O Engenho é velho e a gente vai ficando também!

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Seu Otávio, o caminhante, que, há 60 anos, todos os dias percorria o trecho do caminho colonial, entre o Arruado e a feira do Engenho do Meio, cansou. Está sentado em sua cadeira de balanço. Quando eu passo, ele me chama na grade do pequeno alpendre:

Seu Lula, quando volta a trabalhar? 

Em abril, respondo.

Eu quero uma carona até a feira do Engenho do Meio. Minhas pernas já não aguentam caminhar…

Sinto falta de suas tiradas durante a viagem matinal. Geralmente sobre a conjuntura política nacional. Ele, eleitor progressista, desde os tempos de Miguel Arraes, o pai Arráia.

Seu Lula, esse políticos nunca foram a um cemitério? Brigam tanto que parece que vão levar o dinheiro no caixão! dizia sorrindo.

Será que pensam que não fedem quando morrem?

 

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Seu Otávio, um bem humorado carona das minhas manhãs.

A senilidade nos estreita o horizonte. As limitações do corpo físico agora nos ensinam a lentidão, o deambular circunscrito ao derredor. A ribaçã fatigada volta ao ninho. Seu Otávio está com sintomas de depressão. Homem do comércio, do comprar e do vender. Há 60 anos negociava na feira. Os arruadenses conhecem bem esse ofício. Contava-me dona Angelina que atravessava a Mata do Curado, por uma picada estreita, junto ao seu pai, para vender a colheita, na feira de Cavaleiro. Légua e meia… dizia ela esticando o lábio inferior.  Agricultores e feirantes… O povo do Arruado é ligado à terra e ao comércio. Seu Otávio é um remanescente dos tempos em que se plantava, colhia e se ia vender nas feiras.

E agora, Seu Otávio?

Conversamos, num fim de tarde. Ele preocupado com sua banca de feira. Querendo voltar ao trabalho. Consegui para ele uma bengala de madeira de lei, encastoada, toda chique. Ele me disse:

Vou dar umas voltas pelo Engenho Velho, para desenferrujar.

Dias depois, Seu Otávio fugiu. Não se sabe como foi parar no mercado do Engenho do Meio. Fui até lá. Encontrei Seu Otávio sentando numa pedra, em frente de sua banca. Não havia nada para vender. Mas Seu Otávio não quer parar de trabalhar. Disse ainda ter forças e juízo bom para fazer contas. Tem apenas 79 anos. Seu Otávio é herdeiro de uma vitalidade de outros tempos.

Que fofo! diria uma amiga minha.

Mas a situação é difícil. Seu Otávio, ao que parece, já não tem capital de giro. Sua banca está falindo.

Falindo estão os seus membros inferiores. Dores terríveis o incomodam. Eu me compadeço e com ele me solidarizo. Também luto contra a senilidade. A idade avançada nos faz anquilosar. Em mim, aconteceu mais cedo. Uma cirurgia me deixou sequelas nos movimentos das pernas. A lentidão, a ancilose, me faz parecer mais velho. Porém, diferentemente do vizinho Otávio, não me preocupa a solidão de uma cadeira de balanço. A vida silenciosa do Engenho Velho me permite um mergulho profundo em meu interior. Sempre fui assim. Desde jovem, tive uma tendência para estar só com meus botões. Ler, escrever, meditar. Possuo, para minha felicidade, um mundo interior cheio de vida. Mas entendo pessoas ativas e inquietas como o feirante Otávio. Para essas pessoas, é muito penoso estar só.

