O Emissário enfezado e a Muralha Invisível

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Naqueles dias de maio do ano de 2014, quando fui convidado pelo saudoso Maurício Peixoto para me juntar ao MRP-Arruado e ajudá-lo a fundar a AMADA, Associação dos Moradores e Amigos do Arruado do Engenho Velho da Várzea; naquele maio que sempre nos traz a lembrança triste da tortura e morte do Padre Henrique, eu recebi uma mensagem bíblica de um dos moradores antigos ( a maior parte dos moradores é cristã católica ou evangélica). Tratava-se de uma passagem do livro de Nehemias, que abaixo transcrevo  (os meus doze leitores podem até pular esse trecho, sem embargo da compreensão desta crônica) :

E estava com ele Tobias, o amonita, e disse: Ainda que edifiquem, contudo, vindo uma raposa, derrubará facilmente o seu muro de pedra.
Ouve, ó nosso Deus, que somos tão desprezados, e torna o seu opróbrio sobre a sua cabeça, e dá-os por presa, na terra do cativeiro.
E não cubras a sua iniqüidade, e não se risque de diante de ti o seu pecado, pois que te irritaram na presença dos edificadores.
Porém edificamos o muro, e todo o muro se fechou até sua metade; porque o coração do povo se inclinava a trabalhar.
E sucedeu que, ouvindo Sambalate e Tobias, e os árabes, os amonitas, e os asdoditas, que tanto ia crescendo a reparação dos muros de Jerusalém, que já as roturas se começavam a tapar, iraram-se sobremodo,
E ligaram-se entre si todos, para virem guerrear contra Jerusalém, e para os desviarem do seu intento.
Porém nós oramos ao nosso Deus e pusemos uma guarda contra eles, de dia e de noite, por causa deles.
Então disse Judá: Já desfaleceram as forças dos carregadores, e o pó é muito, e nós não poderemos edificar o muro.
Disseram, porém, os nossos inimigos: Nada saberão disto, nem verão, até que entremos no meio deles, e os matemos; assim faremos cessar a obra.
E sucedeu que, vindo os judeus que habitavam entre eles, dez vezes nos disseram: De todos os lugares, tornarão contra nós.
Então pus guardas nos lugares baixos por detrás do muro e nos altos; e pus ao povo pelas suas famílias com as suas espadas, com as suas lanças, e com os seus arcos.
E olhei, e levantei-me, e disse aos nobres, aos magistrados, e ao restante do povo: Não os temais; lembrai-vos do grande e terrível Senhor, e pelejai pelos vossos irmãos, vossos filhos, vossas mulheres e vossas casas.
E sucedeu que, ouvindo os nossos inimigos que já o sabíamos, e que Deus tinha dissipado o conselho deles, todos voltamos ao muro, cada um à sua obra.
E sucedeu que, desde aquele dia, metade dos meus servos trabalhava na obra, e metade deles tinha as lanças, os escudos, os arcos e as couraças; e os líderes estavam por detrás de toda a casa de Judá.
Os que edificavam o muro, os que traziam as cargas e os que carregavam, cada um com uma das mãos fazia a obra e na outra tinha as armas.
E os edificadores cada um trazia a sua espada cingida aos lombos, e edificavam; e o que tocava a trombeta estava junto comigo.
Neemias 4:3-18

 

Na primeira roda de diálogo, daquele distante, mas não tão distante. 2014, em que ainda não sabíamos que a morte nos levaria, no ano seguinte, o nosso líder, Maurício Peixoto, ele mesmo me pediu pra eu falar um pouco. E eu, que não professo religião alguma, tentei imitar a pedagogia do Rabi, falando numa linguagem conhecida dos homens e mulheres, ali presentes. Apropriei-me então da narrativa bíblica da muralha de Nehemias, como analogia da luta pela preservação do Arruado. Eu tinha a esperança de que a força da memória, do pertencimento, da identidade daqueles remanescentes da Usina Meio da Várzea e filhos e netos dos construtores (pedreiros, serventes) dos primeiros prédios da UFPE; tinha, não, tenho a esperança de que a história que eu os ouvia contar, alguns, do alto de seus 90 anos de idade, fosse a verdadeira defesa, talvez a única possível, da sua permanência no casario e na posse de seus quintais. Naquela roda vi muitas lágrimas nos olhos daquela gente humilde. Eu mesmo chorei. Quantos dramas, quantas frustrações havia naquelas lágrimas. Eles, que viveram o que chamo de uma pequena diáspora, ao longo dos anos de chumbo, quando a UFPE estava em franca expansão e foi indenizando ou expulsando vários posseiros e agricultores espalhados pelo Campus.

