Cercas redivivas: as memórias loteadas do Engenho Velho

Esta galeria contém 5 fotos.

Publicado originalmente em UM CRONIST'AMADOR:
Narrar, de oitiva, os testemunhos alheios, exige um apurado silêncio interior, para não deixar vazarem meus ruídos d’alma, na tessitura dessas lembranças. Aproveito então, essa sexta-feira santa, trigésimo dia de Março do Ano da…

Galeria | Deixe um comentário

Arruadinho 2019 – a resistência continua!

Não se assustem, mas esse é o Arruadinho. Logo na entrada, foram depositadas essas enormes manilhas, tubos de cimento para a construção de um emissário de esgotos do prédio do Laboratório de Petróleo e Gás, parceria da poderosa Petrobrás com a nossa querida UFPE. O cerco sobre o verde estava só começando. Logo um muro horrível surgiria na paisagem. Elemento estranho e assustador, às margens do caminho colonial da Várzea.

No entanto, nos derradeiros dias do ministro Mendoncinha, eis que surge verba para reformar o Centro de Convenções e construir um monumental estacionamento, para gáudio da carrocracia. E isso bem em cima do sítio arqueológico, com registro no IPHAN.

Eis a cerca que esconde a obra do estacionamento:

No penúltimo dia de 2018, Seu Ademir (Mica) me convidou para dar uma volta pelos quintais do Arruadinho. E ficamos surpresos com o avanço das obras do imenso estacionamento do Centro de Convenções da UFPE, sobre a vegetação nativa.

Quando o foco de uma sociedade é o entretenimento e ela desdenha do meio ambiente, podem esperar o troco da natureza. Esse calor danado no mundo, gente!, vem do desmatamento. Sábio foi o Brennand, pai, que era um defensor, turrão e agressivo, da sua Mata do Segredo. Herdamos dele o verde que resta na Várzea e um manancial escondido dentro da sua reserva. Como podemos estar destruindo a fauna e a flora do que restou do velho Engenho do Meio da Várzea?

Este slideshow necessita de JavaScript.

Antropólogos, ambientalistas, educadores, correi! Estamos sendo sitiados pelo concreto armado!
O velho Arruadinho do Engenho do Meio teme por seus saguis, tejus, raposas e preás. Com eles também sofrerão as pessoas, pois somos parte da natureza. Ou não?

O MRP-Arruado inicia o tenebroso ano de 2019, retomando a resistência popular contra o desenvolvimentismo cego e surdo, pela preservação da área verde, do sítio arqueológico e do casario da extinta Usina Meio da Várzea, que resiste ao tempo e ao descaso, desde 1934.

Alguns progressos foram feitos em 2018, não resta dúvida. As escavações para localizar os alicerces do casarão de Fernandes Vieira, um dos donos do engenho, em meados de 1645, trouxeram o LEDUP/UFPE, Laboratório de Educação Patrimonial, com alunos e alunas de Arqueologia, numa interação com os moradores, principalmente com as crianças, que vai dar  bons frutos, nesse 2019.

Mas, não baixaremos a guarda! Embora o diálogo com a Reitoria esteja aberto, mediado pela PROEXC, cuja pro-reitora sempre nos escuta os reclamos, temos de ficar de olho nessas obras. Nosso sonho de revitalizar esse Caminho Colonial da Várzea, que cruza o Arruadinho, ainda está vivo.

A luta continua, apesar do governo de extrema direita que tomou posse ontem. Estamos juntos e vamos de mãos dadas!

 

 

 

 

Publicado em Outros temas | Deixe um comentário

Confraternização Arruadinho/2018

Logo cedo, a azáfama da montagem do cenário dos fantoches, da iluminação, da mesa para o lanche. Tudo improvisado pois não havia material, nem tempo hábil. Colar de carnaval virou guirlanda, a carroça de Sandro virou torda e a festa ia se arrumando, com animação e graça.

 

 

 

Ainda houve tempo para um último ensaio da manipulação dos fantoches.

 

 

O Andarilho chegou e ajudou na finalização do cenário e ainda fez uma apresentação da peça O Mistério

 

Tudo pronto! Com vocês O Mistério!!!

