Dos Motes e das Cousas – arcaísmos no Caminho da Várzea

Foto1823[1]

Já vos disse, em texto outrora escrito, não sei se algures ou alhures, o quanto aprecio os arcaísmos. Tenho um gosto pelas palavras esquecidas, pelas cousas desusadas, goradas e orfãs, pelos lugares ermos, abandonados e pelas gentes, aquelas anônimas e quase invisíveis. Sinto o apelo irresistível dos que habitam em mundos submersos, naquilo que aprendi a conceituar como sítios intra-históricos.
Achei esse conceito de intra-história, lendo, não recordo em que ensaio ou artigo, sobre Dom Miguel de Unamuno, o grande pensador basco. Se há um presente momento histórico, dizia ele, deve haver um presente momento não-histórico. “Como as madréporas suboceânicas constroem os arrecifes de corais, os milhares de personagens anônimos, silenciosos, saem de suas casas ao romper da aurora e trabalham na inexorável rotina que há de sustentar os que erguem as ilhotas ruidosas da história”. Esses são os seres intra-históricos, os que transcendem o tempo e vivem em estado de quase eternidade.

Mas, não quero tergiversar.
Quero lhes falar do léxico que nomeia esses seres pretéritos, ou seja, de motes e de cousas antiquíssimas, tais como almocreves, vendilhões, aguadeiros, capineiros, bufarinheiros e alimárias. Quero mais. Quero falar de uma coisa que todas essas palavras obsoletas, que acima citei, possuem em comum: o movimento. Todas elas ganham as estradas e os caminhos, apinhadass de bugingangas, pejadas de quinquilharias, de cangalhas com bilhas e pichorras, algumas necessárias e urgentes, muitas delas… inúteis. Umas cavalgam, outras caminham, outras deslizam sobre rodas. Quantas récuas cruzaram os lugares ermos e distantes, para levar o pente da sinházinha, o colete, o espartilho, a cartola? Infelizmente, também o arcabuz e a pólvora das armas de fogo. Quantas alimárias tiveram de arrastar as peças de artilheria, com que os homens se deslocavam, para o ofício de guerrear?

Foto1727[1]

Pois bem… abro o postigo de minha janela e daqui eu posso ver o caminho. O mesmo caminho antigo que leva até a freguesia da Várzea. Quantas vezes por aqui passaram noviços a caminho do velho convento? Quantas vezes os coches e as caleças, as carruagens, os carros-de-boi, que, gemendo nos seus mancais, deixaram as marcas de suas rodas, na lama preta de massapê, durante as invernadas desse caminho?
Parece que ainda ouço o tropel dos almocreves, o vozear dos vendilhões, o matraquear dos bufarinheiros, o pregão alongado dos mascates:
Alfenins! grita um moleque de engenho.
Macaxeira rosa! anuncia um outro.
Pano da costa e pulseiras! oiço a voz dos marranos, a arrastar suas mulas, que atravessavam os terrenos alagadiços da Boa-vista, as vacarias da Ilha do Leite, a chã mal-assombrada das quintas e quintais do Chora-Menino. Quantas vezes cruzaram, esses vendedores ambulantes, a passagem da Madalena, descendo pelo sítio do Retiro, deixando para trás as terras do Engenho da Torre e margeando o Forte Novo do Bom Jesus, até chegar às cancelas desse antigo Engenho São Carlos, no lugarejo, atualmente chamado, Engenho Velho da Várzea. Vinham negociar seus produtos, nesta, que era propriedade do judeu Jacob Stacour, que, em regressando à Holanda, foi passada às mãos do seu procurador, João Fernandes Vieira. Os mascates de olhos claros, decerto, ofereceriam seus produtos à porta da vivenda de Dona Maria César, viúva daquele “insigne procurador e herói” da restauração pernambucana.

Foto1799[1]
Seguindo o caminho da Várzea, as alimárias, cansadas, vão trotando, lentamente, pelo arruado dos trabalhadores da cana-de-açúcar, quando, ao aceno do dono, fazem uma breve parada, bem defronte da casa do capataz, onde as donzelas suspiram, nos alpendres, nas janelas, sonhando com as novidades vindas do Recife.
Parece que vejo, agora, numa cena em minha tela mental. as mulas, deixando o arruado do Engenho Velho, sacolejando seus fardos pela rua do Bom Gosto e, enfim, adentrando o pátio das Igrejas, centro da povoação varzeana. Mais tarde, ainda iriam mercadejar no Engenho São João, no São Francisco… A tropa extenuada e sua carga chegava, enfim, ao extremo oeste do caminho: a rica freguesia da Várzea do Capibaribe, um paraíso dos bufarinheiros!