Não posso deixar de lembrar da expulsão de Seu Pedro das Macaxeiras. Morava ele onde hoje é o Centro de Convenções da UFPE. Eram duas casinhas humildes, rodeadas por vasta plantação de macaxeiras, cuja fama, dizem os antigos,  trazia consumidores famosos, como os Brennand e os donos da Engefrio. Certo dia, respaldada pela ditadura, a UFPE resolveu que ele tinha de desocupar o lugar. Como assim? Morador quase centenário, em cujas terras se dançava o coco de roda desde antanho e cuja festa de São Pedro era uma das mais concorridas do Engenho Velho da Várzea. Como assim, desocupar?

Sua nora, jovem corajosa, enfrentou os agentes da repressão e foi presa na mesma hora. No dia seguinte, os tratores demoliram as duas casinhas da família de Seu Pedro, sob os olhos assustados dos seus vizinhos, os moradores do Arruado.

Quando do recente incêndio do Centro de Convenções, ouvi dizerem, os mais crédulos, que era a mão de Jeová. Outros, que era a lei do retorno.

E a muralha?

Ainda não tinha sido erguida. Ou seja, ainda não havia a população do Engenho se apropriado de sua história, da compreensão do Arruado enquanto lugar de memória, passível de registro para preservação, patrimônio do povo de Pernambuco.

Hoje, quando do embate de idéias, do diálogo aberto entre a UFPE e os moradores, por conta da passagem, pela frente das nossas casas, de um emissário de esgoto do novo prédio do Laboratório de Petróleo e Gás, tivemos a exata noção da força da história. Não só dessa história oral, contada e recontada por gerações de moradores da Várzea do Capibaribe, cujo imaginário está cheio de causos, tidos e havidos, como verdadeiros, nesse Engenho Velho, com seu arruado de casinhas conjugadas: os túneis que “iam bater em Olinda”, como rota de fuga dos restauradores; as tão famosas botijas, o bueiro (chaminé) da Usina Meio da Várzea. Tudo isso num caldo de cultura saboroso. e que se perde na noite dos tempos, como o mel escuro da cana de açúcar.

Mas, não só dessa história oral, eu ia dizendo, mas na força da história pesquisada e estudada pela própria UFPE. Nesse embate entre o Arruadinho e o emissário dos dejetos do novo prédio, a muralha invisível surgiu, para gáudio dos vulneráveis moradores da comunidade. A muralha da Arqueologia da Paisagem, defendida pelo Mestre Luiz Severino da Silva Junior, nosso querido Lula Biu, que foi erguendo, tijolo por tijolo, essa inexpugnável barreira contra a falta de conhecimento de si mesma, da própria universidade. Como escavar um trecho do caminho quatro vezes centenário, para passagem do emissário dos excrementos do prédio de Petróleo e Gás? Os moradores tinham medo dos outros gases, os deletérios, os da catinga, do cheiro ruim, que imaginavam escaparia dos tubos de esgoto, que recebe o pomposo nome de emissário.

Vôte! Um emissário enfezado da gota serena! Vixe! Vá passar na baixa da égua!

Enfim…

Os estudos do professor Lula Biu, meu xará, de quem muito me orgulho, chegaram, não sei como, nem me perguntem, no zap do Magnífico Reitor. Isso sem que o Lula Biu soubesse, diga-se de passagem. Coisas do tempo do copia, cola e compartilha! rsrsrs

Pois então, a Reitoria procurou os nossos arqueólogos, que foram professores do Lula, e, em duas reuniões, eles chegaram à conclusão que todos queriam. A tubulação de esgoto mudou de rota e não mais passará pelo Caminho da Várzea.