 


 

 

E finalmente a roda de diálogos e a comida!!! Tio Orlando (O Andarilho) e as crianças se entrosaram de tal forma que uma chuva de ideias novas foi surgindo e o objetivo da roda foi plenamente atingido.

 

 

Com a tecnologia recebemos áudio de Tia Beth Cruz e enviamos mensagem para Tia Gabriela Santana. E, na plateia, a nossa madrinha Ana Emília Castro, presença indispensável em nossos eventos:

 

Palmas!!!

 

Publicado em Outros temas | Deixe um comentário

Tirem as crianças da rua!

12027497_936256379788691_3510142694802290910_n

Sei que não justifica, mas explica o contraditório fenômeno de como metade do Brasil acaba de votar num messias político:

Mágoa dos políticos.

E eu não culpo o povão.

Durante décadas, a educação foi relegada a segundo plano. E os muitos projetos assistencialistas não deram conta de trazer o povo à consciência e a cidadania. Por conta disso, o eleitor médio brasileiro virou massa de manobra. Líderes religiosos foram sorrateiramente se infiltrando no meio político. Principalmente, os neo-pentencostais, que urdiam uma trama para tornar o Estado Laico, numa república teocrática, onde seus princípios fossem universalizados e se tornassem a base das leis. Era a cronica de uma morte anunciada. A morte da liberdade de culto, de expressão, de orientação sexual, a morte da liberdade política.

Eis que chega 2018. Surge um Messias da extrema-direita, com um discurso violento e cheio de ódio, mas com certos bordões simplistas, que catalizariam os anseios da população. “Deus acima de todos”, brada ele. “Bandido bom é bandido morto”, esbraveja.

Essa é a fórmula fascista de manipulação das mentes em uma sociedade em crise.

Já vos falei aqui da veneranda senhora, olhos azuis, sobrenome alemão… lembram?

Pois bem, pessoas de boa índole, religiosas e moralistas, como ela, na sua maior parte protestantes, se encheram de entusiasmo pelo candidato da direita, político matreiro e oportunista.

Há 28 anos no cargo de deputado federal, combatendo homossexuais, quilombolas, indígenas, mulheres, eu disse, mulheres, vai o deputado fascista arrastando, como uma onda, um tsunami, os eleitores acríticos do Brasil. A veneranda senhora é uma dessas ativistas de última hora, que teme, ainda, o comunismo no Brasil, e que repete sem cessar os bordões da guerra fria, que ela deve ter visto na juventude.

Eu não a culpo. O Brasil, o seu congresso, seus gestores da coisa pública, abriram uma brecha para o autoritarismo. Nossa democracia entrou em crise. A manada, sem rumo, precisava de um messias político,  espécie de Moisés libertador, que os conduzisse pelo deserto e atravessasse o mar Vermelho:

Eis que surge o Jair Messias Bolsonaro.

Nos próximos 21 dias, a frente pela democracia vai tentar uma tarefa quase impossível. Deter a marcha do fascismo. Um fascismo que tem ares de fanatismo religioso. Aliás, uma multidão de evangélicos tradicionais, pentecostais, neo-pentecostais, como um exército de entusiastas cívicos, vai empurrando o país para o abismo fascista.

Temo pelo que irá acontecer depois do dia 28 de outubro de 2018. Mesmo que vença a democracia, nunca mais o Brasil será o mesmo. Um racha, uma fissura tectônica, que estava escondida, no âmago da alma ancestral do Brasil, pode nos levar, afinal, a uma guerra fratricida. Violência gera violência e o deputado fascista com seu discurso virulento e franco, parece desejar essa guerra civil.

Deus nos livre do fascismo no Brasil!

Ou será que essa é mesmo a sina da nossa nação?

Preparemo-nos, nós do campo democrático, para novos embates terríveis, que espero sejam pacíficos.

