Do 71º aniversário da UFPE

Arruado visto do casarão

Arruado, visto da varanda de Joaquim Amazonas

Me parece óbvio que uma instituição não precisa ter alma, posto que ela em si mesma não é uma coisa viva, é apenas uma abstração, uma organização que cumpre os processos da burocracia que a erige e a sustenta.

Por isso, não se comemora, nesta data, o aniversário de prédios, de salas de aula, mas das pessoas que trabalharam e trabalham numa universidade. Eu comemoro o aniversário da UFPE através da lembrança dos pedreiros, serventes, carpinas, dos operários da construção civil que ajudaram a realizar o sonho de Joaquim Amazonas, nosso mais ilustre vizinho. Era também arruadense o primeiro reitor. Comemoro a presença e a vida de alguns professores, alunos, funcionários que vivem a instituição. Não citarei nomes, mas muitos deles estão aqui nesse meu facebook e eles sabem o quanto os admiro e respeito.

Não queria um texto magoado nesta data, pois muitos dos que fazem a UFPE são nossos aliados, nossos amigos, nossos companheiros de luta. Contudo, os que não conseguem pisar no chão centenário do Engenho Velho, por indiferença ou preconceito (excluo os que que ignoram a nossa existência) não receberão meus aplausos nesta celebração. Eles são os alienados, mesmo filiados a partidos progressistas, são os abúlicos, os sem alma, os vaidosos, os que se imaginam intelectuais orgânicos ou líderes de massas, porém não caminham com os menos favorecidos. Nesta gestão há gente humilde, apesar dos títulos acadêmicos, mas que apenas compõem o staff, sem voz diante dos poderosos chefões. Todos hão de passar! Eu também… Mas defenderei até o último dia de minha vida os que trabalham e sustentam a comunidade de alunos, professores e moradores. Todos comemoramos hoje, a passagem desses 71 anos de ensino e aprendizagem. O MRP- Arruado agradece aos professores, alunos e funcionários públicos ou terceirizados que nos ombreiam na luta pela terra, pelo pão e pelo trabalho. Aliás, o amor, o trabalho e o conhecimento deveriam governar a nossa vida, disse-nos Reich.

Essa é a nossa esperança! Um dia seremos governados pelo Amor!

E viva a universidade dos humildes, dos que pisam no chão, dos que trabalham! Viva!

Publicado em Outros temas | Deixe um comentário

EULÁLIA (um fado?)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

OIÇO um canto de fadista.
És tu que cantas,
A essas minhas esp’ranças,
Que são tantas:

Sons em voz de lusitana
rapariga
…trazes, dos mediterrâneos,
as cantigas,
feito rios subterrâneos
de água amiga,
que escorrem, escondidos,
Deus o sabe,
à foz, em mar cristalino
do Algarve…

***

É teu, o aceno triste
de saudade,
no lenço branco que vejo,
vindo dos balcões moçárabes?

***

Um dia fiz duas trovas
com sotaque visigodo,
numa eufonia de motes,
lamentando a pouca sorte
de meu coração tão doudo:

I
A saudade singra os mares
Desviando dos abrolhos
E se alimenta dos ares
Da lembrança dos teus olhos.

II
Ontem foste campesina
A ouvir cânticos moiros;
Já te encontrei concubina
Dum sultão lúbrico e loiro.

***

Todas as linguagens trazes
numa etimologia
de cristais
em fonemas aéreos e vocálicos;
musicais.

Música aleatória e vária
em plangentes alaúdes:
ai! moiraria!
Potros, selins, bandeirolas,
A festejar tua vitória
Que é tão minha!

Vielas da Albufeira:
Casas lavadas de branco.
Quanta luz!

Não adianta chorares
Quero cruzar verdes mares,
com essa cruz.
Eis as velas triangulares
de uma fragata ligeirinha
que, por fé, minha rainha
batizara de… Jesus.

***

É teu, o aceno triste
de saudade,
no lenço branco que vejo,
vindo dos balcões moçárabes?


