O Beija-flor

O Beijaflor Emanuel

Beija-flor – Emanuel Bezerra de Brito

 

I

O Beija-flor
beija a flor
inteira e não-conotativa.
Beija a realidade, flor sem artifícios.
Beija, o Beija-flor,
o cerne mesmo da Flor.

II

( …era o meu intento envasar o aroma
dessa despetalada Flor, numa redoma).

III

A Flor e esse cativo Beija-flor
(fabrico-os dessa matéria plástica e furta-cor)
A flor, a derradeira e inculta.

A Flor.
(
…e em suas pét’las
errático,
um beija-flor,
flâneur vibrátil,
floreteia,
oral e erétil,
à flor,
à ineffabile e bela flor
do Lácio
)

 

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Anísio, o Magnífico e o casario do Engenho Velho

Lembro de um conto árabe que li em algum lugar, quando criança. Diz que um desses marajás, sultão muito abastado, resolveu construir o maior e mais suntuoso palácio daquelas plagas, bem ao lado de um humilde casebre. O motivo, dizia ele, era para que fosse lembrado não só pela sua riqueza material, mas pela sua justiça.

Eu, menino-pequeno, ficava impressionado com essa história de benevolência e riqueza. O sultão era tido como um homem muito sábio, justo e generoso.

Quando me veio a maturidade, foi que percebi a contradição imensa dessa pequena história. Como um sultão tão justo e sábio suportaria a miséria dos seus vizinhos, sem mover uma palha para melhorar a vida dos moradores do casebre? Ora, se ele tinha o poder, a sabedoria e a riqueza, por que razão não fez do casebre, uma casa, tirando os seus vizinhos da vida miserável que contrastava com o luxo de seu palácio?

Ontem, o Globo Repórter mostrou as tapeceiras do Irã. Mulheres sentadas por 8 horas seguidas, todo dia, durante mais de um ano, para fabricar um único tapete persa, cujo valor de mercado era de aproximadamente, 300 mil reais.  As imagens mostravam a simplicidade, quase pobreza, daquelas famílias de tecedeiras persas. Muito lindos os palácio adornados pelos tapetes, que as imagens da Globo nos mostraram durante o programa. Parques belíssimos, com fontes e lagos. Mas foi a imagem das fiandeiras, sentadas num banco duro, traçando os fios de seda dos tapetes, foi essa imagem que mais me tocou. A mais valia estava evidente no preço do trabalho daquelas mulheres, em relação ao lucro dos atravessadores do comércio de tapetes.

O Irã é um país milenar, com um povo que ama a sua cultura. Um país rico e cheio de contradições, com uma capital que tem 14 milhões de habitantes. Pasmem! Não são apenas desertos com nômades. Há grandes cidades em que abundam grandes pensadores, cientistas e grandes artistas. Seus cineastas são famosos. Quem conhece os filmes iranianos sabem que são pura arte. Mas, como em todo o planeta, ali convivem a riqueza que impressiona e a miséria extrema. Como no conto que li ainda criança. O palácio e a choupana não são sinais de sapiência e de generosidade, mas de injustiça, de indiferença com o outro, se não de egoísmo e maldade.

Cá no nosso cantinho, escondido no Campus da décima melhor universidade do país, dá pra perceber como funciona a res publica brasileira. O Estado abocanha a parte do leão, tomados dos contribuintes e em parte alguma há uma verdadeira distribuição das nossas riquezas. O que existem são sultanatos, castas ricas, que usufruem do produto de nosso trabalho, investindo o nosso dinheiro no que lhes é conveniente.

Querem um exemplo?

Há muito tempo que estamos convivendo com a mudança de base energética no mundo. Mas as nossas universidades ainda estão construindo prédios monumentais para estudar petróleo e gás. Aqui, do lado do Arruadinho há dois monstrengos desses. Enquanto, na Europa, a energia dos ventos e do Sol vai se firmando, nós estamos construindo edificações para estudarmos a energia que movia o mundo do passado.

arruadopredio

Enquanto os sábios gestores do CTG erguem seus prédios, outros centros mal recebem verbas para seu funcionamento. Nada a ver com a crise. É escolha e vontade política. Privilegia-se a extração do óleo bruto, que produz energia não renovável, em detrimento da energia solar, da eólica e outros modos de fazer andar de modo sustentável a máquina do mundo.