Afinal, há uma muralha invisível, um portal, como diz a amiga poeta Neide Germano, um campo de forças (forças da história, da luta, da união entre a ciência e o povo) que impede qualquer dano ao sítio em que está erguido o casario do nosso tão amado Arruadinho do Engenho Velho da Várzea.

E assim, a Arqueologia mostrou a nova rota aos construtores do emissário e tudo vai entrar para a história, que será contada pelas nossas crianças, aos seus filhos e netos.

Diálogo democrático, ciência feita para o povo. Essa é a receita que mandamos para o Brasil. Essa é a muralha que impedirá o avanço dos emissários da escória, dos excrementos e do fascismo. Aqui não passarão!

 

 

Em memória do saudoso Maurício Peixoto, cuja voz ainda ecoa por esse velho caminho…

 

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Tentativa de matricídio no campus da UFPE

Matricida todos sabem o que significa. É o que mata a própria mãe. Não é o caso em questão, mas, imaginem se os meus doze leitores tivessem a oportunidade de rever o seu primeiro berço, aquele, aconchegante e quente, em que o olhar amoroso de vossas mães, vos olhava com ternura e zelo. Imaginaram? Agora pensem em alguém que pegasse de uma marreta e cheio de fúria, destruísse seu próprio berço. Não chega a ser um matricídio, pois não há o cadáver da mãe… mas, quem odeia o próprio berço onde nasceu é capaz de tal monstruosidade: o matricídio.

Pois então… dizem que o coração da UFPE bate no lugar em que foi a sede do Engenho do Meio (antigo, São Carlos). E, em verdade, foi do coração de um homem desse Engenho do Meio, um intelectual e político que surgiu o sonho de trazer para a Várzea, a antiga Universidade do Recife. Um coração cheio de sonho e vontade política. Tanto que fez, esse homem público, que trouxe para cá, essa que é, hoje, uma das dez melhores universidades federais do Brasil.

Seu nome: Joaquim Amazonas.

Aqui, nesse caminho quase quatrocentão da Várzea, ele foi menino. Cresceu, se fez advogado, professor e político  e nos legou a nossa querida UFPE.  A casa em que viveu foi demolida (ou desabou) no ano de 1946. Seria, pelo projeto inicial, do italiano Mario Russo, a moradia oficial dos reitores. Não deu tempo. Desabou!

E quem foi o primeiro reitor da UFPE?

Ele mesmo, o Dr. Joaquim Amazonas. Amigo e compadre dos moradores do Arruadinho. Vizinho ilustre, mas generoso. Tratava a todos com lhaneza e fidalguia. Desde o mais humilde operário até a mais alta autoridade do governo. Imenso era o coração desse homem, cujo sonho foi realizado com ardor de apaixonado. Para isso, repassou o loteamento Residencial Engenho do Meio, de sua propriedade, para a construção desta universidade, sem molestar nenhum dos antigos moradores. Durante doze anos de reitorado, houve paz e harmonia nesse velho caminho. Contam os mais velhos que ele sempre dizia a um ou outro vizinho:

Pode puxar sua cerca um pouco pra cá, compadre!

Eram outros tempos! Tempos românticos! A nostalgia salta aos olhos úmidos das meninas da foto acima, Dona Inez e dona Elisabete, nonagenárias, que se emocionam quando lembram do Dr. Joaquim.

Pois é… aqui nasceu a ideia de uma universidade a oeste do Recife. Bem nas terras da sede do Engenho do Meio, depois Usina Meio da Várzea. Nasceu do coração de um homem de verdade. O berço, então, é aqui.