*******************************

A imagem, cujo sítio originário está nela linkado,
é da Albufeira, região de Algarve, Portugal,
último recanto luso tomado aos mouros,
derradeiro nicho de resistência da Língua Portuguesa.
Embora, aqui, não se negue a riqueza dos empréstimos linguísticos
e do vocabulário da cultura árabe.

Ave, Mátria!!!
Ave, nossa Língua Portuguesa!!!

*******************************

Nota do editor:

reeditar Eulália foi a minha maneira

de trazer o lado positivo do elemento branco

na formação da alma ancestral brasileira,

fechando essa série de poemas, que se iniciou

em maio, com o poema Tantãs, uma celebração,

e se encerra com este Eulália, uma loa à língua portuguesa.

 

Publicado em Outros temas | Deixe um comentário

JARDINEIRO DO AR

 

 

 

 

 

 

Na latência, efloresce o patente…
E o novo está guardado no antes.
Nesse instante.

Há flor na luz solar.
Já é flor o ato de florar.
Flor é a possibilidade de ser flor…

…quando chove sobre a terra,
os úberes se entreabrem.
Antevejo corolas encarnadas.

Efloresço.

Eu serei eu: flor-futura.
Já úmidas, as pét’las.
Saudade do amanhã…

Fonte da imagem:

 Raquel Bitencourt

 

Publicado em Outros temas | Marcado com | Deixe um comentário

BRASA E MEL


A criança vê fundo e antes
um mundo feito em relações desconcertantes.
Faz a eternidade,
agarra o instante,
consegue ver até, olhos ausentes,
o modo sutil,
em que do sono da brasa, latente,
brota o mel…

A criança é mãe do sonho,
sabe os secretos sentidos,
tem a ciência da fauna
e a presciência da flora,
conhece o segredo antigo
que da pequena semente
faz surgir o baobá.

Os gregos chamavam physis
e os romanos, natura;
e a criança, sem dar nomes,
brinca com as coisas futuras,
desmonta o reino dos homens
governa o reino do céu,
paira com Deus sobre as águas,
toma banho de chapéu.

A criança doma o medo,
rasga o finíssimo véu
sobre o sentido da Vida:
Só ela sabe o segredo
o indizível segredo,
com que a brasa gera o mel.

06.07.2000

(de uma conversa de ateliê)

Publicado em Outros temas | Marcado com | Deixe um comentário

FLOR DE NADA

UMA FLOR?
E. B. Brito

 

I

As coisas todas brotam de outras coisas,
concretas ou abstratas.
Frutas da physis,
poíesis,
todas inatas…

II

As rosas,
surgem das rosas.
Idéias,
nascem de idéias.
Azaléias, flores simples,
surgem dentro de azaléias.
Tudo isso que nós vemos
vem à luz como aletéia,
desde que em seu ventre haja o ensejo
de um fundo idêntico a si mesmo…

III

Mas,
um verso, flor de nada,
emerge, espontaneamente,
disso oco e sem sentido
que existe dentro da gente.
Sua forma, (isso que lemos,
esse agora, esse presente),
é o fundo igual que aflora,
é o ser passando a ente.
Fonte da imagem:
AbARCA

Publicado em Outros temas | Marcado com | Deixe um comentário

Prolegômenos à mundividência: um carrapato no Engenho Velho

dona luiza arruado

                            Dona Luiza olha o mundo, de sua janela…

1 – Prolegômenos à mundividência

Meus doze leitores devem lembrar do carrapato deleuzeano, do qual tratei aqui, no meu afã de compreender o mundo de cada um e de como iniciarmos um processo de renovação das nossas ideias e crenças, que nele, no mundo, se baseiam.

