Cultura educa? – as ações de artes integradas no Arruado do Engenho Velho

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Cultura educa? Ou melhor: cultura popular educa? Se educa, como o faz? Podemos mensurar os resultados da ação educativa da cultura, em um território? Essas e outras perguntas me inquietam, em meio às ações…

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O lirismo das Flores da Várzea do Capibaribe

UM CRONIST'AMADOR

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Falo em nome de um Bloco Lírico que se entende como um bloco “do presente, sem esquecer dos valores do passado”. Não é por acaso que o nosso bloco não se denomina “bloco carnavalesco misto”, posto que essa palavra, ‘misto’, aponta para um tempo em que as mulheres mal saíam às ruas e nem podiam trabalhar fora, estudar ou votar. Carnaval de rua, nem pensar! Esse tempo passou. Nosso bloco é criado por mulheres modernas, cultas, trabalhadoras, mulheres do século 21. O tempo de um bloco se chamar de misto, pelo fato de ter mulheres e homens em seu cortejo, está obsoleto, como tantas outras excrescências do carnaval (machista) do passado.

Porém, o que não está ultrapassado é o lirismo dos blocos.

Não falo do lirismo dos gregos, que cantavam a poesia ao som da lira. (Embora os blocos, por serem musicais, tragam algo desse jeito grego de fazer arte)…

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GOG & MAGOG

trumpjong

“Si vis me fiere, dolendum est primus ipsi tibi”
“Se queres que eu chore, é preciso primeiro que sofras”  HORÁCIO
A José Guilherme Merquior
1
Vou passar a fronteira
entre oeste e leste mas o monstro
(de vidro)
invisível, impede o irmão
de ir abraçar o irmão sob o arco-
íris.
2
Magog pergunta a Gog:
por que, no teu laboratório
feérico
hemisférico
não paras de fabricar abismos?
Gog responde: se quiseres
que eu pare, pára tu primeiro.
Então serei teu companheiro.
Mas por mais que Magog interrogue
a Gog e Gog interrogue a Magog
algo os impede
de mútua confiança, de esperança.
É que o monstro de vidro
lhes suprime a opção entre antes
e depois, e se coloca,
irremovível, entre os dois.
3
Reúnem-se os dois numa mesa
de jogo.
A coexistência é azul
como um buquê de hortênsia,
sobre a mesa.
Mas o monstro de vidro, o Ninguém,
o Não-Objeto,
com a sua cauda invidrosível,
se interpõe
entre ambos, secreto.
E porque os naipes são de fogo,
a cartada se faz sem objeto.
E ambos vão dormir, de novo,
com um suicídio obrigatório
no corpo.
4
Onde está o monstro, que é de vidro
e, portanto, invisível, presente
mas simultaneamente ausente?
Na floresta que é, também,
de vidro.
Na cidade dos mútuos espelhos.
O seu nome: Ninguém.
Como o crismou o rei da Ítaca,
(ao seu tempo).
Mas, hoje: “Não-Objeto”.
É de vidro, mas não objeto.
Não objeto que por + concreto
+ secreto = não objeto.

5

Que adianta o meu objetivo,
a minha
objetiva de repórter,
se o meu objetivo é um não-objeto?
Se o que projeto, o mais concreto,
fica um objetivo sem objeto?
O Não-Objeto,
invisível, separa o irmão do irmão.
E muda a significação
das palavras
e dos gestos, através do vidro.
E amplia a configuração
das coisas
em seu vidro de aumento.
Para que Gog irrogue a culpa
a Magog e Magog a irrogue a Gog
em áspero atrito
de sílabas entre os dois
por um não querer fazer antes
o que o outro não quer fazer
depois.
Não-Objeto já agora abjeto
nele mora a não-arte, o não-evento,
o não-tigre, porém mais feroz
que um tigre espetáculo de ouro
para a minha (m)lira.
A idéia de o matar resultará
num projeto por falta de objeto.
Numa não-tigre que resultará salvo,
por falta de alvo.
6
O herói homérico matou
a hidra de sete cabeças num
relâmpago.
Belerofonte matou a Quimera
que lhe escapava à dimensão
do olho.
Teseu caçou o Minotauro ao dédalo
(touro áureo).
Quixote desbaratou os seus moinhos
de vento.
Jim Hull, montado no seu Boiazul,
saiu à caça do Acontecimento
que nunca está onde a polícia
o situa e institui (anacoluto).
Titov, em seu Vostok,
dá 17 voltas na órbita
da Terra,
vencendo o “poético” absoluto.
Como irei eu – olho de vidro –
caçar o monstro, que é – também –
de vidro
na floresta – também – de vidro?

