Confissão pública ou segredos de um cronist’amador

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É melhor contar logo isso aos senhores, meus doze leitores. Sofro de um mal, que, por não ser contagioso, nunca me preocupei em lhes contar. Bem, deve ser uma espécie de loucura. Mas, como nunca contei a um psiquiatra, não tenho certeza disso. Sabe, gente, eu leio e releio dois livros há muitos anos… Pssss! Não espalhem! Isso é segredo. Ficará só entre nós. Por favor, também não riam de mim. Pelo menos riam sobriamente, não gargalhem! Em vez dos kkkkk, apenas os rsrsrsr, costumeiros das redes sociais. Até porque, com 66 livros, os protestantes e 72, os católicos, refundaram a nossa civilização. E olhem que eles leem e releem todos os dias os mesmos livros da Bíblia. Ia esquecendo dos judeus, que só usam os cinco primeiros e preservam sua cultura há milênios. Portanto, pra mim, que não quero mudar o mundo nem nada, bastam-me os dois, que vivem à minha cabeceira, desgastados e cheios de anotações, geralmente, de dúvidas. Elas, as dúvidas, não se esgotam. Nem eu me canso de com elas conviver. Essa é outra variante dos meus sintomas.

São dois livros densos, nem tão calhamaços, mas muito densos. Um deles tem 375 páginas. O outro, mais fininho, 214 páginas. Mas os assuntos… aí é que a coisa complica. Uma pessoa amiga já me disse que quem lê muito, endoida. Coisa que não me meteu medo. Eu já era doido antes de começar a ler os meus dois livrinhos. (risos)

Bem, o livro mais fininho busca, nas origens primordiais, a resposta para o que é a cultura. Isso mesmo! Né doidice?

Já o mais volumoso, embebido da cultura presente, busca uma Razão Vital, que escape a todo dualismo e separação entre o eu e as coisas, eu diria, uma visão do Eu em coexistência com as suas circunstâncias, a começar pelo corpo humano, onde habita. Habita mesmo, o Eu, um corpo de carne? Está dentro ou está fora?

Deixemos isso pra lá! E vamos ao lado prático de minhas confissões. Parte delas, que alguém chamou de agenciamento maquínico da enunciação, eu já revelei na crônica Brincantes Mágicos no Arruado, e trata dos segredos de como escrevo ou enuncio essas minhas mal-digitadas linhas. Portanto, desses segredos não mais tratarei aqui.

Agora, digam-me aí: vocês já viram como as crianças pequenas olham a passagem de um avião?

Já. Então tá.

E o que tem o avião com essa crônica amalucada?

Tem tudo. E já lhes conto.

 

Quando estou a caminhar por este Arruadinho centenário e, sobre a minha cabeça, passa um avião, sempre (eu disse, sempre) surpreendo-me com aquele portentoso pássaro metálico, suspenso no ar. E esse espanto em nada difere do espanto que tenho com as outras coisas que vejo voar. Sejam libélulas (que a gente chama ziguezigue) ou colibris, (que chamamos de beija-flor), sempre surpreende-me o ato de voar. O avião, pelo voo majestoso, o beija-flor, pela rapidez de suas asas. Nos dois, o ato ou ação de voar é o que me espanta.

No avião, surpreende-me ainda, que, enorme como ele é, se deixe dominar mansamente, como na Índia, os elefantes se submetem a uma criança, nas ruas da Nova Delhi.

Não pensem que fugi do assunto. Os meus dois livros de cabeceira. É que, ambos estão eivados (que bela palavra) de admiração pela realidade tal como a encontramos. A emoção com a patência das coisas é um dos motes de um deles.

A propósito, li em Hilda Hilst, que um seu personagem se comovia com tudo o que de mais trivial lhe chegasse às retinas. Seja com ossos secos, com cinzas de cigarro no chão, com um recanto de paredes. Tudo, tudo o comovia.

Confesso, estou no mundo, assim, sensível a tudo, como esse personagem da Hilda. E se me virem rir, olhando o saltitar esverdeado de uma rãzinha, não me tomem por louco. Pelo menos por isso. Minha loucura eu já lhes contei. Ler e reler há mais de 3 décadas os mesmos dois livros.

Por que fico rindo só, ao olhar o saltitar da rã?

Rio de duas coisas: uma é a autonomia dos seres vivos. A rã não depende de mim para viver. A outra coisa é a liberdade. A rã tem toda a liberdade para saltitar na direção que bem quiser e lhe der na telha. Enche-me de surpresa e encanto essa autonomia dos seres vivos!

Quisera que só fossem essas as minhas estranhas surpresas cotidianas. Há mais coisas esquisitas que percebo em mim, morando nesse Arruadinho. Os tijolos antigos. Imaginem só, alguém se surpreender com tijolos antigos! Fico a olhar pra eles tentando ver naqueles blocos de argila, as mãos que os moldaram, os pés que amassaram o massapê, o forno da olaria…

Mas, há algo pior, nessa minha doidice e que escondi até agora. O que há de ancestral, de arquetípico, de mítico, nessa construção do engenho humano: o tijolo batido.

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Ruínas de tijolo batido da chaminé da Usina Meio da Várzea

 

Estou chegando ao cerne da minha confissão:

Creio que em tudo há o Mito. O Arcaico está amalgamado no tempo presente. Vejo nos olhos de todos, nos corpos, nos gestos, a herança dos povos aurorais. As casas, o casario centenário, e até mesmo as novas casas, construídas à revelia das interdições institucionais. Uma força ergue essas casas. E não é apenas a força dos pedreiros, dos carpinteiros… não. A força é a da necessidade de habitar, de se proteger. A casa é a caverna, é a maloca, a oca, oikos, o lugar para abrigar a prole.

Porém, antes dessa força havia a possibilidade de residir, de morar, de coabitar. Essa é a abertura mítica que há em tudo. Na fala, o comunicar; no pote, o beber; todo o possível, todo o factível é precedido de uma anterioridade. (Isso já é Crippa, falando em meu ouvido). Essa anterioridade, esse prius, é o mito. O mito inaugura a realidade… bem, deixa isso pra lá! Não queiram saber mais do que isso. Já há prova cabal de minha loucura! Mas, eu ia dizendo:

As casas dos trabalhadores do velho Engenho da Várzea!

O que as ergueu e o que as sustenta. Essa terrunha necessidade de se instalar no mundo, num território, que é própria do animal humano. Telúrica, é a palavra que eu queria dizer dessa força.

Surpreendo-me com as casinhas dos trabalhadores da Usina Meio da Várzea, ainda de pé, enfrentando todas as pressões da nossa querida UFPE. É comovente a apropriação histórica desse território, pelos descendentes, netos, bisnetos e tetranetos dos primeiros moradores desse vilarejo agrícola. As casinhas ainda estão de pé! Elas ainda estão lá!

Enquanto isso, desabou, em 1946, por desabitada, por não ter moradores, por já não possuir descendência, desabou a casa grande do Engenho. Desabou o casarão do João Fernandes Vieira, o latifundiário, o escravocrata… louvado como fundador das nossas forças de guerra.