Essa história eu já vi acontecer uma vez, mas tudo acontecia nos porões da ditadura. Agora, como toda ação gera uma reação, essa ascensão repentina do fascismo adormecido na alma brasileira, poderá ser seguida de confrontos de rua, generalizados, a partir dos movimentos sociais e da sociedade civil organizada, que não terão outra saída, se forem atacados pela horda fascista.

Valha-nos Deus!

A manada está buscando um rumo e um fascista é seu guia.

Tirem as crianças da rua! Alguém vai se machucar!

8d0c7-gogo2be2bmagog2b1

Publicado em Outros temas | Deixe um comentário

Anotações para o auto popular, A Voz, a Burra e as Flores

O Encontro da Burra com as Flores, na Várzea (versão natalina)

boi e sua turma

Parte 1 – Mateus recita:

Boa noite, meus senhores.
Boa noite, minhas senhoras
(Rimo com todo o respeito)
caldeirões e caçarolas!

Eu vim contá uma história
depois de meu boa noite
meus senhores, minhas senhoras
quem adivinhá dou um doce

Num é história de Trancoso.
Meu Deus do Céu, antes fosse!
É a história de Mané Gostoso,
deu um peido e se cagou-se.

mane gostoso

Mané Gostoso reage na mão de Beth Cruz:

Eu num peidei, seu Mateu!
Você que inventou isso!

Mateus se desculpa:

Mané, desculpe por isso,
é que me deu um enguiço
no assunto que vim contar

É melhor chamá quem sabe
Beth Cruz, Neide Germano!
me acudam, pessoá!

************************

faz arte - mateus e catirina

Catirina se atravessa e reivindica a palavra:

Mateu, dá licença, visse
larga de dizer tolice
Agora é a vez das mulé
Num tem nada de Mané
e ninguém vai ganhá doce
tampouco ninguém obrou-se…

Catirina pigarreia e recomeça a abertura:

Boa noite, pessoá,
o negóço é o seguinte:
dois ponto, um em riba d’outo.

Nessa noite de natá,
a Voz, a Burra e as Frô
vieram comemorá
o menino que chegou.

Num é rico, nem é pobre,
não pede ouro nem cobre
Tá ouvindo, seu Mateus? (fala, olhando pro Mateus)

Essa festa tão bonita,
é para o menino-Deus!

Então eu digo e repito,
agora é a vez das mulé,
vamo ouvir comadre Beth,
com os brinquedo populá,
depois a comadre Neide,
vai declamar e cantar!

Beth Cruz entra cantando:

Boa noite, meus amigo!
Boa noite, minhas amiga!
Olá, compadre Mateus e comadre Catirina,
posso entrar com uma cantiga?

Tindolelê (Domínio Público)

Ôi abre a roda tindolelê
Ôi abre a roda tindolalá
Ôi abre a roda tindolelê
Tindolelê tindolalá

Ôi bate palmas tindolelê
Ôi bate palmas tindolalá
Ôi bate palmas tindolelê
Tindolelê tindolalá

E dá um giro tindolelê
Torna a girar tindolalá
E dá um giro tindolelê
Tindolelê tindolalá

Dá um pulinho tindolelê
Outro pulinho tindolalá
Dá um pulinho tindolelê
Tindolelê tindolalá

E segue a roda tindolelê
E volta a roda tindolalá
E segue a roda tindolelê
Tindolelê tindolalá

E fecha a roda tindolelê
E abre a roda tindolalá
E fecha a roda
Tindolelê tindolalá

boi

Ainda Beth Cruz: (essa marchinha deve ser repensada para o evento do Natal e voltar no carnaval)

A Burra da Várzea – por Beth Cruz

A burra da várzea
Anda, corre, brinca, pula
Se não sai no carnaval
(Ela) Fica mesmo fula
(Já) Dizia Mestre Dida:
Nossa burra é alegria
Gosta mesmo de frevar
De ouvir gente falando
De criança(s) acompanhando
De ouvir músicos tocar.
Vem menino, vem menina
Do Ambolê a Caxangá
De toda minha Várzea
Que a Burrinha vai passar.

(Nesse ponto ela apresenta os brinquedos populares e em seguida, o Mané Gostoso chama Neide pra roda.)

Neide recita poemas e canta algumas canções autorais.

