Bloco Lírico Flores do Capibaribe: por uma pedagogia dos brincantes

flores gravação

“A arte de usar a sua arte pra fazer a diferença.
Na época em que vivemos todo conhecimento precisa se afastar um pouco da visão de lucratividade financeira e ser trazido para seus motivos primários, o cuidado e evolução dos seres.(…) Médicos não podem ser só médicos, músicos não podem ser só músicos, grafiteiros não podem ser só grafiteiros, arquitetos não podem ser só arquitetos, pois quando nos preocupamos apenas com o nosso nariz (nossa grana ou nossa fama) a sociedade perde e a sociedade devolve.”
(Mayko Bastos)

O nome dessa atitude diante da vida, ainda é ideologia? Pois, seja lá qual for o nome, preciso dela pra viver! Creio que precisamos todos nós!

E essa certeza me vem de algo muito triste, que vem, há muitos anos, acontecendo com as agremiações da cultura popular. Os gestores públicos de cultura, tanto federais, quanto estaduais e municipais relegam nossos grupos populares a segundo plano. Os cachês do Carnaval só são pagos perto do Natal. Durante meses, deixam que os músicos e todos os envolvidos busquem outras ocupações, ou desistam da profissão. Vão deixando a cultura morrer à míngua. No entanto, todos os recursos são pagos, pontualmente, aos grupos egressos da indústria cultural, aos elementos da massificação e da imposição dos modelos que, de certa forma, transacionam favores especiais, aos tais gestores culturais.

Mas, qual a relação entre a epígrafe acima, que colhi na timeline do amigo Mayko Bastos e as manifestações populares de cultura?

É que a escolha do caminho alternativo e independente, da cultura feita nas ruas, com a simplicidade do povo, com o jeito livre do povo, sem as amarras aos órgãos estatais de cultura, está contida nessa forma de ver o mundo, que as palavras do Mayko nos indicam.

A hora é de “usar a arte pra fazer a diferença”. O modelo de fazer cultura voltado apenas para a “grana e a fama” de há muito não cabe na vida dos pequenos grupos populares.

E então, o que fazer?

Fazer cultura voltada “para seus motivos primários, o cuidado e evolução dos seres”.

E é isso que estaremos propondo ao nosso querido Bloco Lírico Flores do Capibaribe, da Várzea. Transformarmos o nosso bloco lírico num brincante que transcenda o próprio ciclo carnavalesco e se volte para uma pedagogia, para um compartilhamento do saber popular, levando ao povo a história dos blocos, dos ranchos, dos pastoris e presépios, coisa que já fazemos nesses 6 anos da nossa agremiação. Com isso, nos distanciaríamos da mesquinhez e da politicagem dos gestores de quarto escalão, dos oportunistas e dos caçadores de votos. Então, acenaremos com essa forma de fazer a arte-educação, do carnaval, para todos os nosso co-irmãos, os pequenos blocos da periferia e do interior. Os blocos sem mídia e sem apoio. Essa é uma vertente ideológica e genuína, que pode servir de escape para essa armadilha capitalista, desse polvo, em que se transformou a administração pública das nossas festas. Um polvo com dezenas de mãos à espera dos jabás!

Por outro lado, essa “pedagogia de brincantes”, será uma forma de “fazer a diferença pela arte” e driblar a petulante gestão pública de cultura, que se acha a dona do carnaval e, por extensão, de todas as outras festas e folguedos populares das nossas cidades. Todo dia surge uma nova troça, um novo bloco, um novo clube, movido apenas pela alegria e pela solidária forma de brincar do nosso povo. E festa do povo, gente, não tem dono, não tem roteiro, não tem horário, não tem gestor, não tem gerente!

Sobre Eurico

Escritor e poeta
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