***

Para entender esses fatos todos, aviões, colibris, rãs, tijolos e casas, apelo sempre aos meus dois gurus. Nesse exato momento estou emergindo da re-leitura em um deles: Mito e Cultura, do Dr. Adolpho Crippa, filósofo culturalista, natural de São Paulo.

Mas não foi só isso que me fez correr pra ele. Uma frase-estopim do Prof. Dr. Evson Santos, aqui da UFPE, me faz correr pro Dr. Crippa, como os protestantes correm aos textos sagrados. Nessa frase coruscante, o Dr. Evson une duas palavrinhas que já fizeram que se escrevessem tratados volumosos. Por elas, estudiosos e estudiosas deixaram de viver a vida, para vegetar nessa outra, que chamam de vida acadêmica e, assim, foram criados movimentos e ramos do conhecimento: psiquismo e cultura.

“Não existe psiquismo sem cultura“, disse, em sua tese, o Dr. Evson.

A cultura e o psiquismo não convivem uma sem o outro. Mas a frase de Evson, em que as duas palavrinhas foram atritadas, fez saltarem faíscas e incendiaram o meu pobre cérebro de autodidata.

Há dias que estou mergulhado no meu Mito e Cultura. Nenhuma resposta ainda achei. Mas trago muitas interrogações. Sou aquela criança olhando pro alto.

Aquilo lá é um avião, diz Dona Luiza à sua bisneta, Maria Gabriela, a mais nova moradora do Arruadinho, com pouco mais de um ano de idade.

Com 60 anos a mais do que Maria Gabriela, eu ainda me impressiono com ele, com esse pássaro mítico, essa espécie de pterodáctilo, que sobrevoa os quintais arborizados do Engenho Velho da Várzea.

Mas, nenhuma resposta ainda. E continuo a releitura do Crippa…

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Maria Gabriela com a bisavó Luiza

E a principal questão é aquela das aulas de Design, pelo caminho do Arruadinho peripatético:

Como? Qual o processo pelo qual?… questiona a professora Ana Emília Castro, em seu design centrado no humano, à sombra das árvores centenárias do Engenho Velho.

Ou seja, como e qual o processo pelo qual a Cultura envolve o Psiquismo? Aliás, quem envolve quem? E ainda, de que cultura e de que psiquismo trata o Dr. Evson?

Não conseguindo responder, o meu inconsciente, aquele do Dr. Freud, ou, talvez, aquele, do Dr. Jung, me trouxe uma imagem arquetípica:

M’boi Guaçu, a Cobra Grande, engoliu o ouriço e vive se contorcendo desde priscas eras. 

Tudo leva a crer que, (a depender da interpretação de cada leitor), a cultura engoliu o psiquismo, mas, o bicho espinhento vive a fazer um estrago danado no seu bucho. E eu garanto que não fumo nada, muito menos canabis… (risos)

                                                                         ***

Essa M’boi Guaçu é um esboço de uma possível narrativa mítica que hei de escrever, no dia em que as respostas  às minhas dúvidas aflorarem à minha mente.

A propósito, me veio agora a lembrança uma frase do saudoso amigo Maurício Peixoto, que pode estar ligada a essa imagem arquetípica.

O Arruado é o barroco dentro da universidade.

Tomando o barroco em seu sentido de “pérola imperfeita”, (como já escrevi aqui) estaria o Arruadinho esfolando o estômago da querida UFPE. O fato de ela esconder o lugar que lhe deu origem, não é a resposta freudiana ou jungueana, como queiram, para essa imagem da cobra grande e do ouriço, que me veio do inconsciente. Estaríamos eu e o Maurício falando da mesma coisa.

É verdade. Não há cultura sem psiquismo (e até sem psicóticos).

Vá entender!

Se tentar, endoida! (risos)

Sei que alguns leitores irão dizer que estou louco. Mas, que importa. De poeta , de criança e de louco, todo mundo tem um pouco.

Mas, e o outro livro de cabeceira? Ah… esse eu cito em quase todas as minhas crônicas e vou deixar para os leitores descobrirem, lendo-as… a única pista: seu autor se chama José.

Inté mais!

Abraço fraterno em todos e todas!

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Um “Arruado de Aplicação”

UM CRONIST'AMADOR

Como integrar o Arruado à UFPE?
Essa questão foi uma das levantadas, no dia 10/08/15, na visita da ProExC ao Engenho Velho.
Eu diria que essa integração já existe desde a fundação da UFPE e é, absolutamente, visceral. Esse é o pressuposto, a premissa.
A pergunta, então, deve ser reformulada, com a devida vênia do nobre mestre que a formulou:
Como demonstrar que essa integração, tão visceral, foi relegada ao ostracismo?

E aí o verbo “demonstrar” ecoa pela história da aplicação das didáticas do curso de Filosofia, nos antigos Ginásios de Demonstração, hoje chamados de Colégios de Aplicação. Tá tudo aí. Basta demonstrar!
Ora, os futuros docentes das licenciaturas, os formandos, possuem salas de aula federais, para aplicar os seus conhecimentos. Pois bem, apresentemos o Arruado ao corpo discente, aos licenciandos e ele, o Arruado, será uma sala de aula em campo aberto.
Essa é uma forma de demonstrar essa…

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As havaianas, Capiba e a resistência cultural, no Arruadinho

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Exposição de Carnaval, no hall da ProExt/UFRPE (Curador: Rodrigues)

 

Não lembro bem onde li a história de um lugarejo em que comer era pecado. Se foi em Reich ou em Borges, ou ainda se foi alguém, num artigo sobre Malinowski, não lembro mesmo. Melhor assim, para não ter citação nessa crônica. Estou cansado delas…
Pois bem, nesse lugarejo remoto, comer era considerado um grande pecado, mas, como todos tinham que comer, comiam às escondidas e de portas fechadas. As crianças, curiosas, ficavam espiando pelas frestas da janelas, rindo e dizendo: olha lá, como eles mastigam!

Essa historinha me vem à mente sempre que vejo o olhar de repreensão dos religiosos de diversas tendências e matizes, contrariados com um beijo em público, com uma simples gargalhada na rua, com duas moças ou dois rapazes de mãos dadas, enfim… O pecado é arbitrado pelas religiões, sendo mais ou menos grave, a depender do grau de rigidez ou de repressão das emoções que essa ou aquela seita defenda. Sou de uma época em que os protestantes (não todos) diziam que era pecado usar as havaianas, que, naquele tempo, eram chamadas de sandálias japonesas. Tempo em que os crianças evangélicas não podiam jogar bolas de gude. Futebol, nem pensar! E vai por aí. Isso aconteceu na década de 1970. Eu vivi isso! Eu era líder de um grupo de crianças de uma igreja evangélica. Claro que caí fora! Eu tenho relativa saúde mental!

Capiba, compositor dos mais belos frevos pernambucanos

 

Estou ouvindo as músicas do nosso Capiba e pensando nessas coisas. Letras belíssimas, de uma simplicidade e ternura de que só são capazes os compositores geniais como Vinicius de Morais, Dorival Caymmi, Cartola, Noel, Antonio Maria e o nosso Capiba. O que há de pecado nessas marchinhas de carnaval?

