Caçarola no Campus – ou, o Outro enquanto estorvo e impertinência

EMENTA:

“CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO DE REINTEGRAÇÃO DE POSSE. UFPE. CASA RESIDENCIAL CONSTRUÍDA NO CAMPUS UNIVERSITÁRIO. POSSE DOS RÉUS ANTERIOR À VENDA DOS TERRENOS À UNIVERSIDADE. PROVA DO DOMÍNIO PELA UFPE. PRINCÍPIO DA FUNGIBILIDADE DOS INTERDITOS POSSESSÓRIOS. INTERPRETAÇÃO RESTRITIVA. – No presente feito, a UFPE não conseguiu se desincumbir do ônus de provar a sua posse anterior a dos réus/apelados, não preenchendo, assim, o requisito previsto no inciso I do art. 927 do CPC. Ao ajuizar a contenda, procurou apresentar documento que provasse o seu domínio sobre o terreno, – escritura de compra e venda de vários lotes de terrenos da propriedade Engenho do Meio da Várzea – mas tal não se prestou a provar a sua posse anterior à dos réus.. Apelação e remessa obrigatória improvidas.”

(TRF-5 – AC: 415757 PE 0035558-13.2007.4.05.0000, Relator: Desembargador Federal José Maria Lucena, Data de Julgamento: 11/12/2008, Primeira Turma, Data de Publicação: Fonte: Diário da Justiça – Data: 13/02/2009 – Página: 182 – Nº: 31 – Ano: 2009)

 

Há uma razão para que eu esteja repetindo, aqui e no facebook, a publicação dessa ementa da Ação de Reintegração de Posse, em que a UFPE “descobre”, em Juízo, que o Arruado já estava aqui, antes de ser construída a cidade universitária. E a razão, ou o motivo que me move é tentar entender os funcionários e gestores que fingem não saber disso, por algum motivo que me escapa, seja por mero desconhecimento, maldade, cinismo, ou ainda, pela indiferença com o outro, marca da nossa desditosa sociedade.
Eu mesmo faço o mea culpa, posto que há algumas décadas, quando funcionário da UFRPE (Rural) não percebia os moradores do Campus Dois Irmãos, que passavam, invisíveis, pela porta do meu setor. Sabe, gente, a universidade era apenas o meu local de trabalho. Eu ia lá cumprir algumas obrigações funcionais e ganhar meu salário no fim do mês. O que disso passasse já me aborrecia. Lembro que havia uma senhora, muito idosa, cujo curioso apelido era Caçarola, que morava lá no fundo do campus, numa clareira, dentro do mato. Nunca a maltratei com essa alcunha pejorativa, porém, nunca me dei ao cuidado de saber quem era ela, o que, no fundo, era também uma violência. No entanto, o Serviço Médico da Rural lhe dava atendimento gratuito e ela transitava por todos os departamentos daquela universidade, sempre ralhando com quem gritava o seu apelido. Poucos sabiam ou sabem da história daquela anciã, moradora do campus.
Por isso, entendo bem a indiferença e o desdém dos gestores e funcionários da UFPE com as moradoras do Arruado que foram reclamar da excessiva quantidade de cloro na água da comunidade. É que os servidores não são obrigados a cuidar de outra coisa que não seja o patrimônio da instituição em que trabalham. Essa é a lógica que vigora em nosso pobre mundo. O Outro é uma impertinência diante do Eu. Quando reclama, é sempre um estorvo. Irrita-nos. Perturba a nossa zona de conforto.

“Ah, esses invasores e favelados, semi-analfabetos… que bebam água com gosto de água sanitária!” Pensamos assim, num primeiro ímpeto de aborrecimento. Isso é muito comum.

Porém, o lençol freático é público e a Estação de “Tratamento” de Água da UFPE foi erguida sobre a antiga lagoa do Engenho Velho, que tinha água limpa e cristalina, como o Riacho Cavouco, que hoje carrega os dejetos da cidade universitária. Os moradores mais antigos, os posseiros do velho engenho, pescavam piabas e pitus nas águas da lagoa e do riacho. A Universidade tenta tratar a água insalubre e parece exagerar no cloro. O que nos causa espécie, pois são os químicos e engenheiros que aqui se formam, que cuidam da água de toda a cidade do Recife.

“Ah, mas a água é de graça!” ora direis. E eu vos digo que pagamos impostos como todos os que moram do lado de fora desta UFPE. Em verdade, temos o amparo da lei, pelo acórdão da ação de reintegração de posse, que vencemos, mas, grande é o desamparo dessa vitória judicial. Parece que nossos litigantes, na pessoa de alguns gestores, fazem de nossos serviços básicos, uma vindita, uma retaliação, uma desforra. Apelamos para os vossos corações, que devem ser de cristãos. Imaginamos que devem cultuar ao mesmo Deus que cultuamos. Imploramos, que, quando estiverem na missa ou no culto, lembrem-se de nós, moradores, esses seres quase invisíveis; lembrem-se que somos, também, aqueles pequeninos, a que Jesus se referiu no Sermão Profético: (Mateus, Cap. 25, 42 a 45)

“42 Porque tive fome, e não me destes de comer, tive sede, e não me destes de beber.
43 Sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes.
44 Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos?
45 Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim.”

 

Sonhar com um mundo em que prevaleçam os princípios cristãos da boa vontade entre os homens e mulheres é mesmo uma utopia. Mais utópico é querer que uma universidade que, apesar de defender, teoricamente, um modelo de sociedade voltado para as ideias ditas de esquerda e humanistas, entenda, enquanto práxis, uma comunidade confinada em seu campus, como merecedora de atenção e de cuidado.

Nunca o Reitor colocou os pés no Arruado. Nem quando, em 2014, comemoramos o aniversário desta UFPE, sob os auspícios da antiga PROEXT. Passam, por aqui, os seus prepostos, fotografando, inquirindo, indagando de tudo. Creio que até que sem o conhecimento dele, do Reitor. Já vieram pesquisadores, arqueólogos, que mediram, anotaram e sumiram. Eles só se importam com o passado. Um até me disse que o casario do Arruado é do século XX, como se ser do tempo presente, não fizesse nenhum sentido para suas vidas.

