As Janelas da Alma, o Carrapato e a Conscientização

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“E se o corpo fosse todo olhos(…)?” É numa das epístolas paulinas que surge essa curiosa indagação. Imaginem: um corpo todo feito de olhos, imagem surrealista. Será que São Paulo já antecipava as telas famosas de um Salvador Dali? Na verdade, a imagem do corpo-todo-olhos fazia parte de um conclamação paulina pela unidade da primitiva igreja do Caminho.

Mas, pensemos juntos, aqui nessa postagem de amador e diletante, que se permite reflexionar sem as amarras do pensamento formal (ou normal). Não seria o corpo composto de milhares de olhos-pequeninos, feixes de sensíveis olhos, que abordam o mundo por todos os seus lados e faces.

E mais: não seria a vida, como afirmava Ortega y Gasset, o órgão da compreensão da realidade, ela mesma, função desse corpo que olha, que analisa, enquanto vive em constante interação com as coisas em derredor?

Penso com os olhos, com os ouvidos, com a boca, com as mãos, com todo o meu corpo, poetizava Álvaro de Campos. Pensamos, então, com toda a nossa vida. E pensamos para poder viver, para fazer com que a vida perdure e permaneça viva.

As chamadas janelas da alma, pensando assim, estão por todo o corpo, por todos os sentidos corpóreos. Gostos, cores, altura, calor, direção, continuidade do eu pessoal – tudo isso é janela, por onde entram os sinais de que há vida e de que ela pulsa em nós. Por essas janelas começa a nossa primeira leitura do mundo em derredor.

Diz Maria Helena Martins, em seu livro, O Que é Leitura, que “desde os nossos primeiros contatos com o mundo, percebemos o calor e o aconchego de um berço(…) as sensações provocadas pelos braços carinhosos que nos enlaçam. A luz excessiva nos irrita(…) a penumbra nos tranquiliza. O som estridente ou um grito nos assustam, mas a canção de ninar embala nosso sono.”

E continua afirmando que “uma superfície áspera desagrada, no entanto, o toque macio das mãos da mamãe se integram à nossa pele”. E depois vem o cheiro do seio maternal, a pulsação de seu coração. E continua, Maria Helena, “começamos assim a compreender e dar sentido ao que e a quem nos cerca. Podemos, a partir disso, concluir que não são apenas com os olhos que fazemos a leitura do mundo, da nossa “circum-stantia”, que começa com o nosso corpo, como diria Ortega. Lemos o mundo com todos os nossos sentidos.

“A leitura do mundo antecede a leitura da palavra”, dizia o nosso querido pensador, cidadão do mundo, Paulo Freire. Ele também nos conduz, em seu pequenino grande livro, A Importância do Ato de Ler, escrito no exílio, pela leitura do mundo através dos sentidos, que ele chamou de ” a leitura da palavramundo“.  Transcrevo aqui, a p. 12, da edição que possuo, tal a profundidade com que Freire revela como se lhe abriram, por todos os sentidos, as janelas da alma:

“Me vejo então na casa mediana em que nasci, no Recife, rodeada de árvores (…) Os textos, as palavras, as letras daquele contexto se encarnavam no canto dos pássaros — o do sanhaçu, o do olha-pro-caminho-que-vem, o do bem-te-vi, o do sabiá; na dança das copas das árvores, sopradas por fortes ventanias que anunciavam tempestades, trovões, relâmpagos (…); se encarnavam também no assobio do vento, nas nuvens do céu, nas suas cores, nos seus movimentos; na cor das folhagens, na forma das folhas, no cheiro das flores — das rosas, dos jasmins –, no corpo das árvores, na casca dos frutos. Na tonalidade diferente de cores de um mesmo fruto em momentos distintos: o verde da manga-espada verde, o verde da manga-espada inchada; o amarelo esverdeado da mesma manga amadurecendo, as pintas negras da manga mais além de madura.(…) Foi nesse tempo, possivelmente, que eu, fazendo e vendo fazer, aprendi a noção de amolegar.”

E vai por aí, o velho sábio pernambucano, descrevendo as sensações de seu mundo imediato e demonstrando, creio eu, que as janelas da alma estão por todo o corpo, e que, antes da leitura da palavra, aprende-se a ler o mundo. E por falar em sensações e em mundo, não poderia deixar de registrar aqui, a leitura do mundo que faz o carrapato-cego de Gilles Deleuze, em seu Abecedário:

“Se tento me dizer, vagamente, o que me toca em um animal, a primeira coisa é que todo animal tem um mundo. É curioso, pois muita gente, muitos humanos não têm mundo. Vivem a vida de todo mundo, ou seja, de qualquer um, de qualquer coisa, os animais têm mundos. Um mundo animal, às vezes, é extraordinariamente restrito e é isso que emociona. Os animais reagem a muito pouca coisa. (…) Essa história, esse primeiro traço do animal é a existência de mundos animais específicos, particulares, e talvez seja a pobreza desses mundos, a redução, o caráter reduzido desses mundos que me impressiona muito. Por exemplo, falamos, há pouco, de animais como o carrapato. O carrapato responde ou reage a três coisas, três excitantes, um só ponto, em uma natureza imensa, três excitantes, um ponto, é só. Ele tende para a extremidade de um galho de árvore, atraído pela luz, ele pode passar anos, no alto desse galho, sem comer, sem nada, completamente amorfo, ele espera que um ruminante, um herbívoro, um bicho passe sob o galho, e então ele se deixa cair, aí é uma espécie de excitante olfativo. O carrapato sente o cheiro do bicho que passa sob o galho, este é o segundo excitante, luz, e depois odor, e então, quando ele cai nas costas do pobre bicho, ele procura a região com menos pêlos, um excitante tátil, e se mete sob a pele. Ao resto, se se pode dizer, ele não dá a mínima. Em uma natureza formigante, ele extrai, seleciona três coisas.”

Disso que afirma Deleuze, me vem a ideia de que existem homens e mulheres que vivem como esse carrapato. Suas janelas da alma são restritas a um único prisma. São uniprismatistas e precisam ser esferistas, como diz o meu amigo, o artista-plástico, Eugênio Paxelly. Foi esse meu amigo quem criou, lá pelos anos 1990, a ideia do Esferismo, observando as pessoas em seu ateliê da Rua dos Prazeres, no bairro da Boa-Vista, aqui no Recife. Percebam a interessante relação entre os nomes da rua e do bairro, onde funcionava o ateliê do Paxelly, e como faz sentido a sua compreensão do seu ofício de artista e da necessidade de se exercitar um olhar esférico. Os olhos do mestre Paxelly brilhavam, quando ele tratava do Esferismo:

“O olhar do artista (e das pessoas) deve ser  esférico. É preciso girar o objeto por todos os seus planos e faces, para apreendê-lo por todos os seus sentidos e direções.”

Quem não é capaz de olhar o objeto dessa maneira, será, em verdade, uniprismatista e age como o carrapato deleuzeano. Um dos planos e faces é o contexto histórico em que acontecem as vidas, as coisas, os fenômenos. A propósito, quero lhes contar um fato pessoal, que ilustra bem o olhar contextualizado do esferista e a cegueira uniprismatista do homem que desconhece sua história:

É que, dia desses, voltando do oculista, ( vejam só, tratava de minha miopia) fui ver uma casa esconsa, da qual me falara o amigo Edelson de Albuquerque, depois de assistirmos a uma palestra sobre os vestígios do caminho antigo, que ligava a Várzea à Passagem da Madalena. Essa palestra foi proferida no I Simpósio Internacional de Arqueologia da UFPE, pelo Mestre Luiz Severino da Silva Junior, arqueólogo com olhar moderno, que enxerga longe, com seus métodos e sua ciência multidisciplinar, com sua “presciência”, eu diria.

Deparei-me, desde então, com a concepção orteguiana de que o ato de ver é maior do que o mero enxergar e necessita de um sentido mais largo e mais profundo, que é a minha história, a minha vivência. De fato, o meu conhecimento contextualiza a coisa a ser vista e só assim eu a vejo.

Quantas vezes passei por ali e não via aquela casa esconsa, oblíqua, enviesada. Foi preciso ouvir sobre a casa, que foi construída com o traçado antigo do caminho da Várzea, esse antiquíssimo caminho, que vem dar no Arruado do Engenho Velho, para que eu conseguisse, afinal, ver a casa 762, da Rua Paes Cabral, no bairro do Cordeiro: a casa que foi erguida nesse velho caminho entre a Várzea e a Madalena.
Vi a casa e conversei com seus donos, que, hoje em dia, numa terceira geração de moradores, nela vendem água mineral. Eles também já sabem da história antiga de sua rua. É preciso divulgar a origem das coisas que queremos preservadas.

Foi preciso conhecer a história desse fragmento do caminho da Várzea, que também cruza o  campus Recife, e faz suaves curvas em S, antes de alcançar a reta do Arruado do Engenho Velho, para que eu conseguisse “ver a casa”. A história estava ali, na superfície, à flor da terra e eu não a enxergava, por falta de conhecimento.  Nesse caso, era eu o carrapato, o uniprismatista. Podem rir. Eu confesso! Parcas eram as minhas janelas da alma, que transcendem os sentidos do corpo e só se completam com a consciência de minha, da tua, da nossa própria história. Por isso eu não via a casa esconsa. Não via, porque não conhecia a sua história.