“Ah se eu tivesse
quem me fizesse
carinho…
Não levava a vida que eu levo,
sozinho…”

“Tu não te lembras da casinha pequenina
onde o nosso amor nasceu
Tinha um coqueiro do lado
que, coitado, de saudade já morreu!”

“A vida é triste, seu moço…
cheia de dissabores.
Há tanta gente que chora,
quando o amor vai ter fim, ai, ai, ai…”

Não há pecado nessas canções. E, se houver, é o pecado de amar, de viver, de sentir saudade do ser amado. Então, todos pecam, se amar é uma transgressão.

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O Freváguinha, banho de mangueira de carnaval, no Arruadinho, trouxe de volta essa musicalidade, quase infantil, dos frevos de Capiba. E a questão que ficou foi justamente essa.

Foi o Freváguinha um pecado?
Claro que não.

Mas é preciso que marquemos posição contra essa ideia de pecado em tudo. Essa atitude, que é a base da discriminação e do preconceito, essa ideia de que cantar, dançar, festejar é pecado, deve ser encarada todos os dias, com bom humor, mas com valentia. Pois o momento é grave. Aquilo que Wilhelm Reich chamou de a praga emocional, ou, de peste fascista, tem se disseminado por todas as partes, movida, dentre outras coisas,  por um sentimento de religiosidade conservadora, e, eu até diria, hipócrita ou farisaica.

Bom refletirmos sobre isso, nesse momento em que o conservadorismo vai impondo as suas ideias no mundo. Sutilmente, eles ocupam os espaços políticos de poder. Começam a legislar, a governar e a gerir espaços públicos, como se a eles pertencessem. Possuem uma teologia avassaladora, que arrasta os seus prosélitos, ora pela dor, ora pelo pela prosperidade material. Estão sempre nos presídios, nos hospitais, nas comunidades mais pobres, a dizer que Deus pode lhes dar um carro, uma casa, um emprego, convencendo as pessoas humildes com essa singular oferta divina. Ou seria uma troca?
Um escambo? Um negócio?

Você paga o dízimo e Deus lhe favorecerá com o sucesso, a cura, o bem material!

Bem… são esses que não aceitam as músicas do Capiba. São esses que demonizam a brincadeira, mesmo que infantil, no carnaval. Talvez não tenham entendido a passagem bíblica em que o Diabo oferece riquezas ao Cristo, que o repele, veementemente.

Nos nosso dias, tudo mudou. Segundo as novas seitas é o próprio Deus que oferece a riqueza, a vitória, o sucesso nos negócios… Não é interessante?

Ter um carro, ter uma casa própria, um negócio bem sucedido é o prêmio de Deus para a sua fé. Adoram a Deus e a Mamom, sem nenhuma dor de consciência. Mas, se alguém canta uma música ingênua e simples, como as do Capiba, irá para o inferno.

Tudo isso seria hilário se não fosse o princípio de um futuro confronto. Hoje questionam a nossa brincadeira de carnaval. Amanhã seremos proibidos de sair de casa fantasiados. Se não tomarmos cuidado, teremos de volta a Inquisição sobre as nossas vidas privadas.

Dia virá em que teremos de defender, pelo uso da força, a nossa liberdade de brincar, de jogar confetes, de dançar e pular o frevo. Parece distante esse dia, mas, insidiosamente, esses hipócritas vão tomando terreno nas empresas públicas, nas câmaras de vereadores, de deputados, no senado e nas coalizões governistas.

Cantar frevinhos inocentes e pueris, como os do Capiba, pode parecer algo muito pequeno, no cenário da grande luta a ser travada, porém, marcar posição, pelas mais mínimas liberdades é sumamente importante nesse momento.

Nós, que um dia usamos as sandálias japonesas, que simbolizavam uma cultura não-cristã, demonizada por seitas menos esclarecidas, vencemos aquela pequena oposição dos anos 1970. Hoje, as havaianas já não são diabólicas, como se dizia nos púlpitos. Contudo, o enfrentamento deve continuar, a cada dia. Sejam sandálias, turbantes, burcas, costumes ancestrais e festejos, todos devem ter respeitados os seus direitos de exercê-los, de usá-los e de celebrá-los, numa nação que tem uma Carta Magna, desde 1988, que nos garante esses direitos fundamentais de um país laico, graças a Deus.

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As núpcias das vespas com as orquídeas, no Arruadinho da UFPE

 

Tardes quentes, mormaço, a ventania e a poeira… uma chuva de folhas miúdas que caem da tamarineira e atapetam o velho caminho.

Medito sobre o ostracismo.

Morar no Arruado é experimentar o confinamento e o ostracismo.

Como uma ostra, cismo, nesses dias, que abrem o décimo-sétimo ano do Século XXI.

Uma pergunta atravessa essas minhas cismas, não sem alguma angústia:

Até quando seremos objetos de estudos e não de afetos?

 

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Arqueólogos brasileiros estudam os mapas do Engenho do Meio (1995/97)

***

Toda essa angústia se intensificou, quando aqueles pesquisadores americanos invadiram a comunidade, falando sem parar, numa espécie de glossolalia, interpretada por alguns docentes brasileiros. Falavam de biotecnologia, de armadilhas, de estatísticas e pediam informações pessoais aos assustados moradores. Pareciam ansiosos, muito ansiosos. Perguntavam sobre nossas vidas, como se saber de nossos hábitos fosse a chave para salvar a própria humanidade.

Isso que faziam, pasmem!, era uma tentativa de entrevista. Dava a impressão de meninos de escola, em pesquisa de campo, preocupados com a nota do trabalho. Mas, não eram. Eram renomados pesquisadores estrangeiros, acompanhados de renomados pesquisadores brasileiros, batendo às portas dessa comunidade confinada num campus universitário, como se estivéssemos todos dentro de um romance de realismo mágico, desses de Cortázar ou de Gabriel García Márquez.

Invade-nos um sentimento de devir-animal deleuzeano, de estar a sorrir com um sorriso enigmático, como os lagartos de dois rabos, da novela do baiano João Ubaldo Ribeiro. Por instantes, teríamos sido personagens bizarros de um filme americano?

Menos até: fomos meros figurantes nesse enredo.

Eis o roteiro da novela, digo, pesquisa surrealista:

Um sensor conta mosquitos e identifica suas espécies, mandando essa informação em tempo real para servidores remotos. Nessa nuvem, chamada de VectorWEB, a densidade dos insetos é mapeada para permitir o controle de doenças como a zika. Essa é a proposta do projeto VectorWEB, da Johns Hopkins University (JHU), nos Estados Unidos. (Fonte: Renata do Amaral, ASCOM/UFPE)

Foi dessa situação tragicômica, com os jovens cientistas ianques, que surgiu a angustiante pergunta que hoje me atravessa a alma:

Até quando seremos objetos de seus estudos e não de seus afetos, de sua compassividade?

Somos pessoas, ou seja, somos sujeitos. E, se quiserem ir conosco mais longe, somos devires. ou melhor, estamos devires.

Não somos meros objetos de pesquisa científica. Não queremos ser cobaias.