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Contudo, vejam a foto acima. As manilhas apontadas para o Arruado, como canhões preparados para um bombardeio. Querem destruir a terra-mãe, o lugar de memória, o sítio arqueológico em que nasceu a UFPE. Por isso, eu usei a hipérbole do título. É deveras uma tentativa de matricídio. Matricídio que começou em 1946, quando, por incúria, desabou o velho casarão que pertencera ao Fernandes Vieira, por volta de 1645 e que, no século XX, passou a pertencer à família Amazonas.

Depois veio a construção desse prédio de arqueologia, pasmem, a poucos metros das ruínas da chaminé da antiga usina. Ainda se pode ver a base do bueiro (chaminé), em frente ao tal prédio. Lamentável, essa construção. Como podem os arqueólogos concordarem com o soerguimento de um prédio em pleno sítio arqueológico?

Matricídio. Ou tentativa de…

Há também o “lixão provisório”, que já se perpetua, a construção dos prédios de Engenharia de Produção e Petróleo e Gás e, finalmente, a construção de um monstrengo chamado Estação de Tratamento de Esgoto, quase em frente ao monumento a Fernandes Vieira. Foi quando a comunidade reagiu. Queriam atravessar o Arruado com manilhas a uma profundidade de 4m, escavando o caminho de 373 anos, que mantém seu traçado intacto, segundo os estudiosos de arqueologia da paisagem: os mestres, Levy Pereira (UnB) e Luiz Severino da Silva Jr. (Univasf)

É por essas e outras que a comunidade está se insurgindo contra a filha desalmada. Nascida nessa terra-mãe, a UFPE nega sua origem e tenta destruir seu berço, como um dia fez ou deixou fazer com o velho casarão dos Amazonas.

Chegamos ao nosso limite! Os remanescentes dos trabalhadores da Usina Meio da Várzea, os que ajudaram a erguer o CTG, o CFICH, o HC, agora lutam pela não destruição do Caminho em que suas casas estão erguidas. Estamos preparados para o embate, seja em que front ele se der. Por falar em front, por aqui passaram os combatentes de Guararapes, em direção do Arraial Novo do Bom Jesus, hoje um pequeno sítio histórico, encravado numa praça na Avenida do Forte. Talvez por isso, os militares sempre vinham saudar, no dia 19 de abril, o monumento a Fernandes Vieira, considerado como o fundador do exército genuinamente brasileiro. Bem aqui, ao lado do Arruadinho, eles se perfilavam diante daquela estátua, hoje meio esquecida. Será que os militares gostariam de saber dessas escavações? Será que aprovariam a destruição do caminho dos combatentes de Guararapes? Sei lá! Deixemos isso de lado.

O que não podemos deixar acontecer é a destruição do caminho, com esse casario centenário e essas árvores altaneiras e frondosas, cujos alicerces e raízes não suportariam essas escavações. A quem recorrer para evitarmos esse matricídio?

Primeiro, à gestão da UFPE. Depois, ao MPF, ao IPHAN, ao Exército… só Deus sabe até onde se pode ir numa situação extrema como essa.

O monstrengo

 

 

 

 

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Que obra é essa, no Engenho Velho?

 

 

 

Essa pergunta tem sido feita por todos, aqui no Engenho Velho e vem tirando o sossego dos moradores. Uns dizem que um acesso de esgoto sanitário cruzará o caminho tricentenário, estudado pelo prof. Levy Pereira, da UnB,  em seu trabalho sobre o georreferenciamento dos caminhos usados pelos holandeses, durante o ciclo do açúcar nordestino.

Quem quiser saber mais sobre esses estudos, basta acessar o site da Coleção Levy Pereira, mais precisamente no item Estrutura do Georreferenciamento do BQPPB no Google Earth – BRASILIA QUA PARTE PARET BELGIS TABULA.

Arruado Marcgraves

Pois bem, gente… os moradores acham que o sítio arqueológico do Engenho do Meio sofrerá escavações para passagem desse esgotamento sanitário. Alguém sabe do projeto? O pessoal de Arqueologia da UFPE deu parecer?

O que sabemos pelos moradores foi dito, ao que parece, por um engenheiro da obra. Os novos prédios precisam jogar os esgotos no canal do Cavouco, e que, para isso, farão uma estação de tratamento bem ali, no paradoxal “lixão do sítio arqueológico”.

