Os ditados de minha avó e a pedagogia libertária

falansterio

“Que os sapateiros fiquem nos seus sapatos”, diz um ditado popular, ao que parece, muito antigo, que poderia também ser dito como “que os seleiros fiquem em suas selas” ou que “os ferreiros fiquem nas suas ferraduras”, posto que se referem a ofícios quase todos obsoletos. 

Mas, o que queriam dizer tais máxima, tão comuns, na boca do povão?

 Minha avó paterna, de saudosa lembrança, dizia muitos desses ditados, entre eles um que tem a ver com os que acima citei: “macaco velho não põe a mão em cumbuca”.

Que fique cada um “na sua”, diríamos hoje em dia. Esse é o significado das máximas supracitadas.

Foi pensando nesses ditos, que saí de uma reunião sobre a Pedagogia Libertária, para a qual me convidou o amigo Tonico, um entusiasta do ideário anarquista. Foi uma interessante reunião de idealistas, que são minoria entre as minorias progressistas, em um tempo em que quase ninguém se rebela, poucos sonham, e raros são os que se interessam pela melhoria do planeta ou da nossa civilização. Pragmáticos, os que militam nessa “esquerda” que está sendo afastada do poder, se preocupam, no mais das vezes, com o fortalecimento de sua legenda partidária e “que tudo o mais vá pro inferno”, como dizia o Rei da Jovem Guarda. O Estado somos nós, devem pensar os militantes dos que se julgam donos da verdade única e do partido que detém o caminho, a verdade e a vida dos trabalhadores brasileiros. Mas, a coisa não é assim Há o homem mediano e prático, espalhado pela terra brasilis, trabalhando feito formiguinhas e moldando o que esses dirigentes partidários não querem ver: o conservadorismo, que impera por todas as partes. 

O homem prático e de caráter mediano não quer pensar a respeito da vida social, muito menos na possibilidade de transformá-la. Segue a sua alienante rotina de todos os dias, e vai ao escritório, ao campo, à fábrica, ao hospital e à escola, como um autômato. Cumpre seu dever e crê que tem a sua paz.

Para o homem mediano, pensar é muito cansativo e perigoso. Os ideais são para os tolos, pensa ele, com seus botões. Melhor ficar quieto e em segurança. Macaco velho não mete a mão em cumbuca, é o que dizia minha avó, repetindo um ditado que rege os sensatos homens práticos, desde que o mundo é mundo. Agem assim, tanto o cientista medíocre, que emprega toda sua existência a demonstrar sua tese perfunctória, quanto o quitandeiro, que se esconde atrás de um balcão, envelhecendo o corpo e a mente, no dia a dia viciante de seu modesto comércio de secos e molhados.

Também age assim, o militante que encontrou em um partido, a certeza que justifica a sua paz de espírito e que o reconforta, quando ataca ferozmente os que não pensam dentro do padrão hegemônico que foi gestado dentro da sua agremiação partidária, entre gritos e palavras de ordem. 

Enquanto os anarquistas sonham com uma pedagogia coletivista e libertadora, o início desse novo século jaz num individualismo rasteiro e auto-referente. Aquele homem mediano, adaptado à chamada nova era, teve seu ego inflado pelas novas possibilidades tecnológicas;

Enquanto os anarquistas sonham com uma pedagogia coletivista e libertadora, um novo mundo capitalista vai impondo o caminho de um empreendedorismo baseado, primeiro, na marca, enquanto indutora do desejo e depois, na publicidade, enquanto ciência da sedução, que leva ao consumismo por impulso, aliado à obsolescência rápida dos produtos;

Enquanto os anarquistas sonham com uma pedagogia coletivista e libertadora, no presente momento histórico, o coletivo e o transcendente foram relegados ao ostracismo. O primeiro, talvez, por não servir ao egoístico sentido da propriedade privada; o segundo, por não fazer eco, em um mundo no qual vigora uma nova espécie de religiosidade pragmática (quase que eu digo uma nova heresia) que se chama “o evangelho da prosperidade.

Enquanto os anarquistas propõem a desinvenção do Estado burocrático e centralizador, os militantes progressistas saem às ruas pela ampliação do teto dos gastos estatais, pela manutenção do Estado com milhares de têtas suculentas, que sustentavam os grandes empresários, os banqueiros e o sindicalismo corporativista, que luta, menos pela nação, do que pelas benesses de uma máquina sindical infiltrada nos órgãos de governo.

Saí daquela reunião sobre uma Pedagogia Libertária, com a sensação de que os anarquistas, como sempre, estão lutando por um sonho que não encontra eco nas esquerdas e muito menos na direita, as duas vertentes em luta desesperada pelas cifras astronômicas que a máquina estatal disponibiliza a quem chega ao poder. 

Creio eu, que resta-nos, aos utópicos, o papel de reorganizar as comunidades, encaminhar propostas para uma economia solidária e sustentável e, nesse contexto, fora das lutas partidárias, ir inoculando um antídoto para a venenosa ideia maniqueísta, de que só existem dois caminhos para a sociedade, sem possibilidade para as nuanças políticas, longe desse presidencialismo de coalizão, formado por partidos tão díspares, quanto jacaré com cobra d’água, como foi esse desastroso Governo PT/PMDB, que só serviu para demonstrar a verdadeira face dos partidos políticos brasileiros. Todos querem o poder. Todos querem o Estado patrimonialista. Todos querem a chave do cofre do Tesouro Nacional. 

Uma pedagogia libertária, amigo Tonico, não requer prédios, nem salas de aula, mas uma silenciosa e persuasiva voz, que atinja o povo, por todos os meios possíveis, inclusive os virtuais. Voltemos os olhos para as comunidades, os movimentos de base, os povoados, os clubes de mães, as ligas de dominós, as colônias de pescadores, quiçá, as igrejas de mentalidade mais aberta, as rádios comunitárias… enfim. 

A luta dos libertários não é, nem nunca foi, no campo dos desenvolvimentistas da esquerda, cujo industrialismo e tecnicismo aéticos e amorais, vão impondo uma destruição das florestas, da água, do ar que respiramos, do nosso querido planetinha azul. 

P. S. : talvez, além dessa volta às bases populares, deve-se atentar para o que diz o jovem partido Pirata, que nem deveria se chamar partido, pois clama por uma democracia direta e touch screen, com a mínima representação parlamentar.

 

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Sobre Eurico

Escritor e poeta
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