Pobres intelectuais, vaidosos e de barriga cheia, cujas teses ficam guardadas em repositórios, escondidas do povão, e só servem para lhes dar os tão importantes títulos. Ai, de vocês, que não tem solução para os problemas do tempo presente, cujas consequências estão aí, nas ruas, lhes tocaiando, com o brilho da morte em seus olhos. (Triste lembrança me vem à mente, com a morte de um intelectual desta UFPE, aquele, de fato, engajado amorosamente com a pedagogia de Paulo Freire, e que foi assassinado brutalmente, em viagem de trabalho a Salvador).

O presente, senhores,  está aí, nos espreitando. O século XX é tão importante quanto o século XVI, para a vida humana, nesses primeiros 17 anos do novo milênio. Cuidemos dele, cuidemos, pois nele, no século XX, inventamos a mãe de todas a bombas, que não só pode destruir os seus queridos sítios arqueológicos, como as belas torres em que habitam seus filhos e netos. O presente é um desafio para todos nós,sejam moradores, professores, gestores e funcionários dessa querida UFPE!

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Há, no entanto, quem nos dê atenção. Temos parceiros nessa querida UFPE. A ProexC, de Christina Nunes, o NEAfi, de Ana Emília Castro, que também faz, a céu aberto, as suas aulas de Design Social, juntamente com a Ação Curricular em Comunidade, da profesora Gabriela Santana, com sua disciplina de Dança e Capoeira, que, de forma genial, trata as nossas heranças e devires, a partir do movimento, do corpo, da integração da arte com as memórias da comunidade.

Exceções, dentro do grande e plural organismo que é a Universidade Federal de Pernambuco.

Finalmente, essa cronica-desabafo é apenas para dar visibilidade a um processo judicial que já teve acórdão favorável aos moradores, em pleno STJ, que tive em minhas mãos no ano de 2014, e, lamentavelmente, não fiz as cópias que me foram oferecidas pelo advogado dos moradores. Em breve trarei esse acórdão para essa tela do wordpress, que me dá a oportunidade de fazer esses reclamos de cronista amador.

Talvez, com a leitura dessa ementa do processo judicial em que a UFPE foi derrotada, os gestores e funcionários abrandem os seus corações e comecem a olhar com outros olhos a causa dessas pessoas, confinadas no Campus Recife, da UFPE, que querem, como todo mundo, apenas viver nos seus lares, que já existem há mais de 100 anos, (eu diria, há 146 anos, aproximadamente), nessas terras do Engenho do Meio da Várzea.

 

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Pitombas do Arruado e memórias de uma guerra

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Quando eu era adolescente, lembro que da janela do meu quarto podia ver uma pitombeira. Era um pequeno quintal, mas com algumas árvores frutíferas. Abacateiro, cajueiro, coqueiros, caramboleira e aquela raquítica pitombeira. Lembrei dela ao ver as fotos que a minha comadre Beth Cruz fez da pitombeira frondosa da casa dos Souza do Arruado, por ocasião da aula de Design Social, em que fizemos a já tradicional trilha pelo caminho centenário do Engenho Velho da Várzea.

pitombas

Pitomba é fruta besta, diz o hino de uma agremiação carnavalesca olindense, cujo nome curiosamente é Pitombeiras dos Quatro Cantos. Talvez seja pela facilidade de encontrá-la nos sítios e chácaras dos arrabaldes antigos, nos quatro primeiros meses do ano.

No dia em que minha comadre fez essas fotos, logo fiz uma associação mental entre a pitomba, a festa dos Prazeres, também chamada festa da Pitomba, a batalha dos Guararapes e o Engenho do Meio da Várzea, onde hoje resiste o Arruado.

Não por acaso há uma frondosa pitombeira no chalé dos Souza. Afinal, estamos em solo histórico. Por esse caminho passaram os combatentes de Guararapes, batalha considerada como a primeira em que se reuniu um exército genuinamente brasileiro, com as três raças, negros, índios e brancos. É claro que a história oficial esconde a forma opressiva de como se arregimentaram índios e negros, com promessas de alforria e algum status entre os escravizados. No entanto,  o Exército Brasileiro comemora o dia 19 de abril de 1648, como a data do seu nascimento.

A propósito, na década de 1990, foram encontrados, no piso da Matriz de Nossa Senhora do Rosário, da Várzea, ossadas dos soldados mortos naquela batalha, homens de porte avantajado, vários com crânios perfurados por  balas de fuzil.

Na Várzea, como é consabido de todos, moravam os conjurados que lideraram a vitória luso-brasileira contra o domínio holandês, dentre eles, os compadres João Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros, senhores dos engenhos do Meio e São João, respectivamente.

Até 1946, ainda estava de pé o sobrado em que residiu um desses líderes, o Mestre de Campo João Fernandes Vieira. Esse casarão, que ficava no terreno doado para o campus, seria usado como morada para os reitores da Universidade do Recife, hoje UFPE, segundo projeto original do arquiteto italiano Mário Russo. Desabou (ou foi demolido)  misteriosamente, em uma noite de tempestade e, hoje, em seu lugar, está um monumento com estátua de Fernandes Vieira.

A ligação visceral entre o caminho centenário da Várzea está representado pela pitombeira frondosa do chalé dos Souza, que, esse mês está em plena safra. A associação pitomba, festa e batalha está então explicada, né, comadre Beth Cruz?

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Parque Histórico Nacional dos Guararapes tombado pelo IPHAN

          Os beneditinos realizam, desde 1656, uma festa dedicada à Senhora dos Prazeres, em comemoração da vitória em Guararapes, que o povo chama de Festa da Pitomba, por ser na época da safra dessa frutinha adocicada. Essa festa tem início na segunda-feira seguinte ao Domingo de Páscoa. Os romeiros e brincantes da Festa dos Prazeres acreditam que a Virgem apareceu aos combatentes luso-brasileiros (católicos), para lhes dar ânimo no combate aos batavos (protestantes). Reza a lenda que Nossa Senhora transformava pedras em balas, para ajudar os combatentes pernambucanos.