Relembremos o trecho de Gilles Deleuze:

“O carrapato responde ou reage a três coisas, três excitantes, um só ponto, em uma natureza imensa, três excitantes, um ponto, é só. Ele tende para a extremidade de um galho de árvore, atraído pela luz, ele pode passar anos, no alto desse galho, sem comer, sem nada, completamente amorfo, ele espera que um ruminante, um herbívoro, um bicho passe sob o galho, e então ele se deixa cair, aí é uma espécie de excitante olfativo. O carrapato sente o cheiro do bicho que passa sob o galho, este é o segundo excitante, luz, e depois odor, e então, quando ele cai nas costas do pobre bicho, ele procura a região com menos pelos, um excitante tátil, e se mete sob a pele. Ao resto, se se pode dizer, ele não dá a mínima. Em uma natureza formigante, ele extrai, seleciona três coisas.”

E assevera Deleuze:

“É curioso, pois muita gente, muitos humanos não têm mundo. Vivem a vida de todo mundo, ou seja, de qualquer um, de qualquer coisa, os animais têm mundos. Um mundo animal, às vezes, é extraordinariamente restrito e é isso que emociona. Os animais reagem a muito pouca coisa…”

Disso que afirma Deleuze, me vem a ideia de que existem homens e mulheres que vivem como esse carrapato. Suas janelas da alma são restritas a um único prisma. São uniprismatistas, quando precisariam ser esferistas, como aconselha o meu amigo, o artista-plástico, Eugênio Paxelly.

paxelly

Foi esse meu amigo quem criou, lá pelos anos 1990, o conceito de Esferismo, observando as pessoas e as coisas, em seu ateliê da Rua dos Prazeres, bairro da Boa-Vista, aqui no Recife. Percebam  como faz sentido a compreensão do seu ofício de artista e a sua necessidade de exercitar esse olhar esférico. Os olhos do mestre Paxelly brilhavam, quando ele tratava do Esferismo:

É preciso olhar o objeto por todas as suas faces e planos, dizia ele. Façam o objeto girar! Sejam esferistas!

O mundo do esferista não é restrito e reducionista, e, por isso mesmo, tem a amplitude necessária para, pelo menos,  respeitar a mundividência do Outro, mesmo que pequena e limitada a alguns excitantes, como a visão de mundo do carrapato deleuzeano.

Quem convive com esse olhar esferista, aplicando-o a outras situações da vida, aprende a tolerância, mesmo em meio à luta. Não se ensoberbece, nem menospreza o adversário. Reconheço, nessa cronica extemporânea, a minha necessidade desse um olhar mais amoroso sobre as coisas e as gentes. Talvez, seja esse o verdadeiro motivo de escrever sobre mim mesmo, nesse momento da vida. Passei dos sessent’anos. E ainda não me fiz um verdadeiro esferista…

 

Um carrapato no Engenho Velho (confessio spontanea)

Como vinha dizendo, já passei dos sessent’anos. Estou “sex”, como diz uma grande amiga. Sex é sexagenário. rsrs E essas idades redondas, 30, 40, 50, a mim sempre trouxeram algum tipo de boa crise. A crise que faz pensar e criar. Minha trajetória até aqui nunca foi retilínea. Sou um ser de ziguezague. E a essa altura do campeonato não pretendo mais mudar a mim mesmo. Talvez a melhor coisa seja “me adaptar ao que sou”. Não por conformismo. Muito pelo contrário. Ziguezaguear não lembra muito a resignação.

E como ser acomodado se os meus ídolos sempre foram os loucos.

Em literatura, prefiro Lima Barreto e Osman Lins, ao genial Machado. Na música clássica, o Debussy, ao Mozart. No Brasil, o Hermeto, o Tom Zé e o Chico Science me chamam mais a atenção do que outros também geniais, e que não dispenso, no cenário da MPB, como os tropicalistas, os bossanovistas, etc. Na poesia, os rompantes do Antonin Artaud, apesar de não conhecer a fundo a sua obra, aos belos sonetos do Bilac; e aí vem outros loucos e visionários das outras áreas (que apenas exploro a superfície das obras): Spinoza, Ortega y Gasset, Deleuze, Flusser, Paulo Freire, Vicente Ferreira da Silva… e agora, Heráclito!