Vejo a ansiedade de Seu Otávio, nessas tardes do Arruadinho. Ah, esqueci de dizer que ele regressou. Não tinha outro jeito. Apesar de ter muita boa vontade, isso só não basta. Quando o corpo pede, não há jeito. Espero que meu vizinho se acostume, como eu estou me acostumando a uma vida quieta. Tentarei puxar umas conversas de fim tarde, enquanto Seu Mica bota um baião de Luiz Gonzaga, na sua potente máquina de som. Afinal, há outras maneiras de aproveitar os dias longos e silenciosos do Engenho Velho… 

Chegou a hora de descansar das fadigas do mundo lá fora! É preciso saber envelhecer…

 

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As manhas da resistência, no Arruado do Engenho Velho

“É neste sentido que volto a insistir na necessidade imperiosa que tem o educador ou a educadora progressista de se familiarizar com a sintaxe, com a semântica dos grupos populares, de entender como fazem eles sua leitura do mundo, de perceber suas “manhas” indispensáveis à cultura de resistência que se vai constituindo e sem a qual não podem defender-se da violência a que estão submetidos (…)” (FREIRE, P.; Pedagogia da Esperança: um reencontro com a Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1999, p. 107.)

 

Das histórias que ouvi, desde que cheguei nesse lugarejo escondido no Campus da UFPE, uma que mais me encafifava era como essas 7 casinhas não foram demolidas com a ditadura. É de todos consabido o empoderamento dos barnabés dos órgãos federais, que rapidamente se bandearam para o lado dos militares. É triste também a história da expulsão de Seu Pedro, plantador da melhor macaxeira da zona oeste do Recife, por esses barnabés e pelos agentes da repressão, infiltrados dentro da universidade. Diz que a nora  de Seu Pedro enfrentou os repressores de peito aberto, sendo, por isso, algemada e presa.  Resultado: a demolição das casas da família, no lugar onde hoje estão a Concha Acústica e o Centro de Convenções. Se soubessem dessa história, muitos artistas brasileiros ali não se apresentariam.

Mas, como ficaram de pé as sete casinhas do Arruado do Engenho Velho?

Deduzi o motivo, das conversas com os mais velhos. Os arruadenses mais antigos, que souberam driblar as rondas da cavalaria do Exército, me diziam que os soldados apeavam e pediam água do pote. Os moradores não só davam água, como falavam do tempo, das colheitas e lhes  ofereciam um café coado. Os oficiais e praças, extenuados da cavalgada pelo velho Engenho, relaxavam e proseavam com aquele povo humilde.

Com vocês ninguém mexe! diziam, os milicos.

Eu, a princípio, fiquei achando que era por medo, ou por peleguismo, esse jeito amistoso de tratar os militares. Mas, ao ler essa epígrafe freireana, entendi que eram as “manhas da resistência” de um povo antigo e sábio, que vive há gerações nesse Engenho Velho. Povo que atravessou a a República Velha, a ditadura Vargas e o Golpe de 1964. Quem, de sã consciência, iria enfrentar, desarmado, as Forças Armadas no poder?

Enfrentaram alguns estudantes, alguns intelectuais, um punhado de camponeses e militantes arraesistas. Uns foram exilados, por serem de classe média alta, os outros, presos, torturados e mortos. E só esses, minha gente!

Oxente! Uns matutos urbanos, enclausurados no Campus Recife, no que restou do velho Engenho do Meio, lavradores da terra, arrendada pelos Amazonas… Quem tava doido de enfrentar a ditadura?

Café coado e conversa boa. Prosa no fim da tarde. Água fresca e sombra. As manhas da resistência cultural, eis a resposta do povo humilde do Arruado e de como estão de pé as sete casinhas, depois de tantos sitiantes expulsos do Campus. Quem se assustou, saiu!

***

Quando aqui cheguei, foi a primeira lição que aprendi. Eu, ativista cultural, cheio de góga, como se diz por essas terras, queria denunciar tudo. Botava a boca no trombone! No trombone da internet! E os arruadenses, ladinos que só, resolviam suas coisas, na manha, na conversa, no diálogo.

Aprendi logo a lição. Tratoristas, motoristas, encanadores, operários das obras… todos são gente como a gente, dizia Seu Mica.