Em samba-enredo magistral, o compositor Martinho da Vila, no ano de 1972, exaltou a Festa da Pitomba, cujos versos primorosos, falam daquela epopeia nordestina:

Aprendeu-se a liberdade
Combatendo em Guararapes
Entre flechas e tacapes
Facas, fuzis e canhões
Brasileiros irmanados
Sem senhores, sem senzala
E a Senhora dos Prazeres
Transformando pedra em bala
Bom Nassau já foi embora
Fez-se a revolução
E a Festa da Pitomba é a reconstituição

Jangadas ao mar
Pra buscar lagosta
Pra levar pra festa em Jaboatão
Vamos preparar lindos mamulengos
Pra comemorar a libertação

E lá vem maracatu
Bumba-meu-boi, vaquejada
Cantorias e fandangos
Maculelê, marujada
Cirandeiro, cirandeiro,
Sua hora é chegada
Vem cantar esta ciranda
Pois a roda está formada

Cirandeiro, cirandeiro, oh
A pedra do seu anel
Brilha mais do que o sol

 

 

 

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NARRADORES DO ARRUADO: memórias, mitos e dramas.

          “O que há de melhor em nós é talvez legado de sentimentos de outros tempos, os quais já não alcançamos por via direta; o Sol já se pôs, mas o céu de nossa vida ainda arde e se ilumina com ele, embora não mais o vejamos” (grifo meu em, Nietzsche, Humano, Demasiado Humano – um livro para espíritos livres, Aforismo 223)
pavao doponto norte

Pavão sobre o telhado – Emanuel Brito

A gente cresce por fora,
Vivendo a vida recente.
Dentro, há muito mais d’outrora
Do que aqui se pressente.
A memória jorra agora
É irrupção no presente
E esparge coisas miúdas,
Antigas coisas e gentes
:
Ora é água de cacimba
salto solto em rio perene
e o baixio todo alagado.
Por vezes, estrada e sol
Léguas, pra ir no barreiro,
Pra dar de beber pro gado.
A memória traz visões,
nos sobressaltos da noite.
Cabriolas e pavões,
em cima de algum telhado,
A memória é dentro e fora
resíduo do impermanente
um imenso mundo que aflora
paisagem dentro da gente…
(poemeto de Lula Eurico)
Fonte da img:
AbARCA

***

 

“Mitou!”, dizem os nossos jovens, no facebook.

Mytho e Mito não mais expressam a mesma coisa, apesar do étimo. Nas redes sociais, surgiu o verbo “mitar” que significa se transformar em mito ou realizar alguma coisa de maneira exemplar. Em verdade, nas tais redes mede-se o mito pelo número de curtidas, em uma postagem ou comentário. Pode ser algo engraçado, bizarro ou inteligente, se, muito curtido, então, “mitou!”

A palavra mito já era tomada no sentido de lenda, parlenda ou fábula, por ter vindo da forma de expressar os mitos por meio das narrativas épicas ou mitológicas. Nesse sentido, são míticos os contos indígenas, da Mãe d’água, do Caipora, ou contos africanos, como o Negrinho do Pastoreio. Há elementos míticos na epopéia do Quilombo dos Palmares, que, narrado por gerações, nos chega com a força das lutas heroicas do povo negro escravizado. Há outros mitos que estão perto de nós e gerados pela cultura nordestina: o Padim Ciço, santo e milagreiro e o valente cangaceiro Lampião.

Há toda a mitologia greco-romana, iorubana, celta, árabe e de todos os povos do mundo, mesclada e miscigenada por todos os rincões do nosso país.

Até as cantigas de ninar, os acalantos, podem guardar elementos míticos, como a que inspirou o belo arabisco do amigo Emanuel Bezerra de Brito, Pavão sobre o Telhado, que abre essa crônica.

O mito ecoa naturalmente por todas essas expressões.

Só não aceito quando usam o verbete mito como sinônimo de mentira. Mitomania, eis um exemplo disso. Significa a pessoa que vive num mundo de fantasia, mas tão completamente, que, para ele, toda a mentira que conta é a sua realidade.

Mito não é mentira. É uma maneira de se acercar da realidade. E é assim que entendo o mito, baseado nos estudos dos culturalistas brasileiros, como o prof. Adolpho Crippa e de seu amigo, o filósofo Vicente Ferreira da Silva, que me trouxeram, mastigadinho, o pensamento de George Gusdorf, Mircea Eliade e Ernst Cassirer, Frobenius, dentre outros.

          Mythos é irmão do Logus, sendo outra maneira de pensar o mundo. Eu diria que o mytho é uma consciência profunda, um repositório das emoções humanas que não puderam ser verbalizadas. O mytho antecede a gesta e a épica, sendo o seu núcleo fundante. A narrativa mitológica, como a de Ulisses, remete a uma ancestralidade ou a uma anterioridade que a tudo precede.Por isso, o logus não é maior do que o mytho e um filosofema em nada é maior do que um mitologema ou mitema. São, no mínimo, complementares.

          Mas esse é assunto para uma outra cronica. 

Por tudo isso, não me comovi com o filme Narradores de Javé, que assisti para ser discutido na aula de Design Social, da profa. Ana Emília Castro. em que sou aluno-ouvinte.

Acredito que, na tentativa de se tornar mais comercial, sei lá!, o diretor daquele filme conseguiu tornar jocosas as memórias dos moradores do lugarejo fictício chamado de Javé, que iria submergir nas águas de uma hidrelétrica. Pareceu-me algo caricato e depreciativo, tratar como comédia, a dor daquela população, (que poderia muito bem lembrar Canudos, que já está submersa, ou Belo-monte, que está prestes a ser também).

Em suas Meditações do Quixote, o pensador espanhol José Ortega y Gasset afirmava que “parece somente adquirir a realidade um interesse estético, com motivo de intenção cômica.”  Macaqueando e, de certa forma, zombando, dos moradores de Javé, atingiu, o diretor, um efeito estético prazeroso, na trama, em detrimento, porém, do que havia de trágico, no tema por ele tratado. Perdeu a mão, infelizmente, o diretor, quem sabe tentando aquele humor dos autos de Ariano Suassuna, porém, com tema não apropriado.

Ali havia um drama, uma tragédia, inclusive com final bastante doloroso e infeliz para aquele povo. E, mesmo assim, os narradores foram apresentados como uma gente mentirosa e narcisista, contando ao carteiro-escritor, histórias mirabolantes, que visavam mais criar uma imagem fantástica do heroísmo de suas famílias, do que contar a verdadeira origem daquela povoação. Parece até que queriam mitar, como dizem os jovens, chamando a atenção para seus ancestrais, com narrativas fabulosas, que, ao final, nem foram registradas pelo pseudo-cronista.

Sinceramente, não gostei do tratamento dado ao tema. O filme é apenas divertido.