As fotos acima já mostram trechos de uma base de concreto, que ainda não dá pra distinguir bem de que se trata. A lei do silêncio reina entre os operários. E a curiosidade dos moradores só aumenta. Custava nada reunir os arruadenses e explicar tudo?

Mas é assim que funciona a administração “progressista” (eu ia dizendo petista) da UFPE. Tudo vai sendo decidido de cima pra baixo e o povo é sempre o último a saber. Nada contra a gestão, seja de que partido for, mas, se, no discurso, é tudo pelo social, na prática, a teoria é outra, como se diz.

Cansados e desencantados, os que moram no Arruadinho do Engenho Velho da Várzea, apenas observam aquela estranha obra sendo erguida. Parece que o Arruadinho é habitado por seres invisíveis, mormente, depois da vitória dos moradores em processo de reintegração de posse, impetrada pela querida UFPE. Desde então, coisas estranhas acontecem no Engenho Velho: água com ferrugem, oscilações de energia elétrica que queimam eletrodomésticos, e, além dos problemas com os serviços básicos, a perseguição aos ambulantes que moram no Arruado (só nossas carrocinhas são proibidas de vender no campus) e o fechamento da passagem para a Várzea pelo CTG (a antiga escola de Engenharia, que interceptou o caminho que interliga o Engenho Velho ao núcleo da povoação da Várzea, da qual o Arruadinho é parte).

O bucólico e sossegado recanto onde nasceu a UFPE, nas terras do velho engenho São Carlos (Engenho do Meio) vai sendo espremido pelas novas construções e, agora, talvez, venha a ter o velho caminho rasgado para passagem das manilhas em que desaguarão os seus detritos.

O que é estranho é a omissão do Departamento de Arqueologia. O pessoal de História nem falo mais. Esses silenciam desde sempre, sobre a importância do velho Engenho do Meio.

E agora? Que obra é essa no lixão do sítio arqueológico do Engenho Velho da Várzea?

 

 

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Grades, indiferença e requerimento engavetado

 

Desinteresse, indiferença, desprezo… tudo isso pode se traduzir no silêncio, no frio silêncio diante dos reclamos dos menos favorecidos da sociedade. Exemplo disso é o descaso da UFPE e de seus gestores diante da solicitação que fez o MRP-Arruado, movimento de defesa dos interesses dos cidadãos/contribuintes que residem no Arruado do Engenho Velho da Várzea.

Os reclamos, mais do que justos, dessa solicitação, protocolada na reitoria, se reportavam aos portões do CTG, fechados às 23h em ponto, nos dias úteis, e, durante 24 horas, nos fins de semana e nos feriados ou dias santos.

No Arruado, há funcionários do comércio lojista, pedreiros, camareiras de hotel, que não conseguem chegar antes das 23h, e sempre encontram os portões fechados. Há estudantes, que deixam seus cursinhos e faculdades mais cedo, para tentar encontrar aberta a passagem pelo CTG. Quem conhece a UFPE sabe que há um longo e deserto contorno até o portão principal, o que dá acesso pela BR-101, onde ocorrem assaltos e estupros constantes. É desumana a desatenção do CTG, com esses moradores.

Depois do ano de 2007, em que alguns moradores tiveram suas lides judiciais transitadas em julgado, com a negativa da reintegração de posse impetrada pela UFPE, numa retumbante vitória para a comunidade, parece que o descaso aumentou, posto que os serviços básicos (água e luz) começaram a falhar, dando a impressão que os gestores de baixo escalão, sem o conhecimento do reitor, faziam uma retaliação insidiosa, usando o abastecimento d’água e luz, como forma de pressionar os moradores do Engenho Velho.

Mas, a comunidade resiste e há uns 30 dias entrou com um requerimento, pedindo a ajuda do magnífico reitor Dr. Anísio Brasileiro, para solucionar esses problemas, que parecem mínimos, mas incomodam demais, no cotidiano dos lares da comunidade.