Vou ali falar com Sebastião, que ele resolve, dizia dona Luiza…

Não adianta bater de frente, dizia-me Agnaldo.

E eu logo vi que o caminho do meio, do Engenho do Meio, era mesmo o da sabedoria popular: conversar, dialogar, negociar.

Foi quando nos aproximamos da Proext, hoje Proexc, cuja pro-reitora nos recebe a qualquer hora, as portas sempre abertas. Sei que várias pautas decididas antes do carnaval de 2018 estão num certo limbo… mas, conseguimos várias vitórias. A maior foi o desvio do emissário de esgotos, que passaria na frente do casario centenário e que agora passa pela rua da antiga sementeira.

Retomaremos, enquanto essa gestão ainda está aí, nossas conversas com a Reitoria, em breve. Com certeza seremos recebidos outra vez. O caminho do meio já sabemos qual é.

Eu só tenho a vos dizer que aprendi, e muito, com essa gente simples e simplória, detentora de saberes e fazeres antiquíssimos. Um saber que se construiu com sofrimento, com perdas, com lutas, com vitórias e derrotas, nesses mais de 100 anos desse  Arruadinho. Quem sou eu para querer ensinar santo a rezar?

E é assim que compreendo a maneira sutil e engenhosa com que os arruadenses sempre tratam das questões com a UFPE. E relembro  a Pedagogia da Esperança, do mestre Paulo Freire, que nos alertava:

“É neste sentido que volto a insistir na necessidade imperiosa que tem o educador ou a educadora progressista de se familiarizar com a sintaxe, com a semântica dos grupos populares, de entender como fazem eles sua leitura do mundo, de perceber suas “manhas” indispensáveis à cultura de resistência que se vai constituindo e sem a qual não podem defender-se da violência a que estão submetidos. Entender o sentido de suas festas no corpo da cultura de resistência, sentir sua religiosidade de forma respeitosa, numa perspectiva dialética e não apenas como se fosse expressão pura de sua alienação. Respeitá-la como direito seu, não importa que pessoalmente a recuse de modo geral, ou que não aceite a forma como é ela experimentada pelo grupo popular.”
(FREIRE, P.; Pedagogia da Esperança: um reencontro com a Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1999, p. 107.)

Um abraço fraterno a todos e todas que irão sonhar e esperançar juntos, nesse 2019, que só está começando. Afinal, já passou o carnaval!

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Amar – uma atitude política

 

“You may say I’m a dreamer
But I’m not the only one…” 

Vão dizer que sou um sonhador! dizia John Lennon.

Um romântico, já disse que sou, e por opção profunda. Aprendi esse modo de ser com o psiquiatra anarquista Roberto Freire.

Roberto aborda, em Ame e Dê Vexame, as dificuldades de amar, numa sociedade fundada na exploração e no consumo, que está em franca oposição aos sentimentos de uma vida amorosa e solidária.

Mergulhar profundamente no amor revela-se, com o tempo, na única grande motivação de se continuar vivo.

Mas como tirar o amor do cadafalso para onde está sendo levado? Como acenar para uma geração que se desmotivou, que se desencantou, em meio a uma psicosfera de ódio, em que as pessoas se digladiam na rede, no trânsito, nas escolas e nos lares?

Eu não tenho a fórmula mágica. Mas tenho um sonho!

Já estou com minha lança apontada para os moinhos de vento! E sonho que os jovens, mesmo os que se lançam em relacionamentos fugazes e hedonistas, temendo sofrer as desvantagens de uma convivência, que, no geral, está comprovadamente falida; sonho que é desses jovens, de uma geração, aparentemente, perdida, que surgirá a nova forma de amar. O amor desinteressado, libertário, com um viés de amizade e companheirismo  prazeroso. O amor como forma de atuação política, posto que é o amor que se contrapõe ao ódio!

Nunca existiram tantas formas de amor, como nesse início de século. Minha esperança é ver brotar um romantismo profundo, em que amar seja respeitar os limites do outro, sua história, seus medos, seus traumas, suas dores, seu corpo.