Foto1784[1]

O caminho da Várzea!
O caminho da freguesia libertária! O caminho dos que lutaram contra os batavos. Também era o caminho dos feridos no combate. Muitos deles, mortalmente feridos, regressavam pelo mesmo caminho. Retirados da frente de batalha, regressavam, nas redes de enterro,  levas e levas de mortos anônimos de Guararapes, que, por heroísmo, ganhariam o galardão de serem sepultados na Matriz de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Brancos! Para esses heróis, o descanso seria na nave central daquele templo, antes da chegada triunfal ao céu, prometido aos que combateram o bom combate.

Foto1453[1]
O caminho da Várzea!
É nesse caminho que hoje cedo vi passar um avoengo capineiro. Ainda há baixas-de-capim no Engenho Velho! E quando a carroça passa em minha porta, o capineiro, olhar terrunho, cor de massapê, dá-me um bom dia, enquanto vai erguendo lentamente, num gesto antiquíssimo, o chapéu de massa, exsicado pelo sol, suas rugas invadindo o rosto, descendo pelo pescoço, quais sulcos de um arado inexorável. Saudar com o chapéu, um gesto verdadeiramente intra-histórico, diria Dom Miguel de Unamuno. Um uso ainda vigente, que pertence ao repertório de gestos de uma tradição eterna e atemporal…
Bom dia, moço!
Bom dia! respondo, pensativo.
Então fecho os olhos e aspiro fundo o ar orvalhado, o olor das beneditas e dos jasmins, enquanto sinto na pele o Sol, o cúmplice milenar desse caminho, – “O Sol sobre a estrada, é o Sol sobre a estrada, é o Sol!” -, como canta o poeta de Santo Amaro da Purificação; e, assim, me deixo levar por essas lembranças de motes e de cousas, de um pretérito que agora mesmo invade o caminho, o pequeno vestígio de caminho, que ainda existe e resiste, esquecido, abandonado, mas presente e vivo, vivíssimo, como os arcaísmos escondidos nos dicionários. Arcaico e imemorial, é também esse velho Caminho da Várzea… que precisa ser urgentemente cuidado, preservado, talvez, até, musealizado, mas, revisitado, revitalizado, ressignificado.

Foto1793[1]
Sonho em ver crianças correndo por essa estrada tão antiga, transformada em uma bela e florida alameda sombreada. E que todas saibam que os seus pais cuidaram bem desse caminho, no qual, como cantava o saudoso poeta Taiguara, “há um Sol nascente avermelhando o céu escuro e em que o passado abre os presentes pro futuro, que não dormiu e preparou o amanhecer…”

***

Em tempo:

E essa cronica de aprendiz e de amador, vai dedicada ao Mestre Luiz Severino da Silva Júnior, que tão bem fundamentou, no I Simpósio Internacional de Arqueologia de Engenhos, o valor histórico desse caminho da Várzea.

***

N. do A.:

Considero um arcaísmo, como sendo da espécie dos “artefatos arqueológicos”, que o tempo encobriu, nos caminhos da Língua.

Seria, então, a Etimologia, uma forma de escavar esses motes e cousas, profundos e cheios de significados remotos e ancestrais?

Sobre Eurico

Escritor e poeta
Esse post foi publicado em Outros temas e marcado , . Guardar link permanente.

4 respostas para Dos Motes e das Cousas – arcaísmos no Caminho da Várzea

  1. zilda disse:

    Adorei abro o postigo da janela……Nem lembro qdo a ouvi antes……Parabéns pelo texto…..Penso que postigo é parente de difrusso…Bjsss

  2. Emanuel disse:

    Tá muito bom meu irmão. Acho que da próxima lida entendo tudo. Dessa vez foi quase tudo. Tive preguiça de procurar o dicionário. mas juro que vou rever. O texto pede uma releitura . Tá coisa de gente grande.

    • Eurico disse:

      Tem de ser com dicionário etimológico, Manel. Maso texto é meu, portanto, num é cousa de gente grande. Só tenho 1,69m de altura, com uns 80cm de cintura. Baixinho feito uma pichorra! kkkkkkk

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s