Nenhuma resposta nos foi dada. Silêncio total. Nem parece que é uma gestão progressista, voltada para as massas trabalhadoras. Um corporativismo deletério e egóico, dá como resposta o silêncio ao povo do Arruado. Ao desinteresse e ao descaso, o povo dará como resposta, a luta pelos seus direitos. E iremos a todas as instituições de defesa da cidadania e das leis, no intuito de nos fazermos ouvir. Há remédios jurídicos para a indiferença estatal. Contra o silêncio da UFPE, há o barulho dos que ainda tem esperança nos defensores públicos e nos promotores de justiça e cidadania. É preciso uma ação conjunta de todos os que assinaram o requerimento (foram 32 assinaturas) para irmos ao MPF e à DPU, defendermos os direitos dos moradores.

 

 

 

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O Beija-flor

O Beijaflor Emanuel

Beija-flor – Emanuel Bezerra de Brito

 

I

O Beija-flor
beija a flor
inteira e não-conotativa.
Beija a realidade, flor sem artifícios.
Beija, o Beija-flor,
o cerne mesmo da Flor.

II

( …era o meu intento envasar o aroma
dessa despetalada Flor, numa redoma).

III

A Flor e esse cativo Beija-flor
(fabrico-os dessa matéria plástica e furta-cor)
A flor, a derradeira e inculta.

A Flor.
(
…e em suas pét’las
errático,
um beija-flor,
flâneur vibrátil,
floreteia,
oral e erétil,
à flor,
à ineffabile e bela flor
do Lácio
)

 

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Anísio, o Magnífico e o casario do Engenho Velho

Lembro de um conto árabe que li em algum lugar, quando criança. Diz que um desses marajás, sultão muito abastado, resolveu construir o maior e mais suntuoso palácio daquelas plagas, bem ao lado de um humilde casebre. O motivo, dizia ele, era para que fosse lembrado não só pela sua riqueza material, mas pela sua justiça.

Eu, menino-pequeno, ficava impressionado com essa história de benevolência e riqueza. O sultão era tido como um homem muito sábio, justo e generoso.

Quando me veio a maturidade, foi que percebi a contradição imensa dessa pequena história. Como um sultão tão justo e sábio suportaria a miséria dos seus vizinhos, sem mover uma palha para melhorar a vida dos moradores do casebre? Ora, se ele tinha o poder, a sabedoria e a riqueza, por que razão não fez do casebre, uma casa, tirando os seus vizinhos da vida miserável que contrastava com o luxo de seu palácio?

Ontem, o Globo Repórter mostrou as tapeceiras do Irã. Mulheres sentadas por 8 horas seguidas, todo dia, durante mais de um ano, para fabricar um único tapete persa, cujo valor de mercado era de aproximadamente, 300 mil reais.  As imagens mostravam a simplicidade, quase pobreza, daquelas famílias de tecedeiras persas. Muito lindos os palácios adornados pelos tapetes, que as imagens da Globo nos mostraram durante o programa. Parques belíssimos, com fontes e lagos. Mas foi a imagem das fiandeiras, sentadas num banco duro, traçando os fios de seda dos tapetes, foi essa imagem que mais me tocou. A mais valia estava evidente no preço do trabalho daquelas mulheres, em relação ao lucro dos atravessadores do comércio de tapetes.

O Irã é um país milenar, com um povo que ama a sua cultura. Um país rico e cheio de contradições, com uma capital que tem 14 milhões de habitantes. Pasmem! Não são apenas desertos com nômades. Há grandes cidades em que abundam grandes pensadores, cientistas e grandes artistas. Seus cineastas são famosos. Quem conhece os filmes iranianos sabem que são pura arte. Mas, como em todo o planeta, ali convivem a riqueza que impressiona e a miséria extrema. Como no conto que li ainda criança. O palácio e a choupana não são sinais de sapiência e de generosidade, mas de injustiça, de indiferença com o outro, se não de egoísmo e maldade.