Sou um idealista utópico. Creio sim, no amor para além da cópula, do rápido instante de gozo. Creio numa parceria entre casais, de todos os gêneros, com toda maneira de amar, que nem precisa ser sob o mesmo teto, nem com contratos e registros, mas, em que estejam protegidos das vicissitudes da possessividade,  que levaram os jovens de todo o mundo a descrer do amor.

Eu sou da geração passada. Acompanhei as mudanças. Era um tempo em que o egoísmo machista se impunha sobre as mulheres. Principalmente, quando ele era o detentor do poder econômico. Conheci mulheres que iniciaram a luta contra essa forma de des/amor. Decerto, esse egoísmo não se restringe ao macho, mas a quem faz, em qualquer tipo de relação a dois, mesmo entre homo-afetivos, esse papel patriarcal, de dono do outro.

É chegada a hora de mudar essa história!

E, como eu disse, já estou com minha lança apontada para os moinhos de vento!

É chegada a hora de amar!

Amar, com amor profundamente romântico é se contrapor a essa onda de desamor que deprime, que desencanta e fez das relações, um fast food insensato e perigoso. Dia virá em que os jovens libertários desse tempo, se reencontrarão com a confiança, a cumplicidade, que os protegerá dessa sociedade sem sentimentos, sem esperança e sem amor.

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Arruadinho – um mundo para além do óbvio

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Cheguei no meio da luta. Corria o ano de 2014. O novos prédios do CTG ainda estavam nas fundações. Interditaram a rua para fazer o alojamento dos operários. Foi o estopim das atividades do MRP-Arruado, movimento de resistência que uniu as famílias remanescentes da Usina Meio da Várzea, em defesa de suas habitações.

Eu, que vinha de uns dissabores no Movimento Cultural da Várzea, precisava de um lugar para morar, para escrever, para retomar a luta. Foi bom para mim e espero que, para a comunidade também.

Era algo insólito. Lutar contra uma universidade pública. Mas, ladeado pelo saudoso morador, Maurício Peixoto, amigo de 40 anos, fiquei. Minha presença levantou suspeitas. Era apenas um forasteiro.

Tudo o que não é comum, no entanto, assusta qualquer comunidade. eu sei. Poucos entendem que há um mundo para além do óbvio, para além do meramente objetivo. Qual de nós há de dizer que não está inserido num mundo padronizado? Estamos instalados confortavelmente numa ordem de coisas que se repetem há gerações. Repetimos chavões e clichês seculares. E é por isso que nos assustamos com o diferente, com a novidade. A zona de conforto é esse mundo óbvio e organizado, em que nos resignamos.

Dia desses ouvi de uma pessoa querida, que não entendia quando recebia mensagens poéticas ou românticas. Que a poesia servia para a vida e tal… mas, objetivamente, para que servia, no contexto da vida? Qual a utilidade da poesia?

Aproveito o espaço dessa cronica de diletante para responder a essa pessoa. Não há nenhuma utilidade na poesia! Do ponto de vista utilitário, ela não serve para nada! E é por isso que, segundo Alfredo Bosi* ela ainda não foi arrastada pela indústria cultural. Nas livrarias, o que vende é livro que ajuda na realização profissional, no sucesso, na forma mais rápida de ganhar fama ou dinheiro. Livro de poemas, fica jogado a um canto. Só vendem os monstros sagrados e, mesmo assim, quando alguém sensível ou apaixonado decide ler ou presentear com poesia. Isso me faz pensar a quem estamos servindo?

Essa é uma sociedade do lucro pelo lucro, que coopta sua juventude para a competitividade. E, como escasseiam os empregos, o jeito é correr para os concursos públicos e tudo o que envolve essa disputa, que, em verdade, não é nada poética. Mas, a juventude precisa de grana, de emprego, de pagar as contas. Né?