Ando esmiuçando tudo o que encontro de interessante sobre os fragmentos do Obscuro. Tudo isso, depois de ouvir um interessante debate entre os mestres Sylvio Ferreira e Zé Nivaldo Júnior, em certa rádio pernambucana. O tema era a Tolerância, e o Sylvio tentava explorar o Discurso da Servidão Voluntária, de Étienne de La Boétie, enquanto Zé Nivaldo se esforçava por esconder sua dialética marxista, dizendo-se heraclitiano. Dois mestres geniais! Fiquei instigado e, desde então, apesar desses tempos temerosos, ando a rastrear, nessa rede, os raros  fragmentos deixados pelo filósofo de Éfeso. Não obstante, farei uma releitura do Étienne de La Boétie, pois, no debate, perfilhei-me à opinião profunda e esferista, do professor Sylvio, de quem sou fã.

Mas o que estou a dizer nessa manhã? E por que esse tom cinzento de crise me toma no exato momento em que escrevo essas linhas?

Eu, sinceramente, não sei.

Só sei que acordei com um medo danado dos peremptórios, dos que trazem debaixo dos sovacos os seus imperativos categóricos, as suas evidencias apodíticas, os seus ismos irrefutáveis.

Ah, e por falar em ismos eu tenho um apreço especial por um ismo, meio escanteado, discriminado, coitado… o meu ismo preferido é o Achismo. Sim, ele mesmo! O tão demonizado achismo. Prefiro chegar às coisas e aos fatos, sejam do presente ou do passado, munido de meu velho e bom achismo. Ele me liberta dos outros ismos, que me podem restringir o campo das percepções e me fazer, como diz aquele velho amigo, “uniprismatista”.

Uniprimatista? O que é isso?

É o cidadão que tem um único prisma apriorístico, preparado para abordar tudo. E tudo tem de se dobrar a esse prisma introjetado em sua mente, eu ia dizer alma… Ele está por aí, nos púlpitos e nas tribunas, defendendo teses, opiniões, crenças e certezas, a que todas as outras ideias se devem ajoelhar.

Mas, continuemos…

Tenho visto tanta coisa nesse mundo de meu Deus, dizia o velho Lula Gonzaga. Mas nunca tanta coisa me passa em frente aos meus velhos olhos que a terra há de comer ou o forno há de cremar, como nesses tempos pós-facebookianos.

A balbúrdia, a esplendorosa balbúrdia do mundo, essa caótica e maravilhosa balbúrdia de informações, me atravessa a alma, e mesmo eu, acostumado aos loucos e visionários, aos rebeldes, eu, esse ser de ziguezague, fico aturdido ante a velocidade das mudanças e a velocidade com que mudam as mudanças desse tempo.

arruado casas1

E às vezes fico pensando certas leseiras, esses meus achismos de estimação, tais como:

O que faria o Paulo Freire com seu método, aquele de usar as palavras do contexto e tal, para alfabetizar etc, etc. O que faria o Paulo Freire hoje em dia, no meio dessa turba alucinada de informações? Como achar as palavras nessa novilíngua? Que pedagogia surgirá dessa multidão de novas palavras e coisas e dizeres, que viajam na rede com uma estonteante velocidade?

Interessante, né? Mas algo ele faria, com certeza.

No entanto, os professores dessa geração não estão órfãos de Paulo. Há novos Paulos por aí, que talvez nem saibam que são freireanos, não por filiação às ideias dele, mas que, imersos no saber desses tempos da rede, ou das redes, eu diria mesmo, das redes sociais, conseguem aplicar o método, simples e fácil, de trazer ao ensino, a realidade imediata do aprendiz. Eita palavra antiga: aprendiz. Mas fica assim mesmo. O danado é que essa “realidade imediata do aprendiz” desses tempos é facebookiana! E alguém teria de lembrar de trazer essa realidade virtual para a educação. Não é simples? É nada… Mas alguém tem de tentar.

