Gonzagão no Arruadinho

“un modo de vivir la historia es contarla” (UNAMUNO).

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Cheguei no fim da tarde e encontrei, para minha surpresa, as crianças cantando baiões. Os mesmos baiões que eu ouvia há 50 anos atrás. As modinhas, antigas que só, eram entoadas em uníssono, acompanhadas pelo baticum de um balde de plástico. Xodó, fogueira, judiação, braseiro, alazão… palavras e versos de uma arraigada tradição popular, que, com surpresa, mas com alegria, ouvi das crianças do Arruadinho.

Talvez por isso, enquanto parava o carro, sob a sombra das árvores centenárias, os versos do velho Lula foram me remetendo à força daquela tradição comunal, daquela história forjada anonimamente, a força da intrahistória, da tradição viva e presente, conceituada por Dom Miguel de Unamuno, como o conjunto de acontecimentos da vida ordinária e tradicional das pessoas, aquilo que não sai nos grandes meios de comunicação ou que passa despercebido, mas que funciona como pano de fundo permanente à História oficial. Também se pode referir à história dos coletivos marginalizados, da gente e povos sem História, dos ‘zé ninguém’.

As crianças cantavam Gonzagão…

E o poeta maior, Carlos Drummond de Andrade, nos diz, num poema famoso, que não quer cantar um mundo caduco, tampouco um mundo futuro. Sua poesia fala da vida presente. Disso que agora nos acontece, sob o Sol. Esse mesmo Sol que faz acordar os trabalhadores e trabalhadoras, todos os dias, para ir às fábricas e aos roçados. O mesmo Sol que vai se pondo sobre o caminho colonial da Várzea, onde as crianças cantam Asa Branca. Aqui residem as famílias renitentes, dos que suportaram as pressões e ficaram nesse Engenho do Meio da Várzea. Os Souza, os Conrado, os Melo, os Zacarias e os Paixão e algumas outras famílias, remanescentes dos antigos sitiantes, do que restou das terras do velho engenho varzeano.

As crianças cantam baiões…

De onde saiu essa ideia de cantar Gonzagão, se até um dia desses eu as via dançando as novidades da mídia? Danças em que só a flexibilidade dos seus músculos e juntas, conseguem executar. Acocoram-se e levantam-se, agilmente, na batida/pancadão dos MC’s.

“Seu Lula, o senhor pode nos acompanhar ao violão? Faz tempo que o senhor nos prometeu.”

“O violão está quebrado. A quarta corda não consegue afinação…”

“Ahhh… conserta, conserta, vai!”

Eu não quis dizer que aposentei o violão, que mal sei arranhar. Mas, se é Gonzagão, harmonias simples e belas, como costumam ser as coisas da música popular nordestina…

“Eu vou tentar. Não prometo. Mas, vou tentar.”

A tarde vai cedendo lugar à noite. Entro em casa e fico saboreando aquelas canções do velho Lula, que insistem em estar em nosso tempo presente, apesar dos modismos, da aculturação, da força da indústria cultural e do capitalismo que a domina. Luiz Gonzaga não morreu…

As crianças cantam.

Eu também.

“Faz escuro, mas eu canto.”

Meu cantar é resistência popular!

***

*

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TRÍBIO – poema epígrafe

MEMORIAL DO ENGENHO VELHO

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I
Buscando mitologemas,
algum vestígio e sinal,
mitemas desse arruado
arcaico e cult/rural…
Entanto, buscando, nele,
o que é tríbio e tropical,
o passado que é presente,
o outrora/hoje, a intra-história,
a sépia que adorna o Agora:
esse arruado atemporal…

II
Um objeto mestiço?
Um indício,
um mito ancestral?
Um totum, um totem,
um resquício de algum rito inaugural
um uso ainda vigente,
algum costume avoengo
algo antigo, inda inerente
ao dia a dia das gentes
desse arruado atemporal…

( Lula Eurico )

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A propósito da Semana do Patrimônio, ou, O mel é doce, mas o suor, salgado.