 

Neide convida o Monalisa com Bigodes e Clarinha:

Monalisa com Bigodes

(Clarinha canta Flor do Futuro com Monalisa, enquanto o bloco lírico evolui pela praça)

Monalisa dá seu show autoral e chama Antonieta:

Antonieta reúne as Flores do Capibaribe para o pastoril

flores-gravac3a7c3a3o

Antonieta convida A Voz na Praça com o Teatro de Sombras:

 

A Voz chama a Burra da Várzea para apresentação do Auto do Boi

 

Todos os grupos fazem uma saudação ao menino-Jesus!

 

Todos aplaudem!

FIM

Publicado em Outros temas | Deixe um comentário

O Design Social e uma Pedagogia de Brincantes

Desde que comecei a frequentar as aulas de Design Social, da professora Ana Emília Castro, como aluno-ouvinte (nunca dantes na história, houve um aluno-ouvinte mais falante do que eu. rsrs) tento compreender como os designers conseguem atuar sobre um fazer artístico, uma artesania popular, seja de um artista, enquanto indivíduo criativo ou de um grupo cultural, enquanto coletivo de brincantes.

Aparece-me agora outra oportunidade, quando, coincidentemente, a disciplina Design Social escolheu o Bloco Lírico Flores do Capibaribe, da Várzea, para seus estudos e projetos. Então pensei: a hora é essa!

Qual o quê! No meio do caminho… as dificuldades de sempre. Um autodidata, ou bibliodidata, como prefiro dizer, tem lacunas de conhecimento sistemático, que emperram as rodas da compreensão.

Mas, peraí, eu sou poeta. Eu posso analisar meu próprio ofício. Quem sabe o processo do fazer poético não me remeta ao processo do design, especificamente, o do design social.

Se não, vejamos. A partir da observação dos dados da língua (morfemas, semantemas, grafemas, fonemas, etc.) cabe ao poeta desbravar o indizível. E ao selecionar e combinar (esses elementos da língua), como disse uma dia Paul Valèry, vai urdindo uma teia inconsútil, uma tessitura frasal , que se revela em uma coisa sempre nova, chamada, poema. Esse é, em síntese, o processo criativo do poeta. Seria o poeta, um designer de um mundo invisível?

Não por acaso, fui buscar, num vídeo do youtube, uma interessante palestra que aborda um “design do invisível”.  A jovem empreendedora e designer Juliana Proserpio fala, quase que poéticamente, sobre um mundo que não é estático, mas, moldável, mutável, eu diria, um mundo ideoplástico, palavrinha que li de um estudioso italiano, chamado, Pietro Ubaldi. Mas isso é coisa para outra crônica.

Proserpio nos aponta um design que avança para além do design centrado no usuário, e até mesmo, para além  do design centrado na pessoa, apontando para um design centrado na sociedade.  Eureca!

“Todos somos designs do mundo, diz Juliana Proserpio, a certa altura da palestra, e podemos redesenhar a sociedade e a cultura.”

Ela me conquistou quando diz que precisamos nos perguntar não só o “que” estamos redesenhando, mas o “porquê” e “para quem” estamos fazendo o redesign desse mundo, dessa sociedade, dessa cultura. O design do invisível almeja ser um processo civilizatório.

Isso também acontece com a poesia.

Criamos, nós, os poetas,  algo que pretende, desesperadamente, mudar o mundo.

E, ultimamente, é só nisso que penso, com o meu querido bloco lírico. Meu porquê, ou seja, meu propósito com o bloco é uma pedagogia dos brincantes. Que nosso cortejo, conte a sua história, com nossos corpos e vestimentas, com nossas marchas de bloco, com nossas vozes e nossa resistência ao modo tradicional de ser um bloco lírico.

O propósito serve para ancorar esse design intangível, essa interferência projetual, no cortejo das pastorinhas. Sendo a postura didática de apresentação do bloco, o como, a forma e o meio dessa pedagogia dos brincantes. E, afinal, o para quem, seria alcançar a sociedade em geral, e em particular, os alunos das escolas, públicas ou privadas.

