Por que o MRP-Arruado?

BURRA DA VARZEA MCV 2014 (58)

Viver o  Arruado é semear sonhos antigos, em novos corações e mentes. Plantar e colher, dessa convivência, o sentido e os valores, vivos e ainda vigentes, em cada sujeito da cultura. Não é um discurso, mas uma práxis. Viver o Arruado é, de repente, se perceber em uma obra aberta e prazerosa, uma construção em devir, na qual se alia o valor simbólico ao material; obra esta gerada por uma comunidade de saberes ancestrais, tão desconhecida e tão pouco valorizada, mas, ciosa de si mesma e  impregnada da força telúrica de  sua identidade e de sua memória.

No Arruado, não há como olvidar, estão os rastros vivos de uma Várzea antiga, as marcas profundas das lutas de resistência em várias épocas e contextos. Marcas que, em alguns momentos, mais parecem cicatrizes doloridas, no semblante e na alma de cada morador. Marcas, que em outros momentos, também são de altivez e de orgulho, que percebemos, por exemplo,  quando todos se envolvem na faina que antecede as nossas festas.   A preparação das festas do Arruado é animada por momentos quase rituais, que transcendem aquilo que se vê na produção de outros eventos varzeanos. Uns cozinham, outros fazem bandeirolas e balões, outros preparam o espaço. Tudo de forma generosa e solidária. Não são apenas festas, são celebrações. Isso explica a emoção à flor da pele, em cada encontro de cultura, em cada sambada, em cada sarau. Uma conexão amorosa e profunda entre os brincantes, os poetas, os cantores e cantoras, os mais velhos, os adultos e as crianças, faz de nossos festejos, momentos de fortalecimento e de harmoniosa comunhão. Quase sempre as lágrimas surgem no meio das declamações, depoimentos e testemunhos.

Portanto, quando se pensa em um Movimento de Resistência Popular no Arruado do Engenho do Meio da Várzea, não se trata apenas de produzir eventos, ou documentários, ou simplesmente de inventariar edificações de pedra e cal, nem monumentos ou obras de arte. Tampouco se busca um museu popular a céu aberto, muito menos, criar um banco de dados, coisa estática e distante. Podemos fazer tudo isso, mas iremos além:

O MRP quer viver o Arruado, nessa dinâmica de reinventar aquelas velhas práticas culturais, que nutrem a tradição eterna e comunal dos moradores de engenho. Essa tradição repassada no âmbito da oralidade e que não se encontra em livros e papéis amarelados. O MRP quer mais: quer abrir trilhas de conhecimento, baseadas nos saberes enraizados na experiência do povo. O MRP percebeu que a alma ancestral do velho Engenho do Meio da Várzea está presente e viva nesse lugarejo, escondido no campus da UFPE. O MRP está na luta de resistência que é comum a todos os povos excluídos de todas as regiões do Brasil. O MRP-Arruado está nessa luta, que não é só nossa, e sim, de toda a humanidade.

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Sobre Eurico

Escritor e poeta
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3 respostas para Por que o MRP-Arruado?

  1. Emanuel disse:

    Leio seus textos e fico pensando. O que gente estava fazendo PUXANDO TRENA??????

    • Eurico disse:

      Estávamos aprendendo a pisar no chão, a comer poeira de estrada, pra não ficar se achando o maioral…rsrsrs Em tudo há uma lição, meu irmão. Conhecer gente boa, feito você, também era aprendizagem pra nós, teus estagiários. hehehe

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