7

Minhas 7 razões pra não chorar
(antiSamaritanas)
cercam-me na paisagem torta.
Exigem que eu lhes mostre
a minha pálpebra, o nervo ótico.
Os 7 cegos.
Da Babilônia me interrogam
sob a ogiva de um céu gótico.
Já perdido na selva de vidro
em busca do monstro de vidro
ved’io scritto al sommo d’una porta,
mas em “silk-screen”
queste parolé de colore oscuro:
“A MORTE É HOJE DIFERENTE
DA QUE COMETEU CAIM. O FRATICIDA
JÁ NÃO MATA, APENAS, SEU IRMÃO.
AQUELE QUE MATAR PRIMEIRO MATA-SE
A SI PRÓPRIO, AUTOMATICAMENTE”.
8
E lembro-me de que Magog
não queria parar a sua fábrica
(de abismos)
sem que primeiro Gog
parasse a sua.
Agora, a dialética é a mesma.
Como escolher, entre Magog e Gog
quem jogue a primeira pedra
se, AUTOMATICAMENTE, o homicida
é um suicida?
Se Gog já é o fim de Magog, até
na última sílaba?
Se o começo já será o fim?
Se por mais que Magog dialogue
com Gog ou que Gog dialogue com
Magog,
quem o Abel? Quem o Caim?
Na manhã desestreladalva
só a certeza de que nenhum
dos dois
se salvará é que nos salva.
9
Só assim, na entre-es (p) fera,
e porque Gog não quer que Magog
vá primeiro à Lua
nem Magog quer que Gog o faça
antes dele,
os dois farão a viagem, juntos.
E antes que Gog afogue o mundo
em fogo ou que Magog em fogo
o mundo afogue, a Lua
os pacificará, com
a sua alvura, o seu pudor
de flor, o seu dom
poético-magnético
(mediadora única e mediúnica)
E o monstro de vidro, o Não-

Objeto,

morrerá por falta
de objeto.
E para gáudio das crianças:
a u t o m a t i c a m e n t e.
Nota do blogueiro:poema-libelo-civilizatório de Cassiano Ricardo
Leiam também: Ensaio para o Apocalipse, no blog Luz de Luma.
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PRESENÇA

Como opor ao pano de fundo da opaca eternidade,
A brevidade translúcida
Da vida?
E o que irá acontecer no próximo instante
Da minha,
Da tua,
Da nossa existência?

Isso importa mesmo saber?

Aconselho-te a soltar girândolas.
E a sapatear pela rua.
Deixar que o ritmo desse improviso,
Mais do que o das sístoles e diástoles,
Seja, em ti, um ondular dionisíaco e profundo.

Entre um passo e outro dessa dança cordial,
Habita, intraduzível, a vida.
Ela gira
E salta
E canta em ti.
És a agitação pulsante do divino sobre as águas.
És o fôlego no barro dessas moléculas.
És o fogo!
Só tu o podes sentir.
És essa sensação do apodítico.
Essa certeza túpida da tua própria respiração.
Essa vertigem de Ser.

Então, canta,
No âmbito estremecido desse instante!
Canta
E esquece a eternidade.
Canta e dança
E aquece-te à fogueira fugaz dessa presença:

A tua presença.