                                                                     ***

Enquanto isso, fico aqui, dependurado no meu confortável galho, feito o carrapato deleuzeano, a esperar que passe a manada da história. O Engenho Velho da Várzea é a minha zona de conforto, em essa natureza formigante. Abrigado na pelagem desse pequeno mundo, nada mais me interessa. Confesso que perdi a esperança, em meio ao torvelinho de notícias ruins que assolam o país. E meu mundo está restrito ao moer do passado do velho engenho.

Enquanto os materialistas históricos aguardam, na dialética, a miraculosa solução dos conflitos hodiernos, eu, estranhamente, redescubro, num mundo arcaico,  a physis, o modo helênico de ver o mundo, e busco o logus da psiché, como processo de humanização, da trans-formação do homem natural no homem da cultura. Não soa estranho, esse discurso?

Lá fora, as pessoas buscam um messias, seja político ou religioso. Entrementes, eu busco um Cristo interior, uma renovação por dentro, que não é nada mística. É physikoi…rsrs É o que ainda me move e me incendeia, esse fogo heraclitiano, do qual tudo ressurge, surge, ressurge, chama sagrada, mas oculta.

Entra nos teus aposentos e ora em oculto, dizia o Cristo, que teu Deus vê em oculto

A Physis ama ocultar-se, dizia Heráclito de Éfeso, 500 anos antes. Seria, então, a physis uma ideia do transcendente?

Creio que não. Ou, não apenas isso.

Mas para Katsuzo Koike, professor da UFPE, é comum, em nossos dias, contrapor a natureza ao psíquico, ao espiritual, quando, para os pre-socráticos, a Physis exprimia o todo existente, a totalidade do real, desde as coisas materiais ao mundo dos deuses..

Talvez meus doze leitores não me entendam essa fase. Dirão que estou alienado. Porém, nada menos alienante do que uma revisita ao mundo grego de 2500 anos atrás. O mundo que gerou esse nosso mundo, com todas as suas contradições! Noite e dia, riqueza e pobreza, paz e guerra… silêncio e balbúrdia. Polémos! A luta vivificante do logos da physis com o logos da psiché! Avanços e recuos. Devenir… processo. Banhando-me, dialeticamente, no mesmo rio, que mudou, que ainda é rio, que sou Eu, que sou o Outro, que somos Um e o mesmo rio. O rio heraclitiano que encontra o rio crístico, em que essas águas saltam para a eternidade!

Lá fora as pessoas gritam: fora! fora! fora!

Lá fora?… Existe um “lá fora”?

Perdoem-me tomar o vosso precioso tempo, com esse ziguezaguear de notas autobiográficas. Não posso contar a história sem mergulhar no Eu… Não há história sem Eu, sem intra-história… Motiva-me cumprir o desideratum paulino, que diz:

E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento
Romanos 12:2

E não se renova o mundo, sem renovar o entendimento do mundo em mim, em ti, em nós. E cá dentro de mim, cá dentro um engenho se move, lentamente, como uma ampulheta feita de um viscoso melaço, escuro mel de engenho.

Parece que ainda oiço o ambulante, carapinha branca, a gritar:

— Mé novo!

Por isso, não gritarei lá fora. Não existe fora. Estamos todos num dentro, numa physis por dentro e por fora… que se movimenta como a almanjarra do velho engenho movido a bois…

Assinado: O Carrapato.