Arruadoplaca

Cá no Arruadinho não se inventam lembranças, pois as circunstâncias antigas e dolorosas estão no dia a dia das pessoas. Não há uma hidrelétrica, nem seremos submersos. O que há é o confinamento e, realmente, estamos mergulhados, sim, mas no ostracismo. Estamos no Engenho do Meio há 146 anos, tomando por base o casamento de Luiz de França de Souza, natural de Matriz da Luz, São Lourenço – PE,  e de dona Epiphânia dos Reis, nativa do velho engenho. Seus pais já eram posseiros, em terras dos Barros Barreto, no ocaso do século XIX.

          Portanto, há toda uma geração de moradores, cujas vidas estão imbrincadas com a vinda da Cidade Univerśitária para as terras do que foi a Usina Meio da Várzea e depois, já no início do século passado, Loteamento Residencial Engenho do Meio, cujo proprietário, o Dr. Joaquim Amazonas, teve parte de sua infância, como vizinho do pequenino arruado de moradores, que ainda permanece de pé.

Apesar de ser um povo alegre e festeiro, não vejo como narrar de forma cômica, mesmo que tragicômica, a história secular desses moradores. As agressivas expulsões de muitos deles, como a do Seu Pedro da Macaxeira, que tinha uma imensa plantação, onde hoje é o Centro de Convenções e a Concha Acústica, não nos permitiria uma narrativa animada. Dores, muitas dores, que se entranham na alma dessa comunidade, como os engramas sociais, dos quais já lhes falei aqui.

Os narradores do Arruado recordam as suas lutas, o seu sofrimento, as expulsões de seus vizinhos, a morte de alguns, por desgosto… não há muito a comemorar, mas são memoráveis os feitos da resistência, que encontrei, em pleno século XXI, com a organização do povo para lutar contra a destruição do calçamento da rua de entrada da comunidade.

Os narradores do Arruado não são meros fabuladores, nem têm motivo. Sua presença viva, dentro do Campus Recife da UFPE, se impõe como prova de sua luta.

Dona Inês, Dona Bete, Dona Biu, dona Angelina, Seu Mica, Dona Luiza e tantos outros, viveram os tempos difíceis da ditadura, entre a cruz e a espada, resistindo, para hoje dar testemunho da história vivida, por eles mesmos e por seus antepassados, muitos deles, que ajudaram a erguer esses prédios da UFPE e se tornaram funcionários públicos federais. São as suas viúvas, filhos, netos e bisnetos os moradores dessas casinhas, erguidas à margem do tricentenário caminho de acesso à Várzea, que cruza as terras do Engenho Velho.

São esses, os narradores e narradoras de uma história antiga e de um presente de luta e de resistência, pela posse da terra, pela sua ligação com a antiga freguesia da Várzea e, finalmente, pelo direito à continuidade de sua gente, confinada no campus Recife da Universidade Federal de Pernambuco.

 

 

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O DOM DOS FAISCADORES (ou, Carta a um jovem Designer)

Arruado do Engenho Velho da Várzea, 23 de março de 2017

Prezadíssimo Kleber Sales, bom dia, pois é cedinho da manhã que estou escrevendo essa crônica de diletante. 

Ao mesmo tempo em que me dirijo a você, em especial, também escrevo para todos os estudantes de Design, que, através da profa. Ana Emília Castro, tiveram e estão tendo suas aulas, sob as árvores centenárias desse Engenho Velho.

Escolhi a tua pergunta, na aula inaugural, como mote, como tema, para, juntos, reflexionarmos.

Não lembro exatamente as tuas palavras, mas, a força que há nelas me tocou, pois foi uma pergunta de ordem pragmática, e, como fui técnico, por muitas décadas, também trago preocupações de ordem prática. Quero sempre ir ao cerne do problema, para encontrar a solução. Tua pergunta sobre o que o grupo de estudos de Design Social iria fazer para ajudar a resolver, de fato, os problemas da comunidade do Arruado, me fez ficar pensando:

“Kleber é dos meus… Preciso dizer a ele sobre a complexidade dos problemas e de como tentar consertálos, digo, resolvê-los.” rsrs

Primeiro deixe-me dizer algo sobre as pessoas que tem o dom de ir ao “centro da questão”.

José Ortega y Gasset, meu guru espanhol, dizia que as interrogações possuem aqueles curvos ganchos, justamente para que não deixemos escapar as respostas essenciais. Só chegam às melhores respostas, os que trazem boas interrogações.

Dizem que há pessoas que já nascem com esse dom e que outras estudam técnicas que o fazem aflorar e se desenvolver. Algumas ciências, como a que você estuda, perseguem esse objetivo de ferir o âmago das coisas, descobrir o seu processo, seu fluxo, seu mecanismo, e, assim, penetrar aquilo que é essencial.

O Design, ao que me parece, tenta mesmo é aprimorar aqueles curvos ganchos da interrogação, fundamentais para resolver o que se nos apresenta como insolúvel e possibilitar o que nos parece impossível.

Por criativo, o designer parece desafiar qualquer amarra formalista ou acadêmica, embora parta dos pressupostos da disciplina científica, que lhe abre um arsenal de métodos, técnicas e teorias, para ajudá-lo a encontrar ou viabilizar soluções para os problemas de seu métier.

Faiscadores de Ouro, 1938

Faiscadores de Ouro – Portinari

Desse modo, equipado da criatividade natural e dos conhecimentos acadêmicos, o designer me lembra aqueles antigos faiscadores do ciclo do ouro, possuidores de uma espécie de clarividência que os fazia distinguir pedras preciosas onde os outros garimpeiros só viam cascalhos.

Sei que minha compreensão do Design é a do senso comum. Mas fico bem à vontade nesse aspecto, posto que, como dizia, os alunos dessa ciência transcendem, por necessidade de uma visão de conjunto, qualquer tipo de academicismo que lhes cortem as  famosas asinhas da imaginação. Eles entendem a minha linguagem, pois hão de entender a linguagem de todos aqueles que, buscam o seu ofício, sem entender o que realmente é o Design, palavra que caiu no gosto popular e que se usa do salão de beleza à indústria de aviões. Tudo é Design. Há até um gracejo que se faz, quando se acha uma pessoa bonita, seja moça ou rapaz, que diz: tua beleza é a prova de que Deus é um designer! rsrs

Portanto, são faiscadores, os designers, não só pelo descobrir ouro em cascalho, mas também porque atritam as ideias, até que delas saltem centelhas e lhes tragam a súbita luz da solução dos problemas.

