Grades, CTG e Reencantamento, no Arruado do Engenho Velho

Arruado do Engenho Velho e CTG

Arruado do Engenho Velho e CTG

 

Não resta dúvida que o Arruado do Engenho do Meio da Várzea é um núcleo de resistência dos primeiros moradores que chegaram a essa região. Ali surgiram muitas das manifestações da cultura popular, que ainda hoje resistem ao tempo e às mudanças.

Muitas dessas manifestações foram arrefecendo com a construção do prédio de Engenharia (hoje CTG), há 60 anos atrás, que provocou o seccionamento da antiga Rua do Bom Gosto, atual João Francisco Lisboa, e que teve como consequência um certo isolamento da comunidade. Outra possível causa do isolamento do Arruado, foi a instalação das grades de ferro, no entorno do campus universitário.

Mas seriam mesmo essas as causas desse isolamento?

Será que são essas as verdadeiras grades que nos separam daquele antigo arruado de trabalhadores de engenho?

O que teria tornado o Arruado do Engenho Velho quase invisível para os atuais moradores da Várzea, principalmente os mais jovens? E o que dizer dos discentes e docentes da UFPE, que, em sua grande maioria, nem sabem da existência do lugar?

Não é  estranho o fato de que os grupos culturais varzeanos quase não festejem mais no “engenho véi”, lugar que, por tantas décadas, era o berço dessas tradições?

Os antigos varzeanos nos falam de um certo morador do arruado, de nome Manoel, o sineiro da Matriz de N. Sra. do Rosário, também conhecido por suas sambadas de côco, seus folguedos nas 3 festas do ano, seus brincantes, sua animação em receber mestres, como Seu Dida da Burra da Várzea, que vinha com seu cortejo de brincantes, desde a comunidade de Santa Quitéria, prestigiar as brincadeiras do Manoel Sineiro. Falam também de Seu Pedro, plantador de macaxeira, no Engenho Velho, que realizava a maior festa de côco da região, no dia consagrado a São Pedro, seu santo padroeiro. Nesses dias, o côco-de-roda era cantado e dançado, até a alta madrugada. Parece que essa tradição não foi preservada…

Decerto não são as grades materiais, o que distanciou o Arruado do resto da Várzea. Há, creio eu, uma fronteira feita de grades invisíveis aos olhos. O isolamento social do Arruado deve derivar de algo que está no coração das pessoas, na nova forma de viver da sociedade como um todo. Por isso, fica a indagação, a pergunta que não quer calar: por que o Arruado do Engenho Velho foi se tornando esse território distante e esquecido, sem as festas de antigamente, sem a presença dos mestres populares?

Seria o individualismo, a competição, a massificação de outras culturas pela mídia? Seria a nossa pressa do dia a dia, o corre-corre pela subsistência, esse torvelinho do consumismo, essa desconexão com as fontes da cultura e da vida?

 

Enfim: o que se pode fazer para eliminar essas fronteiras invisíveis, que hoje esfriaram as relações dos que movimentam a cultura popular no centro da Várzea, distanciando-os do tão querido Engenho Velho?

Talvez uma reconexão amorosa, talvez um regresso à infância e à criança que ainda vive em nós todos.  Talvez um reencantamento, como o que surge no poema Arruado, Arruadinho, da pequena grande poeta, a precoce Iasmin Cruz:

“Arruado Arruadinho
Segue, segue ,segue avante
És muito bonito és muito elegante
Vives mergulhado na poesia
Vives mergulhado no amor
Tem Poemas e versos brilhantes
Arruado Arruadinho 
és estrela polida És estrela ambulante.”

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Sobre Eurico

Escritor e poeta
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