 

Lula Eurico – 26/06/2009

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Um peixinho na pedra: ou, a mitigação de danos no Campus da UFPE

Essa crônica me dói no fundo da alma. Ela surgiu no momento em que o Índio Batera, sempre ele, contou-me da cara de espanto das arqueólogas no LEDUP (Laboratório de Educação Patrimonial do Departamento de Arqueologia da UFPE), quando ele lhes descreveu a “pedra com peixe dentro”, que era guardada com muito orgulho, pelo  seu sogro, o senhor Bonifácio, morador do Arruado, já falecido.

Um peixinho tão bonitinho, professoras! Como alguém o colocou ali dentro? perguntava o nosso Índio, às professoras e mestrandas, que o olhavam, entre surpresas e curiosas.

Em verdade, as professoras sabiam que esse não é o primeiro fóssil de que se tem notícia, no Recife. O site G1 publicou a seguinte notícia, no ano de 2016:

“Morador da Zona Norte do Recife, o veterinário Alberto Campos, 45 anos, irá provocar o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) ainda nesta semana sobre um fato inusitado que constatou, ao caminhar pelo bairro dos Aflitos com os filhos. Alberto identificou centenas de fósseis em muros de residências e edifícios da região. A última descoberta – 15 peixes e uma asa de inseto encontrados em um muro de um dos prédios – foi a gota d`água. Segundo professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), são fósseis extraídos do Sertão, e de outros estados como Ceará e Piauí. “Estamos extraindo a história da humanidade para decorar nossos muros e casas”, lamenta o veterinário.”

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E mais:

“De acordo com a professora do Departamento de Geologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Alcina Barreto, os fósseis estão encrustados numa Pedra Cariri e pertencem ao período Cretáceo Inferior, com aproximadamente 110 milhões de anos. Mesmo com o inquestionável valor histórico das peças, a docente lamenta que esse achado seja comum de acontecer.

“Essas pedras são usadas, principalmente no Nordeste, como pedras ornamentais. A Pedra Cariri é um calcário laminado. Essas rochas representam uma decomposição de um grande lago que existiu no Sertão do Cariri, no Ceará. Existe lá uma excepcionalidade incrível de fósseis e todo mundo sabe disso”, explica Barreto.”

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Mas tudo isso é fichinha, diante da incrível história do sogro do Índio Batera. Não veio do cariri cearense, a pedrinha com peixe que ele guardava com tanto zelo. Seu Bonifácio, como tantos outros moradores do Arruado do Engenho Velho, trabalhou nas fundações dos primeiros prédios do Campus Recife da UFPE. E contava, nas reuniões de família, que, durante o trabalho do bate-estacas do prédio do Centro de Filosofia e Ciências Humanas, surgiam, dentro da lama que vinha lá do fundo da terra, umas pedras bonitas, de diversas cores. Sim, minha gente, era do CFCH, mesmo, a pedrinha com peixe! Bem debaixo do solo em que funciona o atual curso de Arqueologia. Uma ironia, pouco simpática, da natureza! Por isso, o espanto das professoras, ao ouvir o causo contado pelo nosso Índio Batera (o Rosevaldo Brito).

Fico imaginando que, naquela época ainda não havia o IPHAN, nem as preocupações com a mitigação de danos a sítios arqueológicos. Corria a década de 1950, creio eu. E o humilde e ingênuo servente de pedreiro, colocava nos bolsos do macacão, as pedrinhas que ia encontrando e as levava pra casa. Assim esses pequenos fósseis de peixinhos virariam, primeiro, brinquedos de seus filhos e, depois, objetos de estimação da família, mormente, depois de seu falecimento, há poucos anos.

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Olhando para essa planície retangular, de onde emergem os prédios modernistas, que hoje formam o campus da Universidade Federal de Pernambuco, fico a cismar, no que dizia o saudoso líder comunitário do Arruado, Maurício Peixoto: “o solo desse Engenho Velho é um mistério.”

