Carlitos no Arruado, o Café e a Cura pelo Amor

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Prolegômenos tão desnecessários que os meus parcos leitores podem evitar:

Vou logo avisando, que postagem em blog não precisa de comprovações científicas, nem citações, nem referências. Tampouco me preocupo se são apenas achismos, o que escrevo ou digo. Se me derem vau, falo de tudo que sei e até do que não sei. E não esqueçam de um bom dicionário, junto ao texto. Uso, como já disse, muitas palavras que já não se usam, no dia a dia. A propósito, vocês sabem o que é “dar vau”? Pois bem: pra quem não sabe, e nunca atravessou um charco ou riacho, pro mode pescar de jereré, vau é aquela parte rasa da lagoa ou do rio, por onde se pode passar a pé. Um instrumento muito usado para saber onde a correnteza dá vau é uma vara comprida, com que se vai medindo a profundidade das águas e depois dando as passadas. Há um célebre pensador (célebre, pelo menos pra mim, que o trago à cabeceira) que comparava a Razão, àquela varinha de dar vau. A Razão, para ele, é um instrumento igual ao ver e ao apalpar. Não qualquer Razão, mas a Razão Vital. Creio que é com essa tal Razão Vital que avanço em meus achismos.

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UFPE, Arruado – a doença e a cura

“Mas, o teu amor me cura de uma loucura qualquer…” (Lulu Santos)

Essa postagem surgiu de uma frase que ouvi no I Café Sociológico do Arruado. Carlitos, figura carimbada do Engenho Velho da Várzea, deu uma sacada que balançou as estruturas daquele Café. Depois de ouvir todos falarem, na roda de diálogo, acerca das contradições do desenvolvimentismo da UFPE, Carlitos pede a palavra e afirma:

“Cada vez mais acredito que a UFPE é a doença e que o Arruado é a cura.”

Carlitos

Carlitos, em depoimento no I Café Sociológico do Arruado

Carlitos, que faz algum tempo anda sóbrio, creio até que, frequentando o AA, deixou-nos instigados com sua frase, que provocou, na roda de diálogo, o mesmo efeito de um aforisma nietzscheano. Foi uma verdadeira martelada filosófica. Nietzsche dizia só escrever por relâmpagos. Uma frase-chave desencadeava o seu reflexo filosófico. Considero isso um dom, que dá ao seu portador uma resposta criadora a qualquer nível de indagação. Carlitos deixou a frase-chave e saiu da roda, à francesa. Os arruadenses são assim. Parcos de falas, pouco vocabulário, mas, quando usam da palavra, possuem esse dom de síntese raríssimo.

Fiquei matutando nessa convivência por antítese, nessa frase, que alberga a doença e sua cura, no mesmo espaço e tempo. A que tipo de doença o Carlitos se referia? E, por que razão, o Arruadinho, localizado no coração da UFPE, seria, no entender dele, a cura dessa doença? Isso daria uma tese. Mas, como sou adepto do achismo, vou tentar resolver isso no espaço de uma página de web.

Essa postagem lembra um vídeo de outro arruadense, o Maurício Peixoto. Ouçam com atenção a mensagem desse vídeo acima. Percebam quantas vezes o nosso saudoso militante do MRP-Arruado repete a palavra Amor. Não contei, mas são diversas vezes. Não parece estranho, que um velho militante político de esquerda, traquejado nas reuniões de partido, cheias de questões de ordem e chavões, use a palavra Amor, tantas vezes, em sua mensagem? Poderiam ser palavras como “conscientização”, “empoderamento” , “engajamento” e outras do tipo, mas, Amor, essa palavra tão repetida, tão desgastada?

Sim, é de amor que fala o Maurício, ao se dirigir aos alunos da UFPE, aos seus docentes, gestores e funcionários efetivos e terceirizados. Também, motivados pelo amor, ou, pela falta dele, e, por conseguinte, de respeito, nas relações internas no Campus, é que nós, do MRP-Arruado, denunciamos a atitude de alguns seguranças preconceituosos e desinformados, que tratam os moradores do Engenho Velho como invasores de terra ou favelados. Nada contra os invasores, que, na maioria das vezes, só invadem porque carecem de moradia; nem contra os favelados, que são as invasões que deram certo. Bem, mas o que importa, nesse parágrafo, é que o Maurício nos fala de Amor e não de Ideologia.

Contudo, não é de amor que também trata Paulo Freire, em toda a extensão de sua obra? O amor que acolhe, que compreende, que educa e que aprende, ao mesmo tempo, perpassa todo o pensamento daquele sábio pensador brasileiro.

É que “o amor é a onímoda conexão”, diz-me, aqui à cabeceira, o velho Ortega y Gasset, “une coisa a coisa e tudo a nós”. Por outro lado, o ódio é a inconexão e a inconexão é o aniquilamento do outro. Diz-me, ainda, Ortega, que “o ódio isola e desliga, atomiza o orbe e pulveriza a individualidade”.