***

Depois dessa visita atabalhoada dos cientistas americanos, fui abordado por Dona Luiza, patrimônio vivo do Arruado do Engenho Velho:

Quinze entrevistas já dei… Não dou mais não, Seu Lula! dizia-me, com voz alterada e contando nos dedos das duas mãos, a moradora septuagenária.

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O que dizer numa situação dessas?

Como explicar uma abordagem tão infeliz, de estudiosos de um país tão avançado em pesquisas e que nos parece tão pobre na compreensão do outro. Salvo raras exceções, como a da missionária Dorothy Stang, (que, foi assassinada no dia 12/02/2005), eles nos olham como se pertencêssemos a um exótico Terceiro Mundo, distante e paupérrimo, quando não, como um mero mercado consumidor para suas tralhas tecnológicas.

Mas como explicar a Dona Luiza que eles não devem ter conhecimento do conceito da antropologia cultural inglesa, a abordagem pela penetração simpática, sympathetic penetration, que o nosso Gilberto Freyre traduziu como empatia, posto que,  ao pesquisar, mesmo nos levantamentos de campo, da Biologia, como no caso em questão, estamos a lidar com pessoas, ou seja, com valores em movimento, em transformação, em transmutação no tempo e no espaço? 

Como explicar aos moradores humildes do Arruadinho que, sendo seres humanos, antes de sermos objetos de pesquisa, trazemos heranças e estamos devires, nos diversos sentidos que podem ter essas duas palavrinhas?

A abordagem desastrada, em pleno meio-dia tropical, dos pesquisadores americanos, no Engenho Velho da Várzea,  levanta questões profundas e sérias, que afligem os moradores dessa comunidade mais que centenária.

Há um distanciamento silencioso e estranho entre a UFPE e o Arruado. Em verdade, são dois seres de espécies diferentes, cuja insólita interação, em certo momento, descrevi como o casamento da raposa com o rouxinol, em que o pequeno pássaro ( o Engenho do Meio da Várzea) desposaria a astuta raposa ( a Universidade do Recife, hoje UFPE), correndo todos os riscos de uma união em que o acasalamento é quase impossível, e o pior, indissolúvel, daquelas em que se vive o “até que a morte nos separe”.  Estaria tramando a raposa a morte do seu esposo, o pequenino rouxinol?

Contudo, essa analogia, como todas as tentativas de explicar as coisas por metáforas, não esgota o fenômeno em si. Não se pode simplificar o que é em si mesmo complexo.

Se não, vejamos: a universidade não é una, é vária, numerosa, desigual.

Se fosse uma raposa, teria dez cabeças, talvez mil, sei lá! A imagem de um polvo, em que um tentáculo não reconhece o outro, me parece mais adequada. A universidade não se conhece. Cada departamento funciona sem qualquer ligação com os outros. Portanto, como esperar que o polvo em que cada pata é voltada para si mesma, tenha olhos de ver e ouvidos de ouvir o outro, que não ele. Quem há de se voltar para ver as dores e as angústias dessa pequena comunidade confinada no campus?

A noção de alteridade pode estar em uma ou outra parte do campus, em algumas pessoas, sejam docentes, funcionários ou alunos, aqui e ali, mas não esperemos que esteja impregnada na gestão pública da universidade como um todo, mormente em um tempo em que há um salve-se quem puder nas hostes do poder, em que a velha sucuri da coalizão governista engoliu seu próprio rabo e anda a se contorcer nas dores de uma política apodrecida e autofágica, que não tem mais tempo para olhar o outro, e faz do público o privado. Farinha é pouca, o meu pirão primeiro!

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Mas retomando a analogia do casório, veio-me à lembrança uma outra forma de união, mais aberta e solidária, eu diria até, rizomática, entre o Arruado e a UFPE, que seria algo semelhante às núpcias da vespa com a orquídea, como a imaginou Gilles Deleuze e seu companheiro, Félix Guattari:

A orquídea se desterritorializa, formando uma imagem, um decalque de vespa; mas a vespa se reterritorializa sobre esta imagem. A vespa se desterritorializa, no entanto, tornando-se ela mesma uma peça no aparelho de reprodução da orquídea; mas ela reterritorializa a orquídea, transportando o pólen. A vespa e orquídea fazem rizoma em sua heterogeneidade. (DELEUZE, GUATTARI)

Aproveitando que eram biólogos os pesquisadores que estiveram no Arruadinho, apresentemos a possibilidade dessas novas núpcias, dessa nova interação entre a comunidade e a UFPE, em que a segunda seja uma espécie de polinizadora da primeira.

Deleuze definiria isso como uma captura de código, num verdadeiro fluxo rizomático entre o “devir-vespa da orquídea (comunidade), devir-orquídea da vespa (universidade)”.

 

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Aula a céu aberto, da professora de Design, Ana Emília Castro

 

Essa convivência empática que já estamos tentando há muito tempo, era ideia do nosso saudoso líder comunitário Maurício Peixoto, essa interação de saberes, essa troca entre as heranças e os devires, que já fazem algumas docentes com suas disciplinas, como a professora Ana Emília Castro, de Design e, ultimamente, também a professora Gabriela Santana, de Dança, com ações curriculares na comunidade. Essas duas “vesp/orquídeas”, mais orquídeas do que vespas, que fizeram uma imersão amorosa no Arruado, com uma abordagem em que se percebe a verdadeira sympathetic penetration ou a empatia, da antropologia cultural, preconizada pelo mestre Gilberto Freyre, do qual se pode divergir da postura ideológica, mas, nunca, do seu método, que avançou, como uma inovação, para além dos estudiosos estrangeiros, inclusive destes que há pouco invadiram o Engenho Velho, cujo método, aparentemente, era a pressa, pura e simples.

O Arruadinho quer amar e ser amado nessas núpcias, mesmo que tão desiguais, com a rica e poderosa UFPE. No entanto, espera há 71 anos, um olhar mais humano e menos científico, um olhar de sabedoria e não de mera erudição. Espera mais compaixão e menos tecnologia. Um encontro de saberes, de quereres e de fazeres, que, em verdade, já acontece com algumas áreas da universidade. Dentre elas, (e há muitas), as já citadas mestras Ana Emília Castro e Gabriela Santana, não por acaso, duas mulheres desse tempo, empoderadas e críticas, mas cheias de generosidade e ternura com as pessoas que habitam nesse pequenino Engenho Velho da Várzea.

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Professora Gabriela Santana, polinizando as suas pequenas orquídeas

 

 

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Cultura educa? – as ações de artes integradas no Arruado do Engenho Velho

Cultura educa?

Ou melhor: cultura popular educa?

Se educa, como o faz?

Podemos mensurar os resultados da ação educativa da cultura, em um território?

Essas e outras perguntas me inquietam, em meio às ações espontâneas de alguns artistas populares, no território do pequenino Arruado do Engenho Velho da Várzea – o nosso Arruadinho, esse tesouro humanitário, esse patrimônio da vida e do povo brasileiro, escondido no Campus Recife da UFPE, há 71 anos, que, em verdade, já  existe nesta Várzea do Capibaribe, há mais de 140 anos. Falo da atual geração de arruadenses, principalmente dos Souza, posto que o Engenho Velho remonta aos albores da colonização portuguesa em Pernambuco, com registros desde 1625. O professor Levy Pereira, da UnB afirma que o caminho em que está erguido o Arruadinho é, de fato, pre-colombiano, baseado em seus estudos de georreferenciamento, em que coteja os caminhos dos mapas de George Marcgrave, cartógrafo da comitiva do Maurício de Nassau, com as imagens de satélite atuais.

