O Século XX e o Arruado de Dona Biu

Sentada, na sala de sua casinha, a centenária moradora do Arruado da UFPE.

Sentada, na sala de sua casinha, Dona Biu, a centenária moradora do Arruado da UFPE.

“Nem é preciso fazer a datação, Eurico. O casario é do século XX.” Foi essa a expressão que ouvi, nos corredores do CEFICH, da boca de um arqueólogo, que reputo como sendo isento e engajado na luta em defesa do Arruado do Engenho Velho. Não sei o que ele queria afirmar com isso. Mas, fiquei matutando nessas palavras. Quem sabe o desinteresse do Departamento de Arqueologia da UFPE pelo pequeno arruado dos remanescentes da Engenho Velho da Várzea, não esteja baseado, também, nessa datação. Talvez, não! Talvez a questão seja de uma cultura administrativa, herdada de gestões anteriores desta UFPE, que consolidaram uma luta desnecessária e inútil, contra os moradores do Arruado.

Bem… mas, então vejamos:

Foi no século XX que nasceu Dona Biu (Severina Zacarias), a moradora mais antiga do Arruado, que nos deixou aos 7 dias de junho de 2015, aos 101 anos, nascida e criada na comunidade. Seus pais, lavradores da terra, devem ter tido notícias de que, no ano de seu nascimento, 1914, eclodiu a primeira grande guerra na Europa.

Bueiro da Usina Meio da Varzea - sem data

Usina Meio da Várzea (bueiro) Imagem cedida por Marcos Peixoto

Quando Dona Biu completou 20 aninhos, foi extinta a Usina Meio da Várzea S/A, cujo bueiro (chaminé) solitário e em ruínas, aparece na foto acima, cedida pelo morador Marcos Peixoto.

Ainda no século XX, Dona Biu, já com 25 anos, ouviria falar de outra grande guerra mundial, agora com proporções catastróficas, liderada por um pintor fracassado, que fundara um pequeno partido na Alemanha. Dizem que, ali pertinho do Arruado, o Exército Americano teria feito o seu acampamento, que daria apoio à Base Aérea do Recife, construída pelas Forças Aliadas, para combater as tropas do Eixo, na América do Sul. Anos antes, aqui mesmo, em Pernambuco, militantes de um outro partido teriam invadido um quartel do Exército, lá pros lados de Jaboatão, durante a famosa Intentona Comunista.

Dona Biu veria também e com muita tristeza, católica que era, o assassinato do jovem Padre Henrique Pereira, no canavial que pertencera ao Engenho Velho, em 1969. Eram os efeitos da ditadura civil-militar, que tanta repressão trouxe aos moradores do Arruado, com os gestores reacionários, alguns fardados, que infestavam o Campus, nesse período sombrio da nossa história. Nesse mesmo ano de 1969, Dona Biu teve notícia da chegada dos americanos à Lua, coisa que era difícil de acreditar, naqueles tempos. Ouviu, pelo rádio o tri da Canarinha, em 1970, que ocultava os desmandos do governo Médici.

Porém, ainda na mesma década, Dona Biu também saberia da vinda do Papa ao Recife e do célebre abraço no arcebispo Dom Hélder Câmara, “irmão dos pobres, meu irmão”.

Dona Biu viu a abertura política no Brasil e a ascensão de um pequeno partido de trabalhadores. Soube que o seu vizinho, Maurício Peixoto, era um dos fundadores do partido, no Recife.

Dona Biu ouviu falar dos caras-pintadas, da onda vermelha e da esperança de que o Brasil seria uma pátria da ética e da justiça social.

Dona Biu viveu todas essas coisas, morando na mesma casinha, no Arruado do Engenho Velho da Várzea. E tudo isso se passou no século XX.

E ia esquecendo que Dona Biu viu e ouviu o bate-estacas fincando as primeiras colunas do prédio das Engenharias (hoje, CTG). Ela já sabia que ali, no entorno do Arruadinho, ia ser erguida uma cidade universitária. Não sabia, porém, que o seu sossego ia ter fim e que iria morrer tendo pesadelos com seu possível despejo. Dona Biu, ano passado, já neste século XXI, sonhava com a chegada de um caminhão preto que levava seus móveis e derrubava sua casinha. Dona Biu alcançou o tempo em que os carros oficiais federais foram pintados de preto, por ordem do ex-presidente Jânio Quadros, o homem da vassourinha, que, em campanha, prometeu acabar com a corrupção no Brasil. A, corrupção, porém, recrudesceria e alcançaria, como Dona Biu, os primeiros 15 anos do novo século.

Pois então, prezadíssimo professor, arqueólogo e historiador, Dona Biu, (que tem o mesmo apelido que o senhor), atravessou o século XX, anonimamente, como acontece com as donas de casa e com os trabalhadores braçais desse imenso país. A casa em que ela morava ainda está de pé. Não foi demolida pelo carro preto. Mas, dentro dela habitava um ser humano, desses que fazem, silenciosamente, a intra-história, como dizia Miguel de Unamuno, mutatis mutandis, que, “como as madréporas, sedimentam os recifes de coral, que formam as ilhotas, em que ecoam os brados retumbantes dos que fazem o barulho da História oficial, a história dos documentos oficiais e das guerras”.

Acho bom respeitar essa memória e entender que o Século XX também faz parte da história, mesmo que seja a história de um pequeno arruado, herdeiro de uma usina falida e confinado dentro de uma instituição que domina as ciências exatas e humanas, mas não ensina a cuidar e respeitar uma comunidade de seres humanos, que habitam, há mais de um século, dentro de seu próprio Campus.

Sobre Eurico

Escritor e poeta
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3 respostas para O Século XX e o Arruado de Dona Biu

  1. Zilda Santiago Maciel disse:

    Muito linda narrativa….

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