Parece-me que há entre a Academia e o Arruado uma cultura, se não do ódio, mas do rancor. Herdam, as administrações que se sucedem, essa biopatia, que parece provocar uma aversão sem causa ao povo do Engenho Velho, um sentimento, que eu diria, está sempre prenhe de irracionalidade. Não posso deixar de citar, de passagem, essa questão do sentimento irracional. sob a ótica de René Girard, em sua Teoria Mimética. Girard, grosso modo, afirma que desejamos segundo um modelo de comparação, isto é, o desejo social ou mimético, que nos leva à rivalidade e que nos faz ver o outro enquanto obstáculo. Invejamos assim, a terra alheia, a mulher do pŕoximo, ou o bom marido da outra, tudo segundo um modelo de desejo que nos é imposto socialmente. No entanto, vamos além, e desejamos o prestígio do colega, o mérito do vizinho e o seu sucesso na vida. Se não temos paz, desejamos a sua paz, e se preciso, lhe roubaremos a paz lhe fazendo a guerra, por nada. Esse é o modelo vigente em nossa civilização.

As causas desse modelo são aparentemente desconhecidas, mas foram estudadas amiúde, por um psiquiatra de nome Wilhelm Reich, em dois belos livros: A Função do Orgasmo e A Análise do Caráter, que passarei ao largo, pois são como dois rios caudalosos, em que não se pode dar vau, com tanta facilidade.

Mas, o Amor…

Há, no amor, sussurra-me Ortega, ainda à cabeceira, há no amor uma ampliação de nossa individualidade que absorve a coisa amada e a funde conosco. Então percebemos que a coisa amada é parte de outra coisa, que necessita dela e a ela está ligada de forma imprescindível. E o que é imprescindível à coisa amada é imprescindível pra nós. É desse modo que “o amor vai ligando coisa a coisa e tudo a nós, em firme estrutura essencial”.

É desse amor que cura, desse amor que aproxima, que une e que liberta ao mesmo tempo, é desse amar o próximo e o “inimigo”, personificado no outro, que falava o Rabi da Galiléia.

É dessa cura que, creio eu, devia estar tratando também o Carlitos em sua frase lapidar, dita no I Café Sociológico do Arruado.

Em verdade, existe, entre o Arruado e a UFPE um casamento sem amor. Um casamento que foi feito por interesses de terceiros. Lembra-me do casamento improvável da raposa com o rouxinol, que eu ouvia de minha avó paterna, nos dias em que havia chuva com sol. Imaginem, então, um velho caquético, falido e feio, que um dia viria a casar-se com uma jovem rica, culta, inteligente, bonita e poderosa. Esse é o casamento do extinto Engenho do Meio (o velho falido) com a Cidade Universitária, em que foi erguida a Universidade Federal de Pernambuco (a moça poderosa). De alguma maneira, a jovem viu as vantagens dessa união, mas, tempos depois, perceberia o que nela havia de dificuldades. Desde então, busca uma separação judicial, sem êxito, e tenta esconder de todos o seu marido senil.

Há, nessa alegoria, detalhes imperfeitos, como em toda tentativa de alegoria ou de metaforizar a realidade. Mas, o que me parece que falta mesmo nessa alegoria tão antiga, é o amor. O amor proposto por Paulo Freire, por Ortega y Gasset e por Jesus Cristo. É isso, essa falta de amor conjugal entre a UFPE e o Arruado do Engenho Velho, que invade o inconsciente coletivo dos arruadenses e que se esconde por trás de cada olhar, de cada gesto, de cada discurso dos moradores: o Arruado quer ser reconhecido, cuidado, tratado com carinho, enfim, amado pela sua parceira, juntos que estão há 69 anos, completados no dia 11 de agosto de 2015.

Faz-se necessário ouvir outra vez o vídeo do Maurício Peixoto, para perceber o apelo de um povo que ama esse lugar e que quer apenas viver em harmonia com a UFPE.

No dia em que a Universidade descobrir como é gratificante cuidar dessa comunidade, no dia em que ela descobrir como é bom amar em vez de odiar, pois é o ódio, segundo Girard, essa doença da irracionalidade, que leva à loucura do ressentimento, do preconceito e da indiferença; nesse dia a UFPE estará curada para sempre. Pois, como dizia o poeta, “o teu amor me cura de uma loucura qualquer”.

Valeu, Carlitos, pela sacada filosófica, verdadeira martelada nietzscheana, na roda de diálogo do Café Sociológico do Arruado!

Luiz Eurico de Melo Neto

Arruado do Engenho Velho, 25/10/2015

Sobre Eurico

Escritor e poeta
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