Voltemos às perguntas.

Tentarei, de passagem, responder à terceira delas, a da mensuração dos resultados da ação cultural em um território educativo. Lembrando sempre que só se tratam de achismos de diletante.

Pois bem, já lhes falei da preocupação dos gestores públicos, mesmo os das Ciências Humanas,  em apresentar dados estatísticos, a verdadeira compulsão pela análise quantitativa, bem como em mensurar e fazer relatórios com curvas e gráficos, como se essas coisas pudessem, de fato, albergar o fenômeno vida humana.

Gente, há algo, para além da razão pura e matemática, que escapa aos instrumentos, quando o que se pesquisa é a vida humana, a vida biográfica, histórica ou intra-histórica, sua mentalidade, sua alma ancestral, sua cultura. Nessas coisas não há medida certa.

E, nesses casos, fico com a medida da fruta de Jesus Cristo. Não lembram?

Como se conhece se uma árvore é boa?

Pelas suas frutas, dizia o Mestre dos Mestres.

Portanto, querem resultados das ações da cultura popular num território? Procurem os qualitativos e, sem pressa, sem metas, sem data marcada, principalmente quando as sementes são lançadas em tenra infância, como fazemos aqui no Arruadinho, nessa trilha educativa, nessa escola a céu aberto, nesse caminho em que já vicejam árvores centenárias e no qual estão brotando as plantinhas do futuro.

Pelos seus frutos os conhecereis, era a mensuração do Cristo.

***

Deixem-me lhes contar algo bem pessoal, que vivi em meados de 2008, antes de adoecer, e ter essas sequelas, que limitam um pouco, só um pouco, as minhas ações no meio cultural.

Participei da criação do Ponto de Cultura Maracatu Nação Almirante do Forte, dentro do Cultura Viva, um dos programas governamentais mais interessantes desse país, geridos pelo ministro da Cultura, Gilberto Gil e equipe. A ideia do Gil era a salvaguarda dos griôs, dos mestres da cultura popular. E lá no Almirante tínhamos e ainda temos, o irrequieto e atuante Mestre Teté, com suas loas singelas, mas poderosas, que são verdadeiras relíquias no nicho cultural da cultura afro-brasileira.

Conheci Mestre Teté ao procurar uma tia do coração, que se havia perdido da minha família, há muitas décadas. Um dia, ouvi no rádio, o Mestre Teté dedicando uma loa para dona Ana Carmelita, na Estrada do Bongi. Em poucos dias, estava eu na sede do Almirante do Forte, beijando e abraçando a minha Sinhá Nana, hoje saudosa, a mais antiga dama do paço dos maracatus nação de Pernambuco. Cultura viva, dona Ana Carmelita Teodoro, nascida na Ilha do Leite, em frente ao campo do Bahia. Ali viveram também meus avós, pioneiros daquele bairro, hoje o maior polo médico do Recife.

Tornei-me o diretor técnico voluntário (servidor público, não podia, nem queria auferir lucros do Ponto de Cultura) até que afastei-me por motivos de saúde.

Tentamos várias ações educativas, no Ponto de Cultura e, como em quase toda a parte, encontramos uma indiferença e um desânimo com a história, com a memória, com as raízes da agremiação, principalmente por parte da juventude, que só curtia o maracatu, no período do carnaval.

O resgate da Cultura Viva, a partir do griô, do mestre, creio que foi atingido. Mas, dele e só dele. A tradição, as raízes religiosas do cortejo, a simbologia da calunga… poucos no grupo conhecem. As crianças e os jovens vão perdendo o sentido do brincante, que vai muito além do carnaval. E infelizmente, a cultura africana, única no mundo, apresentada no brincante do maracatu, vai se tornando apenas mais um grupo de carnaval.

É claro que a população do Recife fica encantada pelas evoluções do Rei e da Rainha, sob um pálio azul celeste, com as calungas, carregadas pelas damas do paço, ao som trovejante e belo das alfaias. Porém, quem saberá distinguir, nesse folguedo, o cortejo do Rei do Congo e das Irmandades dos Homens Pretos, que reinavam, de verdade, em um Recife colonial?

Cultura educa?

Sim. E não há nada mais poderoso quanto a mensagem da cultura popular e ancestral. No entanto, não como produto para ser visto nos dias de Momo. Não, apenas. Uma escola informal e aberta de cultura popular, deveria ser a sede de todos os grupos e brincantes do carnaval. E eu diria, que não só do carnaval, mas de todos os ciclos de festas populares desta cidade.

Sonho com o estender-se das festas por todo o ano. Nos preparativos, nas atividades lúdicas, nas sambadas e pastoris, na fabricação das burrinhas, dos gigantes de Olinda, dos tiridás e mamulengos, nas vestes dos caboclinhos, das laursas, dos bois bumbás, nas fantasias das pastorinhas, que, do presépio, passariam aos blocos líricos, pois que tudo é festa, é vida, é cultura!

E que, nos bairros, se retomassem os círculos de cultura popular, como nos longínquos anos 1960, antes de a ditadura extinguir o MCP – Movimento de Cultura Popular, em que surgiram nomes como Germano Coelho, Abelardo da Hora, Ariano Suassuna e Francisco Brennand.

Cultura educa, se vivida o ano todo. Não como efemérides, como o Dia do Índio ou Semana do Folclore. Cultura amalgamada com educação, no espaço vivido, no território, no lugar. E não me venham apenas com mapeamento em sites da internet, com fotos digitais ou vídeos. Venham sentar-se no chão, na lona dos circos, dos teatros de rua, das contadeiras de histórias e de estórias. Venham pro meio da rua, como os brinquedos populares de minha comadre Beth Cruz. Venham ouvir o futebol dos bichinhos, dinâmica arretada da minha amigona, a poeta Neide Germano.

Nesse momento, em que vejo as melhores cabeças envolvidas com slogans a favor ou contra isso ou aquilo, ou, uma outra juventude que prefere as baladas aos brincantes, sinto que estamos perdendo os nossos melhores anos. E o pior: é um tempo em que os próprios brincantes vão se tornando produtos da indústria cultural. E mesmo aqueles que não se tornaram mercadorias para o capitalismo, não conseguem sair da mesmice de cada ano, por várias razões, inclusive as financeiras, e se perdem em seu papel de criar comunidade em torno de si, em criar um sentido de identidade e de pertencimento, e se perdem da memória, e se perdem do condão de encantar as crianças e assim, educar…

Sonho,  — e quase me ia esquecendo –, com a ideia de criarmos o bloco infantil, Botões do Capibaribe, que seriam as crianças do Bloco Lírico Flores do Capibaribe, da Várzea. Quem sabe também sonhar junto com Isaac e o Mestre Luiz de França, com uma Burrinha da Várzea e um Boi Teimosinho, para as crianças da comunidade da Santa Quitéria? Sonhar é preciso!