Com esse olhar de sultões do pré-sal, em que a propaganda é maior do que a realidade, se vai esquecendo a educação, a criatividade e a cultura do povo.

Quando vejo esses dois prédios erguidos contra o verde do arruadinho do Engenho Velho, não posso deixar de lamentar a visão medíocre e limitada dos gestores “progressistas” da UFPE. Quando irão reconhecer que o patrimônio humano, cultural, ecológico e histórico desse casario de trabalhadores é fundamental para reinventarmos o caminho, a trilha para o soerguimento do Brasil enquanto nação. Não só dessa comunidade, mas de todas as comunidades populares, pelo Brasil afora. Sem reeducarmos o olhar meramente tecnicista de nossos gestores não há caminho possível. Sabemos da predominância do CTG sobre os outros centros. Parece que chegam mais verbas para as Ciências Exatas do que para as Humanas. Porém, todos dizem que a Educação é quem vai salvar o país… Citam à exaustão os exemplos da Coréia do Sul e do Japão. E ficam nisso!

O casario de trabalhadores da extinta Usina Meio da Várzea está erguido ao lado do imenso prédio das Engenharias. Por termos chegado antes da Cidade Universitária, a justiça nos deu o direito de continuar morando aqui. Mas, a que preço? A água que nos disponibilizam é de péssima qualidade. E quando tentam tratá-la, é uma lástima: jogam cloro no poço, creio eu, sem ter a noção exata da proporção que deve ser usada. A água do casario cheira a cloro puro. Imprópria para o banho, tem feito surgir doenças de pele nos moradores, sejam crianças de colo ou idosos.

A água com excesso de cloro e a energia elétrica, juntas, têm dado grandes prejuízos, com a perda de máquinas de lavar e geladeiras, dos pobres moradores do Engenho Velho.

E tem mais injustiça, Magnífico Reitor: os seguranças desta UFPE, para piorar as coisas, expulsam os pequenos ambulantes do campus, parece-nos que apenas pelo fato de serem moradores daqui. Só as carrocinhas do Arruado são perseguidas. Se vocês, meus doze leitores, prestarem atenção, há barracas de lanches em frente ao CCSA, ao CFCH e à Biblioteca. Ali ninguém é molestado pelos seguranças. Seguranças esses que fecham os portões do campus, desde a noite da sexta-feira, até o amanhecer da segunda. Fechados também ficam nos feriados e dias santos. Quando lhes perguntamos a causa do fechamento dos portões, dizem que é ordem do Magnífico Reitor. Quem trabalha até tarde nesses dias, não pode acessar a sua casa, a não ser que se exponha aos riscos de dar toda a volta no campus e entrar pelo portão principal. Se a questão é de segurança, imaginem que as grades são facilmente galgadas pelos possíveis meliantes. E que, até mesmo pelo portão principal todos entram sem serem identificados. Há algo de estranho nessa proibição.

 

Não creio que seja ordem do Magnífico. Dá a impressão que seus áulicos já levam pra seu gabinete a decisão formada e ele os atende, sem questionamentos.

Por isso estamos em campanha de petição na internet, pedindo que o nosso magnânimo reitor reveja essas decisões, que depõem contra uma universidade que luta pelo social, inclusive defendendo as ideias do Partido dos Trabalhadores, que, como já diz no seu nome, deveria estar ao lado dos que estão na base da pirâmide social.

Como então, Magnífico Reitor, tanta indiferença com os moradores do Arruado do Engenho Velho? Há anos esperamos uma visita dessa Reitoria à nossa humilde comunidade. Não basta acatar a decisão judicial que nos permite aqui habitar. Para ser justo e sábio, e não agir como o sultão da estória que acima contei, é preciso ter cuidados com esses moradores, que também são contribuintes e cidadãos que ajudam a prover os recursos com que a União ergue e mantém as nossas universidades.