Engenho de Farinha 4

Publicado em Outros temas | Deixe um comentário

Saberes e Fazeres – por um catálogo da artesania popular no Engenho Velho

Imagem0076

Pastoril na Várzea

UMA EPÍGRAFE:
Quando tiverem conseguido um corpo sem órgãos, então o terão libertado dos seus automatismos e devolvido sua verdadeira liberdade. Então poderão ensiná-lo a dançar às avessas, como no delírio dos bailes populares e esse avesso será seu verdadeiro lugar. (Antonin Artaud)
Motivado por essa epígrafe, trago à baila um dos meus poemas sem nexo, para, com ele, tentar ilustrar uma preocupação que vai implícita em mais essa cronica de diletante:
***
DANÇA SEM CORPOS
Convoquem-se os doutorandos pra dançar,
enquanto é dia…
Cantem-se os cânticos aurorais.
Dancem-se as danças circulares…
Que falem as crianças, os doidos e os poetas,
num intraduzível canto sem métrica,
à claridade, aqui, ali, à claridade,
enquanto se pode achá-la!
Dias virão em que fugiremos pros montes
com pavor de nossos filhos e filhas.
Eles já não nos ouvem e falam um dialeto de autistas,
um poderoso discurso para iniciados.
Salvem-se os jovens dessa seita academicista,
em que se untam de poder e de verdades.
Quando criança eu falava com as gramíneas,
com as formigas, com os insetos do quintal.
Estávamos entrelaçados, minhas raízes e eu.
Meus pais riam disso.
Doidices de crianças, diziam.
Loucura e poíesis, digo eu.
As crianças dessa nova era
estão tomadas por estranha terminologia,
e já não brincam como dantes.
Antes, fabricam-se modos de ver, de pensar, de existir.
O imaginário foi engarrafado.
Envasadas as enunciações poéticas
e as artes, em um discurso de infalíveis.
Urge que se convoquem os jovens doutorandos pra dançar,
sem corpos e sem órgãos,
Dançar deliricamente…
Em transe, com gritos primais.
Urge que cantem as crianças, os doidos e os poetas,
num intraduzível canto sem métrica,
à claridade,
Aqui, à claridade,
enquanto se pode achá-la!
dança ao redor do polo de maio

Pieter Bruegel – Dança de Maio

*************************************************************************************

Feito isto, passemos ao assunto, que surgiu das discussões de uma aula de Design Social, da Profa. Ana Emília, no dia 18/05/2017, no aprazível terraço do chalé da família Souza:

Uma aluna defendia a produção de um catálogo sobre o artesanato dos moradores da comunidade do Arruado do Engenho Velho, quando a própria palavra catálogo foi posta em discussão pelo grupo, levando-nos a pensar nas maneiras de inventariar e/ou catalogar os saberes e fazeres mais cotidianos de uma comunidade qualquer e, em especial, de uma comunidade quase rural ou rurbana, como é o Engenho Velho da Várzea.

Essa catalogação dos fazeres e saberes ancestrais me levaram à questão levantada no início do século XX, pelo escritor Mário de Andrade, em sua já famosa expedição pelos brasis dentro do Brasil, que, segundo minha compreensão, propiciaria a formulação de uma lei que definisse o modo e a forma de se fazer o registro do patrimônio imaterial, a partir do olhar dos moradores de uma comunidade.

Nos idos de 1936, Mário antecipava uma visão diferenciada, que iria influenciar toda uma geração de estudiosos. Em seu relatório ao ministro Gustavo Capanema, chamou a atenção para o fato de que “o patrimônio cultural da nação compreende muitos outros bens além de monumentos e obras de arte.”

Esse olhar do poeta modernista Mário de Andrade, deve ter influenciado o professor pernambucano, Aloysio Magalhães, (um dos primeiros designers voltados para os processos da artesania¹ popular brasileira),  na concepção  de um Inventário Nacional de Referência Cultural, importante documento que nortearia todo aquele que se interessa pela preservação, registro e tombamento de bens materiais e imateriais no território brasileiro.

img_20161127_110238621

A boa notícia é que os moradores de uma comunidade podem e devem apontar as suas referências culturais, identificá-las e inventariá-las, a partir de suas vivências, de suas memórias e narrativas pessoais ou coletivas.

Uma das atividades do grupo de ativistas que se denominou Movimento de Resistência Popular Arruado do Engenho do Velho da Várzea, MRP-Arruado, consiste em tirar da invisibilidade e do confinamento, as dezenas de pessoas que habitam o casario da extinta Usina Meio da Várzea, depois denominada Loteamento Engenho do Meio, que já estão na posse da terra há mais de 100 anos. Além disso, cuidamos de criar uma narrativa, a partir das memórias dos moradores mais antigos, buscando identificar, no momento presente, as referências materiais e imateriais que se foram consolidando, desde o século XIX, nos fazeres e saberes da vida cotidiana dessa comunidade.