Haverá um lugar para os sonhadores, os românticos, os poetas? Seremos todos lunáticos?

Por isso há muito vazio lá fora e muita angústia por dentro.

Mas, de que falávamos, mesmo?

Ah, da luta. Do início da luta no Arruadinho!

Eu vos direi, no entanto, que sem poesia, sem loucura e sem lunáticos, não há luta que se sustente. Os jovens, os que têm juízo, entram no mercado de trabalho e somem. Casam, têm filhos, e se adequam ao mundo normal. Os idealistas somos loucos de pedra! E, invariavelmente, terminamos sós!

Entrei na luta pela posse da terra, do casario e reconhecimento da memória dessa gente humilde do Arruado do Engenho Velho da Várzea, justamente porque sou um sonhador. Porque vivo para além do mundo óbvio. Esse mundo cartesiano, quadriculado, com tudo pronto, sistematizado, não me cabe. Nunca me coube. Sou intenso, mesmo agora quando as forças físicas já são escassas, quando o corpo sente a chegada da senilidade. Sou romântico por opção profunda, como dizia o psiquiatra ou anti-psiquiatra, Roberto Freire, em seu Utopia e Paixão. E hei de morrer sonhando!

Novos sonhadores, no entanto, vão surgindo e se juntando à luta. E todo aquele que não aceita envelhecer e morrer num mundo engravatado e doente, servindo a essas forças que agora chegam ao poder no país, está convidado a vir para o front, aqui e agora, no Arruadinho,  esse meu mundo para além do óbvio!

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* “..Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender.”…[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

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O fim das cigarras do Arruadinho

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A caixa de comando das bombas hidráulicas

Por esses dias, fui abordado por Dona Luiza, uma das matriarcas do Arruadinho. Ela costuma trazer carambolas para os jabutis, que moram no meu pequeno jardim, à beira do Caminho Colonial. Eu estava saindo para trabalhar, quando deparei com ela, na porta de casa. Murmurou, como é de seu costume, um de seus comentários, como se falasse com alguém distante…

“Agora, eu que já passo a noite ouvindo o meu radinho de pilhas, tenho de ouvir o som dessa máquina do prédio novo; às 4 da madrugada, ela me acorda .”

Dona Luiza sofre de insônia. E já tinha reclamado do canto dos galos, fora de hora. Esses galos daqui não têm relógio, dizia, entredentes. De tarde, do zumbido renitente das cigarras. E eu que sou poeta e romântico por opção profunda, achava bucólico, o canto dos machos a tentar seduzir as jovens cigarras, para o acasalamento.

Esse zumbido das cigarras é chato demais.” resmungava, dona Luiza.

No entanto, nada poderia ser pior do que o barulho persistente dos motores da central de ar-condicionado do prédio da Engenharia de Produção.

A casa de dona Luiza é a primeira edificação do Arruado histórico. Diz que era o posto de saúde dos operários da extinta Usina Meio da Várzea. É, portanto, uma das que mais sofre com a barulheira das máquinas.

Não sou versado em poluição sonora, mas acredito que não só os moradores, os humanos, sofrem com o ruído desses motores. As próprias cigarras devem se confundir ou não escutar o zumbido do flerte dos machos, no fim da tarde. Sem o namoro sonoro, temo pela extinção das cigarras do Arruado.

Tem mais: a dificuldade auditiva pode prejudicar as habilidades de caça dos gatos do Arruado. O barulho assusta os cães da rua. As aves, que dependem de um som característico, para acasalar, também podem ficar incapacitadas de ouvir os pios enamorados dos machos, devido ao barulho excessivo produzido pela casa de máquinas do novo prédio.

Posso estar dramatizando. Mas há estudos nesse sentido. O ruído prejudica o ecossistema e afasta certas espécies do tranquilo habitat, que eram os quintais arborizados desse Engenho Velho.