BURRA DA VARZEA MCV 2014 (58)

O cenário é difícil. Parece até que sou pessimista. Mas não sou! Acredito que há um trabalho de formiguinhas, eu até diria, de cigarrinhas, que atravessam o inverno e o verão, atuando em pequenas comunidades desses brasis invisíveis, nos novos quilombos, nas vilas agrícolas, nas favelas, nos sítios afastados, nos engenhos de fogo morto… lidando com a cultura viva, pelo prazer de vivê-la, pelo prazer de viver.

Por falar nisso, certo dia, em plena reunião do NEAfi/UFPE, coordenada pela profa. Ana Emília Castro, referência em Educação Integral e Ações Afirmativas, nesse Pernambuco Libertário, perguntei-lhe, em tom de brincadeira:

Ana, por que estamos nisso, nessa luta pela educação e cultura, nas comunidades, com tantos obstáculos, tantas dificuldades, em que se chega a correr riscos tremendos?

Responde-me, ela, com o seu bom humor que tanto nos anima:

É nossa cachaça!

E é verdade. Quem não se embriaga nesse trabalho, nessa luta diária pela cultura que educa, não vai jamais nos entender. Sem tesão não há solução, dizia o anti-psiquiatra Roberto Freire.

Portanto, não desanimamos. E, nesse momento, estamos criando um ambiente de autogestão, com artes integradas, no território (educativo) do Arruadinho do Engenho Velho da Várzea (UFPE). Não importam os parcos recursos. Nós inventamos jeitos. Jeitinhos brasileiros, jeitinhos universais e jeitinhos locais.

Assim, reinventamos a Geloteca. que não há de ser apenas um local de leitura de livros, mas, de leitura do mundo, do entorno, do contexto, da terra e de nós mesmos, rodeados por um punhado de crianças curiosas e cheias de vida e ladeados por parceiros cheios de ideais, de utopias, cheios de vida, também!

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Cultura educa! Cultura popular educa, mesmo! Sempre educou e há de educar! Basta não nos deixarmos atrelar ao mercado, ao capitalismo doentio e ao seu servo, o Estado, esse polvo de mil braços, vassalo dos plutocratas e de seus prepostos.

Uma ação autogestionária, quase invisível, como tudo nesse Arruadinho, vem sendo realizada desde 2014, pelo MRP-Arruado e seus parceiros. Assim, 2017, começou com a oficina de artes integradas do artista Fernando Serpa, que se pretende uma semente de árvore boa e frondosa, como costumam ser as árvores da verdadeira cultura popular, feita pelo povo e para o povo!

Os resultados?

Quem viver, verá!

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Engenho Velho e senso de comunidade: o combate à praga do isolamento

(…) qualquer sociedade decente deve gerar um sentimento de comunidade. A comunidade contrabalança a solidão. Dá às pessoas um senso de pertença vitalmente necessário. E, entretanto, as instituições de que a comunidade depende estão se desmoronando em todas as sociedades meramente técnicas. O resultado é um praga de solidão se espraiando. (Alvin Toffler, in, A Terceira Onda, 1980, p. 361)

 

É preciso criar comunidade! alertava o futurista Alvin Toffler, nos anos 80, do Século XX, o século que ainda não terminou e que insiste em seus velhos pre-conceitos, em suas  estruturas políticas colapsadas e em sua industrialização autodestrutiva e obsoleta.

É preciso recriar o sentimento de comunidade, a comunhão, a amizade e o companheirismo. Não precisamos mais de siglas partidárias, de sindicatos corporativistas, de líderes mafiosos travestidos de salvadores da pátria, de pregadores plutocratas, que ficam cada dia mais ricos, enquanto seu rebanho resignado morre à míngua. Essas siglas, seus líderes e pregadores estão todas em seu ocaso. Agonizam juntamente com a nauseabunda sociedade industrial!

Uma nova sociedade surgirá, depois do caos a que nos levou o crescimento cego, o populismo prestidigitador e o industrialismo destruidor de florestas. Essa sociedade nasce agora, longe da grande mídia, nas pequenas comunidades, quase invisíveis,  muitas agrupadas em redes sociais, em telecomunidades, que se preocupam com qualidade de vida, ecologia, espiritualidade e outras coisas hoje risíveis para os donos do mundo.

Não preciso ir muito longe para ver a solidão a dois, a solidão a mil, a multidão solitária nas cidades e nos campos. Uma vida emocional satisfatória, a ser vivida no coletivo, carece de uma psicosfera amorosa. Sim. Isso mesmo. Amorosa! E isso não é dito por mim, um mero crônista diletante. Folheiem algumas páginas de Paulo Freire. esse grande educador mundial, que logo encontrarão a tão desgastada palavra amor.

Fica então a pergunta, no estilo que aprendi nas lições de Design Social, da profa. Ana Emília Castro, aqui mesmo, à sombra das árvores centenárias desse Engenho do Meio:

Como poderíamos começar a planejar um ambiente psíquico saudável para nós, para os nossos filhos e netos, num futuro que se aproxima velocíssimo?

A resposta pode vir elaborada por uma tese ou uma dissertação, até mesmo por um tratado da psicologia social, etc. Mas tratarei aqui de coisas simples e antiquíssimas, costumes gregários, que podem até passar despercebidos aos desatentos.

Vou começar por uma coisa muito singela, que só poderia surgir da  cabeça de um homem afeito às coisas das gentes do interior, dos sítios afastados, que ainda preservam um senso de comunidade herdados de tempos muito antigos. Eu falo da decisão de Seu Josemar Júlio de fazer a festa de aniversário da trineta de Dona Biu do Arruado, a menina Maria Gabriela, ao ar livre, no caminho centenário do Engenho. Essa escolha foi consciente. Ele me falou que iria fazer a festa no Clube Universitário da UFPE, mas, de repente, lembrou das festas dos moradores do sítio onde nasceu, num distrito da cidade de Nazaré da Mata. E resolveu fazer, no mês de dezembro, a melhor e mais bonita festa que eu já vi nesse Arruadinho:

O aniversário de Maria Gabriela.

 

E qual a lição que ficou dessa festa tão bonita e ao mesmo tempo tão simples e popular? Aprendemos, com Seu Josemar, que as iniciativas agregadoras e com senso de comunidade podem estar num gesto aparentemente comum, sem a grandiosidade teórica nem o tecnicismo dos especialistas.

Seu Josemar é herdeiro de uma rica cultura de paz e de boa vizinhança, preservada nos rincões deste Brasil. por gente da roça, da palha da cana, gente do engenho. Eis, tão naturalmente, vinda do matuto generoso, Josemar Júlio, a lição do senso de comunidade, essa palavra originária do latim communitas, “comunidade, companheirismo”, cuja raiz, communis,  quer dizer “comum, geral, compartilhado por muitos, público”.