A petição na internet não é contra ninguém, mas a favor da comunidade do Arruado, que faz parte da história da construção desses prédios que hoje nos oprimem.

Seja justo e generoso, Dr. Anísio. Que a história lhe faça a mesma justiça que faz ao primeiro reitor, o Dr. Joaquim Amazonas, morador do Arruado e compadre de muitos dos seus vizinhos. Graças a ele, desde a chegada da Universidade do Recife, fomos respeitados e protegidos. Que a memória do Dr. Joaquim Amazonas sirva de inspiração para as suas decisões em nosso dias.

Respeitosamente,

Moradores do Arruado do Engenho Velho.

 

Link para a Petição:

https://secure.avaaz.org/po/petition/Reitor_Anisio_Brasileiro_de_Freitas_Dourado_Reitor_Anisio_da_UFPE_E_o_Arruado/?cZZGheb

 

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Do 71º aniversário da UFPE

Arruado visto do casarão

Arruado, visto da varanda de Joaquim Amazonas

Me parece óbvio que uma instituição não precisa ter alma, posto que ela em si mesma não é uma coisa viva, é apenas uma abstração, uma organização que cumpre os processos da burocracia que a erige e a sustenta.

Por isso, não se comemora, nesta data, o aniversário de prédios, de salas de aula, mas das pessoas que trabalharam e trabalham numa universidade. Eu comemoro o aniversário da UFPE através da lembrança dos pedreiros, serventes, carpinas, dos operários da construção civil que ajudaram a realizar o sonho de Joaquim Amazonas, nosso mais ilustre vizinho. Era também arruadense o primeiro reitor. Comemoro a presença e a vida de alguns professores, alunos, funcionários que vivem a instituição. Não citarei nomes, mas muitos deles estão aqui nesse meu facebook e eles sabem o quanto os admiro e respeito.

Não queria um texto magoado nesta data, pois muitos dos que fazem a UFPE são nossos aliados, nossos amigos, nossos companheiros de luta. Contudo, os que não conseguem pisar no chão centenário do Engenho Velho, por indiferença ou preconceito (excluo os que que ignoram a nossa existência) não receberão meus aplausos nesta celebração. Eles são os alienados, mesmo filiados a partidos progressistas, são os abúlicos, os sem alma, os vaidosos, os que se imaginam intelectuais orgânicos ou líderes de massas, porém não caminham com os menos favorecidos. Nesta gestão há gente humilde, apesar dos títulos acadêmicos, mas que apenas compõem o staff, sem voz diante dos poderosos chefões. Todos hão de passar! Eu também… Mas defenderei até o último dia de minha vida os que trabalham e sustentam a comunidade de alunos, professores e moradores. Todos comemoramos hoje, a passagem desses 71 anos de ensino e aprendizagem. O MRP- Arruado agradece aos professores, alunos e funcionários públicos ou terceirizados que nos ombreiam na luta pela terra, pelo pão e pelo trabalho. Aliás, o amor, o trabalho e o conhecimento deveriam governar a nossa vida, disse-nos Reich.

Essa é a nossa esperança! Um dia seremos governados pelo Amor!

E viva a universidade dos humildes, dos que pisam no chão, dos que trabalham! Viva!

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EULÁLIA (um fado?)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

OIÇO um canto de fadista.
És tu que cantas,
A essas minhas esp’ranças,
Que são tantas:

Sons em voz de lusitana
rapariga
…trazes, dos mediterrâneos,
as cantigas,
feito rios subterrâneos
de água amiga,
que escorrem, escondidos,
Deus o sabe,
à foz, em mar cristalino
do Algarve…

***

É teu, o aceno triste
de saudade,
no lenço branco que vejo,
vindo dos balcões moçárabes?