 

Dona Luiza, há mais de setenta anos nesse lugar, diz o que aflige o seu coração. Aquela “desnatureza” que comentei em outra dessas crônicas de diletante, vai afugentando insetos, aves e felinos. Vai desequilibrando o ecossistema do Arruadinho. E prejudicando o sono e a saúde dos moradores. Por que não se pensa nisso ao fazer um projeto dessa envergadura? Por que as máquinas e o lixo estão voltados para esse trecho esquecido do Caminho Colonial da Várzea?

Há muitos porquês! E poucas respostas!

Quem se preocupa com com essa gente pobre, com plantas, aves, cães, gatos e cigarras?

Os docentes, dentro do gabinete ou do laboratório, com seus alunos, deleitam-se com o clima do ar-condicionado. Parece que não fazem parte da natureza, nem do planeta, tampouco da vida! Como bem diz, Seu Otávio do Arruado, feirante antigo do mercado do Engenho do Meio: acho que essa gente pensa que não fede, quando morre!

 

 

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A Desnatureza atinge o Arruado

 

 

Nas fotos, o verde do Arruadinho contra o concreto da UFPE

 

Contava-me um aluno da UFPE, turno da noite, que, dia desses, resolveu passar nas turmas da manhã para convocar os alunos para um ato político em que denunciaria a falta de iluminação, como um dos motivos dos assaltos e estupros, dentro do campus Recife. Segundo ele, não houve adesão da grande maioria. Percebeu que alunos da manhã não se preocupam com a iluminação do Campus. E nem estão aí para os que estudam à noite. Empatia zero!

Dizia-me isso, retrucando a minha proposta de criar uma Brigada Ambiental, para defender o resto de área verde que ainda existe no campus, especialmente no Arruado do Engenho Velho, essa comunidade fincada dentro da Universidade, em que resistem algumas famílias, em precárias condições, apesar da tentativa de reintegração de posse, frustrada por acórdão do STJ, em meados de 2007.

Se, como me contou esse aluno, o alunado da manhã não se preocupa com as questões dos colegas da noite, como conseguir ativistas ambientais, dentro do Campus? No máximo, há defensores de cães e gatos. E olhe que são poucos!

Isso até parece uma patologia, uma “desnatureza”, como diz o poeta. E somos desnaturados, mesmo. Somos indiferentes com a mãe-terra. Só lembramos dela nas tragédias, como as de Mariana e Brumadinho. Mas, no nosso cotidiano, fazemos pequenas crueldades com o meio ambiente. Basta olharmos para o nosso Rio Capibaribe. Quantos pneus atolados na lama preta! Quanto lixo, saindo das sarjetas? “Uma coisa que mete medo, essa desnatureza!”

Somos nós, esse lixo. Somos essa necrópole nauseabunda, à beira do rio, de cada rio, por todo o Brasil. Erguemos túmulos ribeirinhos e os batizamos: cidades!

***

Pois bem. Essa semana soube que há uma pessoa derrubando árvores, nos quintais do Arruadinho. A desnatureza, como disse, já chegou em nossa comunidade. Uma falta de consciência sem tamanho!

Mas, como exigir isso, consciência ecológica, dos simplórios moradores do Arruadinho, se ninguém está se lixando para a natureza. Ninguém, inclusive os governantes. Nem o ministro do meio ambiente, (assim, com minúsculas, mesmo!), tem noção de sustentabilidade e coisas do tipo.

A novidade é o auto-licenciamento ambiental, proposto por esse ministro imbecil do novo governo. De onde veio esse asno? Claro que só poderia ser ministro dessa corja que ascendeu ao poder, pelo voto do ódio, o voto do “vamos metralhar a esquerda”; corja que agora já mostra a sua verdadeira cara; protetores dos milicianos do crime organizado do Rio de Janeiro.