Levando uma mensagem (poética?) que resgate a história dos blocos, uma espécie de enredo metalinguístico, o Flores do Capibaribe faria um carnaval pedagógico, porém, lúdico e lírico. Esse seria, grosso modo, o processo (o fazer poético brincante), e o resultado, (o poema em movimento), cuja analogia busquei nessa crônica de diletante.

Conversando com uma jovem amiga, estudante de design, ela me fez compreender que cada organização, seja social ou cultural, tem o seu próprio jeito de fazer, orgânico e coletivo. A esse jeito de fazer eu chamaria de estilo, algo enraizado na cultura, como afirmava Roland Barthes;  portanto, para um design, ou redesign, ser viável, precisa-se estabelecer objetivos palpáveis, segundo um propósito, tangibilizar a ideia, como diria Juliana Proserpio, a partir da observação desse jeito peculiar de fazer (processo) já existente na organização ou grupo cultural (tradição).

Bem, sigamos o semestre das aulas de Design Social da Mestra Ana Emília Castro, pois, possivelmente, voltarei a esse blog com mais uma conversa sobre as ações implementadas no Bloco Lírico Flores do Capibaribe da Várzea.

Eis a fala da jovem designer Juliana Proserpio:

 

Publicado em Outros temas | Deixe um comentário

Saint-Exupéry, Toquinho e o obituário do Arruado

Meus doze ou treze leitores, bom dia!
Acordei cedo, nesse sábado de setembro amarelo, instigado por uma jovem amiga, a falar da morte para as crianças.

Em verdade, não foi bem isso que ela me pediu. Tudo começou, quando, durante o Congresso do Centro de Artes da UFPE, visitando a bela exposição do amigo Rosevaldo Brito, o Índio Batera, eu ganhei o livro O Pequeno Príncipe, do Antoine de Saint-Exupéry. Sim, aquele famoso “livro das misses” da década de 1960/70, do século XX. Essa expressão, livro das misses, usada no Brasil todo, era e é, um grande preconceito. O livro é denso, discorre sobre amor, tipos psicológicos, por assim dizer, amizade, infância e… a Morte. Sim, sobre o suicídio de uma criança…

Bem, a meu ver não foi bem suicídio. Mas, sigamos.

Sobre a morte, encontramos pouca coisa escrita na literatura brasileira, a não ser no famoso Quincas Berro d’Água, que morre duas vezes, na genial novela do Jorge Amado. Essa morte é hilária, mas questionadora de costumes, da hipocrisia nossa de cada dia e, passa um pouco despercebida, mesmo que seu título repita a palavra duas vezes. Quincas Berro d’Água, duas vezes morto, não nos choca e esconde a Indesejável, com seu irônico humor.

Dia desses, ouvindo o Rui Godinho, no programa Então Foi Assim, os bastidores da criação musical brasileira, pela 99.9, Rádio Universitária FM, tive a surpresa de, pela boca do próprio compositor e cantor Toquinho, conhecer a explicação de sua belíssima Aquarela. Dizia ele:

“eu queria falar da morte para as crianças… mas poucos entendem a mensagem que está nos últimos versos da canção”.

Transcrevo abaixo os últimos versos dessa canção singela, que trata da morte como uma “aquarela que descolorirá”.

“Um menino caminha e caminhando chega no muro
E ali logo em frente, a esperar pela gente, o futuro está.
E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar,
Não tem tempo nem piedade, nem tem hora de chegar.
Sem pedir licença muda nossa vida, depois convida a rir ou chorar.
Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá.
O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar.
Vamos todos numa linda passarela
De uma aquarela que um dia, enfim, descolorirá.
Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo (que descolorirá).
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo (que descolorirá).
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo (que descolorirá).”