E o que seriam essas referências?

Leiamos um trecho do Manual do Inventário Nacional de Referência Cultural, em sua versão on-line:

“Referências são edificações e são paisagens naturais. São também as artes, os ofícios, as formas de expressão e os modos de fazer. São as festas e os lugares a que a memória e a vida social atribuem sentido diferenciado: são as consideradas mais belas, são as mais lembradas, as mais queridas. São fatos, atividades e objetos que mobilizam a gente mais próxima e que reaproximam os que estão longe, para que se reviva o sentimento de participar e de pertencer a um grupo, de possuir um lugar. Em suma, referências são objetos, práticas e lugares apropriados pela cultura na construção de sentidos de identidade, são o que popularmente se chama de raiz de uma cultura” (Cecília Londres, Manual do INRC, p. 29).

E diz mais, o Manual do INRC:

“Embora essas informações só possam ser apreendidas a partir de manifestações materiais, ou “suportes” – sítios, monumentos, conjuntos urbanos, artefatos, relatos, ritos, práticas, etc. – só se constituem como “referências culturais” quando são consideradas e valorizadas enquanto marcas distintivas por sujeitos definidos. (…) Referências culturais não se constituem, portanto, em objetos considerados em si mesmos, intrinsecamente valiosos, nem apreender referências significa apenas armazenar bens ou informações. Ao identificarem determinados elementos como particularmente significativos, os grupos sociais operam uma ressemantização desses elementos, relacionando-os a uma representação coletiva, a que cada membro do grupo de algum modo se identifica.” (idem, 14)

(Todos os grifos são meus)

Essa postura do IPHAN, já adotada pelo seu corpo técnico, a partir do Manual do Inventário Nacional de Referência Cultural, abre imensas possibilidades de registro, justamente por ser baseada no testemunho e vivência de quem detém os saberes e fazeres populares.

Um bom inventário deve catalogar os saberes e fazeres dos moradores, sem desprezar nenhum pequeno elemento significativo das práticas comunais de uma coletividade. Sejam as ligadas às crenças, ao pastoreio, à agricultura, à manufatura de vestimentas, de utensílios domésticos, da culinária, das festas religiosas e profanas, do artesanato e das artes em geral, que eu chamo de tecnologias populares. Sem esquecer dos jogos e das brincadeiras de rua, um saber próprio das crianças, e, em nosso caso, das crianças que ainda brincam ao ar livre, nos quintais arborizados do Engenho Velho.

Um exemplo de tecnologia popular, que se pode olhar como referência de um saber e fazer da nossa comunidade é a maneira pela qual se combatem as casas de cupim dos galhos mais altos e inacessíveis, nas copas das árvores frondosas do Arruadinho. Contou-me o Marquinhos de Dona Inez, que um tio dele, chamado Bonifácio, era exímio atirador de badoque ou estilingue. A técnica era a seguinte:

1- Enfiava-se em um limão, um fio de nylon ou cordão fino que tivesse de comprimento duas vezes a altura da galha a ser alcançada.

2- Com o badoque, atirava-se o limão em direção do cupinzal. Amarrado à linha, o limão caia no chão, após ultrapassar a galha.

3- Nesse momento, fazia-se, com azeite ou álcool, uma tocha de fogo ao redor do limão.

4- Puxava-se então, o limão incendiário de volta à galha em que estavam os cupins. Pronto: em instantes a casa de cupim estava totalmente destruída pelo fogo. Poderíamos chamar esse fazer de tecnologia popular ou social?

Creio que sim.

E, pelos olhos dos que a inventaram, essa era uma referência cultural dos moradores dos sítios do Engenho Velho, que mereceria um registro imaterial, pela importância da eliminação dos cupins, no trato das árvores frutíferas da comunidade.