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Não se deve expor as vísceras de uma comunidade. Tampouco exibir ao público seu lado sombrio. Afinal, por todas as partes do planeta há de existir o conflito, a crise, a violência. Quantas coisas vis, se escondem nos lares recatados das melhores famílias. A dor está no palafita, mas também no sobrado, no flat, na torre de 40 andares e na chácara distante. Por conta disso, a depressão, as fobias,  o desespero e os saltos para a morte. Ai, meu Deus, e o nefando feminicídio. O abominável estupro de vulneráveis. Jesus Cristo!

É por essas e outras que uma narrativa de pertencimento, de memória e empoderamento passa ao largo das mazelas nossas de cada dia. Nessas minhas crônicas de diletante, especialmente, nas que tratam do velho engenho varzeano, onde hoje habito, não há espaço para as agruras da vida. Mas que elas existem, ora se existem. Existem sim.

E quantas dores estão gravadas na alma dessa gente humilde. Quantos foram escorraçados de seus lares, por gestões desumanas, ditas pragmáticas, dessa cidade universitária. Eu digo que uma pequena diáspora aconteceu aos sitiantes e lavradores das terras desse Engenho do Meio da Várzea. A expulsão de Seu Pedro das Macaxeiras, jamais será esquecida, pela violenta e arbitrária forma como aconteceu e pelo fato de ser comandada por agentes da repressão. Na ditadura, a universidade andava cheia de lacaios civis ou milicos disfarçados de funcionários. Era dureza! Já lhes contei em outro lugar, que a nora de Seu Pedro resistiu à derrubada das casas da família humilde e saiu daqui algemada. A plantação de macaxeira deu lugar ao belo Centro de Convenções e à Concha Acústica, que, se muitos artistas disso soubessem, nem botariam seus pés naquele palco. Seu Pedro morreu pras bandas de São Lourenço, desgostoso e triste…

Isso… Essas lembranças dolorosas são patrimônio?

Ora, são memórias da comunidade. E assim sendo são patrimônio, sim.

Fico inquieto, quando estou prestes a fazer um evento, porque nele vou buscar o espaço para as memórias tristes. Precisamos relembrar certos fatos para que não mais aconteçam. Para que as novas gerações se apropriem dessa verdade vivida e sofrida, mas,  ocultada pelos vencedores.

A Semana do Patrimônio no Arruado do Engenho Velho vai mostrar os artefatos arqueológicos, mas insistirei em lembrar que tais relíquias foram produzidas por homens e mulheres escravizados, aqui e alhures. Que é o trabalhador anônimo que constrói capelas, moitas, almanjarras, casas grandes e senzalas. O mel é doce, mas o suor, salgado. Quem produziu e produz o patrimônio desse país é a classe trabalhadora. O artífice, o artesão, a lavadeira de roupas e a costureira, o camponês da palha da cana, a tecelã, o caldeireiro, o maquinista… o trabalhador e a trabalhadora. A eles e elas, toda honra, toda louvação, todos os aplausos!

Porém, contudo e todavia, reclama, com justa razão, o pesquisador Átila Tolentino, em seu artigo, O que não é educação patrimonial: cinco falácias sobre seu conceito e sua prática:

“(…) a maioria dos patrimônios culturais tutelados pelo Estado está carregada de bens representativos de nossa herança europeia (…) composta de casas de câmara e cadeia, engenhos, igrejas católicas e fortalezas militares; (…) que os bens tombados trazem em sua narrativa de brasilidade um reconhecimento do périplo colonial lusitano temperado com curiosidades etnográficas e folclóricas dos elementos indígena e africano. Além do mais, nessa narrativa, não se concebe que índios e negros possam ter idealizado ou mesmo arquitetado artisticamente os monumentos edificados, pois supostamente há uma oposição entre a intelectualidade e a criatividade civilizatória versus o suor e o trabalho braçal indígena e africano nesses bens de pedra e cal. (…)”

Como eu disse acima, o doce mel do engenho não surgia de alguma mágica, mas, do suor dos homens e mulheres que o fabricavam.

Assim, não se deve esquecer que o patrimônio do Engenho Velho é seu povo, como dizia o saudoso líder comunitário Maurício Peixoto. Assim também é o povo, o patrimônio de toda essa nação, que hoje está sendo vilipendiado por uma direita gananciosa e cruel. O pranto dos trabalhadores mais humildes já se ouve nessa cidade universitária. Os nossos irmãos terceirizados foram as primeiras vítimas do corte de verbas da Educação. A direita privilegia os ricos e afunda suas garras de rapina, na carne dos pobres e desvalidos. Balançam os traseiros para Tio Sam e desgraçam a vida dos brasileiros!