Do mesmo jeito que as pragas devastam as árvores do campus da UFPE, ceifando velhas árvores frutíferas (inclusive, a centenária Barriguda do CTG, tombada desde o ano 2000, pela Prefeitura da Cidade do Recife), há uma praga poderosa e que vem do mundo lá fora, invadindo a comunidade do Arruado. A praga do isolamento entre as famílias, entre as pessoas, a solidão compartilhada, essa em que passamos de cabeça baixa para não dar um bom dia ou boa noite ao vizinho. Essa coisa estranha já chegou aqui. Há também a saudação seletiva, ou seja, se és da minha religião, te saúdo com a paz do Cristo e se não fores, receberás um mero oi, tudo bem? e a paz, que era do Cristo, se torna propriedade privada das seitas e religiões sectárias. Fechamo-nos, então, em torno dos grupos de igreja, de clube, de faixa etária (jovens separados de idosos e de crianças), segregando-nos uns aos outros, o que, como consequência, forma uma rede de relações interpessoais de fachada, ou, simplesmente, nenhuma relação.

Há remédio para isso?

Há, sim. E venho observando atores bastante sociáveis, como Dona Nininha, Seu Mica, Josemar e muitos outros, que fazem questão de participar de todas as reuniões, eventos e festividades. Gente que representa uma época diferente, de mais comunhão, de mais ombro a ombro, de mais solidariedade.

Sabemos que esse fenômeno da desagregação veio no bojo da industrialização, do modelo-fábrica, que levou a família a se afastar da vida agrícola, do cuidado com a casa e com o quintal e  afastou as crianças para as creches. Com a promessa de trabalho em melhores condições, de realização pessoal, veio, na esteira do modelo-fábrica, a cisão da família e da vizinhança e, com ela, a dor do isolamento e a solidão.

É necessário reconhecermos que a solidão é um problema de saúde pública, que leva as pessoas à depressão, ao pânico, ao alcoolismo e às drogas ilícitas. Por isso, o remédio é restaurar o senso de comunidade perdido. Mesmo que tateemos primeiramente pelas comunidades virtuais. E delas passemos aos encontros de grupos com os mesmos interesses: música, artes, ciclismo, ginástica, cabelos crespos ou, simplesmente, amizades. Mas o futuro das pessoas solitárias deve ser buscar a restauração da comunidade, das parcerias, da gestão solidária do trabalho e do lazer, das cooperativas, da vida solidária, enfim.

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Seu Josemar, Seu Mica e o pequeno Léo, fazendo a gelahorta solidária do Arruadinho

Outra lição de senso comunitário nos deu ainda o Josemar Júlio, quando insistiu no jantar natalino do Arruado, mesmo com alguns moradores reticentes, achando que não ia dar certo. Eu mesmo, sou sincero, estava no coro dos ressabiados. Lembro de que ele, pra me convencer, contou-me que, nas festas de seu interior, um morador se vestia de Mateus do Cavalo Marinho, escondido de todos, saía pela porta de trás da casa e surgia de repente no meio do sítio, animando os moradores para a ceia de Natal ou de Ano Bom. Há algo mais telúrico, mais terrunho, mais próximo daquela criança pobre nascida numa estrebaria?

Ainda bem que a ideia da Ceia Solidária de Seu Josemar venceu os menos animados. Foi linda! Eu confesso que fiquei emocionado com a simplicidade daquela festa da natividade do Menino-Deus. Foi uma das mais bonitas experiências comunais que eu já vivi.

Esse é o caminho! O senso de comunidade de Seu Josemar, trazido do Engenho Abreus, na Mata Norte,  para o nosso Engenho do Meio da Várzea.

 

Para não me alongar mais, com tantos exemplos de senso de comunidade, de comunhão e de fraternidade e para não deixar os meus doze leitores com água na boca ou nos olhos, como estou agora, em meio à emoção desses instantes que vivi, vou apenas lhes contar do almoço do primeiro dia deste ano de 2017.

Os talentos de Seu Josemar são múltiplos. Menino do corte da cana, aprendeu a guiar caminhão, trator e ônibus, é pedreiro profissional, entende um pouco de contabilidade, mas, é na arte culinária que ele se supera. O chambaril com pirão desmanchava-se na boca. O churrasco tinha uma carne macia, que só ele sabe escolher, no açougue. Menino de engenho conhece as partes do boi como ninguém. Faz sucos deliciosos. Não há como não ter o mínimo de senso de comunidade, sentado à mesa farta de Seu Josemar. Essa é mais uma lição de como agregar os moradores de um lugarejo: conquiste-os pela barriga! (risos)

Não há nada mais ancestral do que um banquete popular, a céu aberto.

Concluo, dizendo, que nem tudo é flores. Que  a solidão e o isolamento estão nas mentes das pessoas de nosso tempo. O individualismo, a competição e certo narcisismo, são componentes da nossa civilização em crise. No entanto, há saídas, há remédios para esses males. E quem ainda tem esperança, quem guarda a fé e não desiste do ser humano, tem o caminho amoroso e solidário ensinado por tantos mestres da vida, tantos anônimos semeadores do bem, como contam os evangelhos Daquele que, montado em um jumento, aclamado pelo povão, adentrou em sua cidade e ensinou o amor, incondicional, ao próximo; lição que nós ainda não aprendemos…

Paz e fraternidade a todos e todas!

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Ano novo, Engenho velho: a dor e a delícia de ser o que é.

“O amor, o trabalho e o conhecimento são as fontes de nossa vida. Deveriam também governá-la.” Wilhelm Reich

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A epígrafe reichiana acima poderia ser traduzida assim: “os quereres (amor), os fazeres (trabalho) e os saberes (conhecimento) populares são nossas fontes vitais, mas outras forças nos governam.”

Essa interessante frase de Reich abre a sua obra prima ” A Função do Orgasmo”,  e, por acaso, encontrei no meu bloquinho de notas de 2015,  essa anotação que fiz durante o curso Mapeamento Sócio-cultural, que fizemos, eu e Elidiane Curcio, minha vizinha, como representantes da comunidade do Arruado do Engenho Velho da Várzea, e que foi coordenado pelo Núcleo de Educação Integral e Ações Afirmativas – NEAfi/UFPE. Aliás, aprendi a admirar o NEAfi por dar vez e voz aos ativistas de diversas comunidades, acolhendo, com sabedoria e humildade, as ideias e sugestões dos que não fazem parte do mundo formal da academia.

Lembro de muitas observações e conversas paralelas que fizemos, eu e Elidiane, bem mais jovem e muito mais inteligente do que eu, sobre nosso modo de ver aquele mapeamento.

Foi de uma dessas conversas que surgiu a ideia desta crônica de diletante, a última desse ano de 2016, que talvez eu nem tenha tempo de publicar, devido à azáfama deste dia 31 de dezembro, que me tira a concentração. Mesmo aqui, nesse arruadinho escondido do mundo, a febre consumista e festiva nos apanha e interfere em nossas atividades de rotina. Essa noite de ano novo é apenas mais uma das rotações e translações, das milhões já feitas pela Terra em torno de si mesma e do Sol, que nós arbitramos em calendário, para contar o tempo vivido. É da cultura ocidental, essa forma do contar o tempo e, apesar de predominante, não é a única no planeta. Uns povos contam o tempo pelo Sol, outros povos, pela Lua. Mas, o calendário é mesmo algo muito particular de cada cultura.