Qualquer coisa lhes instiga a curiosidade. Olham uma simples caixinha de fósforos e se lhes acende uma espécie de instintiva reflexão. Seriam também filósofos, a perguntar às coisas por que elas são assim e não assado?

Creio que sim.

Portanto, ao vê-lo, meu jovem amigo, inquirindo, na primeira aula, qual o propósito da disciplina Design Social no Arruado, pincei a palavra propósito:

Adequação ao propósito, lembra a Bauhaus, né isso?

Não sou bem inteirado das origens do Design… sei apenas que tinham chavões como a forma segue a funçâo, etc. Mas a Escola Bauhaus é tão pop, que, mesmo no Brasil, todo mundo a conhece um pouco, por conta da adesão do Niemeyer e de outros arquitetos brasileiros ao seu pensamento.

Ao perguntar pela finalidade, pelo propósito, estavas, de certo modo, fazendo filosofia. E filosofia do Design, meu jovem amigo. Ainda bem que tua pergunta não foi a clássica: o que é Design? Mas, para que o Design irá até uma comunidade? Essa é bem mais fácil. Mas não tanto.

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Arruado do Engenho Velho da Várzea

Deixe-me então apresentá-lo ao problema, Sr. Designer! Agora a porca torce o rabo ou aperta o parafuso! Depende da porca…

O Arruado do Engenho Velho não é só história, patrimônio, paisagem verde, não. O Arruado é sua gente. Uma gente que sofre de um raríssimo confinamento, que, creio eu, em poucos lugares há de existir. Isolada no meio de uma instituição pública federal, tem todos os seus problemas ligados a ela. Entenda. Se fosse uma instituição municipal que nos confinasse, os nosso serviços básicos seriam atendidos pelos mesmos órgãos que atendem a todos os cidadãos recifenses. Mas, aqui, não. Água nas torneiras, energia elétrica, coleta de lixo, poda de árvores, limpeza de rua, tudo, tudo é feito pela UFPE. Imagine você o que sofrem os departamentos para terem atendidos os seus ofícios dos consertos mais corriqueiros, falta d’água, digamos, só para exemplificar. Se a demora é grande para os órgãos ligados à instituição, pense como será para uma comunidade que é tida por muitos como invasores e favelados. O problema é grande, meu jovem, e envolve esferas da alta administração, sempre ocupados com grandes questões acadêmicas, científicas e, até, políticas. Recentemente, recebeu a presidente Dilma, imagine? Para lembrar do humilde Arruadinho, com tantas preocupações grandiosas, a gestão demora muito, viu?

Se faltar água durante as férias dos encanadores, serão semanas de espera. Se uma árvore cai sobre a nossa fiação e só faltar energia na comunidade, só Jesus na causa!

Parece indiferença, desprezo, mas não é. Somos um corpo estranho dentro de um grande organismo, que só nos percebe quando dói. rsrsrs Ficamos invisíveis dentro do Campus e poucos são os funcionários, alunos e professores que nos conhecem.

Deixa eu dizer uma coisa interessante. Se um ladrão rouba nossas fruteiras, sabe o que dizem os seguranças (e não lhes tiro a razão):

Somos contratados para proteger o patrimônio da universidade e não dos moradores.

E fica por isso mesmo.

Como sairmos dessa sinuca? pergunto-lhe. E mais: como uma turma de Design poderia nos ajudar, nessas coisas que narrei?

Tentarei uma resposta preliminar:

Primeiro, nos enxergando, como fazem os faiscadores. Vendo o valor, a preciosidade que outros não conseguem ver. Esse é o ponto de partida. Não por acaso, os primeiros a nos ajudar na criação do Movimento de Resistência Popular do Arruado foram exatamente uma docente e seus alunos de Design. Claro que já estavam conosco os artistas da Várzea, uma moradora, com formação em Serviço Social e outra, que é estudante de Pedagogia da UFPE.

Creio que o Design Social, por gostar de desafios, tem vários deles aqui, no Engenho Velho.

A partir da descoberta do Arruado como uma pérola imperfeita, escondida na grande ostra acadêmica ( imagem que usei em outra crônica chamada de Um enclave quase gueto); a partir desse achado de faiscadores, os designers poderão trabalhar sobre essa imperfeição. E olhe que há muitas… muitas imperfeições nesse Arruadinho, confinado no Campus Recife da UFPE:

As necessidades básicas estão à vista de todos, as questões da posse da terra, o ostracismo e o preconceito por parte da comunidade acadêmica, seguranças e até professores… imagine? Há um docente de Arqueologia que nos chama de invasores. Nem tem lógica. Como um grupo de doze famílias invadiria um campus e construiria casas de tijolo batido, sem ser molestada pela segurança? Deixemos isso pra lá!

Mas a questão do pertencimento, da memória e da identidade são fundamentais. O Arruado está se perdendo de si mesmo, de suas raízes, de sua cultura e de sua história.

Talvez por isso, é que a Disciplina Design Social tenha escolhido recontar a história de nossa gente, usando o teatro de bonecos. E quanta possibilidade se abre num brincante como esse. Cenário, roteiro, construção dos bonecos, enquanto personagem e em sua estrutura material. Buscar as origens arcaicas desse teatro, suas estruturas arquetípicas e por que não, míticas. E enfim, inovar. Sim. Inovar em torno do processo de narrar do brincante, da construção da tenda ou barraca, das indumentárias; partir do que já é tradicional para usar elementos da modernidade.

No caso de recontar a história do Engenho e das famílias do Arruado, usar as técnicas de flash back… ou de superposições da temporalidade dos vários sujeitos e ambientes. E por aí vai.

Mas e a finalidade? a pergunta que ficou no ar…

Qual o propósito? né, Kleber?

Eu tenho uma resposta, das muitas possíveis:

Tirar do ostracismo essa comunidade, pode ser um objetivo. Usar toda a criatividade dos artistas e designers para construir uma narrativa local, que esteja linkada com o universal. Que nossos problemas humanos e específicos, sejam tratados como o problema de toda e qualquer parte do mundo. Exclusão, discriminação, violência simbólica, indiferença da máquina estatal com os problemas do povo, da nação.