Essa desnatureza, gente!, não é só no Arruadinho! Está, infelizmente, desgraçadamente, espalhada por todo o território nacional! O cerne desse novo governo é a morte! Aquele símbolo dos dois indicadores, imitando armas, apontava para toda a nação! Morte da floresta, dos rios, das populações indígenas e quilombolas. Morte e, não, Vida! Mas, se tivermos de morrer, morreremos lutando! A Vida há de resistir e vencer! A Natureza é maior do que a nossa desnatureza!

Valha-nos, o bom Deus, que a luta continua!

 

 

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Voltei, Olinda!

“Todo mundo me dizia que a La Ursa não saía (…)” (Domínio Público)

 

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Todo ano eu digo a mim mesmo que não vou brincar. Não aguento mais a festa oficial, gerida ao bel prazer dos gestores públicos e dos políticos. Desde criança tive meu próprio brincante: uma la ursa de estopa e retalhos coloridos, com uma orquestra de latas de leite em pó. Éramos leves e livres, batucando nas latas, sem roteiro e sem horário, sob o Sol a pino do bairro do Curado, ah que saudade!, quando ainda eram as ruas carroçáveis e as cercas de crotes e papoulas, percorríamos cada beco e viela, com o refrão de “a la ursa quer dinheiro e quem não der é pirangueiro.”

Bons tempos idos!

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Entrudo – Debret

Não é apenas saudosismo. Muito menos passadismo. Há mesmo um folguedo introjetado em minha alma, que vem de tempos imemoriais. Trago um entrudo, uma mascarada; a dança na sala (sim, era dança e não passo), os frevos de Capiba, na voz de Claudionor Germano, ecoando em meus mais sensíveis sentidos, não só no ouvido, mas, por todos os poros. Há cheiros, odores, perfumes. Há lembranças tácteis. Talco, esguichos das lanças, suores, a flor no cabelo das moças… O baticum dos tambores, as batucadas, os maracatus, as troças. Os caboclinhos, ah, com as indiazinhas seminuas, a estalar seus arcos e flechas…

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Eu não vou mais acompanhar isso que chamam polos descentralizados. Essa engenhosa forma de ganhar votos, premiar cabos eleitorais, que se acham poderosos e bajulam as estrelas, enquanto oprimem as pequenas agremiações. Todas se dobram aos humilhantes cachês, que só serão pagos perto do Natal. Ah, se soubessem a força da cultura genuinamente popular!

Esse ano, não vou mais! Reaprendi o caminho das Olindas! O caminho do carnaval espontâneo, que enche as ladeiras de gente animada e festeira. Saudade dos meus quatro anos felizes, quando morador do sítio histórico. Lá ainda mora meu amigo Carlinhos do Amparo, advogado dos lúmpens e das meretrizes, poeta notívago e folião dionisíaco, desde as prévias, até enquanto tiver carnaval. Vou pra lá, rever meus amigos da Rua Sítio das Quintas, onde dizem que tem um poço que remonta aos holandeses, mas tem também uma fonte que jorra água que passarinho que não bebe!

Perdoem-me os blocos líricos, os belos cortejos das pastorinhas, mas, não dá mais pra segurar! Não serei mais submisso ao “carnaval oficial”, esse que suga as energias das pequenas agremiações, surgidas nos bairros e faz a festa para turistas assistirem, nos camarotes. Tou fora!

Nem quero falar do Clube de Máscaras Galo da Madrugada, que, desde seu segundo ano de desfile, 1979, acompanhei, bem cedinho, pelas ruas do bairro de São José. Nem quero falar, porque virou “bloco”, e, depois da morte de Seu Enéas, o eterno presidente, perdeu a sua maior característica: só tocava frevo! Acabou-se! Nem falo mais. Vou pra Ceroulas de Olinda, que tem frevo e é bem melhor!

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Simbora pras Olindas! “Sem lenço e sem documento!” como dizia o poeta!

Esse ano eu vou brincar, sim! Mas, sem agendas, lá nas Olindas!

Voltei Olinda, foi a saudade quem me trouxe pelo braço!

 

 

 

 

 

 

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