Teria sido mar, essa planície, ou, pelo menos, uma imensa área de lagunas e igarapés, charcos e pântanos, onde se espalhavam as águas, hoje contidas, do rio Capibaribe?

A “pedrinha bonitinha com peixe dentro”, colhida pelo arruadense Bonifácio, por sinal, um dos filhos de Seu Manoel Quirino, primeiro administrador da UFPE, era um fóssil, talvez com milhares, quiçá, milhões de anos. E jazia sob o imenso prédio de Ciências Humanas… meu Deus do céu!

Ao ver, nos dias de hoje, o Arruadinho do Engenho do Meio, sendo espremido por prédios e por um estacionamento gigantesco, dá uma tristeza, uma raiva, um não-sei-quê…

Depois de 70 anos, a Universidade comete os mesmos erros! Não há um acompanhamento arqueológico das fundações dos novos prédios que ergue! Ora bolas! Estamos dentro de uma universidade, cheia de cientistas, paleontólogos, geólogos, etc. Não é um lugar ermo e distante, em que matutos ingênuos encontram fósseis e desconhecem o seu valor. Não! É a melhor universidade do Nordeste! Como pode?

Que valor tem para a história da humanidade um estacionamento gigante? Porém, o que existe sob o solo, isso sim, seria reconhecido pelo mundo afora, se se desse a importância ao trabalho da Arqueologia, cuja luta inglória pela mitigação dos danos ao sítio arqueológico dentro do Campus, eu disse, dentro do Campus, é atropelada pelo desenvolvimentismo cego e surdo da gestão ou de seus prepostos.

Quantos peixinhos fósseis, quantas urnas funerárias de aborígenes e de povos escravizados, a moenda, a roda d’água, a moita do engenho velho… tudo isso soterrado; antes, por um lixão, agora, pelo estacionamento gigante, patrocinado pelo MEC, com o dinheiro do povo.

É tempo de repensar tudo isso!

O Brasil jamais será uma nação civilizada, se seus centros de excelência em pesquisas ficarem omissos diante desse desenvolvimentismo cego e surdo. Demolir, aterrar, soterrar, eis o lema desses construtores acéfalos, que não conseguem entender o valor da história da presença humana sobre a terra, e, como dizia Albert Einstein, não precisam de cérebros para o seu ofício, basta-lhes o cerebelo.

Perdoem-me as palavras, que saem de um coração desolado. Em verdade, compreendo a necessidade do progresso, no entanto, nos países civilizados, a mitigação de danos é a prioridade, dentro e fora das universidades. Acorda, UFPE!

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Guararapes, um desabafo; ou, a vitória dos zé-ninguém

“a maior parte daquela gentalha e canalha se compunha de criados, mulatos e quejandos, gente que não tinha experiência no manejo do mosquete e do arcabuz, mais própria para serem escravos do que para a guerra” (relato de um flamengo).

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Eu não lamento, como muitos recifenses, terem sido os holandeses derrotados na batalha dos Guararapes. Não lamento, porque eu tenho orgulho de ser o que sou e do legado dos combatentes anônimos. Embora saiba que os dois lados de uma guerra trazem, antes de tudo, suas ambições comerciais. Apesar de entender que a restauração pernambucana escondia os negócios e interesses de João Fernandes Vieira, amigo e procurador do judeu Jacob Stachower, grande proprietário de terras. É notório o conhecimento de que os terços dos negros e dos índios não eram formados por idealistas, que lutavam de boa vontade. Nada disso! O que havia era uma situação forçada, pois era melhor ter o status de combatente, do que ser mero escravo. Sei de tudo isso, mas…

… que grande nação não passou pelo jugo de outra? Não esqueçamos, meus doze pacientes leitores, que toda a península ibérica viveu sob o domínio muçulmano, durante séculos. E foi apesar disso, que a Espanha se tornou Espanha e, Portugal, Portugal. O legado dos árabes faria um pouco desse Portugal das grandes navegações.