Nisso podemos ajudar a comunidade. Levando esse espetáculo de títeres, de mamulengos, para outros espaços, outras comunidades, outras plateias, e, assim, dar voz aos sem voz, através dos personagens da trama burlesca. Sim. Nós podemos, Kleber! Façamos a nossa humilde p/arte!

Deixo um abraço fraterno. E bom semestre, no Arruadinho!

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E o Arruado? (exposição fotográfica da Disciplina Design Social)

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Confissão pública ou segredos de um cronist’amador

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É melhor contar logo isso aos senhores, meus doze leitores. Sofro de um mal, que, por não ser contagioso, nunca me preocupei em lhes contar. Bem, deve ser uma espécie de loucura. Mas, como nunca contei a um psiquiatra, não tenho certeza disso. Sabe, gente, eu leio e releio dois livros há muitos anos… Pssss! Não espalhem! Isso é segredo. Ficará só entre nós. Por favor, também não riam de mim. Pelo menos riam sobriamente, não gargalhem! Em vez dos kkkkk, apenas os rsrsrsr, costumeiros das redes sociais. Até porque, com 66 livros, os protestantes e 72, os católicos, refundaram a nossa civilização. E olhem que eles leem e releem todos os dias os mesmos livros da Bíblia. Ia esquecendo dos judeus, que só usam os cinco primeiros e preservam sua cultura há milênios. Portanto, pra mim, que não quero mudar o mundo nem nada, bastam-me os dois, que vivem à minha cabeceira, desgastados e cheios de anotações, geralmente, de dúvidas. Elas, as dúvidas, não se esgotam. Nem eu me canso de com elas conviver. Essa é outra variante dos meus sintomas.

São dois livros densos, nem tão calhamaços, mas muito densos. Um deles tem 375 páginas. O outro, mais fininho, 214 páginas. Mas os assuntos… aí é que a coisa complica. Uma pessoa amiga já me disse que quem lê muito, endoida. Coisa que não me meteu medo. Eu já era doido antes de começar a ler os meus dois livrinhos. (risos)

Bem, o livro mais fininho busca, nas origens primordiais, a resposta para o que é a cultura. Isso mesmo! Né doidice?

Já o mais volumoso, embebido da cultura presente, busca uma Razão Vital, que escape a todo dualismo e separação entre o eu e as coisas, eu diria, uma visão do Eu em coexistência com as suas circunstâncias, a começar pelo corpo humano, onde habita. Habita mesmo, o Eu, um corpo de carne? Está dentro ou está fora?

Deixemos isso pra lá! E vamos ao lado prático de minhas confissões. Parte delas, que alguém chamou de agenciamento maquínico da enunciação, eu já revelei na crônica Brincantes Mágicos no Arruado, e trata dos segredos de como escrevo ou enuncio essas minhas mal-digitadas linhas. Portanto, desses segredos não mais tratarei aqui.

Agora, digam-me aí: vocês já viram como as crianças pequenas olham a passagem de um avião?

Já. Então tá.

E o que tem o avião com essa crônica amalucada?

Tem tudo. E já lhes conto.

 

Quando estou a caminhar por este Arruadinho centenário e, sobre a minha cabeça, passa um avião, sempre (eu disse, sempre) surpreendo-me com aquele portentoso pássaro metálico, suspenso no ar. E esse espanto em nada difere do espanto que tenho com as outras coisas que vejo voar. Sejam libélulas (que a gente chama ziguezigue) ou colibris, (que chamamos de beija-flor), sempre surpreende-me o ato de voar. O avião, pelo voo majestoso, o beija-flor, pela rapidez de suas asas. Nos dois, o ato ou ação de voar é o que me espanta.

No avião, surpreende-me ainda, que, enorme como ele é, se deixe dominar mansamente, como na Índia, os elefantes se submetem a uma criança, nas ruas da Nova Delhi.

Não pensem que fugi do assunto. Os meus dois livros de cabeceira. É que, ambos estão eivados (que bela palavra) de admiração pela realidade tal como a encontramos. A emoção com a patência das coisas é um dos motes de um deles.

A propósito, li em Hilda Hilst, que um seu personagem se comovia com tudo o que de mais trivial lhe chegasse às retinas. Seja com ossos secos, com cinzas de cigarro no chão, com um recanto de paredes. Tudo, tudo o comovia.

Confesso, estou no mundo, assim, sensível a tudo, como esse personagem da Hilda. E se me virem rir, olhando o saltitar esverdeado de uma rãzinha, não me tomem por louco. Pelo menos por isso. Minha loucura eu já lhes contei. Ler e reler há mais de 3 décadas os mesmos dois livros.

Por que fico rindo só, ao olhar o saltitar da rã?

Rio de duas coisas: uma é a autonomia dos seres vivos. A rã não depende de mim para viver. A outra coisa é a liberdade. A rã tem toda a liberdade para saltitar na direção que bem quiser e lhe der na telha. Enche-me de surpresa e encanto essa autonomia dos seres vivos!

Quisera que só fossem essas as minhas estranhas surpresas cotidianas. Há mais coisas esquisitas que percebo em mim, morando nesse Arruadinho. Os tijolos antigos. Imaginem só, alguém se surpreender com tijolos antigos! Fico a olhar pra eles tentando ver naqueles blocos de argila, as mãos que os moldaram, os pés que amassaram o massapê, o forno da olaria…

Mas, há algo pior, nessa minha doidice e que escondi até agora. O que há de ancestral, de arquetípico, de mítico, nessa construção do engenho humano: o tijolo batido.

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Ruínas de tijolo batido da chaminé da Usina Meio da Várzea

 

Estou chegando ao cerne da minha confissão:

Creio que em tudo há o Mito. O Arcaico está amalgamado no tempo presente. Vejo nos olhos de todos, nos corpos, nos gestos, a herança dos povos aurorais. As casas, o casario centenário, e até mesmo as novas casas, construídas à revelia das interdições institucionais. Uma força ergue essas casas. E não é apenas a força dos pedreiros, dos carpinteiros… não. A força é a da necessidade de habitar, de se proteger. A casa é a caverna, é a maloca, a oca, oikos, o lugar para abrigar a prole.