Continuemos, com outro exemplo:

As conversas de fim de tarde no Arruado, em que o calor leva os moradores a sentarem à sombra das árvores centenárias, sempre abrem possibilidades, a quem estiver atento, de observar alguns costumes antigos de uma comunidade de agricultores. De certa forma, isolado da vida urbana, o Arruadinho ainda guarda certo bucolismo, como o evocado pelo poeta cearense, que assim cantava:

“Eu era alegre como um rio
Um bicho, um bando de pardais
Como um galo, quando havia
Quando havia galos, noites e quintais”.

E para arrematar esse assunto de como catalogar ou inventariar saberes e fazeres, a partir do olhar dos moradores de uma comunidade, deixem-me contar um causo recente, que pode parecer menor, aos nossos olhos, prenhes de tecnologia dessa nova era da informação, esse mundo virtual que, de certo modo nos oculta práticas ancestrais, que resolviam aquele mundo antigo, cujas técnicas podem hoje nos parecer primitivas, mas que ensejavam soluções práticas para problemas do cotidiano, tais como, comer, plantar e vestir.

Por exemplo:

Semana passada, Dona Angelina, ou dona Nininha, como a chamamos, carinhosamente, estava aperreada com um galo que estava atormentando uma galinha choca. Aliás, esse galo chamava a atenção pelo seu instinto reprodutor. Atacava todas as franguinhas, ainda jovens e não deixava as galinhas completarem o período do choco. Era um transtorno! Dona Angelina, numa dessas tarde de conversas sob a tamarineira, pegou o galo por baixo de suas asas e o levou pra dentro de casa. Cinco minutos depois, talvez mais um pouco, volta ela e me anuncia:

“Seu Lula, já matei!”

“Matou?” perguntei eu.

“Matei o tarado!”

Entendi então que o galo tarado foi pra panela de Dona Nininha. E era um belo galináceo. Que pena!

Lembrei que, hoje em dia, nem toda dona de casa tem coragem de sangrar um galo, para uma cabidela, como ainda faz dona Angelina. Meu pai, que foi morador da Ilha do Leite, (no tempo em que a ilha era apenas um banco de areia, com alguns mocambos e a igrejinha da Saúde), me contava que na Boa Vista havia um judeu sefardita, que era especialista em matar galinhas. Ia esse homem, de casa em casa, a oferecer os seus serviços. Com isso sustentava a família, egressa de uma Europa arruinada pela guerra. Era, portanto, aquele judeu, detentor de um saber e fazer que lhe garantia o sustento.
Dona Angelina é um exemplo de como um antigo fazer, está preservado no Arruadinho, simplesmente, pelo fato de ainda existirem galos, quintais e moradores que preservam esses saberes.

Imaginem, meus doze leitores, que, se aqui nesse Engenho Velho, já houve criação de vacas leiteiras, cabras e cavalos, quantas habilidades, quantos saberes antigos existiram e vivem na memória dessa gente ligada à terra e à criação de animais?

Encerro com outra pergunta:

Devemos catalogar esses fazeres antigos e próprios de uma agro-vila quase rural, confinada num campus universitário?

Se, sim, como poderíamos fazê-lo?

Deixo isso aos Designers Sociais da profa. Ana Emília Castro.

******************************************************************************

Palavra de uso recorrente no Brasil, embora ainda considerada, em termos linguísticos, um “estrangeirismo”. Aqui, a palavra é tomada do espanhol e pensada como sendo os processos que implicam na experimentação, investigação, espaços produtivos e produto final, pelos quais o artesão transita para ter um resultado adequado, o que inclui, ainda, a inventividade e a necessidade de métodos apropriados, mesmo em se tratando de um trabalho informal, sem compromisso com a seriação. Artesania sugere, deste modo, o ato de fazer o artesanato e não meramente o produto final.

“A Universidade como espaço de reflexão e fomento aos processos de artesania“.

Publicado em Outros temas | Deixe um comentário