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Calendário Gregoriano

Pois, então, era da Cultura que tratava o mapeamento social que nos foi proposto pelo NEAfi. Como representantes do Arruadinho, foi ao nosso território sócio-cultural que nos dedicamos. Logo na abertura do curso conhecemos o antropólogo Tião Rocha, através de seu artigo As Tramas da Identidade.

Nesse texto ele nos ajuda a compreender a cultura, essa palavrinha tão cheia de sentidos, dissecando-a em sete indicadores sociais. Vou resumir os indicadores do Tião, para em seguida lhes revelar as controvérsias paralelas, que fui anotando, durante o curso. São eles:

1) as formas organizativas, 2) as formar do fazer, 3) os sistemas de decisão, 4) as relações de produção, 5) o meio ambiente, 6) a memória , 7) a visão de mundo..

Lembro de que discordei publicamente do texto do Tião, em um ponto. Na tentativa de mensurar os seus indicadores, há uma armadilha em que as ciências humanas sempre resvalam, que é a de querer quantificar tudo, como se a vida fosse uma coisa mensurável, e traduzível em meras estatísticas, como fazem, ou tentam fazer, as ciências exatas.

“Em toda e qualquer comunidade humana existe e interagem diversos componentes substantivos (indicadores sociais) que podem ser identificados, MEDIDOS e observados, que quando interagem entre si, constroem a cultura do grupo humano que aí vive”. Tião Rocha

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No Arruado, por exemplo, essa mensuração tem uma outra dificuldade. É que realizamos nossas ações de maneira autogestionária, evitando ao máximo a presença do Estado e de seus representantes (políticos, principalmente). A nossa forma organizativa é não ter organização formal. (risos) Mas, nada impede de que se façam estudos e pesquisas qualitativas sobre as nossas ações dentro da comunidade.

E tem mais. Com a devida vênia e respeito pelo seu importantíssimo trabalho, o nosso Tião Rocha, em seu levantamento sócio-cultural, passa ao largo de duas instâncias humanas que considero fundamentais para a compreensão de um território, que talvez estejam embutidas de alguma forma e até perpassem, (sem que eu tenha percebido) o leque de seus indicadores. São elas, o prazer e a violência reativa.

Não tenho o domínio dos fundamentos freudianos, ou de qualquer outro estudioso, como Reich, sobre o princípio do prazer. Em vista disso, não tratarei de teorizar, nesse espaço de blogueiro, esse conceito. De maneira nenhuma! Cuidarei das vivências prazerosas (ou não) do nosso cotidiano. pessoal ou coletivo. Exemplos: o prazer das drogas lícitas e até mesmo das ilícitas, o prazer do sexo precoce  entre adolescentes, o prazer em nada fazer, nem estudar, o prazer dos games, o prazer de matar aulas para jogar bola, o prazer de consumir – enfim, o prazer que permeia a vida real das pessoas da comunidade, sejam crianças, adolescentes, jovens ou adultos. O prazer que tem uma força tal, que deveria estar explícito em algum indicador social do antropólogo Tião Rocha, especialmente, se tratamos de territórios educativos.

Não está também elencada naqueles indicadores sociais, a violência, em todas as suas formas, incluída a violência que chamarei de reativa, que vai do vandalismo até as brigas entre torcidas de futebol. Creio até que nessas brigas de galeras uniformizadas, há também prazer, um prazer sadomasoquista, de bater e de apanhar.

(Tive um colega de trabalho, nos tempos em pertenci aos quadros da UFRPE, Universidade Rural, que dizia, em tom de brincadeira: meu cérebro tem dois lados, um é sexo, o outro, é violência. Andava armado e se orgulhava de seu revólver, o desditoso colega, que teve um fim trágico, executado em frente à sua casa, com diversos tiros de pistola).

Por isso, creio que não há como mapear a realidade sócio-cultural de um território, sem adentramos pelo lado sombrio da violência. E falo da violência em todas as suas faces e níveis. Principalmente, a violência reativa, aquela que surge de dentro do oprimido, do excluído, do injustiçado em seus direitos fundamentais. A violência, que surge enquanto reação ou revolta, como uma maneira de se defender de um mundo hostil.  O bulliyng pode ser oriundo de uma violência reativa, como em certos casos de repressão no ambiente familiar, que finalmente chega à comunidade escolar como um extravasamento das humilhações impostas pelos próprios pais. Essa violência reativa é, pois, um sério indicador social, a ser avaliado em um território educativo.

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No caso do Arruadinho, a primeira violência é o confinamento institucional. A violência de não ter garantidos os seus direitos à terra, à moradia, ao ir e vir (depois de certa hora da noite), aos serviços básicos de qualidade, etc.

Mas há uma face oculta da violência, que ainda não consegui desvelar nessas minhas crônicas, por se tratar justamente de uma violenta dissimulada e amalgamada com o prazer, que se ocultam dos olhos do observador.  Certas paixões e excessos, quando em situações limítrofes da opressão, principalmente da mulher  ou da criança, escondem-se no silêncio, na dor e na vergonha, no recesso sacrossanto dos lares.

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Foi por essas coisas dolorosas e ocultas, no seio das comunidades, que, achei, aparentemente, muito limpinhos, saudáveis e rosados, os indicadores sociais de As Tramas da Identidade do Tião Rocha. Faltam-lhes a cara suja dos excluídos, dos que são perseguidos por causa da cor da pele, por sua orientação sexual, pela sua crença não-cristã, por questões de gênero e por todo o tipo de relação de poder e de preconceito.

Curvelo, a cidade mineira onde o nosso antropólogo dá aulas sob uma mangueira, me pareceu ser um pedaço do céu, diante das comunidades que parecem ser esquecidas por Deus e pelos homens, em todos os cantos do planeta.

Se quisermos, verdadeiramente, mapear o território e a escola precisamos incluir a violência e o prazer, dentro do campo de observação de quem quer conhecer as tramas (do submundo) da identidade. Pois viver é difícil, dizia Riobaldo, nas veredas filosóficas dos grandes sertões do Rosa. E Caetano assevera em canção antológica, que  “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.”

Por isso, o ano é novo, mas o engenho é velho, como velho é o mundo em que vivemos. Mundo, velho mundo! Patriarcal e envelhecido pelas tristezas fundas das mulheres maltratadas, pelo abandono de idosos e idosas, pela agressão às crianças, subjugadas pela força exorbitante nos castigos físicos, principalmente dos que deviam lhes dar colo e carinho. Mundo, velho mundo! Enquanto completam-se as translações da Terra em torno do Sol, persevera em ti, ó mundo impenitente, a sombra  da violência exercida por prazer, que escurece os tetos das casas nos campos e nas cidades.

Ai de ti, mundo que giras em torno de ti mesmo e do Sol. O clamor de tuas crianças abusadas, de tuas mulheres violentadas , de teus velhos abandonados, é o sinal dos tempos; desses tempos que comemoras com artifícios e fogos, como se pudesses esconder com luzes a tua melancólica decadência. Não me enganas, festivo mundo, pois, se o ano é novo, o engenho é velho, muito velho…

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