Porém, antes dessa força havia a possibilidade de residir, de morar, de coabitar. Essa é a abertura mítica que há em tudo. Na fala, o comunicar; no pote, o beber; todo o possível, todo o factível é precedido de uma anterioridade. (Isso já é Crippa, falando em meu ouvido). Essa anterioridade, esse prius, é o mito. O mito inaugura a realidade… bem, deixa isso pra lá! Não queiram saber mais do que isso. Já há prova cabal de minha loucura! Mas, eu ia dizendo:

As casas dos trabalhadores do velho Engenho da Várzea!

O que as ergueu e o que as sustenta. Essa terrunha necessidade de se instalar no mundo, num território, que é própria do animal humano. Telúrica, é a palavra que eu queria dizer dessa força.

Surpreendo-me com as casinhas dos trabalhadores da Usina Meio da Várzea, ainda de pé, enfrentando todas as pressões da nossa querida UFPE. É comovente a apropriação histórica desse território, pelos descendentes, netos, bisnetos e tetranetos dos primeiros moradores desse vilarejo agrícola. As casinhas ainda estão de pé! Elas ainda estão lá!

Enquanto isso, desabou, em 1946, por desabitada, por não ter moradores, por já não possuir descendência, desabou a casa grande do Engenho. Desabou o casarão do João Fernandes Vieira, o latifundiário, o escravocrata… louvado como fundador das nossas forças de guerra.

***

Para entender esses fatos todos, aviões, colibris, rãs, tijolos e casas, apelo sempre aos meus dois gurus. Nesse exato momento estou emergindo da re-leitura em um deles: Mito e Cultura, do Dr. Adolpho Crippa, filósofo culturalista, natural de São Paulo.

Mas não foi só isso que me fez correr pra ele. Uma frase-estopim do Prof. Dr. Evson Santos, aqui da UFPE, me faz correr pro Dr. Crippa, como os protestantes correm aos textos sagrados. Nessa frase coruscante, o Dr. Evson une duas palavrinhas que já fizeram que se escrevessem tratados volumosos. Por elas, estudiosos e estudiosas deixaram de viver a vida, para vegetar nessa outra, que chamam de vida acadêmica e, assim, foram criados movimentos e ramos do conhecimento: psiquismo e cultura.

“Não existe psiquismo sem cultura“, disse, em sua tese, o Dr. Evson.

A cultura e o psiquismo não convivem uma sem o outro. Mas a frase de Evson, em que as duas palavrinhas foram atritadas, fez saltarem faíscas e incendiaram o meu pobre cérebro de autodidata.

Há dias que estou mergulhado no meu Mito e Cultura. Nenhuma resposta ainda achei. Mas trago muitas interrogações. Sou aquela criança olhando pro alto.

Aquilo lá é um avião, diz Dona Luiza à sua bisneta, Maria Gabriela, a mais nova moradora do Arruadinho, com pouco mais de um ano de idade.

Com 60 anos a mais do que Maria Gabriela, eu ainda me impressiono com ele, com esse pássaro mítico, essa espécie de pterodáctilo, que sobrevoa os quintais arborizados do Engenho Velho da Várzea.

Mas, nenhuma resposta ainda. E continuo a releitura do Crippa…

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Maria Gabriela com a bisavó Luiza

E a principal questão é aquela das aulas de Design, pelo caminho do Arruadinho peripatético:

Como? Qual o processo pelo qual?… questiona a professora Ana Emília Castro, em seu design centrado no humano, à sombra das árvores centenárias do Engenho Velho.

Ou seja, como e qual o processo pelo qual a Cultura envolve o Psiquismo? Aliás, quem envolve quem? E ainda, de que cultura e de que psiquismo trata o Dr. Evson?

Não conseguindo responder, o meu inconsciente, aquele do Dr. Freud, ou, talvez, aquele, do Dr. Jung, me trouxe uma imagem arquetípica:

M’boi Guaçu, a Cobra Grande, engoliu o ouriço e vive se contorcendo desde priscas eras. 

Tudo leva a crer que, (a depender da interpretação de cada leitor), a cultura engoliu o psiquismo, mas, o bicho espinhento vive a fazer um estrago danado no seu bucho. E eu garanto que não fumo nada, muito menos canabis… (risos)

                                                                         ***

Essa M’boi Guaçu é um esboço de uma possível narrativa mítica que hei de escrever, no dia em que as respostas  às minhas dúvidas aflorarem à minha mente.

A propósito, me veio agora a lembrança uma frase do saudoso amigo Maurício Peixoto, que pode estar ligada a essa imagem arquetípica.

O Arruado é o barroco dentro da universidade.

Tomando o barroco em seu sentido de “pérola imperfeita”, (como já escrevi aqui) estaria o Arruadinho esfolando o estômago da querida UFPE. O fato de ela esconder o lugar que lhe deu origem, não é a resposta freudiana ou jungueana, como queiram, para essa imagem da cobra grande e do ouriço, que me veio do inconsciente. Estaríamos eu e o Maurício falando da mesma coisa.

É verdade. Não há cultura sem psiquismo (e até sem psicóticos).

Vá entender!

Se tentar, endoida! (risos)

Sei que alguns leitores irão dizer que estou louco. Mas, que importa. De poeta , de criança e de louco, todo mundo tem um pouco.

Mas, e o outro livro de cabeceira? Ah… esse eu cito em quase todas as minhas crônicas e vou deixar para os leitores descobrirem, lendo-as… a única pista: seu autor se chama José.

Inté mais!

Abraço fraterno em todos e todas!

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Um “Arruado de Aplicação”

UM CRONIST'AMADOR

Como integrar o Arruado à UFPE?
Essa questão foi uma das levantadas, no dia 10/08/15, na visita da ProExC ao Engenho Velho.
Eu diria que essa integração já existe desde a fundação da UFPE e é, absolutamente, visceral. Esse é o pressuposto, a premissa.
A pergunta, então, deve ser reformulada, com a devida vênia do nobre mestre que a formulou:
Como demonstrar que essa integração, tão visceral, foi relegada ao ostracismo?