Todavia, somos nós, o patrimônio dessa nação. Somos o povo. Mesmo os que foram cooptados pelas mentiras virtuais e votaram no miliciano carioca, já sentem a extensão de seu erro. Mas, gente, os desempregados não têm cor partidária. São todos nossos irmãos. E a dor vai ensinando a gente a votar…

E, finalmente, hoje é dia de lembrar um mártir da ditadura. O nosso padre Henrique Pereira. Seu corpo torturado e covardemente assassinado, foi encontrado aqui, nos canaviais do Engenho Velho. A criançada da foto acima é toda arruadense. Alguns deles ainda estão por aqui, com a morte em suas retinas. E morte de padre. Numa madrugada de 26 pra 27 de maio de 1969, tombava o jovem sacerdote, deixando seu sangue misturado às terras do nosso engenho.

É essa triste lembrança um patrimônio?

Paz e bem!

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As núpcias das vespas com as orquídeas, no Arruadinho da UFPE

Esta galeria contém 9 fotos.

Publicado originalmente em UM CRONIST'AMADOR:
? Tardes quentes, mormaço, a ventania e a poeira… uma chuva de folhas miúdas que caem da tamarineira e atapetam o velho caminho. Medito sobre o ostracismo. Morar no Arruado é experimentar o confinamento…

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As havaianas, Capiba e a resistência cultural, no Arruadinho

Esta galeria contém 5 fotos.

Publicado originalmente em UM CRONIST'AMADOR:
Exposição de Carnaval, no hall da ProExt/UFRPE (Curador: Rodrigues) ? Não lembro bem onde li a história de um lugarejo em que comer era pecado. Se foi em Reich ou em Borges, ou ainda…

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A risada da moça e a idade do Engenho

É antiquíssimo, o dito de que “o ser humano é o único animal que ri”. Remonta, esse dito, aos peripatéticos ensinos de Aristóteles, filósofo que sempre achei muito sisudo. (rsrs) Já Henri Bergson, outro filósofo, em seu Le Rire, (O Riso), vai além, e afirma que não somos apenas a única espécie que ri, mas a única espécie que “faz rir.” Para Bergson, o riso é um gesto social, a expressão de um modo de entendimento e mais alguma coisa que não cabe nessa crônica.

Decerto, o riso se nos escapa, quando nos tira dos nossos automatismos mentais, nos surpreende, por exemplo, quando alguém, muito ingênuo ou simplório, nos apresenta suas crendices, suas verdades escalafobéticas, seus, assim chamados, mitos, baseados no senso comum.. Rimos também das gracinhas de uma criança, suas primeiras descobertas, com um outro riso, mais puro, inocente, talvez.

É claro que foi por muito saber, que a moça deu uma risada gostosa, quando, em breve conversa, durante a Mostra “Arruado”, eu falei da idade daquele caminho em que estávamos pisando. Deduzo isso pelo porte, pela classe e elegância da jovem, que doravante vou chamar de Irene, embora seu verdadeiro nome derive mais do cancioneiro do Dorival, do que do Caetano. Usarei esse codinome, no entanto.

Irene deu uma risada espontânea e natural, mostrando uma dentadura perfeita. Não foi uma gargalhada, coisa exagerada e vulgar. Foi uma risada elegante e contida. Nada afrontosa ou aviltante. Portanto, nessa crônica não vai nenhum laivo de ressentimento. Tampouco, ironia. A risada de Irene é o mote perfeito para ilustrar o desconhecimento que a universidade tem do Engenho Velho, sendo ela, a Irene, uma ex-aluna. No entanto, eu também, amiga, já estive nessa ignorância e olhe que eu vim a muitas festas no chalé de dona Inez, a mais idosa matriarca do Engenho. E, como você, nada sabia do Arruado. Jamais tive a curiosidade de conhecer o casario.