Deveríamos, então, escolher entre o jugo holandês, sob os olhos azuis e cobiçosos dos galegos da Companhia das Índias Ocidentais e os não menos ávidos olhos, já miscigenados e trigueiros, dos conquistadores portugueses. Optamos pelos últimos. Somos deles descendentes, também, pois o somos, antes, dos indígenas, e, em grande parte, dos povos negros escravizados. E, se lutamos juntos, por força das circunstâncias, sob a mesma bandeira, de que nos adianta agora imaginarmos como seria o Brasil sob os holandeses?

 

Temos de glosar a nossa derradeira circunstância, como um repentista glosa o mote forçado de sua gesta romançal.

E eis, que nos restou, sem outra alternativa, reinventar um país do futuro, com um povo que vive de esperança! Quantas batalhas teremos de vencer, nesse início do Terceiro Milênio, para sermos afinal uma nação do presente?

***

E todo esse preâmbulo, sobre o berço da nossa nacionalidade, sobre Guararapes, é pra dizer, ó meus doze leitores, que muito me aflige ver pessoas letradas a desdenhar dos descendentes daqueles que suportaram o peso de inventar o primeiro Brasil, genuinamente, brasileiro. Os sem pátria, os escravizados, os negros e os índios, são os verdadeiros heróis da restauração, em Pernambuco. A nacionalidade deu seus primeiros vagidos, entre os descamisados, os pés descalços, os pobres que lutaram em Tabocas, na Várzea, em Casa Forte e em Guararapes.

Guararapes foi a batalha dos zé-ninguém!

Mas, qual o motivo de tanto escárnio, de tanta prepotência de alguns estudiosos contra o povo, contra os humildes herdeiros daqueles heróis, fundadores da nacionalidade? Não é esse o povo que os sustenta?

Serei mais claro:

Quanto de nossa força de trabalho se torna impostos e tributos, que vão fomentar a máquina estatal?

Dizem que trabalhamos, todos nós, os assalariados, quatro meses por ano, para sustentar a gulosa máquina do governo, dos governos.

Somos nós, então, os iletrados, a massa ignara, quem paga as pesquisas, o ensino e a extensão das universidades? É isso mesmo? Somos nós, os que não sabem votar, os analfabetos funcionais, aqueles que quando compram o pão nosso de cada dia, pagam, embutidos no preço, 30% de impostos ao Tesouro? Lembremos que o Tiradentes foi condenado por lutar contra o quinto. E o quinto correspondia a 20% de tudo o que se produzia. Estamos, portanto, pagando 10% acima da derrama que vitimou o alferes! A que ponto chegamos? E é a força do nosso trabalho que paga pra sustentar essa teratológica máquina do Estado.

Então, me respondam, por que um punhado de intelectuais ousa chamar, a nós do povo, de estúpidos, de zé ninguém? Chamam de massa de manobra a quem paga os seus salários, as suas bolsas de mestrado e doutorado, muitas vezes, na Europa ou nos States.

Nós, que, no passado, formamos os terços de Guararapes, forçados, entre a cruz ou a espada; hoje somos, outra vez, forçados a pagar os estudos dos que nos xingam?

Acautelai-vos, ó, doutores de m..! Calai a vossa boca, de onde exalam maus odores! Não falem mal do povo que vos sustenta as benesses, os estudos e até os proventos!

A vocês, que torcem o nariz para os pobres do Brasil, dedico esse desabafo e um poema do poeta Thiago de Mello:

Deixa eu dizer teu nome, Liberdade,
deixa eu aprender teu nome novamente,
para que sejas sempre em meu amor
e te confundas ao meu próprio nome.
Deixa eu dizer teu nome, Liberdade,
irmã do povo, noiva dos rebeldes,
companheira dos homens, Liberdade.
Para que sejas vida e não palavra
que amanhece de luto nas paredes,
para que nunca mais sirvas de escamas
a recobrir o olhar dos que te sonham.
Deixa eu cantar teu nome, Liberdade,
porque te canto em nome do meu povo.