***

Um dia fiz duas trovas
com sotaque visigodo,
numa eufonia de motes,
lamentando a pouca sorte
de meu coração tão doudo:

I
A saudade singra os mares
Desviando dos abrolhos
E se alimenta dos ares
Da lembrança dos teus olhos.

II
Ontem foste campesina
A ouvir cânticos moiros;
Já te encontrei concubina
Dum sultão lúbrico e loiro.

***

Todas as linguagens trazes
numa etimologia
de cristais
em fonemas aéreos e vocálicos;
musicais.

Música aleatória e vária
em plangentes alaúdes:
ai! moiraria!
Potros, selins, bandeirolas,
A festejar tua vitória
Que é tão minha!

Vielas da Albufeira:
Casas lavadas de branco.
Quanta luz!

Não adianta chorares
Quero cruzar verdes mares,
com essa cruz.
Eis as velas triangulares
de uma fragata ligeirinha
que, por fé, minha rainha
batizara de… Jesus.

***

É teu, o aceno triste
de saudade,
no lenço branco que vejo,
vindo dos balcões moçárabes?


*******************************

A imagem, cujo sítio originário está nela linkado,
é da Albufeira, região de Algarve, Portugal,
último recanto luso tomado aos mouros,
derradeiro nicho de resistência da Língua Portuguesa.
Embora, aqui, não se negue a riqueza dos empréstimos linguísticos
e do vocabulário da cultura árabe.

Ave, Mátria!!!
Ave, nossa Língua Portuguesa!!!

*******************************

Nota do editor:

reeditar Eulália foi a minha maneira

de trazer o lado positivo do elemento branco

na formação da alma ancestral brasileira,

fechando essa série de poemas, que se iniciou

em maio, com o poema Tantãs, uma celebração,

e se encerra com este Eulália, uma loa à língua portuguesa.

 

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JARDINEIRO DO AR

 

 

 

 

 

 

Na latência, efloresce o patente…
E o novo está guardado no antes.
Nesse instante.

Há flor na luz solar.
Já é flor o ato de florar.
Flor é a possibilidade de ser flor…

…quando chove sobre a terra,
os úberes se entreabrem.
Antevejo corolas encarnadas.

Efloresço.

Eu serei eu: flor-futura.
Já úmidas, as pét’las.
Saudade do amanhã…

Fonte da imagem:

 Raquel Bitencourt

 

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BRASA E MEL


A criança vê fundo e antes
um mundo feito em relações desconcertantes.
Faz a eternidade,
agarra o instante,
consegue ver até, olhos ausentes,
o modo sutil,
em que do sono da brasa, latente,
brota o mel…

A criança é mãe do sonho,
sabe os secretos sentidos,
tem a ciência da fauna
e a presciência da flora,
conhece o segredo antigo
que da pequena semente
faz surgir o baobá.

Os gregos chamavam physis
e os romanos, natura;
e a criança, sem dar nomes,
brinca com as coisas futuras,
desmonta o reino dos homens
governa o reino do céu,
paira com Deus sobre as águas,
toma banho de chapéu.

A criança doma o medo,
rasga o finíssimo véu
sobre o sentido da Vida:
Só ela sabe o segredo
o indizível segredo,
com que a brasa gera o mel.

06.07.2000

(de uma conversa de ateliê)

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FLOR DE NADA

UMA FLOR?
E. B. Brito

 

I

As coisas todas brotam de outras coisas,
concretas ou abstratas.
Frutas da physis,
poíesis,
todas inatas…

II

As rosas,
surgem das rosas.
Idéias,
nascem de idéias.
Azaléias, flores simples,
surgem dentro de azaléias.
Tudo isso que nós vemos
vem à luz como aletéia,
desde que em seu ventre haja o ensejo
de um fundo idêntico a si mesmo…

III

Mas,
um verso, flor de nada,
emerge, espontaneamente,
disso oco e sem sentido
que existe dentro da gente.
Sua forma, (isso que lemos,
esse agora, esse presente),
é o fundo igual que aflora,
é o ser passando a ente.
Fonte da imagem:
AbARCA

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