O Arruadinho fica invisível aos olhos. É preciso um esforço no olhar, para perceber sua existência. E o que dizer desse caminho de terra, sem cuidados, sem beleza, jeito de roça ou de mato? É deveras risível, essa estrada carroçável, querer um status de história, quando todas as ruas do Recife, ou quase todas, também viram as botas dos batavos. Eu também riria, se me contassem que esse caminho está assim traçado há quase 400 anos. E, como bom devoto de São Tomé, pediria provas. Foto em preto e branco do Príncipe Nassau fazendo seu cooper matinal, nesse caminho? Tem? Então não me venha com churumelas! (rsrsrs)

 

Mas, agora, falando sério: há provas documentais da idade do caminho colonial em que estamos pisando, Irene. Aliás, minha amiga, você tem o perfil de uma jornalista investigativa. Tua risada foi de um certo ceticismo. Por isso, vou tentar provar por A mais B, que é risível, mas é verdadeira, a narrativa que venho defendendo nessas crônicas de diletante.

Um certo professor chamado Levy Pereira, natural de São Paulo, mas, radicado no Rio Grande do Norte, teve a feliz ideia de fazer a superposição dos mapas de George Marcgrave, cartógrafo da comitiva de Maurício de Nassau, com o nosso moderno GPS, ou georreferenciamento por satélite. Ele queria encontrar os vestígios dos caminhos usados pelos holandeses, para inspecionar as terras invadidas, nos idos de 1630.  O nobre professor obteve êxito, principalmente, na observação do caminho a oeste da cidade do Recife. Há ainda um trecho do acesso por terra aos engenhos da várzea do Capibaribe, que está com o mesmo traçado do tempo dos holandeses. É o caminho em que está erguido o casario do Arruado, que cruza o campus Recife, da UFPE.

Outro professor, o nosso Luiz Severino da Silva Junior, o Lula Biu, hoje radicado em Petrolina, na esteira dessa pesquisa por georreferenciamento do mestre Levy Pereira, fez um estudo minucioso desse caminho colonial da Várzea, estudo esse que tivemos a oportunidade de conhecer no Simpósio de Arqueologia de Engenhos da UFPE, no ano de 2015. Depois de intensos e fecundos debates com a equipe do Laboratório de Educação Patrimonial de Arqueologia da UFPE, a hipótese de trabalho do Luiz Severino foi aceita e novas escavações foram retomadas no sítio arqueológico do Engenho do Meio, cuja sede ou casa grande, ficava situada à margem do caminho colonial da Várzea.

Assim, a reaproximação da comunidade com os arqueólogos foi desvelando uma história que vinha embasar as memórias e narrativas orais dos moradores e moradoras mais antigos, cuja fala referia um casarão e a chaminé da extinta usina que sucedeu o velho engenho de fogo morto. Novos estudos estão sendo feitos e há até um projeto de criar uma alameda, com árvores margeando este caminho colonial do Engenho do Meio.

Finalizo, com o interessante passeio de drone, feito pelo arqueólogo-pesquisador Nicodemos Chagas, que se utiliza do método de georreferenciamento para explorar o sítio arqueológico do Engenho do Meio, mais propriamente, o riacho Cavouco.
Nesse vídeo há uma excelente imagem do caminho em que se ergue a nossa comunidade.

Na tarde dessa quinta-feira, 16 de maio, tivemos a mostra fotográfica “Arruado”, que nos trouxe gente de diversos cursos da UFPE, num momento de integração entre os saberes diversos, propiciando encontros e descobertas. A mostra celebrou os 5 anos de lutas do MRP, junto à comunidade do Engenho Velho da Várzea.
Foi nessa tarde memorável, que a risada questionadora da Irene nos instigou a escrever essa crônica de diletante.
Torcemos para que jovens como ela voltem mais vezes, a esse lugarejo centenário, trazendo a alegria inspiradora, tão própria da juventude. E, parafraseando o poeta do recôncavo baiano:

“Queremos ver Irene dar sua risada!”

 

Obs.: no fragmento do mapa de G. Marcgrave, acima, o nosso engenho do Meio ainda se chamava de S. Carlis ou São Carlos.

 

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Primeira reunião do MRP-Arruado

O facebook me trouxe esse momento encantado, do nosso primeiro aniversário de lutas. A reunião num sábado de manhã, de 16 de maio de 2014, no quintal dos Souza.

 

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