E por falar em consciência, devo dizer que esse texto já se alonga demais e toda essa peroração sobre janelas da alma surgiu quando ouvi, numa de nossas reuniões, a palavrinha “conscientização“, tão popularmente usada nos colóquios e rodas de diálogos dos movimentos sociais, comunitários e coletivos. Palavrinha perigosa, por também servir de mote, quando se quer incutir na massa, no povo, um modo de pensar e de agir, segundo os princípios dessa ou daquela corrente de pensamento, seja político, científico ou religioso:

“…é preciso conscientizar a comunidade do Arruado para erradicarmos o mosquito da dengue…” disse-me alguém, numa reunião.

Ora… conscientização pressupõe uma consciência. E ainda, uma consciência em ação. Não basta definir conscientização enquanto a ação de conscientizar. Para conscientizar, então, é preciso compreender de que consciência se fala, quais as suas portas de entrada e saída. Quais as suas janelas.

 

Como eu vinha dizendo, pensamos com todo o nosso corpo. Lembremos o exemplo pessoal do Paulo Freire, em seu quintal do Recife e as palavras da professora Maria Helena Martins, ensinando os primeiros passos do que é leitura. Lembremos também Ortega y Gasset, quando afirmava que pensamos com as nossas vidas. “A vida é o próprio órgão da compreensão”, dizia ele.

Somos, portanto, vidas que compreendem, antes de sermos meras consciências em ação. Conscientizar requer, pois, mais do que discursos, retórica, eloquência. Há algo mais profundo e até, periculoso, nessa ação de conscientizar. Esse algo já foi capturado pela publicidade e propaganda, estudando o comportamento do homem mediano, que é o representante legítimo do que chamamos de “as massas”.

As massas não são como rebanhos em tropel, não são o admirável gado novo, do poeta Zé Ramalho. As massas são consciências vivas, vidas humanas, que absorvem, antes de ideias, sons, cheiros, cores, dores, em suas memórias recentes ou passadas, superficiais ou profundas. As massas são seres históricos e não simplesmente biológicos. E a presente realidade histórica é dolorosa e cruel.

Conscientização, por isso, não é tarefa fácil, de inopino, mágica e instantânea.

Querem um exemplo?

Por que se fala tanto em defender o meio ambiente, no lixo lançado nos canais, nos rios, no mar; por que se tenta “conscientizar” para que não se derrubem as matas ciliares, que não se deixem recipientes com água estagnada, e, ao que parece, tudo acontece exatamente no sentido oposto?

Há de se buscar, nessas “vidas que pensam’, “nessas consciências”, o sentido do que os leva a destruir seu próprio planeta.

A “conscientização” tem falhado sistematicamente e precisa rever seus meios, seus métodos, seus processos e técnicas.

Conversando, dia desses, com o artista André Soares Monteiro, que encontrou no lixo urbano, o sentido maior de sua arte, aprendi uma pequenina coisa, que, ele, em sua presciência de artista, percebeu logo: “mostremos aos poluidores soluções e não problemas” disse-me, ele, “o reuso das coisas, não apenas a reciclagem já seria um bom começo.”

Mas, creio eu, que a “solução” ainda pode ir mais longe.

Em que contexto está inserido esse “corpo que tudo percebe”? Quais as necessidades dessas “vidas que compreendem?

Miséria, fome, descaso, opressão, desesperança, dor, doenças. Não seriam esses os sintomas, a novas palavras-mundo freireanas, percebidas por esse “corpo-todo-olhos”?

Quem há de cuidar da saúde mental dessas consciências que estão a aprender, todos os dias, que precisam consumir, negociar e explorar a natureza, sem se importar consigo mesmas, enquanto fatores de degradação do planeta em que vivem?

Dizer ao povão que não polua, quando os grandes empresários matam um dos maiores rios do mundo, inundando, com lama tóxica, mais de 800km de águas potáveis, não seria essa uma grande e infeliz contradição?

Quem aprendeu a competir, a rivalizar, a brigar por um espaço exíguo, seja nos ônibus, seja nas filas do SUS, seja num palafitas, seja na disputa pelos resíduos nos lixões, não há de ser tão facilmente alcançado pela tal “conscientização”.  E, se não lhes trouxerem soluções concretas, palpáveis, verdadeiras, como aquela verdade que alimenta seus estômagos e não apenas seus ouvidos, nada acrescentarão às suas “vidas-que-percebem.” Como os carrapatos de Gilles Deleuze, ficarão, como animais, à espreita, cujo sentido mais forte é o da nutrição para a sobrevivência pessoal. Eu disse, sobrevivência pessoal, e não, coletiva.

Ou mudamos a história e o contexto para onde se abrem as “janelas da alma” dessas consciências ou será impossível e inócua toda tentativa de “conscientização”.

Como diria o meu amigo Jens, um verdadeiro bagual do Rio Grande do Sul, “perdoem-me senhoritas, escusem-me, cavalheiros”, porque o meu realismo é quase um pessimismo. É que eu também estou inserido no mesmo contexto. Vejo tudo da janela, restrita e embaçada, da minha pobre alma…

Assinado: O Carrapato

 

 
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Sobre Eurico

Escritor e poeta
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