas, passando depois para temas satíricos, didáticos e moralistas, influenciado por Hieronymus Bosch.

Além da sua predileção por paisagens, outra característica das mais marcantes de seu trabalho são os temas onde Bruegel realçava o absurdo na vulgaridade, expondo as fraquezas e loucuras humanas, algo que lhe trouxe bastante fama. Apesar das semelhanças com Bosch, o horror presente no realismo de Bruegel é algo que o seu antecessor não alcançou. Suas obras do período de 1560-1569, onde mostra cenas da vida camponesa, são consideradas de grande importância na história da arte, pelo ineditismo do tema. É ao mesmo tempo importante notar que, durante esta década, os Países Baixos rebelaram-se contra o governo espanhol e seu maior representante, o duque de Alba, responsável por um reinado de terror, foi devidamente imortalizado por Bruegel em suas pinturas.

Morre no auge de sua produtividade, aos 44 anos de idade, em Bruxelas, sendo sepultado na Igreja de Notre-Dame de la Chapelle, a mesma onde tinha se casado.

Brueghel é responsável por uma rica pintura narrativa, documentando costumes de época, tornando-se um  dos mais representativos pintores flamengos do período Cinquecento (1500-1599) do Renascimento. Em sua obra, o mestre flamengo simplificou a realidade a serviço da sua visão do universal, mostrando a tragédia e a sabedoria de fundo popular.”

Fontes fuçadas:

As obras de Bruegel, disponíveis em: <http://www.casthalia.com.br/a_mansao/obras/bruegel_morte.htm>. Acesso em: 07 jul. 2012.
Pieter Bruegel, o Velho. Disponível em: <http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/PieterBr.html>. Acesso em: 07 jul. 2012.
Pieter Brueghel, o Velho. In Infopédia [On-line]. Porto: Porto Editora, 2003-2012. [Consult. 2012-07-07]. Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$pieter-brueghel-o-velho>.

Um de seus mais famosos quadros é, sem dúvida, Jogos Infantis, que eu gosto de chamar de Brincadeiras dos Bruguelos. Andei pesquisando a etimologia de “bruguelos” e não achei nenhuma relação com as crianças do quadro, que, pensando bem, parecem adultos, mas, achei no Dicionário Cearense (Cearensês), que bruguelo significa recém-nascido ou criança pequena, “minino novim”, como diria o meu amigo cearense, Emanuel Bezerra de Brito:

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Jogos Infantis – Bruegel

 Vejam os detalhes das “crianças” desses jogos, na figura abaixo:

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No Engenho Velho da Várzea, por estarmos meio que isolados do mundo, principalmente nos fins de semana, há uma tendencia de que as crianças, os bruguelos do Arruado se divirtam com as brincadeiras de rua. Algumas delas, como o pião e a cabra-cega, retratadas há mais de 500 anos, pelo velho Bruegel.

 

 

 

 

Quando vejo as fotografias das primeiras festas do MRP-Arruado, que costumávamos chamar de celebrações, encontro uma semelhança com as festas dos campônios pintados por Bruegel, no fim da idade média. A alegria, a simplicidade, a comunhão com a vida e com a natureza, tudo nos leva a essa comparação.

É o culturalista Adolpho Crippa que nos alerta para o fato de que(…) O tempo festivo é um tempo especial e sagrado.” E assevera Mircea Eliade: “o Tempo da origem de uma realidade (…) possui um valor e uma função exemplar. Por essa razão, os homens se esforçam por reatualizá-lo periodicamente por meio de ritos apropriados (. ..) uma festa desenrola-se sempre no Tempo original “.

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A Dança dos Camponeses

 

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Celebração na garagem da família Melo

Era essa sensação de eterno-retorno, de estar repetindo as festas ancestrais do Engenho Velho, nessa garagem que, dizem, um dia foi senzala, que nos leva a comparar a atitude cultual e festiva de diversos povos antigos, renovando-se, por sua exemplaridade, nos festejos dos dias de hoje. A celebração é mais do que mera alegria e expansividade. Através dela, os povos de todos os tempos comemoram o presente, em toda a sua plenitude, em toda a sua força dionisíaca. O nosso calendário é um conjunto de festas e cada povo celebra as estações do ano, as colheitas, os equinócios e solstícios, ainda que com outros nomes, ligados à religião preponderante naquele país ou região.

 

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Grupo Olho D’água – durante uma festa no Arruado

Os arruadenses, povo festeiro, desde os seus antepassados, fazem festa por tudo. Agora mesmo, nesse primeiro domingo de julho, do Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de dois mil e dezesseis, a família Souza está comemorando um aniversário. Fui convidado por eles, mas, como ando apolíneo e sem ingerir bebida alcoólica, há cinco anos, perdi a oportunidade de beber a infusão de jenipapo cozido com litros de cachaça, especialidade do Marquinhos, o filho da matriarca Dona Inês de Souza, que completou 90 aninhos, no dia 21 de abril, do corrente ano.

Estão fazendo falta, as festas do MRP-Arruado, que congregavam os moradores e amigos, sempre com a presença dos grupos culturais e artistas da Várzea e de outras localidades, como o grupo da foto acima, de onde surgiram  o atual Bate o Ganzá, a Burra da Várzea e o Zé Lasca-vara e o Coco-que-roda, grupos culturais que ainda aparecem na cena cultural  recifense.

Nessas festas, estávamos todos imbuídos de ideais comuns, que consolidavam a luta de resistência dos moradores, o seu empoderamento, a sua união. Perdemos, por motivos diversos, a ocasião de comemorarmos o segundo aniversário de fundação do MRP-Arruado. Porém, nesse mês de Sant’Ana, durante o evento de educação popular, FREPOP/UFPE, devemos fazer o registro dessa data, tão importante para a preservação dessa comunidade de filhos, netos e bisnetos de camponeses, que trazem a marca da terra nos calos das mãos e o amor à natureza. Comemoraremos, como dantes, a alegria das colheitas,  do tempo das chuvas e do Sol benfazejo. É nesse sentido, comunal e festivo,  que encontrei felizes semelhanças, entre os campônios e petizes dos quadros de Pieter Bruegel, o Velho, e a vida simples e animada, dos moradores do Arruado deste Engenho do Meio da Várzea.

Vamos de mãos dadas!

 

 

 

 

 

 

 

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Sobre Eurico

Escritor e poeta
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2 respostas para Pieter Bruegel, o cotidiano medieval e os bruguelos do Arruado

  1. Beth Cruz disse:

    Que bela comparação meu grande poeta e amigo, entretanto a simbologia e os arquétipos introduzidos nas imagens ecoam movimentos recíprocos, lúdicos e repletos de cultura ancestral. Foca algo, muito mais além do que vai a nossa mera imaginação! O surrealismo reside na mente dos que não contemplam o Arruadinho em sua essência e pureza de outrora e de agora, e de modo material o futuro é tão incerto, ademais a junção do que nos resta pode-se transformar num bem mais precioso registro da vida pacata dos moradores e simpatizantes do Engenho do Arruado. Forte abraço sem mais Beth Cruz

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