Thiago de Mello

 

P.S.:

Aos que ficaram sem entender essa postagem, lhes digo que não posso revelar o nome, ou, os nomes dos intelectuais que ousam desdenhar dos iletrados. Mas, ao lerem, com certeza, eles botarão a carapuça e saberão que é pra eles essa postagem revoltada.

 

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As chamas e os chamados: a arte das meninas do Arruado

A vocação, segundo Ortega y Gasset, “funciona como um apelo, uma inspiração originária para fazer isto, e não aquilo, se quero ser eu mesmo.” No entanto, a vocação não se impõe nem coage a pessoa. Somos inteiramente livres para aceitá-la ou não. A vocação propõe-se ao ser humano, dentro de suas circunstâncias. Portanto, denominamos, vocação, à voz que nos chama para nosso autêntico ser.

A resposta da pequena Bia, sobre o que as levou a realizar o teatrinho de fantoches do Arruadinho, foi singular e maravilhosa:

“a fogueirinha dos saberes reacendeu nossas chamas e eu fiz porque… deu na cabeça.”

Simples, assim! Mas tão complexo.

Relacionar as chamas ao decidir fazer, na cabeça de uma menina de 12 aninhos, não é qualquer coisa.

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Fogueirinha dos Saberes

Por isso, continuemos com o conceito de vocação, em Ortega y Gasset:

“O ser humano – isto é, seus dotes, seu caráter, seu corpo, – é a soma de aparatos com que vive, e equivale, portanto, a um ator encarregado de representar aquele personagem que é seu autêntico eu.”

E o que é esse personagem que a pessoa representa com seu verdadeiro eu?

Para Ortega, é um projeto vital. Mas não qualquer projeto, e sim aquele projeto que corresponde à minha vocação autêntica, aquela que eu tenho que ser.

Oxente, e desse jeito, tendo que ser, onde fica a liberdade da vida humana?

Nisto, diz Ortega: que nem a circunstância nem a vocação determinam a minha vida. Muito pelo contrário, minha vida se determina a partir da circunstância e da vocação que me são dadas.

***

Faço um parêntesis para lembrar do saudoso estudante de Biologia da UFPE, que, apesar de filho de uma catadora de lixo e vivendo em condições muito precárias, passou no vestibular de uma universidade pública federal. Foi tragicamente assassinado ao ser confundido com outra pessoa. Mas, enfrentou a sua dificílima circunstância, a ela impondo o seu projeto vital, a sua vocação, o seu chamado, ou seja, o seu autêntico ser.

***

Não é isso que se vê nessas meninas do Arruadinho?

Foi deveras surpreendente, para a sua pequena, mas especializada platéia, que contava com duas estudantes de Pedagogia e dois aprendizes da vida, ao redor da fogueirinha dos saberes, que ficaram extasiados com a desenvoltura dessas crianças notáveis.

Saibam que a pequena torda improvisada, com retraços de madeira e um velho e surrado TNT vermelho, foi construída por elas. Não só a torda, mas o roteiro e a adaptação de uma estória que leram num livrinho da nossa Geloteca (que orgulho!).

E mais: produção, direção e manipulação, tudo, tudinho só elas. E ainda nos confessaram que os adultos poderiam atrapalhar. rsrs Imaginem? E nós temos de aceitar isso como verdade. Nós iríamos atrapalhar sim! Tirem as suas conclusões, pelo vídeo abaixo.

Em verdade, as chamas e o chamado, ou seja o apelo, a vocação, a que alude Bia, em sua singela declaração do que a levou a fazer o teatrinho de fantoches mais lindo que já vi, revela que as circunstâncias, por mais desfavoráveis, não impedem que se faça o que se é chamado a fazer. Parabéns, meninas do Arruado! Estamos felizes por vocês!

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