É também, com pinceladas de aquarela, que o escritor Saint-Exupéry apresenta-nos a morte do Petit Prince, personagem encantador, que, mesmo depois dos sessenta me fez chorar escondido, quando pede ao seu amigo piloto para se afastar dele, no momento em que se dirigia ao local combinado com a serpente, que o iria picar. Dizia o Principezinho:

“Vai parecer que morri e não será verdade.”

morte1

Nesse setembro amarelo, perdemos três moradoras do Arruadinho: Dona Darci, moradora antiga, que vendia lanches e frutas, ali na entrada do caminho colonial da Várzea. Em seguida morreu sua irmã mais velha, que não guardei o nome e a esposa do Rubem, artesão: dona Valéria. Todas de morte natural, sendo duas em consequência de AVC e uma de infarto. A morte, então foi tema recorrente entre os moradores, e, como não podia deixar de ser, entre as curiosas crianças do Arruadinho.

O que dizer da morte do Pequeno Príncipe e da morte em geral?

Aparentemente, o autor colocou no personagem as suas esperanças sobre tema tão polêmico, que sustenta as diversas religiões do mundo, cada uma a defender o que nos acontece no dia seguinte ao desenlace fatal.

Saint-Exupéry me parece que acreditava no que também acreditavam os japoneses kamikases, os cristãos, católicos ou não, os jihadistas e outros religiosos: que a alma humana transcende a morte do corpo físico.

O Pequeno Príncipe nos diz, com sua meiguice tão de criança:

“Você entende. É longe demais. Não posso levar esse corpo. É pesado demais. Mas será como uma casca velha abandonada. Cascas velhas não são tristes…”

E assim, levando seu carneiro de papel, no bolso da alma, seguiu o Petit Prince, a rever a sua amada flor.

Não sei se devo me posicionar sobre a imortalidade da alma, que, desde a Grécia de Sócrates e Platão é tema polêmico. Ademais, em um tempo que tudo o que se afirma é motivo para suscitar o ódio em alguns furiosos que discordam, vou apenas repetir o que ouvi da professora e filósofa da arte de viver, Lúcia Helena Galvão, analisando O Profeta, de Khalil Gibran. Se discordarem, eu aceito, democraticamente, como deveria ser em tudo nessa vida.

Segundo Lúcia Helena Galvão, tudo o que morre, morre de alguma doença inerente ao ser daquela coisa. A ferrugem do ferro o leva à destruição; a doença do corpo leva à morte dos animais, inclusos aí os humanos. Muitos deles, até pensam que são imortais, tal a empáfia com que vivem. Mas a doença nos mata, sejamos novos ou velhos.

Porém, o neo-platonismo da professora Lúcia Helena Galvão afirma que a doença mata o corpo e não a alma. É que as doenças da alma não são capazes de lhes impor a morte, como as do corpo. Vejamos: a avareza, a inveja, a cobiça, a arrogância, são algumas afecções da alma. Essas doenças jamais mataram uma pessoa humana, ou seja, sua alma. Por conseguinte, segundo Lúcia Helena, se não há doença que a mate, morre o corpo, todavia, a alma sobrevive. Essa é a conclusão platônica, que se esconde no livro das misses: a imortalidade da alma. O Principezinho acreditava que sua alma iria sobreviver ao veneno da serpente.

E agora o nosso Pequeno Príncipe está a sorrir, como guizos, numa pequenina estrela, entre as miríades de estrelas da nossa Via Láctea. De lá, ele ouve o ranger da corda na roldana de um poço, cá nesse planetinha azul.

Que as crianças do Arruadinho leiam e sonhem com raposas, flores e amigos do peito, como o piloto que desenhava aquarelas para o pequenino viajante das estrelas. E acreditem, como eu, que o Principezinho viajou, sem corpo. para o seu asteróide B-612. Lá se encontram meu amigo Maurício Peixoto, Dona Biu, Carlitos e tantos outros que viraram estrelinhas, nesses últimos 4 ou 5 anos em que milito no Movimento de Resistência Popular do Arruado – MRP-Arruado. Quando chegar minha vez, não chorem. Serei apenas uma casca velha e oca, de uma árvore que deu seus frutos e feneceu.

Abraço fraterno em Gabi, que me presenteou com o livro e em Natália Amor-in, que me instigou a falar sobre o tema, nessa crônica de diletante.

pavão-2

Namastê!

Publicado em Outros temas | Deixe um comentário