Cá no nosso cantinho, escondido no Campus da décima melhor universidade do país, dá pra perceber como funciona a res publica brasileira. O Estado abocanha a parte do leão, tomados dos contribuintes e em parte alguma há uma verdadeira distribuição das nossas riquezas. O que existem são sultanatos, castas ricas, que usufruem do produto de nosso trabalho, investindo o nosso dinheiro no que lhes é conveniente.

Querem um exemplo?

Há muito tempo que estamos convivendo com a mudança de base energética no mundo. Mas as nossas universidades ainda estão construindo prédios monumentais para estudar petróleo e gás. Aqui, do lado do Arruadinho há dois monstrengos desses. Enquanto, na Europa, a energia dos ventos e do Sol vai se firmando, nós estamos construindo edificações para estudarmos a energia que movia o mundo do passado.

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Enquanto os sábios gestores do CTG erguem seus prédios, outros centros mal recebem verbas para seu funcionamento. Nada a ver com a crise. É escolha e vontade política. Privilegia-se a extração do óleo bruto, que produz energia não renovável, em detrimento da energia solar, da eólica e outros modos de fazer andar de modo sustentável a máquina do mundo.

Com esse olhar de sultões do pré-sal, em que a propaganda é maior do que a realidade, se vai esquecendo a educação, a criatividade e a cultura do povo.

Quando vejo esses dois prédios erguidos contra o verde do arruadinho do Engenho Velho, não posso deixar de lamentar a visão medíocre e limitada dos gestores “progressistas” da UFPE. Quando irão reconhecer que o patrimônio humano, cultural, ecológico e histórico desse casario de trabalhadores é fundamental para reinventarmos o caminho, a trilha para o soerguimento do Brasil enquanto nação. Não só dessa comunidade, mas de todas as comunidades populares, pelo Brasil afora. Sem reeducarmos o olhar meramente tecnicista de nossos gestores não há caminho possível. Sabemos da predominância do CTG sobre os outros centros. Parece que chegam mais verbas para as Ciências Exatas do que para as Humanas. Porém, todos dizem que a Educação é quem vai salvar o país… Citam à exaustão os exemplos da Coréia do Sul e do Japão. E ficam nisso!

O casario de trabalhadores da extinta Usina Meio da Várzea está erguido ao lado do imenso prédio das Engenharias. Por termos chegado antes da Cidade Universitária, a justiça nos deu o direito de continuar morando aqui. Mas, a que preço? A água que nos disponibilizam é de péssima qualidade. E quando tentam tratá-la, é uma lástima: jogam cloro no poço, creio eu, sem ter a noção exata da proporção que deve ser usada. A água do casario cheira a cloro puro. Imprópria para o banho, tem feito surgir doenças de pele nos moradores, sejam crianças de colo ou idosos.

A água com excesso de cloro e a energia elétrica, juntas, têm dado grandes prejuízos, com a perda de máquinas de lavar e geladeiras, dos pobres moradores do Engenho Velho.

E tem mais injustiça, Magnífico Reitor: os seguranças desta UFPE, para piorar as coisas, expulsam os pequenos ambulantes do campus, parece-nos que apenas pelo fato de serem moradores daqui. Só as carrocinhas do Arruado são perseguidas. Se vocês, meus doze leitores, prestarem atenção, há barracas de lanches em frente ao CCSA, ao CFCH e à Biblioteca. Ali ninguém é molestado pelos seguranças. Seguranças esses que fecham os portões do campus, desde a noite da sexta-feira, até o amanhecer da segunda. Fechados também ficam nos feriados e dias santos. Quando lhes perguntamos a causa do fechamento dos portões, dizem que é ordem do Magnífico Reitor. Quem trabalha até tarde nesses dias, não pode acessar a sua casa, a não ser que se exponha aos riscos de dar toda a volta no campus e entrar pelo portão principal. Se a questão é de segurança, imaginem que as grades são facilmente galgadas pelos possíveis meliantes. E que, até mesmo pelo portão principal todos entram sem serem identificados. Há algo de estranho nessa proibição.

 

Não creio que seja ordem do Magnífico. Dá a impressão que seus áulicos já levam pra seu gabinete a decisão formada e ele os atende, sem questionamentos.

