POEMA-ESCORÇO, leitura em perspectiva

"Oculus no teto da Câmara dos Esposos", Palácio Ducal, Mântua.

Oculus no teto da Câmara dos Esposos - Andrea Mantegna

Carlinhos do Amparo comentou… (no dia 06 Abril, 2009)

“Sobre teu processo criativo falo eu, compadre. Estás desobrigado de falar:

Essa palavra, escorço, já ouvi de ti, em outras prosas que tivemos. O termo escorço (escorzo) deriva do italiano scorciare, com tradução literal para encurtar, abreviar, resumir.

Mas, convivendo com os artistas d’Olinda, aprendemos escorço, pelo modo que o tratavam os gregos, como perspectiva, tridimensionalidade, conceito ligado às questões da representação e da composição em pintura ou desenho; questões essas retomadas, depois, pelos Renascentistas.

Sei, no entanto, que ao definir esse texto como poema-escorço, não estás a falar da perspectiva meramente visual.

Trata-se da profundidade intelectual.

Aquilo que se obtém verticalizando a leitura, buscando enxergar além da superfície do texto, ou seja, buscando intelligere, ou ler dentro. O escorço, portanto, transforma a superfície da coisa (seja uma pintura, um poema, uma escultura) em algo virtualmente profundo. A obra escrita ganha, assim, uma terceira dimensão.

Ler Broa (ou Agostosem fazer um esforço de perspectiva, sem perceber o que há de escorço no poema, a tentativa de tridimensionalidade intelectual, deixará o leitor (de Broa) com um mero biscoito naval entre as mãos, visão rasa, superficial da massa bolorenta e amarga. Um simples biscoito e nada mais.

Poema-escorço é também poema-alusão, potencializando as pequenas coisas visíveis no texto, breves mas densas, em sua perspectiva de profundidade temporal (histórica), espacial (geográfica), visual (gráfica) ou até auditiva (musical), e, por que não dizer, num sentido amplo, sinestésica.

Isso é o escorzo. Apenas a o roçar de leve a coisa representada, com alusões, com indícios, que atraiam o leitor para o abismo que é o ser-das-coisas.

E, só estou focando, no teu processo criativo, essa intencionalidade tácita do poeta, que Cortázar chamou de a asa ritmada, o remo de si mesmo, a ventania do próprio cata-in/vento.

Precisa-se também atentar, nessa série de escorços, para a etimologia dos verbetes, que, tão ao teu estilo, costumas chamar de arqueologia da palavra.

Creio que foi isso que discutimos dia desses à sombra de uma mangueira frondosa e centenária, lá no Sítio d’Olinda.

Abraço, meu compadre.”

Fonte da imagem:
Deedellaterra. blogspot

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Sobre Eurico

Escritor e poeta
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2 respostas para POEMA-ESCORÇO, leitura em perspectiva

  1. Rejane Martins disse:

    Tudo por aqui, sempre tão cuidado, delicadeza no olhar – ambiente mais que propício ao entendimento sinestésico. A propósito, Broa e Agosto são desmesuradamente lindos e remetem à releitura, e se desdobram em beleza… não tem fim.

    • Eurico disse:

      Grato, amiga,
      aqui eu exercito, através do meu compadre e co-editor, Carlinhos do Amparo,
      essa reflexão, que é um momento da práxis de meu processo crativo.
      Tudo na mais informal atmosfera.
      Espero que, compartilhadas essas reflexões, sirvam para levar luz ao modo obscuro
      com que construo meus poemas.

      Abraço fra/terno.

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