E aí o verbo “demonstrar” ecoa pela história da aplicação das didáticas do curso de Filosofia, nos antigos Ginásios de Demonstração, hoje chamados de Colégios de Aplicação. Tá tudo aí. Basta demonstrar!
Ora, os futuros docentes das licenciaturas, os formandos, possuem salas de aula federais, para aplicar os seus conhecimentos. Pois bem, apresentemos o Arruado ao corpo discente, aos licenciandos e ele, o Arruado, será uma sala de aula em campo aberto.
Essa é uma forma de demonstrar essa…

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As havaianas, Capiba e a resistência cultural, no Arruadinho

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Exposição de Carnaval, no hall da ProExt/UFRPE (Curador: Rodrigues)

 

Não lembro bem onde li a história de um lugarejo em que comer era pecado. Se foi em Reich ou em Borges, ou ainda se foi alguém, num artigo sobre Malinowski, não lembro mesmo. Melhor assim, para não ter citação nessa crônica. Estou cansado delas…
Pois bem, nesse lugarejo remoto, comer era considerado um grande pecado, mas, como todos tinham que comer, comiam às escondidas e de portas fechadas. As crianças, curiosas, ficavam espiando pelas frestas da janelas, rindo e dizendo: olha lá, como eles mastigam!

Essa historinha me vem à mente sempre que vejo o olhar de repreensão dos religiosos de diversas tendências e matizes, contrariados com um beijo em público, com uma simples gargalhada na rua, com duas moças ou dois rapazes de mãos dadas, enfim… O pecado é arbitrado pelas religiões, sendo mais ou menos grave, a depender do grau de rigidez ou de repressão das emoções que essa ou aquela seita defenda. Sou de uma época em que os protestantes (não todos) diziam que era pecado usar as havaianas, que, naquele tempo, eram chamadas de sandálias japonesas. Tempo em que os crianças evangélicas não podiam jogar bolas de gude. Futebol, nem pensar! E vai por aí. Isso aconteceu na década de 1970. Eu vivi isso! Eu era líder de um grupo de crianças de uma igreja evangélica. Claro que caí fora! Eu tenho relativa saúde mental!

Capiba, compositor dos mais belos frevos pernambucanos

 

Estou ouvindo as músicas do nosso Capiba e pensando nessas coisas. Letras belíssimas, de uma simplicidade e ternura de que só são capazes os compositores geniais como Vinicius de Morais, Dorival Caymmi, Cartola, Noel, Antonio Maria e o nosso Capiba. O que há de pecado nessas marchinhas de carnaval?

“Ah se eu tivesse
quem me fizesse
carinho…
Não levava a vida que eu levo,
sozinho…”

“Tu não te lembras da casinha pequenina
onde o nosso amor nasceu
Tinha um coqueiro do lado
que, coitado, de saudade já morreu!”

“A vida é triste, seu moço…
cheia de dissabores.
Há tanta gente que chora,
quando o amor vai ter fim, ai, ai, ai…”

Não há pecado nessas canções. E, se houver, é o pecado de amar, de viver, de sentir saudade do ser amado. Então, todos pecam, se amar é uma transgressão.

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O Freváguinha, banho de mangueira de carnaval, no Arruadinho, trouxe de volta essa musicalidade, quase infantil, dos frevos de Capiba. E a questão que ficou foi justamente essa.

Foi o Freváguinha um pecado?
Claro que não.

Mas é preciso que marquemos posição contra essa ideia de pecado em tudo. Essa atitude, que é a base da discriminação e do preconceito, essa ideia de que cantar, dançar, festejar é pecado, deve ser encarada todos os dias, com bom humor, mas com valentia. Pois o momento é grave. Aquilo que Wilhelm Reich chamou de a praga emocional, ou, de peste fascista, tem se disseminado por todas as partes, movida, dentre outras coisas,  por um sentimento de religiosidade conservadora, e, eu até diria, hipócrita ou farisaica.

Bom refletirmos sobre isso, nesse momento em que o conservadorismo vai impondo as suas ideias no mundo. Sutilmente, eles ocupam os espaços políticos de poder. Começam a legislar, a governar e a gerir espaços públicos, como se a eles pertencessem. Possuem uma teologia avassaladora, que arrasta os seus prosélitos, ora pela dor, ora pelo pela prosperidade material. Estão sempre nos presídios, nos hospitais, nas comunidades mais pobres, a dizer que Deus pode lhes dar um carro, uma casa, um emprego, convencendo as pessoas humildes com essa singular oferta divina. Ou seria uma troca?
Um escambo? Um negócio?

Você paga o dízimo e Deus lhe favorecerá com o sucesso, a cura, o bem material!

Bem… são esses que não aceitam as músicas do Capiba. São esses que demonizam a brincadeira, mesmo que infantil, no carnaval. Talvez não tenham entendido a passagem bíblica em que o Diabo oferece riquezas ao Cristo, que o repele, veementemente.

Nos nosso dias, tudo mudou. Segundo as novas seitas é o próprio Deus que oferece a riqueza, a vitória, o sucesso nos negócios… Não é interessante?

Ter um carro, ter uma casa própria, um negócio bem sucedido é o prêmio de Deus para a sua fé. Adoram a Deus e a Mamom, sem nenhuma dor de consciência. Mas, se alguém canta uma música ingênua e simples, como as do Capiba, irá para o inferno.

Tudo isso seria hilário se não fosse o princípio de um futuro confronto. Hoje questionam a nossa brincadeira de carnaval. Amanhã seremos proibidos de sair de casa fantasiados. Se não tomarmos cuidado, teremos de volta a Inquisição sobre as nossas vidas privadas.

Dia virá em que teremos de defender, pelo uso da força, a nossa liberdade de brincar, de jogar confetes, de dançar e pular o frevo. Parece distante esse dia, mas, insidiosamente, esses hipócritas vão tomando terreno nas empresas públicas, nas câmaras de vereadores, de deputados, no senado e nas coalizões governistas.

Cantar frevinhos inocentes e pueris, como os do Capiba, pode parecer algo muito pequeno, no cenário da grande luta a ser travada, porém, marcar posição, pelas mais mínimas liberdades é sumamente importante nesse momento.

Nós, que um dia usamos as sandálias japonesas, que simbolizavam uma cultura não-cristã, demonizada por seitas menos esclarecidas, vencemos aquela pequena oposição dos anos 1970. Hoje, as havaianas já não são diabólicas, como se dizia nos púlpitos. Contudo, o enfrentamento deve continuar, a cada dia. Sejam sandálias, turbantes, burcas, costumes ancestrais e festejos, todos devem ter respeitados os seus direitos de exercê-los, de usá-los e de celebrá-los, numa nação que tem uma Carta Magna, desde 1988, que nos garante esses direitos fundamentais de um país laico, graças a Deus.

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