Por isso estamos em campanha de petição na internet, pedindo que o nosso magnânimo reitor reveja essas decisões, que depõem contra uma universidade que luta pelo social, inclusive defendendo as ideias do Partido dos Trabalhadores, que, como já diz no seu nome, deveria estar ao lado dos que estão na base da pirâmide social.

Como então, Magnífico Reitor, tanta indiferença com os moradores do Arruado do Engenho Velho? Há anos esperamos uma visita dessa Reitoria à nossa humilde comunidade. Não basta acatar a decisão judicial que nos permite aqui habitar. Para ser justo e sábio, e não agir como o sultão da estória que acima contei, é preciso ter cuidados com esses moradores, que também são contribuintes e cidadãos que ajudam a prover os recursos com que a União ergue e mantém as nossas universidades.

A petição na internet não é contra ninguém, mas a favor da comunidade do Arruado, que faz parte da história da construção desses prédios que hoje nos oprimem.

Seja justo e generoso, Dr. Anísio. Que a história lhe faça a mesma justiça que faz ao primeiro reitor, o Dr. Joaquim Amazonas, morador do Arruado e compadre de muitos dos seus vizinhos. Graças a ele, desde a chegada da Universidade do Recife, fomos respeitados e protegidos. Que a memória do Dr. Joaquim Amazonas sirva de inspiração para as suas decisões em nosso dias.

Respeitosamente,

Moradores do Arruado do Engenho Velho.

 

Link para a Petição:

https://secure.avaaz.org/po/petition/Reitor_Anisio_Brasileiro_de_Freitas_Dourado_Reitor_Anisio_da_UFPE_E_o_Arruado/?cZZGheb

 

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Do 71º aniversário da UFPE

Arruado visto do casarão

Arruado, visto da varanda de Joaquim Amazonas

Me parece óbvio que uma instituição não precisa ter alma, posto que ela em si mesma não é uma coisa viva, é apenas uma abstração, uma organização que cumpre os processos da burocracia que a erige e a sustenta.

Por isso, não se comemora, nesta data, o aniversário de prédios, de salas de aula, mas das pessoas que trabalharam e trabalham numa universidade. Eu comemoro o aniversário da UFPE através da lembrança dos pedreiros, serventes, carpinas, dos operários da construção civil que ajudaram a realizar o sonho de Joaquim Amazonas, nosso mais ilustre vizinho. Era também arruadense o primeiro reitor. Comemoro a presença e a vida de alguns professores, alunos, funcionários que vivem a instituição. Não citarei nomes, mas muitos deles estão aqui nesse meu facebook e eles sabem o quanto os admiro e respeito.

Não queria um texto magoado nesta data, pois muitos dos que fazem a UFPE são nossos aliados, nossos amigos, nossos companheiros de luta. Contudo, os que não conseguem pisar no chão centenário do Engenho Velho, por indiferença ou preconceito (excluo os que que ignoram a nossa existência) não receberão meus aplausos nesta celebração. Eles são os alienados, mesmo filiados a partidos progressistas, são os abúlicos, os sem alma, os vaidosos, os que se imaginam intelectuais orgânicos ou líderes de massas, porém não caminham com os menos favorecidos. Nesta gestão há gente humilde, apesar dos títulos acadêmicos, mas que apenas compõem o staff, sem voz diante dos poderosos chefões. Todos hão de passar! Eu também… Mas defenderei até o último dia de minha vida os que trabalham e sustentam a comunidade de alunos, professores e moradores. Todos comemoramos hoje, a passagem desses 71 anos de ensino e aprendizagem. O MRP- Arruado agradece aos professores, alunos e funcionários públicos ou terceirizados que nos ombreiam na luta pela terra, pelo pão e pelo trabalho. Aliás, o amor, o trabalho e o conhecimento deveriam governar a nossa vida, disse-nos Reich.

Essa é a nossa esperança! Um dia seremos governados pelo Amor!

E viva a universidade dos humildes, dos que pisam no chão, dos que trabalham! Viva!

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